ANÁLISES DE CONJUNTURAParadiplomacia

O papel das dinâmicas sociais nas Smartcities

Muito além dos prédios, serviços, empresas e governo, a população é o coração e a mente do espaço urbano, afinal, “são as pessoas que fazem uma cidade”.

Não é possível gerir de forma eficiente ou promover o desenvolvimento de projetos inteligentes sem levar em consideração as dinâmicas populacionais e a formação social de uma cidade. Caso contrário, um projeto sempre será incompleto ou irá gerar maiores assimetrias e desigualdades do que resultados ao longo do tempo.

Trânsito Florianópolis. A mobilidade tem como origem problemas estruturais e dinâmicas sociais

Contemplar o município como um grande empreendimento ou uma grande organização, embora possa ser positivo para determinados setores, colide com a própria natureza desses espaços, já que nem todos os cidadãos estão incluídos socialmente, nem todos estão no mercado de trabalho formal, nem todos são legalizados (como no caso de alguns estrangeiros), nem todos tem possibilidades ou poder aquisitivo para acessar determinados serviços, existindo uma parcela dependente a longo prazo do Estado (órfãos, idosos sem recursos, pessoas incapacitadas) e, principalmente, o povo nem sempre responde como um grande rebanho às determinações  de alguns grupos, seja de forma consciente ou inconsciente.

Existem dinâmicas sociais oriundas da própria evolução do espaço urbano que, quando negligenciadas em um determinado projeto, afloram como uma forma de resistência ou de não aderência a um específico plano. O famoso “rolezinho”* que tomou conta das grandes cidades nos últimos anos é um exemplo desse processo.

O Bairro do Brás gera um volume superior ao de muitas cidades no Brasil, porém é um espaço degradado e com elevadas taxas de violência

Para consolidar uma Smartcity é fundamental conhecer as dinâmicas sociais de uma cidade e como as mesmas influenciam no próprio funcionamento do espaço urbano. No Brasil, por exemplo, existem bairros como o Brás e o Bom Retiro que concentram um grande número de trabalhadores estrangeiros e trabalhadores informais, essa dinâmica funciona há décadas, o que transformou ambos bairros em grandes polos têxteis. Um projeto para transformar esses bairros, hoje degradados, em novos espaços deve integrar essas pessoas, caso contrário aumentará a desigualdade e a marginalidade já existentes.

Nessa linha, podemos salientar que a comunidade estrangeira pode se transformar em um vetor importante da economia, quando são integradas às dinâmicas urbanas. Os estrangeiros podem gerar mão de obra, valor agregado e até mesmo competitividade. Mas a sua marginalização gera problemas de inclusão, informalidade e demais problemas. Uma cidade como São Paulo, pode fazer uso de suas comunidades de imigrantes para gerar sinergias com outras regiões do mundo e, através da paradiplomacia, transformar essa realidade em um fator competitivo – certo que isso já ocorre com as comunidades mais antigas – mas deve ser um processo contínuo.

Fluxo de trabalhadores na Grande São Paulo

Outro exemplo importante sobre o impacto da dinâmica social é a divisão populacional e os movimentos realizados dentro do espaço urbano, pois é um problema que vai além da simples mobilidade e que denuncia outros fatores, tais como a distribuição dos serviços, opções de lazer, trabalho, representações públicas, preço do metro quadrado, segurança etc. Muitas das cidades do Brasil sofrem com esse problema, a cidade de Florianópolis por exemplo, com menos de um milhão de habitantes, possui problemas de trânsito equivalentes aos da grandes cidades; o entorno de Brasília também enfrenta problemas de mobilidade e de concentração dos serviços e emprego na região central.

Uma cidade inteligente, precisa funcionar como um ente inteligente, formado por diversos processos e dinâmicas internas inerentes a esse espaço urbano. Caso os problemas sejam isolados e tratados mediante intervenções localizadas e pontuais, não haverá uma real repercussão na realidade da cidade, somente a solução temporária de uma deficiência. É necessário pensar a cidade como um espaço integrado, onde o fechamento de uma determinada avenida afetará o trânsito em uma região ao outro lado da cidade, onde o fechamento de espaços públicos na periferia aumentará o fluxo para a região central etc.

É de vital importância compreender que os projetos de Smartcity, mesmo liderados pelo poder público, não atendem a uma visão ideológica ou partidária, mas à própria natureza da cidade, aos seus desafios e as suas potencialidades, as suas mazelas e as suas conquistas. Cada projeto é algo único, já que cada cidade é um universo, sendo necessário ter a maturidade de aceitar que se trata de um projeto em benefício de todos, capaz de integrar e melhorar a qualidade de vida de todos, não somente por um período, mas a longo prazo.

———————————————————————————————–                    

Nota:

* O termo “rolezinho” é uma gíria brasileira para designar um pequeno passeio com amigos para algum lugar, especialmente para Shoppings Centers.  

———————————————————————————————–                    

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Fases de uma cidade em uma cidade emergente e sustentável” (Fonte):

http://servicesaws.iadb.org/wmsfiles/images/0x0/-40249.png

Imagem 2 Trânsito Florianópolis. A mobilidade tem como origem problemas estruturais e dinâmicas sociais” (Fonte):

http://www.mobfloripa.com.br/imagens/noticia002688.jpg

Imagem 3 O Bairro do Brás gera um volume superior ao de muitas cidades no Brasil, porém é um espaço degradado e com elevadas taxas de violência” (Fonte):

https://media-cdn.tripadvisor.com/media/photo-s/0f/13/d6/a6/atacado-e-varejo.jpg

Imagem 4 Fluxo de trabalhadores na Grande São Paulo” (Fonte):

http://s2.glbimg.com/GHcbkefmKUhohwRnwWf_PPMMfDQ=/620×465/s.glbimg.com/jo/g1/f/original/2015/03/24/mapaibge.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURAParadiplomacia

Integração de serviços e criação de espaços inteligentes nas Smartcities

Um dos maiores desafios que enfrentam as cidades do Brasil e do mundo é a dificuldade de integrar as diferentes informações que compõe o cenário urbano e que ajudam no planejamento, gerenciamento e na tomada de decisões para a prestação de serviços. 

É bastante comum que pequenas ações e intervenções sejam atrasadas ou não realizadas devido ao desencontro de informações, ao número de instituições envolvidas e à dificuldade de definir prioridades e responsabilidades. Assim, um simples problema com um poste elétrico pode demorar mais do que o necessário por não haver um protocolo eficiente capaz de comunicar qual é a empresa ou órgão público responsável por resolver essa avaria.

Em 2017 o SUS desperdiçou mais de R$ 16 milhões em medicamentos de alto custo

A gestão eficiente das informações que circulam a cidade proporciona maior controle sobre as diferentes dinâmicas do espaço urbano, gerando uma integração entre os setores público, privado e a sociedade como um todo capaz de produzir um espaço inteligente que serve de guia para o próprio desenvolvimento econômico e social. Por isso, de nada serve possuir sistemas isolados de informação, incapazes de interagir com a informação de outros atores, ou possuir informação, mas que a mesma não seja amplamente divulgada. 

Nas cidades brasileiras temos centenas de exemplos de sistemas isolados de informações cujo único resultado na maioria das vezes é o desperdício de recursos por um lado, ou a falta do mesmo pelo outro. De nada serve possuir um centro de distribuição de remédios comum sistema de controle de estoque se o mesmo não está integrado com outros centros, hospitais e postos de saúde da rede pública.

Por outro lado, também não tem serventia alguma possuir todo esse sistema quando as informações que ele gera não são utilizadas nas tomadas de decisão da Secretaria de Saúde durante a compra e distribuição de insumos, ou durante a elaboração do orçamento do próprio município.

Outra situação muito comum nas cidades brasileiras é a divisão das responsabilidades e obrigações, principalmente devido aos diferentes atores e níveis de poder público e também ao incremento da participação do setor privado em projetos de Parceria Público-Privado (PPP), dificultando, assim, a transmissão de informações. 

A Integração pode utilizar informações da IoT

Por esse motivo, muitos projetos nos quais intervém esses diferentes atores, tais como obras de infraestrutura ou intervenções em zeladoria, sofrem diversas alterações que impactam na própria prestação do serviço, no tempo de entrega e na qualidade do mesmo. Muitas dessas alterações seriam desnecessárias caso houvesse uma melhor gestão na etapa de criação do projeto.

É necessário promover uma maior integração dessas informações, gerando cadeias lógicas de comandos e protocolos de funcionamento interligados. Assim, quando houver uma intervenção em uma rua por exemplo, é necessário saber qual é o prazo de cada empresa, a função de cada uma, a origem dos recursos, do material, da mão de obra, quando deve ser feita a interdição do trânsito ou desligar a rede elétrica e, após finalizar a intervenção, quando devem ser restaurados os serviços. Cada processo é importante e todos geram uma dinâmica que deve ser assimilada pela cidade junto a outros processos.

Todos os setores urbanos podem e devem ser integrados de modo a formar um grande mecanismo logístico onde a informação é o principal elemento, agindo como a “inteligência” deste grande ente urbano que forma a cidade.

O tratamento das informações é o principal fator para gerar um espaço inteligente em uma Smartcity, já que não adianta realizar grandes investimentos, implementar novas tecnologias, contratar diversos funcionários ou diversificar a economia utilizando de modo isolado ou setorial as informações que circulam em cada uma dessas dinâmicas. Por exemplo, se uma cidade implementou um sistema de iluminação a led, ela deve recompilar não somente as informações referentes ao consumo de energia, como também saber o impacto no valor do m² da região, na redução dos crimes e violência noturna, no bem-estar das pessoas etc., e também deve ter que essas informações sejam divididas com outros setores implicados, formando uma base de conhecimentos desde um projeto simples. 

Setores SmartCity

Somente o conjunto de informações interligados fornece uma visão integrada de como funciona a cidade por inteiro, e fornece também a imagem de como fazer com que projetos de Smartcity não sejam apenas intervenções locais e setoriais, mas processos que modificam a dinâmica de uma cidade, promovendo o desenvolvimento da mesma de forma mais homogênea e equilibrada.

Fazer com que a dinâmica de cada setor de uma cidade se transforme em um processo dentro de um espaço inteligente promove a inovação de todos os setores implicados, tanto públicos como privados e dos segmentos sociais. Ou seja, não se trata somente de inovar em um setor, mas fazer com que graças a integração gerada, a inovação em um determinado setor seja perceptível em todo o sistema.

Por esse motivo, muitas das Smartcities estão implementando novas tecnologias com o intuito de gerar sistemas integrados de informação. Entre elas podemos destacar:

– Telecomunicações (WIFI, 3G, Digital TV)

– E-Government

– E-Health

– Economia criativa

– Smartgrids

– BIGData

– IoT (Internet das coisas)

– IA inteligência Artificial

A implementação dessas tecnologias varia conforme a cidade e o próprio projeto de Smartcity, não havendo um padrão a seguir, nem a necessidade de utilização de todas, porém são ferramentas importantes na integração das dinâmicas urbanas e na consolidação de uma cidade inteligente e de uma rede de informações integradas.

Uma boa gestão das informações de um espaço urbano é o que possibilita os projetos de Smartcity, dessa forma, tanto grandes cidades quanto pequenos municípios podem gerar espaços inteligentes, somente o volume das informações e suas dinâmicas serão diferentes.

———————————————————————————————–                    

Fontes das Imagens:

Imagem 1O Mundo em Conexão” (Fonte):

https://marketingland.com/wp-content/ml-loads/2017/10/social-media-1920-ss-800×450.jpg

Imagem 2Em 2017 o SUS desperdiçou mais de R$ 16 milhões em medicamentos de alto custo” (Fonte):

https://leismunicipais.com.br/noticias/wp-content/uploads/2014/11/201411171-1.jpg

Imagem 3A Integração pode utilizar informações da IoT” (Fonte):

http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2017/09/cidades-monitoradas.jpg

Imagem 4Setores SmartCity” (Fonte):

https://smartcitiesworld.net/AcuCustom/Sitename/DAM/007/news-gov-apr17-Frost_Sull_smart.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURAParadiplomacia

O Papel da Tecnologia nas Smartcities

Os projetos de Smarcities (Cidades Inteligentes) têm como seu principal objetivo estimular a criação de um ambiente inteligente no qual as dinâmicas e processos intrínsecos do espaço urbano são raciocinados e direcionados para promover o desenvolvimento sustentável da cidade e de sua população. 

Segmentos Smartcity

A tecnologia é sem dúvidas um dos principais vetores no desenvolvimento deste tipo de projeto, atuando como integradora das diversas dimensões que abrangem este processo, possibilitando a inovação e também a geração, integração ou modificação de novas dinâmicas dentro das cidades.

Mas existem desafios importantes no uso da tecnologia em projetos de Smartcity. O principal é a falta de integração dos próprios atores implicados. De nada serve instalar um processo informático de controle dos estoques de materiais para obras públicas se não existir uma rede interligada capaz de harmonizar essas informações e transformar a mesma em um processo lógico ou comando; da mesma forma, não é eficiente um sistema de controle de ocorrências na rede elétrica que não esteja interligado às diferentes prestadoras de serviço. Dispor de uma tecnologia não necessariamente significa gerar um processo inteligente. Essa realidade é perceptível em diversas cidades do Brasil.

A tecnologia oferece a possibilidade de reduzir as assimetrias típicas das cidades brasileiras. A criação de um ambiente digital oferece uma homogeneidade que permite visualizar a cidade como um grande ente formado por diferentes dinâmicas, sejam estas sociais, políticas, econômica ou produtivas.

Ao contemplar a cidade como um espaço inteligente, as intervenções passam a ser interligadas e não apenas projetos isolados, gerando um efeito em cadeia. Mas, para isso, é necessário uma correta implementação e o uso das ferramentas tecnológicas disponíveis.

Outro aspecto relevante da tecnologia é o seu potencial inovador e sua capacidade de estimular e gerar novos projetos. Para as cidades inteligentes, ela é a principal ferramenta para a evolução do processo, havendo diferentes tipos que podem ser implementados conforme as próprias características dos polos urbanos. Entre as principais podemos destacar:

– Tecnologia da informação, usada para integrar os diferentes atores que compõem o espaço urbano e redesenhar processos existentes, buscando um maior resultado e maior eficiência. Mediante a tecnologia da informação é possível digitalizar o espaço urbano e fazer uso de novas ferramentas, tais como a Internet das coisas, o e-government, o e-health etc.

– Tecnologia da produção, usada para aumentar a competitividade do sistema produtivo de uma cidade ou região, permitindo o desenvolvimento de uma economia cíclica, estimulando o setor criativo e inserindo novas técnicas produtivas tais como a robótica.

– Tecnologia verde, usada com o objetivo de melhorar a relação das pessoas com o meio ambiente e a sustentabilidade, promovendo o uso mais eficiente dos recursos além da correta preservação ambiental necessária para garantir o futuro das próximas gerações.

– Inovação, não se trata de uma tecnologia determinada, mas sim, da capacidade de transformação e melhoria contínua dos processos que existem ou que venham a existir em uma região urbana.

Cada tecnologia possuí serviços e ferramentas disponíveis de forma desigual, não sendo todas aplicáveis a todas as cidades, embora exista uma série de setores nos quais se fundamentam as Smartcities, que são:

– Open Data

– Mobilidade

– Plataforma participativa e E-government

– Smart grids

– Coleta Seletiva

– Serviços inteligentes

– Conectividade

– Educação

– AgroSmart

Cada projeto de Smartcity é único, pois cada cidade  possui características próprias e mesmo que existam polos urbanos semelhantes, e que compartem desafios parecidos, não há um guia padrão que explique como deve ser realizado o uso da tecnologia e sua aplicação, além do mais, é necessário levar em consideração que todas as cidades são passíveis de se transformar em polos inteligentes dentro de suas próprias características, mas nem todas possuem capacidade financeira ou estrutural para seguir um roteiro pré-estabelecido pelas grandes metrópoles.

Ao redor do mundo existem exemplos de diferentes cidades inteligentes que aplicaram a tecnologia conforme suas próprias características. A cidade de Madrid, por exemplo, utiliza uma rede integrada de transporte que permite uma melhor ocupação e distribuição da população na cidade; por outro lado, a pequena cidade francesa de Dijon criou um espaço urbano integrado gerenciado pela Prefeitura onde o cidadão tem acesso a todos os serviços públicos desde uma plataforma digital.

Centro de Operações do Rio de Janeiro

No Brasil já existe um número considerável de projetos de Smartcity, as capitais estaduais e capitais regionais lideram esses projetos, embora cada uma esteja em uma etapa diferente. No Rio de janeiro, o Centro de Operações atua como uma plataforma integrada dos serviços de emergência pública; já em Florianópolis o setor criativo é estimulado graças ao estabelecimento de parques tecnológicos e centros de pesquisa.

Existem redes formadas por essas cidades com o objetivo de fomentar o intercâmbio de conhecimento e experiências, sendo crescente o interesse tanto na área pública quanto na privada. Neste aspecto, a tecnologia se transforma em um ponto fundamental ao reduzir as distâncias e ao permitir uma maior interação entre os diferentes atores.

É certo que o país ainda apresenta deficiências na infraestrutura que podem afetar a evolução de alguns projetos de Smartcity, mas, por outro lado, essas cidades podem atuar como polos indutores e transformadores da região, além de atrair um novo fluxo de investimentos e uma distribuição mais equitativa no país.

A integração tecnológica pode ser realizada em diferentes níveis e, aos poucos, gerar os processos necessários para a implementação de um projeto de Cidade Inteligente. No entanto, a mesma deve estar aliada a uma série de intervenções que permitam essa integração, tais como infraestrutura mínima, educação, participação pública e privada. Mas, sem dúvida, uma vez instalada esta passa a atuar como uma pedra fundamental no futuro da cidade.

———————————————————————————————–                    

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Componentes de um projeto de Smartcity” (Fonte):

http://cdn.ttgtmedia.com/rms/onlineImages/iota-smart_city_components_desktop.jpg

Imagem 2 Segmentos Smartcity” (Fonte):

https://us.123rf.com/450wm/monicaodo/monicaodo1602/monicaodo160200011/52445942-conceito-de-cidade-inteligente-com-diferente-%EF%BF%BDcone-e-elementos.-design-de-cidade-moderna,-com-tecnolog.jpg?ver=6

Imagem 3 Centro de Operações do Rio de Janeiro” (Fonte):

http://www.simi.org.br/files/news/image/305/centro_de_operacoes_do_rio_de_janeiro.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURAParadiplomacia

Das SmartCities a cidades globais no declínio dos atores internacionais

Milão, Paris, Xangai, Nova York, Hong Kong, Londres, Barcelona, Frankfurt, São Paulo, Zurique são cidades que dispensam apresentações, mesmo que algumas não sejam nem se quer a capital de seus respectivos países. Porém, são cidades cuja influência econômica, cultural, tecnológica e financeira transpassam os limites do território nacional e se projetam pelo globo como entidades com personalidades e dinâmicas próprias.

Algumas dessas cidades respondem por grande parte da economia de suas regiões ou até mesmo do país e podem chegar a concorrer com nações vizinhas em relação a sua influência internacional e ao PIB. Por esse motivo são conhecidas como cidades globais. São centros neurológicos que crescem de forma paralela ou até mesmo diferente do resto da nação.

Componentes de um projeto de Smartcity

O surgimento da cidade como ator internacional permitiu uma contínua expansão da influência da mesma no panorama global, levando ao constante desenvolvimento da Paradiplomacia.

Mas a expansão das grandes cidades, seja ela de forma interna desde o período pós-guerra, como externa, pelo efeito da globalização, gerou uma série de desafios que vão desde a ocupação do espaço urbano à mobilidade das pessoas até à distribuição das atividades e dinâmicas econômicas intrínsecas de cada local.

Neste contexto de grandes transformações surgem as chamadas “Cidades Inteligentes” ou, em inglês, SmartCities, centro urbanos cujas distintas dinâmicas são racionalizadas, repensadas e redesenhadas com o objetivo de promover o desenvolvimento sustentável das mesmas, a integração dos diferentes atores e setores que formam a vida social, econômica e cultural, assim como a correta ocupação do espaço urbano e proteção ao meio ambiente.

Embora seja importante ressaltar que não somente as cidades globais são a únicas passíveis de aplicar projetos inteligentes – havendo já pequenos e médios municípios com projetos em operação –, sem dúvidas elas foram as pioneiras do processo e atuam como indutoras dessas mudanças.

Atualmente, existem diferentes rankings que tratam de classificar as cidades inteligentes ao redor do planeta, assim como diversos projetos governamentais que buscam estimular o setor, porém ainda são muitas as dúvidas que suscitam o tema, pois nem todo projeto urbanístico pode ser considerado um processo inteligente e dinâmico, já que este deve ser benéfico não somente para um setor ou dimensão da cidade, mas para sua dinâmica como um todo. De modo que, para entender melhor, é preciso definir em poucas linhas o que é uma cidade inteligente.

Uma Smartcity é um espaço urbano (independentemente do tamanho) onde se aplica um processo de racionalização das dinâmicas inerentes dessa área, promovendo a geração de um espaço inteligente, onde os diferentes elementos que formam a cidade (cidadãos, governo, empresas, serviços, meio ambiente etc.) são integrados mediante a racionalização do próprio espaço, fazendo uso de novas tecnológicas e inovando processos já existentes ou criando novos.

SmartCity Expo World Congress, evento realizado em Barcelona, a cidade é considerada a maior Smartcity da Europa

A cidade passa atuar como um organismo onde cada elemento possui uma importância fundamental para o bom funcionamento geral e onde cada dinâmica – seja esta social, econômica ou produtiva – tem sua importância e gera conhecimento. Este “conhecimento” é a essência das SmartCities, é a inteligência que move todo o ciclo, transformando o projeto em algo duradouro. Independentemente da visão ideológica de uma determinada política, a cidade passa a ter seu próprio caráter e seu próprio projeto. 

Existe uma série de componentes presentes nos projetos de Smartcity, entre eles podemos destacar a utilização das telecomunicações e tecnologia da informação, geração e distribuição inteligente de energia, automatização e inovação de processos produtivos, modernização de serviços públicos, integração de setores econômicos, cuidado do meio ambiente e integração social e cidadã.

A cada ano que passa o tema Smartcity ganha importância no cenário acadêmico, econômico e político, muitos são os projetos que se desenvolvem ao longo do globo, porém também são muitos os equívocos. Existem cidades que ainda estão implementando projetos de infraestrutura básica que podem ser considerados apenas como um embrião de uma Smartcity; outras geram espaços isolados (condomínios) que, salvo raras exceções, são incapazes de impactar em toda a dinâmica da cidade. Ainda assim, cada projeto que surge, gera um conhecimento que pode ser transferido, emulado ou adaptado para uma cidade diferente, por isso, todo ano, em Barcelona, durante as últimas semanas de novembro, se organizada o Smartcity Expo World Congress, considerada a maior feira do setor e ponto de encontro para empresas, autoridades, organizações e sociedade civil para discutir o futuro das cidades e sua atuação no mundo.

Com a crescente instabilidade política internacional, decorrentes de mudanças importantes, tais como o isolacionismo proferido pelo atual Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aumento de tensões na Ásia, instabilidade no Oriente Médio e Norte da África, mudanças políticas e instabilidade no processo de integração da União Europeia, novas diretrizes de desenvolvimento da China etc., a ação dos Estados se concentra principalmente na manutenção de sua estrutura e na proteção de seus interesses, dificultando as negociações internacionais.

Mapa cidades globais mundo

E, mesmo quando existem tais negociações (como, por exemplo, o avanço das negociações entre Mercosul e União Europeia), a própria composição dos Blocos negociantes dificulta sua concretização e morosidade, tomando conta do processo. Já por outro lado, as negociações e projetos realizados através da cooperação internacional promovidos pela paradiplomacia e aplicados pelas cidades inteligentes são capazes de gerar respostas à realidade dos cidadãos, gerando movimentos internos que acabam por influenciar a própria formulação política de um país. Neste sentido, a mudança dessa forma de atuar vem de baixo para cima e alguns países já conseguem vislumbrar as potencialidades que se ocultam nessas negociações.

A Cidades Inteligentes, lideradas pelas cidades globais e cidades Alphas, estão ganhando maior protagonismo devido a esse declínio dos atores internacionais, sejam os Estados ou as Organizações internacionais – hoje sendo questionadas e algumas como a Unesco e o Tribunal Internacional já com baixas – e também graças às ações das próprias multinacionais que buscam manter suas atividades se movimentando de forma mais rápida que a capacidade de resposta dos próprios Governos.

As SmartCities geram dinâmicas inteligentes que oferecem um entorno mais sustentável tanto para seus cidadãos como para instituições e organizações, gerando uma espécie de porto seguro em um mundo onde é cada vez mais difícil desenvolver uma estratégia global sem ser afetado pelas constantes mudanças geopolíticas. Algumas cidades, tais como Cingapura, Amsterdam, Toronto, entre outras, lideram a atração de investimentos e mobilização de capital para inovação e desenvolvimento, justamente por oferecer um entorno equilibrado para as empresas.

Talvez as palavras “entorno equilibrado” sejam as mais adequadas para quantificar ou avaliar um processo de Smartcity na conjuntura atual. Uma Smartcity não necessariamente deve ser como as cidades Alfas da Europa ou polos de inovação da Ásia, mas, sim, deve oferecer, dentro de suas singularidades, um entorno equilibrado onde se concentram fatores que façam dessa localidade um polo sustentável, competitivo e criativo, em outras palavras, um polo inteligente, mesmo que este seja um grande centro financeiro ou um grande produtor agrícola.

É neste contexto onde o cenário internacional e a própria globalização são questionados que as cidades inteligentes representam uma nova dimensão, muito mais próxima das pessoas e de seus interesses, sem gerar os atritos das pressões geopolíticas. E, neste mês de novembro, o CEIRI NEWSPAPER fará uma série de reportagens sobre o assunto, abordando cada um dos setores: mobilidade, tecnologia da informação, inovação e indústria 4.0, integração de serviços etc.

———————————————————————————————–                    

Fontes das Imagens:

Imagem 1Previsão de participação na economia das maiores áreas urbanas. Em bilhões de dólares” (Fonte):

http://infographic.statista.com/normal/chartoftheday_3886_the_cities_contributing_most_to_global_gdp_n.jpg

Imagem 2Componentes de um projeto de Smartcity” (Fonte):

http://cdn.ttgtmedia.com/rms/onlineImages/iota-smart_city_components_desktop.jpg

Imagem 3SmartCity Expo World Congress, evento realizado em Barcelona, a cidade é considerada a maior Smartcity da Europa” (Fonte):

https://www.electronicsmedia.info/wp-content/uploads/2017/04/Smart-city-expo-world-congress.png

Imagem 4Mapa cidades globais mundo” (Fonte):

http://mundoeducacao.bol.uol.com.br/upload/conteudo/mapa-das-cidades-globais.jpg 

ANÁLISE - Sociedade InternacionalANÁLISES DE CONJUNTURACooperação InternacionalParadiplomacia

Smartcity III, o profissional do setor

Os projetos de Smartcities são uma tendência crescente no cenário internacional e nacional. Ainda assim, existem diversas dúvidas em relação a natureza desses projetos e aos órgãos implicados, bem como aos profissionais que atuam no setor.

Alguns centros de formação no Brasil já oferecem instrução na área, porém, apesar da excelente qualificação dos professores, poucos são os que realmente possuem experiência profissional ou empírica, refletindo novamente as próprias dúvidas que geram os projetos de Smartcity.

Inovação, tecnologia e política são os setores nos quais os centros acadêmicos concentram sua oferta formativa, o que acaba limitando todo o potencial da área e gera uma especialização excessiva e perniciosa, já que, mesmo sendo importante contar com profissionais qualificados para a gestão desses projetos, os mesmos não podem ser limitados a apenas algumas áreas.

É vital compreender que o projeto de uma cidade inteligente envolve a todos os profissionais que atuam nas dinâmicas internas e intrínsecas da cidade, pois é dessa interação entre os diferentes atores presentes no espaço urbano que surge a inteligência e conhecimento para promover mudanças reais e obter resultados. De forma que é preciso separar a figura do especialista ou gestor de projetos de Smartcity dos demais profissionais que participam ativamente dos projetos Smart e que são de outras áreas.

Um médico pode estar envolvido em um projeto de Smartcity da mesma forma que um advogado ou um funcionário público, pois todos formam parte da dinâmica da cidade e todos podem contribuir para a implementação de novos processos, desenvolver novas soluções, gerar sinergia com outras áreas, gerar inteligência. 

BID – Smartcities

Os setores nos quais se desenvolvem as ações dos projetos de Smartcity (E-government, E-Health, inovação, meio ambiente, energias renováveis, mobilidade etc.) contemplam essa multidisciplinaridade e dependem da mesma, de modo que todo profissional pode atuar em um projeto de Smartcity.

No caso daqueles que desejam atuar na gestão ou como especialista em projetos de Smartcity é fundamental reiterar a necessidade de uma visão global, multidisciplinar e integradora, além da capacidade de planejamento a longo prazo.

Mais do que formação, o profissional deve compreender as dinâmicas que existem na cidade, suas interações, reconhecer seu potencial, seus desafios, deve possuir ferramentas capazes de lhe colocar em contato com a inteligência gerada pelos atores e fatores próprios da cidade.

Cursos são importantes para lhe oferecer formação teórica sobre o assunto, além de lhe proporcionar ferramentas e metodologias científicas de análises quantitativas e qualitativas. Porém, a visão do implicado em relação a sua cidade e suas dinâmicas e processos é um fator chave nessa transformação derivada dos projetos de Smartcity, já que da mesma pende a diferenciação entre uma intervenção isolada e uma dinâmica inteligente que irá impactar em toda a cidade.

Projeto de ação Smartcity

O profissional interessado em projetos de Smartcity deve conhecer vários fatores, a citar: conhecer bem a economia da região analisada, suas dinâmicas (social, política, cultural), fatores externos e internos que impactam na mesma, dentre vários. Dessa forma, ele pode desenvolver a intervenção indicada, a qual pode ser um projeto de startup, uma parceria pública privada, um curso de formação, a criação de um cluster das empresas locais, a inovação de uma tramitação pública, a gestão de uma política pública ou de um projeto privado etc. Tudo depende do nível de participação e da área de atuação do mesmo. Caso seja um gestor, seu papel será justamente o de organizar, desenvolver e fomentar esses fluxos inovadores que existem ou que podem vir a existir.

Ao contrário do que muitos acreditam, os projetos de Smartcity não são projetos unicamente focados na política, inovação, tecnologia ou engenharia, mas projetos cuja multidisciplinaridade é fundamental. Não é um setor para especialistas exclusivos, mas sim para todos aqueles que saibam integrar, promover, estimular, criar um projeto funcional, transformando as dinâmicas de uma cidade em um processo inteligente.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1Foto de Smartcity” (Fonte):

https://www.pexels.com/search/smart%20city/

Imagem 2BID Smartcities” (Fonte):

http://servicesaws.iadb.org/wmsfiles/images/0x0/-39723.jpg

Imagem 3Projeto de ação Smartcity” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Smart_City_Roadmap_by_Dr._Sam_Musa.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURACooperação InternacionalParadiplomacia

Smartcity II, a geração de projetos e de espaços inteligentes

No primeiro artigo sobre a série Smartcities analisamos as diferenças entre a prestação de serviços básicos e os processos inteligentes nos centros urbanos. Ao longo deste artigo o objetivo é observar a formulação de projetos e a implementação dos mesmos para a geração de novos espaços e processos inteligentes.

É importante ressaltar que embora a gestão pública seja um dos principais vetores na promoção e implementação das Smartcities, ela não é exclusiva e a iniciativa privada possui um importante papel no processo.

Dinâmicas Smart.

As empresas podem e devem participar da criação dos espaços inteligentes através da inovação e do desenvolvimento. O que não necessariamente indica a necessidade de aplicar elevados recursos em pesquisa, mas avaliar seus processos internos e promover uma reformulação dos mesmos, além de participar das transformações da cidade.

Cada centro urbano possui suas próprias dinâmicas e desafios, e as empresas inseridas nesse contexto não podem permanecer inertes, aguardando apenas as ações governamentais, mas devem participar na formulação de novas soluções e na transformação do meio.

As relações laborais e os processos produtivos também devem ser reformulados dentro de uma dinâmica inteligente e não somente como resposta a uma mudança na legislação. As empresas devem gerar valor não somente para seus produtos, mas também para o meio no qual operam, já que a competitividade global alcançou tal ponto que a especialização de uma região se transformou em um fator de competitividade e a integração dos diferentes setores promove polos ou clusters de cooperação local, onde o desenvolvimento de um dos atores influencia no resto.

Para gerar processos inteligentes é necessário contemplar a realidade e atuar sob a mesma de forma ativa. Por esse motivo as bases dos projetos de Smartcity vão além das políticas públicas e se concentram nas dinâmicas dos próprios espaços urbanos.

Sendo assim, a implementação desses projetos está sujeita a:

– Conhecer as dinâmicas sociais e econômicas do espaço urbano;

– Detectar os desafios e problemas;

– Identificar o potencial dos diferentes atores;

– Estimular a reformulação e a inovação dos processos.

Mapa Smartcities.

Desse modo, um projeto de Smartcity não necessariamente significa um alto investimento público ou privado, mas sim uma reformulação da própria dinâmica das cidades e um conhecimento mais aprofundado dos seus processos, de modo que, ao alterar um deles, toda a dinâmica da cidade é afetada (Algo diferente do que acontece com intervenções isoladas, tais como os bairros e condomínios inteligentes, ou a instalação de serviços básicos em pontos determinados, por exemplo).

Tanto o setor público quanto o setor privado possuem um papel importante nesse processo, porém a base de toda essa transformação é o próprio conhecimento que cada um dos atores detém da cidade, ou seja, é a inteligência por detrás desses processos.

E desse modo, uma cidade pode ser inteligente sem necessariamente ser um polo de alta tecnologia, ou uma metrópole, mas sim um espaço urbano onde suas dinâmicas estão integradas e harmonizadas, direcionadas para o desenvolvimento. O setor público pode incentivar a interação dos diferentes atores do cenário urbano e promover estímulos, tais como o empreendedorismo ou parcerias; já o setor privado pode promover a colaboração, novas demandas e novos processos para a cidade. A verdadeira inteligência surge da interação dos atores urbanos e não da ação isolada de um deles.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Processos inteligentes” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/4/44/Creative_and_Smart_City.jpg

Imagem 2 Dinâmicas Smart” (Fonte):

http://2.bp.blogspot.com/-e1xqVy7XHT8/VZ03eyqvIzI/AAAAAAAADik/zQHpfowa3mo/s320/smart%2Bcity%2B8%2Bparameters.jpg

Imagem 3 Mapa Smartcities” (Fonte):

http://icity.hccg.gov.tw/userfiles/2300/images/icf.jpg