ANÁLISES DE CONJUNTURASaúde

A ascensão da vacina russa na luta contra a COVID-19

Desde que a organização Mundial de Saúde (OMS) decretou estado de pandemia global, em 11 de março (2020), não só tiveram início os protocolos internacionais de segurança, como, também, o início de vários trabalhos de pesquisa fármaco-laboratoriais na busca de um antiviral para a COVID-19 e, segundo dados mais recentes, a quantidade de vacinas em testes apresentam o seguinte quadro:

– 139 vacinas em estudos pré-clínicos (testes estão sendo realizados em animais);

– 28 vacinas entraram na fase de testes em humanos (Fase 1);

– 6 vacinas entraram na Fase 3 de experimento, ou seja, estão no estágio avançado da pesquisa, devendo posteriormente serem registradas e distribuídas massivamente, sendo que, por traz desses trabalhos de desenvolvimento encontram-se os principais nomes pertencentes ao mundo das Big Pharma.

Bandeira da OMS

Nesse pódio da fase 3, parcerias de peso foram instituídas para acelerar os processos de pesquisa numa corrida global para descobrir uma vacina eficaz, envolvendo nomes como:

– Universidade de Oxford e o conglomerado farmacêutico AstraZeneca (vacina AZD1222). Apesar de seus trabalhos serem momentaneamente suspensos, por conta de reações adversas em pacientes voluntários, essas instituições do Reino Unido ainda continuam trabalhando em conjunto com a FIOCRUZ (Fundação Oswado Cruz – RJ), tendo também participação da UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo) em testes realizados;

– Sinovac Biotech Ltd. (vacina CoronaVac), empresa biofarmacêutica chinesa, que atualmente está trabalhando em parceria com o Instituto Butantan do Governo do Estado de São Paulo;

– Sinopharm Group e Wuhan Institute of Biological Products, empresa farmacêutica estatal chinesa aliada ao centro nacional de microbiologia médica, imunologia, engenharia celular e engenharia genética de Wuhan;

– Beijing Institute of Biological Products, dedicado à pesquisa, desenvolvimento, produção e fornecimento de produtos biológicos. Tem participação do Fundo de Investimento Estratégico da Fundação Bill & Melinda Gates para fabricar uma vacina oral de poliomielite de baixo custo, sob a pré-qualificação da OMS, para uso em países em desenvolvimento;

– Moderna/NIAD (vacina mRNA-1273), empresa de biotecnologia norte-americana aliada ao Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAD, na sigla em inglês);

– BioNTech/Pfizer (vacina BNT162), empresa de biotecnologia alemã aliada a empresa farmacêutica norte-americana.

Apesar de terem seus nomes citados como possíveis favoritos nessa “disputa”, essas entidades, nas últimas semanas, começaram a compartilhar espaço com um protagonista que causou certa desconfiança pela comunidade científica internacional, devido a rapidez com que apresentou uma possível vacina contra a COVID-19.

Logotipo do Instituto Gamaleya

A vacina Sputnik V, elaborada pelo Instituto Gamaleya e financiada pelo Fundo de Investimento Direto da Rússia (RDIF, na sigla em inglês), foi registrada em 11 de agosto (2020) pelo Ministério da Saúde da Rússia e, posteriormente, apresentada à comunidade global pelo presidente russo Vladimir Putin. Desde então, o Governo russo busca parcerias com vários países para desenvolver estudos da Fase 3, a mais importante no processo de desenvolvimento, pois envolve ensaios em larga escala (com milhares de indivíduos), quando é preciso fornecer uma avaliação definitiva da sua eficácia e segurança em maiores populações. Além disso, ela é feita para prever eventos adversos e garantir a durabilidade da proteção.

A potencialidade da vacina tomou desenvoltura quando a revista The Lancet* publicou ponto positivo em um artigo específico para a Sputnik V, declarando que suas formulações eram “seguras e bem toleradas” e que na aplicação em indivíduos voluntários  “a maioria dos eventos adversos foram leves e nenhum evento adverso grave foi detectado”, além de todos os participantes produzirem anticorpos para a SARS-Cov-2.

Apesar de a revista também citar que é necessária a obtenção de mais dados científicos, a Federação Russa, através de suas instituições, já iniciou processo de compartilhamento de informações científicas, sob termos de confidencialidade, com núcleos de pesquisa interessados em desenvolver sua vacina.

Reunião entre o presidente russo, Vladimir Putin, e o CEO do RDIF, Kirill Dmitriev

Segundo informações, a Rússia já recebeu consultas de mais de 40 países interessados na possível efetividade imunológica que a Sputinik V vem apresentando. Acordos bilaterais vem sendo estruturados, tais como o realizado entre o RDIF russo e a companhia farmacêutica mexicana Landsteiner Scientific, onde haverá o direcionamento de 32 milhões de doses no intuito de atender 25% da população do país. A Dr. Reddy’s, uma das principais empresas farmacêuticas da Índia, já sinalizou que realizará testes clínicos de Fase 3 da vacina russa em seu território e que posteriormente deverá produzir, junto com outros fabricantes indianos, um total inicial de 300 milhões de doses, sendo que, após essa declaração, o valor de suas ações no mercado mundial subiu em torno de 4,2%.

No Brasil, o RDIF já fechou acordo com o Instituto de Tecnologia do Paraná (TECPAR), enviando todas as informações sobre o desenvolvimento da imunização pela vacina, além das pesquisas clínicas já realizadas pelo Instituto Gamaleya da Rússia. O estudo, com mais de 600 páginas, está sendo verificado pelo Comitê Técnico Interinstitucional de Cooperação para Pesquisa, Desenvolvimento, Testagem, Fabricação e Distribuição de Vacina contra Sars-CoV-2 (COVID-19), e o Governo do Paraná deverá submetê-lo à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) dentro dos próximos trinta dias, além de também submetê-lo à Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep). O Governo do estado brasileiro da Bahia também assinou acordo para conduzir testes clínicos da Fase 3 da vacina russa e planeja comprar 50 milhões de doses para distribuição em território nacional, sendo que o governador Rui Costa (PT) declarou que um acordo de confidencialidade foi assinado em 8 de setembro (2020) para formalizar os testes, e a Bahia irá receber 500 doses iniciais assim que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovar o protocolo para a testagem.

Países da Ásia, Oriente Médio e América do Sul vêm paulatinamente potencializando a disseminação do medicamento russo devido a seus interesses em ter uma resposta rápida contra a COVID-19, e já foram requisitados suprimentos na ordem de 1,2 bilhão de doses, que, através de acordos estruturados, poderiam indiretamente ajudar Moscou a ter uma valiosa influência econômica e política de âmbito global.

———————————————————————————————–

Nota:

* Fundada em 1823, por Thomas Wakley (cirurgião e membro do parlamento inglês), The Lancet é uma revista científica sobre medicina e publicada pela Elsevier no Reino Unido pelo Lancet Publishing Group. Publica os artigos originais de pesquisa primária e revisão do mais alto padrão, sendo rigorosamente editada e revisada por pares para garantir o mérito científico e a relevância clínica de seus diversos conteúdos.  A partir de uma rede internacional de conselheiros e colaboradores, a The Lancet atende às necessidades dos médicos, adicionando ao seu conhecimento clínico e alertando-os para questões atuais que afetam a prática da medicina em todo o mundo.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Linha de produção de vacina” (Fonte):

https://rdif.ru/Eng_Portfolio/r-pharm/

Imagem 2 Bandeira da OMS” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/8/89/Flag_of_WHO.svg/800px-Flag_of_WHO.svg.png

Imagem 3 Logotipo do Instituto Gamaleya” (Fonte):

https://gamaleya.org/en/

Imagem 4 Reunião entre o presidente russo, Vladimir Putin, e o CEO do RDIF, Kirill Dmitriev” (Fonte):

https://media.rdif.ru/photogallery/150828/1024/150828-1.jpg

About author

Mestrando no programa de Governança Global e Formulação de Políticas Internacionais (PUC-SP) na linha de pesquisa em Cooperação Internacional. Especialista em Política e Relações Internacionais (FESPSP) e habilitado em Iniciação Científica em Defesa, pela Escola Superior de Guerra (ESG-RJ). Cursou MBA em Economia de Empresas (FEA-USP) e graduou-se como Bacharel em Ciências Econômicas (CUFSA). Especialista em Docência no Ensino Superior (SENAC) atuou durante 7 anos como educador voluntário no Projeto Formare da Fundação Iochpe, ministrando aulas sobre Ética, Sociedade, Política e Democracia. Como articulista no Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais (CEIRI) escreve sobre política e economia da Eurásia.
Related posts
ÁFRICAANÁLISES DE CONJUNTURA

Plano de suporte para refugiados no Egito

AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURA

O Chile e a polêmica sobre saques em fundos de pensão

ANÁLISES DE CONJUNTURANOTAS ANALÍTICAS

COMUNICADO CEIRI NEWS DE 12 DE OUTUBRO

ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

O papel geopolítico russo no conflito entre Armênia e Azerbaijão

Receba nossa Newsletter

 

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Open chat
Olá!