NOTAS ANALÍTICASTecnologia

A batalha pelo 5G e a Guerra Fria da tecnologia

Uma constelação de novas tecnologias está sendo gerada para dar suporte à transformação digital que a humanidade está construindo. Atualmente, a competição entre as superpotências pela supremacia tecnológica no ciberespaço está se delineando para ser centrada entre poucos atores, principalmente entre EUA e China, países com poder econômico e dotados de políticas e estratégias nacionais suficientemente alinhadas e robustas para garantir uma infraestrutura crítica nacional, necessária aos investimentos e à capacidade global de fornecer equipamentos e soluções de convergências e de hiperconectividade.

O caminho para as nações inteligentes (Smart Union, termo em inglês) está sendo traçado e vem se consolidando a passos largos. Dentre as tecnologias impactantes para construção de cenários das nações inteligentes, tanto em aplicações civis quanto militares, as soluções de hardware e software estão voltadas em grande parte para algumas áreas centrais: a corrida espacial, a inteligência artificial – IA, a robótica, as redes de telecomunicações, a computação quântica, a segurança cibernética, a automação, bioengenharia, lasers, armas hipersônicas, a internet das coisas e as tecnologias urbanas sustentáveis.

A cibereconomia é a forma mais transparente para o sucesso decisivo da soberania nacional aplicada ao ciberdesenvolvimento e passa necessariamente pela tecnologia 5G sem fio. Os conflitos de interesses internos e externos dos Estados Unidos e da China  pelo domínio e pela consequente busca da liderança global da tecnologia 5G remetem a um campo de batalha e trazem à tona um cenário de Guerra Fria da tecnologia pela proteção e preservação de seus sistemas políticos e nos  projetos de design de suas sociedades e economias. Nesse sentido, é uma nova era de guerra cibernética intensificada.

Os riscos e oportunidades que envolvem  a tecnologia de quinta geração ou 5G é muito mais do que o futuro das telecomunicações globais e estabelecem questões-chaves para os decisores políticos considerarem, pois os gigantes das telecomunicações que operam na América e na China, entre outros países, também operam redes sob o comando do complexo de inteligência militar.

A China deverá atingir cobertura nacional de 5G no ano que vem (2020), com a Huawei, e os EUA, com a AT&T e Verizon, só começam a lançar 5G, cidade por cidade, no final deste ano (2019). A enorme escala de gastos de capital envolvidos na rápida introdução da tecnologia 5G no mercado para desenvolver e produzir o hardware e o software necessários para fornecer as primeiras capacidades de 5G – US$ 325 bilhões até 2025, aproximadamente, 1,26 trilhão de reais, conforme a cotação de 12 de abril de 2019 – é diferente de qualquer outro projeto de infraestrutura. 

Refletindo seu compromisso nacional com esta tecnologia, quase a metade do investimento mundial no seu desenvolvimento e emprego será feita pela China. O mercado 5G da China será maior que o dos EUA e da Europa combinados. Esse esforço é o projeto de infraestrutura global de US $ 1 trilhão da China (aproximadamente, 3,87 trilhões de reais, conforme a cotação de 12 de abril de 2019) para expandir sua presença econômica e apoiar seus interesses em escala global, pois os governantes veem isso como um passo fundamental para se tornar a principal potência econômica do mundo até 2049, o centésimo aniversário da fundação do Estado comunista.

A tecnologia para ecossistemas 5G é um grande negócio para as Forças Armadas em todo o mundo. E, ressalte-se, a guerra híbrida e os ataques cibernéticos são setores importantes no cenário para construção de redes 5G. Durante a comemoração dos 70 anos das Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN, a aliança militar ocidental), os aliados mostraram estar dedicando uma nova atenção a potenciais ameaças de segurança representadas pela China, um desafio para uma aliança cujos membros têm atitudes conflitantes em relação a Pequim.

Muitos países europeus, entre outros aliados dos Estados Unidos, têm abraçado os investimentos chineses. Os EUA vêm chamando atenção dos seus aliados para tais investimentos em infraestrutura na Europa e ao redor do mundo, pressionando para investirem em grande parte em setores críticos em telecomunicações e segurança cibernética em suas políticas e estratégias nacionais, em razão dos temores de que Pequim possa forçar suas companhias a espionar ou interromper sistemas de comunicações.

O presidente dos EUA, Donald Trump, que critica aliados por não gastarem o suficiente com Defesa, reuniu-se com o Secretário Geral da OTAN, Jens Stoltenberg, antes do encontro dos Ministros de Relações Exteriores dos 29 países membros da aliança, que estão em Washington para celebrar o 70º aniversário da Otan. Ele reiterou a Stoltenberg que gostaria de ver os membros da Otan pagar mais de 2% do PIB em Defesa. No ano passado (2018), ele pediu aos líderes da aliança para elevarem os gastos para 4% do PIB. “Para todos os aliados, a China está se tornando um parceiro comercial mais e mais importante. (…). Precisamos encontrar o equilíbrio na preocupação com a força crescente da China, sem criar problemas”, declarou Jens Stoltenberg. Os aliados estão em estágios avançados de avaliação da ameaça representada pela China, especialmente focada na defesa da Europa, e de que forma deverão responder a estas ameaças.

Jens StoltenbergSecretário Geral da OTAN

O avanço do 5G na China está ligado à sua estratégia nacional de fusão militar-civil. Em novembro de 2018, os principais participantes do setor estabeleceram a Aliança da Indústria de Aplicações de Fusão Militar-Civil da 5G Technology, incluindo a ZTE, a China Unicom e a Corporação de Ciência e Indústria Aeroespacial da China (CASIC). 

Esta nova parceria visa fomentar a colaboração e o desenvolvimento militar e civil integrados, promovendo simultaneamente aplicações de defesa e comerciais. Em particular, a CASIC está se concentrando no uso de 5G no setor aeroespacial. 

Poderia haver algumas sinergias notáveis no desenvolvimento do 5G entre esses e outros jogadores notáveis. Por exemplo, o 5G exigirá equipamentos de comunicação especializados, como certas antenas e equipamentos de micro-ondas, questão em que o CETC (China Electronics Technology Group Corporation), um conglomerado de defesa estatal, estabeleceu uma proficiência específica no desenvolvimento.

As possíveis ameaças são muitas. Alguns aliados temem os planos da China para o Ártico, depois que ela se declarou um Estado “quase ártico” no ano passado (2018). Numa questão mais ampla, os EUA e outros países estão preocupados com o aumento da presença militar chinesa no Mar do Sul da China e o aumento da influência de Pequim por meio de seu plano global de infraestrutura, a Iniciativa do Cinturão e da Rota (BRI, a Nova Rota da Seda), embora essas ações recaiam sobre um terreno que vai além da esfera principal de atuação da Otan.

Coreia do Sul, por sua vez, foi o primeiro país a propor, para todo território nacional, redes 5G e celulares compatíveis, dando um grande passo na corrida tecnológica mundial para revolucionar as comunicações. Os aliados também estão atentos a considerações estratégicas, pois diversas iniciativas apontam para os florescentes laços econômicos e militares entre Moscou e Pequim, o que amplia os seus temores sobre as influências e poder da China no cenário internacional.

Nesse sentido, a OTAN avaliou o perigo potencial do 5G e também estabeleceu um processo de seleção para investimentos estrangeiros, além disso, em áreas críticas como o 5G, está tentando criar padrões mínimos para o bloco, visando a identificação e combate a ameaças à segurança. Além disso, as Forças Armadas dos EUA estão planejando experimentos para ver como as tecnologias sem fio 5G poderiam melhorar as comunicações e evitar riscos civis e militares. 

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Reunidos em Washington DC na quintafeira (4 de abril de 2019), os Ministros dos Negócios Estrangeiros da NATO acordaram um pacote de medidas para melhorar a consciência situacional da OTAN” (Fonte): https://www.nato.int/cps/en/natohq/news_165253.htm

Imagem 2 “Jens StoltenbergSecretário Geral da OTAN”(Fonte): https://www.nato.int/cps/su/natohq/who_is_who_49999.htm

About author

Mestrando em Direção Estratégica em Telecomunicações Universidad del Atlantico – Espanha e Porto Rico; Especialista em Expandindo a Competência Exportadora das Empresas, pela Fundação Dom Cabral. Especialista em Políticas e Estratégias Nacionais, pela Universidade do Tocantins. Graduado em Comércio Exterior, pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos, UNISINOS, São Leopoldo/RS. Atualmente é Colaborador do Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais (CEIRI) no Portal de Relações Internacionais CEIRI NEWS https://ceiri.news/. Também, autor no Portal Web Indústria 4.0 ISA (International Society of Automation), Campinas Section. Campinas/SP. Professor do MBA em Gestão e Inovação em Cidades Inteligentes – Facens – Sorocaba/SP. Desenvolvedor do Grupo de Trabalho Cidades Inteligentes – Softsul, Porto Alegre/RS. Nos últimos 3 anos atua como Vice-Presidente de Defesa Cibernética do ISCBA - Instituto Smart City Business América. Secretário da ADESG - Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra, Representação Santa Maria/RS. Sócio Diretor da CronCyber Inteligência Empresarial, Cidades Inteligentes e Defesa Cibernética.
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