ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

A China e a vitória parlamentar do “Partido Liberal Democrático do Japão”

A vitória no Japão do conservador “Partido Liberal Democrático” (PLD – em inglês, LDP) nas eleições para a “Câmara dos Conselheiros” deste domingo (21 de julho) é recebida com apreensão na China. Desde que voltou ao governo em dezembro de 2012*, Shinzo Abe, o líder do PLD e Primeiro-Ministro, tem ocasionalmente proferido discursos pessoais que evocam “a glória do passado imperial do Japão”, algo que, de certa forma, “fere as sensibilidades” dos povos vizinhos, em particular da China[1].

Crê-se que esta vitória abre espaço para o Partido japonês vencedor levar a cabo reformas econômicas e mudanças que igualem o país ao Japão do período pré-1945. Por isso, a China está preocupada com a pretensão de Abe alterar o caráter pacifista japonês, estipulado no “Artigo Nono” da Constituição, em vigor desde o fim da “2ª Guerra Mundial”, Constituição que o próprio Shinzo Abe afirma ter sido imposta pelos “Estados Unidos da América” (EUA). Ele ainda deseja reforçar o orçamento das “Forças de Autodefesa do Japão[2].

Como prova disso, o “Livro Branco de Defesa” do Japão (publicado em 9 de julho deste ano) destaca que, pela primeira vez em uma década o ano fiscal de 2013 tem um aumento de 0,8% para o setor de Defesa, alegadamente para fazer face a uma China mais assertiva com quem tem disputas territoriais marítimas, sendo as Ilhas Senkaku” (Diaoyu para os chineses) o caso mais emblemático, assim como também menciona a mesma postura no “Mar da China Meridional” com outros países[3].

No entanto, em resposta, a China não só refuta a ideia de que esteja a fazer manobras militares provocadoras junto ao “Mar da China do Leste” como também interpreta a preocupação do Japão em relação ao “Mar da China Meridional” como um sinal de desejo deste país expandir o seu poderio naval além de se imiscuir em assuntos alheios. Da mesma maneira, em Pequim também se critica o apelo vigoroso de Abe à aliança Japão-EUA que, em última instância, se acredita que objetiva conter a China[4].

Na semana passada, numa rara visita à “Ilha Ishigaki”, que dista cerca de 160 km das disputadas “Ilhas Senkaku” (Diaoyu), Shinzo Abe reafirmou que o Japão nunca recuará da questão da soberania sobre o território, o qual também a China reclama ter-lhe sido “roubado” no contexto da “Guerra Sino-Japonesa”, de 1895. A mídia chinesa entende que a ida do Primeiro-Ministro àquele lugar representa um precedente muito perigoso. Contudo, salienta que o gesto de Abe não tinha outro objetivo senão fazer campanha eleitoral pelo seu partido de direita e nacionalista para as eleições que acabavam de acontecer[5].

Coligado desde dezembro do ano passado ao “Partido Novo Komeito”, o “Partido Liberal Democráticotem a oportunidade de governar sem os grandes obstáculos que os governos anteriores, que foram tidos como dos mais instáveis na história recente do Japão. Neste período recente, o país teve sete Primeiros-Ministros entre 2006 e 2012, ou seja, neste intervalo, nenhum líder japonês conseguiu chegar ao fim do seu mandato[6]. Uma das razões da instabilidade governamental é a ausência de um Partido majoritário no Parlamento, composto pela “Câmeras Alta” (dos Conselheiros) e “Câmara Baixa” (dos Representantes)[7]. Portanto, o domínio do PLD no Governo e no Parlamento abre caminho para um ambiente de estabilidade política no Japão[8]

Especialistas chineses não só entendem que o domínio da coalizãoPLD-Partido Novo Komeitonas duas Câmaras (135 dos 242 Conselheiros, 325 dos 480 Representantes) pode levar o governo até ao fim do seu mandato (isto é, 2016), como também acreditam que Abe levará avante a sua política econômica (conhecida por Abenômica): “afrouxar as políticas monetária e fiscal e reformas estruturais[9], com vista a tirar o país da estagnação econômica que dura quase duas décadas[9].

Abe afirmara alguns meses atrás que sem crescimento econômico não é possível o seu governo garantir segurança social ao povo japonês e seria também difícil revitalizar a diplomacia do país[10]. Por isso, devido às suas políticas, a economia do Japão só este ano já cresceu cerca de 4% e as taxas do mercado de valores japonês aumentaram para acima de 40%. Porém, um dos maiores desafios do atual governo será aderir àParceria Trans-Pacífico”, contestada pelos fazendeiros locais. Esta Parceria de natureza econômica está ainda em formação e envolve 11 países de dois continentes sob liderança dosEstados Unidos[11].  

A China é um dos países que mais se beneficiam com a recuperação do Japão e também pode ajudar o Japão com o seu vasto mercado, mas Pequim está de guarda em relação às tentativas do “Governo Abe” na direção do fortalecimento militar, pois, para os chineses, mais que questão da existência de outro país belicamente forte na região, a ocupação de seu território, as guerras e a humilhação que a esteve sujeita ainda têm cicatrizes que vão levar muito tempo para sarar.

No entanto, alguns analistas chineses encontram conforto na posição pacifista do parceiro doPLD”,  oPartido Novo Komeito”, que publicamente afirma não ser favorável à militarização do Japão. Alguns ainda calculam que o PLD, por si só, não dispõe de 2/3 em ambas Câmaras, necessários para mudanças constitucionais, por isso acreditam que se Abe forçar a sua agenda “agressiva” levará ao colapso do atual governo, o que resultaria na continuação da instabilidade política, como vem ocorrendo ao longo dos últimos seis anos[12].   

Apesar de ainda não ter mantido um contato direto com as autoridades chinesas, Shinzo Abe afirmou nesta segunda-feira que os dois países vizinhos deviam trabalhar juntos para ultrapassar as diferenças que os opõem. Também disse que esperava levar avante diálogos de alto nível entre os dois Governos[13].     

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* Entre 2006 e 2007 também liderou o governo.

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Imagem (Fonte):

http://www.globaltimes.cn/NEWS/tabid/99/ID/798050/Abe-attends-press-conference-after-LDPs-election-win.aspx

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.bbc.co.uk/news/world-asia-23400979

[2] Ver:

http://www.isn.ethz.ch/Digital-Library/Articles/Detail/?id=165176

[3] Ver:

http://www.isn.ethz.ch/Digital-Library/Articles/Detail/?id=165176

[4] Ver:

http://eng.chinamil.com.cn/news-channels/china-military-news/2013-07/10/content_5403881.htm  

[5] Ver:

http://www.reuters.com/article/2013/07/18/us-china-japan-idUSBRE96H05Q20130718

[6] Ver:

http://www.globaltimes.cn/content/797935.shtml#.Ue2_7Y0wcqN  

[7] Ver:

http://en.wikipedia.org/wiki/Diet_of_Japan

[8] Ver:

http://www.japantimes.co.jp/news/2013/07/22/national/abe-cements-power-with-ldps-sweeping-victory-in-upper-house-race/#.Ue28X40wcqO

[9] Ver:

http://www.globaltimes.cn/content/797935.shtml#.Ue2_7Y0wcqN

[10] Ver:

http://www.globaltimes.cn/content/798059.shtml#.Ue3LsY0wcqN

[11] Ver:

http://www.bbc.co.uk/news/world-asia-23400979

[12] Ver:

http://www.globaltimes.cn/content/797935.shtml#.Ue2_7Y0wcqN

[13] Ver:

http://www.globaltimes.cn/content/798059.shtml#.Ue3LsY0wcqN

About author

De Nacionalidade Moçambicana, é mestrando em História do Mundo no Instituto de Estudos Africanos da Universidade Normal de Zhejiang, na China. Graduado em História pela Universidade Eduardo Mondlane em Maputo (2007). Possui experiência na docência de disciplinas de História Geral e da África Austral. Interesses: História de Moçambique, relações China-Moçambique, política externa chinesa no nordeste e sudeste da Ásia, relações China-África, cultura cibernética popular na China. Fala Português, Inglês, Francês e conhecimento razoável de chinês.
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