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ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

A contribuição da economia do terrorismo para a expansão da Jihad Global

A ligação entre o terrorismo e o narcotráfico não é uma tendência recente. Há mais de duas décadas que esse tipo de atividade econômica vem sendo identificado como uma atividade que cresce à “velocidade da luz[1]. Tradicionalmente, os grupos terroristas têm sido financiados por Estados e, no ano 2000, sete deles foram identificados como sendo os principais patrocinadores: Cuba, Irã, Iraque, Líbia, Coreia do Norte, Sudão eSíria[2]. Porém, nos últimos anos, estes Estados, de entre outros, têm encontrado dificuldades em manter o financiamento, em virtude da ação dos Serviços de Inteligência na identificação dos doadores privados e na interrupção do repasse de dinheiro para o terror[1]. A necessidade de encontrar novas fontes de recursos fez com que as organizações terroristas globais optassem pelo narcotráfico. Segundo a ONU, o comércio internacional de drogas tornou-se, para os insurgentes, a atividade ilícita mais lucrativa[3].

Atualmente, os grupos irregulares estão atuando internacionalmente no tráfico de drogas, de modo eficaz. Os jihadistas estão consolidando posições em determinadas áreas do planeta para a prática desta atividade. O comércio de cocaína na Europa, por exemplo, está a financiar os grupos irregulares aliados do Estado Islâmico, no norte de África. Em 2007, a al-Qaeda no Magreb se estabeleceu na região e criou uma base nos desertos norte-africanos. O poder ali instalado estrategicamente permitiu ao grupo o acesso às principais rotas comerciais de drogas para o norte de África e Europa[4]. O montante arrecadado com o comércio ilegal é usado para a compra de armas, financiamento de guerras locais, para a preparação de atentados no Ocidente e, sobretudo, para assegurar a expansão da Jihad global.

A ação dos jihadistas é preparada nos pormenores e a desestruturação política dos países onde operam é o meio ideal para atuarem. Após a queda de Muammar al-Gaddafi, em 2011, os jihadistas do Magreb se equiparam militarmente com a compra de veículos blindados, mísseis terra-ar e fuzis AK-47, através de soldados que fugiram da Líbia[4]. Esta e outras situações semelhantes têm permitido aos insurgentes agirem livremente não só na comercialização de drogas e compras de armas mas, também, na tomada do poder local, independentemente de ser um território de origem do grupo ou não, como é o caso de Mali[5] e Derna, cidade líbia sob poder do Estado Islâmico[6].

Em 2004, as drogas da América Latina começaram a ser transportadas através do Oceano Atlântico por via aérea e marítima[7]. A América Latina é conhecida internacionalmente, como sendo a área de atuação doHamas e do Hezbollah, onde estes grupos insurgentes mantêm ligação com organizações criminosas regionais. O predomínio daqueles dois grupos data do final dos anos de 1980 e inícios de 1990 e operam, principalmente, na Tríplice Fronteira (Brasil, Argentina e Paraguai)[8].

Cada vez mais é possível verificarmos a conexão entre grupos insurgentes e o narcotráfico. De acordo com informações, a droga vem sendo amplamente utilizada pelos jihadistas não somente para a comercialização, mas também para o consumo. O Estado Islâmico tem utilizado a cocaína para elevar o ânimo de seus combatentes, embora consumir drogas seja condenado pela Sharia (Lei Islâmica) e seus militantes tenham, reiteradamente, feito propaganda contra a utilização de entorpecentes. Após a morte do Emir Abu Zahra, um dos líderes doEstado Islâmico, foi descoberto em sua casa, em Kobane, na Síria, um saco de cocaína[9]. Acredita-se que a droga apreendida na casa do Emir Abu Zahra fosse para distribuir em pequenas porções aos seus jihadistas. Atualmente, estima-se que o Estado Islâmico tem uma fortuna calculada em USD$ 2 bilhões[10].

A situação também se agravou na Síria, devastada pela Guerra Civil. O caos em que o país se encontra tem beneficiado a produção e a comercialização de entorpecentes. O comércio de drogas na Síria é florescente e a falta de segurança permite que as pessoas ligadas ao comércio ilícito se tornem cada vez mais poderosas[11]. O que vem acontecendo na Síria está a ser comparado com a América Latina, onde a ausência de aparelhos deSegurança eficazes permite o estabelecimento de cartéis de drogas. A instabilidade política, associada à falta de segurança, tem permitido a atuação de cartéis sírios em operações que atingem toda a região, a América Central e os EUA, contribuindo assim para gerar uma enorme riqueza e espalhar a violência[12].

Um traficante de drogas no Vale do Beqaa, no Líbano, onde ocorre a maior produção de drogas no país, em entrevista à Reuters, afirmou que, em 2013, o Líbano deixou de gerar 90% de drogas, se comparado com os dois anos anteriores. Ele atribui essa queda ao fato de ter havido a transferência da produção para a Síria. Ainda, de acordo com este informante, situação semelhante pode estar acontecendo na Turquia[13].

Inevitavelmente, as guerras e os conflitos estão sendo benéficos para o narcotráfico e a economia do terrorismo, que têm se aproveitado da desordem política e do vazio de poder para se instalarem em diferentes regiões do planeta e conduzir o lucrativo mercado de drogas, espalhando a insegurança a nível mundial. A associação entre o narcotráfico e o terrorismo global é uma relação complexa que exige a atuação dos Estados a nível internacional. Somente a ação conjunta dos diferentes países, com Serviços de Inteligência devidamente preparados, será capaz de desarticular as ações de organizações criminosas, locais e regionais, ligadas ao terrorismo global e, assim, evitar a instalação de poderes paralelos por jihadistas que colocam em risco a soberania nacional.

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Imagem Além dos entorpecentes tradicionais, asdrogas de desenho’, nomeadamente o Captagon, são cada vez mais populares nos ambientes jihadistas” (Fonte):

https://now.mmedia.me/Pages/ImageStreamer/param/MediaID__2a81f9ed-ea55-4819-b9af-cc84f66b5faa/w__616/h__394/capta.jpg

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.washingtoninstitute.org/policy-analysis/view/drug-trafficking-and-middle-eastern-terrorist-groups-a-growing-nexus

[2] Ver:

http://www.e-ir.info/2011/08/31/what-is-the-impact-of-terrorism-on-the-ipe/

[3] Ver:

http://www.washingtoninstitute.org/policy-analysis/view/drug-trafficking-and-middle-eastern-terrorist-groups-a-growing-nexus

[4] Ver:

http://www.ibtimes.co.uk/cocaine-funding-isis-drug-smuggling-profits-islamic-state-linked-jihadists-north-africa-1475824

[5] Ver:

http://www.ibtimes.co.uk/cocaine-funding-isis-drug-smuggling-profits-islamic-state-linked-jihadists-north-africa-1475824

[6] Ver:

https://ceiri.news/o-estado-islamico-avanca-na-libia-atacando-a-embaixada-da-argelia-em-tripoli/

[7] Ver:

http://www.ibtimes.co.uk/cocaine-funding-isis-drug-smuggling-profits-islamic-state-linked-jihadists-north-africa-1475824

[8] Ver:

http://cnsnews.com/news/article/hezbollah-hamas-raise-money-terrorist-activities-drug-trade-south-america-congressional

[9] Ver:

http://www.dailymail.co.uk/news/article-2898876/Isis-fighters-high-cocaine-Huge-bag-drugs-home-Islamic-State-leader-accused-drugging-troops-boost-morale.html

[10] Ver:

LORETTA NAPOLEONI. The Islamist Phoenix: Islamic State and the redrawing of the Middle East. New York / Oakland, Seven Stories Press, 2014, pág. 3.

[11] Ver:

https://now.mmedia.me/lb/en/reportsfeatures/564751-amidst-the-syrian-war-a-burgeoning-narcotic-trade

[12] Ver:

https://now.mmedia.me/lb/en/reportsfeatures/564751-amidst-the-syrian-war-a-burgeoning-narcotic-trade

[13] Ver:

http://uk.reuters.com/article/2014/01/12/uk-syria-crisis-drugs-insight-idUKBREA0B04Y20140112

About author

Possui graduação em Filosofia (bacharelado e licenciatura) pela Universidade Federal do Paraná (1999), com revalidação pela Universidade de Évora (2007), e mestrado em Sociologia (Poder e Sistemas Políticos) pela Universidade de Évora (2010). É doutoranda em Teoria Jurídico-Política e Relações Internacionais (Universidade de Évora). É professora da Faculdade São Braz (Curitiba), pesquisadora especialista do CEFi – Centro de Estudos de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa), e pareceirista do CEIRI Newspaper (São Paulo).
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