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ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

A Crise da Companhia Aérea Syrian Air

A companhia aérea Syrian Arab Airlines, que opera com o sinal de chamada Syrian Air, foi criada em 1946, com apenas duas rotas comerciais: Damasco-Aleppo e Der Alzour-Kamishli. Na década de 1950, ocorreu a expansão da companhia, que ampliou a sua área de ação, passando a atender mais seis destinos: Beirute, Bagdá, Jerusalém, Cairo, Kuwait e Doha. Nas décadas seguintes, a companhia continuou a fortalecer a quantidade de aeronaves, expandindo o número de voos para diferentes países. Entre 2000 e 2005, abriu novas rotas que passaram a contemplar Bruxelas, Viena, Milão, Barcelona, Manchester e Copenhagen. O declínio da companhia surgiu na sequência das sanções dos EUA impostas à Síria, que tiveram início em 2003 sob a alegação de que o país estava apoiando extremistas e tentando desenvolver armas de destruição em massa. Com a evolução dos acontecimentos, o embargo norte-americano não cessou, comprometendo a reposição de peças sobressalentes e a compra de aeronaves. Desde então, a Syrian Air entrou em processo de involução, agravado pelas consequências da Primavera Árabe, que culminou na contestação dos cidadãos sírios ao regime de Bashar al-Assad e a consequente repressão por parte do Governo contra a população civil, bem como novos embargos dos EUA e da União Europeia (UE).

Em outubro de 2012, a UE proibiu os voos da Syrian Air para todos os aeroportos do continente. A medida foi tomada para reforçar as sanções, uma vez que os voos de carga já haviam sido anteriormente proibidos. Naquele momento, também se verificou o acirramento do controle sobre o comércio de armas, munições, veículos, equipamentos militares, equipamentos paramilitares e peças de reposição. Atualmente, a Syrian Air encontra-se em profunda crise financeira e os setores responsáveis do Governo alegam, como causa do definhamento da companhia aérea, os boicotes que o país tem sofrido por parte do Ocidente. Contudo, há fatos que apontam para novos elementos que têm comprometido a saúde financeira da empresa, os quais estão ligados à corrupção e a interesses particulares.

Segundo o sítio web WikiLeaks, em 2005, a Síria alterou as leis da aviação civil para beneficiar a abertura de companhias aéreas privadas. Segundo consta, isto foi uma manobra política por parte do Governo para beneficiar algumas pessoas, de entre as quais se destaca Rami Makhlouf, primo do Presidente Bashar al-Assad. Com a companhia aérea estatal mais fraca, isto permitiu que Makhlouf pudesse dar passos seguros em direção a um negócio economicamente lucrativo. Na época, cinco companhias aéreas privadas participaram do processo de licenciamento, sendo que três delas eram apoiadas pelo primo do Presidente: “Rami também engendrou um acordo para uma destas Companhias aéreas, Cham Pearl, para, eventualmente, assumir as rotas mais lucrativas da Syrian Air”.

No decurso dos acontecimentos envolvendo a Syrian Air, a Rússia se mostrou disposta a violar as sanções dos EUA, vendendo aeronaves à Síria. Porém, todas as propostas foram recusadas, inclusive aquela que envolvia descontos significativos. Falando aos jornalistas locais sobre esta questão, Hazem al-Khadra, Diretor-geral da Autoridade de Aviação Civil Síria, justificou a recusa, ao afirmar que os aviões russos não atendem todos os requisitos de segurança para a aviação comercial. Vários fatores sugerem dúvidas quanto à veracidade das informações naquilo que se refere à decadência da Syrian Air.

Ainda de acordo com o WikiLeaks, no ano de 2008, surgiram rumores sobre a existência da ligação entre Makhlouf e a recém-licenciada companhia aérea Julie Airlines. Na época, Bassel Fitrawi, Presidente da Julie Airlines, declarou à agência de notícias síria, SANA, que a frota da empresa seria composta por dois Airbus, dois Boing 737 e uma aeronave de carga, cujos serviços prestados compreenderiam às seguintes rotas: Iraque, Itália, Malásia, Turquia e Canadá[1]. Neste contexto, a informação que mais chamou a atenção foi aquela que permite fazer a conexão entre a companhia aérea Julie Airlines, Rami Makhlouf e a Romênia. Conforme relatos, a gestão da empresa era quase que exclusivamente composta por pessoas com dupla cidadania síria-romena. Na altura, o Embaixador sírio na Romênia era Walid Otman, avô de Rami Makhlouf.

Com o passar dos anos, a companhia aérea Syrian Arab Airlines continuou a enfrentar dificuldades financeiras, encontrando-se atualmente envolvida em situações duvidosas que fizeram com que, em início de dezembro de 2015, o partido Ba’ath tenha tecido fortes críticas à gestão da empresa estatal. Por meio de um relatório divulgado no jornal do Partido, em 6 de dezembro, ele manifestou incompreensão quanto à gestão da companhia ao afirmar que “ninguém, nem mesmo o mais pessimista, espera que a condição da Syrian Air tivesse alcançado a condição que tem, com três planos para sair do serviço ao longo dos últimos meses”, advertindo, ainda, que a companhia aérea “continua a trabalhar com apenas um avião, [enfrentando] o risco de sair de serviço a qualquer momento”. De acordo com as informações divulgadas pelo jornal Now.News, para o Partido Ba’ath, a crise na empresa não está relacionada unicamente as sanções internacionais, mas com a má gestão. Segundo o relatório, “tem havido falta de seriedade em aproveitar as oportunidades que estão disponíveis para a Syrian Air”. O relatório do Partido se refere, também, à oportunidade perdida pela companhia em fechar um acordo com a fabricante ucraniana de aviões Antonov. De acordo com o documento, “por razões desconhecidas, a instituição abandonou este acordo [que foi] negociado por vários meses… [Isso] sugere que alguém não quer que esta instituição desenvolva e promova o seu trabalho”.

Um meio de comunicação pró-oposição acusa o regime de Bashar al-Assad de destruir a Syrian Air de modo premeditado para ajudar uma companhia aérea privada, a Cham Wings Airlines, fundada em 2007, na qual Rami Makhlouf tem participação financeira significativa. Contudo, o relatório anteriormente mencionado sublinhou que os meios de comunicação pró-regime passaram a tratar a companhia Cham Wings Airlines como sendo “uma alternativa nacional para a Syrian Air”. Neste sentido, vários analistas sugerem a hipótese de que a aniquilação da Syrian Air corresponde ao objetivo de atender interesses particulares e familiares. Deste modo, as sanções dos EUA e da UE contribuíram para o bom andamento daquilo que foi planejado pelos decisores sírios no que diz respeito ao futuro da companhia aérea estatal. Apesar da Guerra Civil, de milhões de refugiados e deslocados, o regime sírio não chegou ao esgotamento e, conforme vem sendo disseminado na mídia, permanece atuando no sentido de assegurar os privilégios individuais ou de grupo, independentemente de hoje o país estar fragmentado e a sua sociedade praticamente destruída.  

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Imagem Airbus A320232Syrian AirYKAKB” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/d/d9/Syrian_Air_Airbus_A320-232%[email protected]%3B16.07.2011_609hz_(6190557676).jpg

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Fontes Bibliográficas:

[1] Atualmente, a frota da Syrian Air é composta pelas seguintes aeronaves: 2 ATR 72-500 (registros: YK-AVA e YK-AVB); 6 Airbus A320-232 (registros: YK-AKA; YK-AKB; YK-AKC; YK-AKD, YK-AKE E YK-AKF). Ver:

https://www.planespotters.net/airline/Syrian-Arab-Airlines

About author

Possui graduação em Filosofia (bacharelado e licenciatura) pela Universidade Federal do Paraná (1999), com revalidação pela Universidade de Évora (2007), e mestrado em Sociologia (Poder e Sistemas Políticos) pela Universidade de Évora (2010). É doutoranda em Teoria Jurídico-Política e Relações Internacionais (Universidade de Évora). É professora da Faculdade São Braz (Curitiba), pesquisadora especialista do CEFi – Centro de Estudos de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa), e pareceirista do CEIRI Newspaper (São Paulo).
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