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A crise da “ONDA ROSA” sul-americana e as perspectivas para o Governo Evo Morales

O Congresso boliviano aprovou, no último sábado (dia 26), uma reforma na Constituição, possibilitando por duas vezes consecutivas à reeleição presidencial no país. Neste sentido, Evo Morales passa a ter o direito de se candidatar pela quarta vez seguida ao cargo de Presidente da Bolívia. Caso o mesmo venha a se reeleger, Morales completaria, já contando com o quarto mandato, 19 anos no poder.

A decisão do Congresso gerou polêmica, recebendo críticas da oposição por entenderem que a reforma, na verdade, é uma configuração de golpismo. O Presidente boliviano rebateu, dizendo que a decisão de sua permanência no poder cabe à população e, caso ela decida em plebiscito pelo “sim”, Morales continuará como Presidente. Esta situação na política boliviana nos lembra dos processos políticos na Venezuela, mais especificamente no governo do expresidente Hugo Chaves. As ações nos permitem refletir sobre o aprofundamento da democracia e em que medida ela é realmente enraizada ou não[1].

A verdade é que o presidente boliviano Evo Morales é o líder mais popular dos países que formam a Onda Rosa”. Por  “Onda Rosa”, entendemos o conjunto de países sulamericanos que foram contemplados, no final do século XX e início do XXI, com a vitória presidencial de Partidos de centroesquerda ou de esquerda moderada.

Podemos observar a formação inicial da Onda Rosa da seguinte forma: Hugo Chávez (Partido Socialista Unido da Venezuela /Venezuela) – 1998; Ricardo Lagos (Partido Socialista Chileno / Chile) – 2000; Lula (Partido dos Trabalhadores / Brasil) – 2002; Néstor Kirchner (Partido Justicialista / Argentina) – 2003; Tabaré Vázquez (Frente Ampla) – 2004; Evo Morales (Movimento para o Socialismo / Bolívia) – 2005; Rafael Correa (Alianza PAÍS / Equador) – 2006; Fernando Lugo (Partido Democrata Cristão do Paraguai Aliança Patriótica para el Cambio / Paraguai) – 2008. Estes Presidentes conseguiram, em sua maioria, se reelegerem e elegerem seus sucessores. São Partidos vitoriosos que apresentam algumas características gerais, como o discurso de combate às políticas neoliberais e busca por justiça social. Todos eles ganharam as eleições neste período, com uma plataforma de governo semelhante.

O fenômeno da Onda Rosa é mais bem estudado pelo cientista político e professor da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), Fabrício Pereira da Silva. Em análise sobre estes Partidos, o autor os classifica em dois gruposos renovadores e os refundadores. No primeiro grupo estão o Partido dos Trabalhadores (Brasil), a Frente Ampla (Uruguai), Partido Socialista Chileno. Eles são caracterizados pelo maior grau de institucionalização; maior integração ao sistema político; aceitação das instituições da democracia representativa na forma realmente existente em seus países e crítica moderada ao neoliberalismo.

No segundo grupo estão o Partido Socialista Unido da Venezuela; o Movimento para o Socialismo (Bolívia) e a Alianza País (Equador). Estes são caracterizados pelo menor grau de institucionalização; menor integração ao sistema político; crítica às instituições da democracia representativa; crítica radical ao neoliberalismo[2]. Fabrício Pereira da Silva, em 2010,  já apontava uma tendência de enfraquecimento da Onda Rosa  juntamente com o fortalecimento de uma nova direita”, que, por sua vez, passou por uma revisão e incorporação de novos desafios e oportunidades do século XXI, ou seja, tornou-se mais “modernizada”. Por fim, o autor encerra, naquela análise, compreendendo que a tendência não é o fim da Onda Rosa, mas uma disputa constante da mesma com a nova direita[3].

Voltando à popularidade do presidente Evo Morales, este foi apontado como o líder mais bem avaliado, em pesquisa feita pela empresa uruguaia Equipo Consultores em julho deste ano (2015), analisando dez Chefes de Estado sul-americanos. Pelos dados divulgados, Morales aparece em primeiro com 75% de aprovação, seguido pelo presidente equatoriano Rafael Correa, com 61%. Os três últimos colocados são, respectivamente, Horácio Cartes (Paraguai), com 25%; Ollanta Humala (Peru), com 17%; e Dilma Rousseff (Brasil), com 10%[4].

Como explicar o sucesso do presidente Morales ao passo que a Onda Rosa se encontra em uma crise? Há vários motivos que levaram a esta crise, cujos detalhes escapam ao escopo deste texto. No entanto, em um novo artigo escrito este ano (2015), Fabrício Pereira da Silva aponta, dentre outros fatores, o fracasso do neodesenvolvimentismo (ou socialdesenvolvimentismo, para alguns) e uma certa combinação de políticas econômicas heterodoxas com uma economia de mercado neoliberal[5]. Assim, a resposta para a pergunta anterior reside na forma que Morales procurou conduzir tanto a política quando a economia boliviana.

No campo político, o líder boliviano procurou, desde o início, apoiarse nos movimentos sociais e enfrentar um Congresso predominantemente opositor ao Governo. Posteriormente, ao longo dos anos, Morales foi conseguindo a maioria no Legislativo. No campo econômico, o Governo Morales demonstrou o nacionalismo como uma de suas características principais, nacionalizando grande parte da produção de hidrocarbonetos, o que também gerou problemas e críticas para o Presidente.

Mesmo com uma economia homogênea, Morales procurou introduzir parcerias e ampliar a cooperação internacional, especialmente no campo científico e tecnológico. No campo da política externa, acompanhamos a ação da Bolívia para negociar a saída pelo mar com o Chile, recentemente aprovada pela Corte Internacional de Haia. Portanto, o sucesso que o presidente Morales tem reside na sua persistência em continuar implementando seu projeto de país para a Bolívia. Do ponto de vista estratégico, sem juízo de valores, o Presidente tem sido feliz em agir desta forma, garantindo, assim, um Governo sólido e forte.

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Imagem (Fonte):

http://oglobo.globo.com/mundo/apos-incidente-com-voo-de-evo-morales-mercosul-vai-convocar-seus-embaixadores-9013955

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.dw.com/pt/congresso-boliviano-admite-quarta-candidatura-de-evo-morales/a-18743940

[2] Ver:

http://netsal.iesp.uerj.br/index.php/pt/publicacoes/teses-e-dissertacoes/2-uncategorised/83-fabricio-pereira-da-silva

[3] Ver:

http://www.plataformademocratica.org/Publicacoes/22129.pdf

[4] Ver:

http://www.hispantv.com/newsdetail/Bolivia/41138/Morales,-lider-latinoamericano-de-mayor-popularidad

[5] Ver:

https://revistas.unila.edu.br/index.php/sures/article/view/295/279

About author

Mestrando em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU); Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) e Pesquisador do Núcleo de Estudos e Pesquisa de Relações Internacionais da Universidade Federal de Uberlândia (NEPRI/UFU).
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