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Há um mês Israel enfrenta uma ação coordenada por grupos insurgentes em Gaza, liderados pelo Hamas e pela Jihad Islâmica Palestina. A OperaçãoMuro de Proteção”, em curso desde 8 de julho, é o terceiro conflito entre Israel e o Hamas e configura-se como um dos enfrentamentos mais sangrentos desde que o grupo islâmico assumiu o poder local, em 2006. A Faixa de Gaza é uma pequena área de 365 Km² e um dos territórios mais densamente povoados do mundo com, aproximadamente, 1.865.000 habitantes e 5.109 pessoas por Km²[1]. Este elevado contingente populacional numa estreita faixa de terra teve as suas dificuldades ampliadas no decorrer do conflito, pois não há abrigos e a sua infraestrutura frágil foi danificada em virtude dos combates entre as forças beligerantes.

A crise humanitária em Gaza tem mobilizado as organizações de Direitos Humanos. As ONGs israelenses já advertiram que mais da metade da população gazana foi afetada pela falta de água e de saneamento e os esgotos correm a céu aberto, depois de a tubulação ter sido danificada em consequência do conflito[2]. A escassez de energia elétrica contribui ainda mais para o agravamento da situação. Mais da metade das linhas que levam energia de Israel para Gaza foram desativadas, tendo algumas delas sido atingidas por rockets disparados pelo Hamas[3]. A redução do fornecimento de energia tem afetado diretamente os hospitais, o que contribui para o aumento do número de mortos. Os sobreviventes dos bombardeios desencadeados pelas Forças de Defesa de Israel (IDF Israel Defense Forces), que necessitam de ser internados em Unidades de Terapia Intensiva, vão a óbito, pois essas unidades permanecem parcialmente desativadas devido à falta de energia elétrica[4].

Os problemas em Gaza se multiplicam e o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) alerta para o agravamento das condições de vida da população. Segundo o OCHA, até 3 de agosto, o número de palestinos mortos era de aproximadamente 1.717, sendo que pelos menos 1.176 são civis, 337 crianças e 196 mulheres, havendo a registrar 2.744 feridos. Do lado israelense são 67 mortos, incluindo 64 soldados, 2 civis e 1 estrangeiro[5].  Ainda de acordo com o OCHA, até 25% da população gazana poderá ser deslocada à força e, hoje, 270.000 estão em abrigos da Agência das Nações Unidas para a Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA). Aproximadamente 1,5 milhão de pessoas refugiadas sofrem com a falta total, ou restrita, de água e o sistema público de saúde está entrando em colapso enquanto o número de vítimas aumenta a cada dia[6]. O problema humanitário em Gaza tende a se agravar com a continuidade do conflito, principalmente no que se refere às questões hospitalares e de saúde. A ONU tem apelado, reiteradamente, por tréguas humanitárias para que sejam possíveis, pelo menos, alguns reparos nas infraestruturas do território, evitando assim o risco de um colapso total.

O fim definitivo do conflito entre Israel, o Hamas e os demais grupos radicais islâmicos é o único modo de garantir, a longo prazo, a recuperação de Gaza que, ao longo de sua história, tem sofrido com os sucessivos conflitos armados que ali tiveram lugar. No entanto, enquanto a paz é um sonho na região, as hostilidades permanecem e estimulam os combates entre os adversários na tentativa de liquidar o inimigo. Entretanto, é a população civil quem sofre com as consequências. Pela fragilidade de Gaza, a sua população acaba por ser a mais atingida pelo conflito. Porém, em Israel, os civis sofrem com a ameaça dos rocketse mísseis que são lançados constantemente sobre o território israelense.

Uma solução definitiva é o ideal para as populações de Gaza e de Israel que convivem diariamente com a violência que ameaça as suas vidas e, em muitas ocasiões, fere os Direitos Humanos. O excesso de identidade de ambos os povos entra em choque e estimula as rivalidades, com a finalidade de eliminar o adversário. Embora se tenha tentado uma solução definitiva para o conflito, nada mais foi possível além dos acordos provisórios.

As possibilidades de negociações positivas entre Israel e um grupo insurgente não são uma tarefa fácil, pois trata-se de duas dimensões politicamente diferentes. Se Israel é intransigente no que diz respeito às cedências naquilo que considera um direito de seu povo, do outro lado não é diferente, o que dificulta a possibilidade do estabelecimento de entendimentos.

Para um grupo islâmico de orientação radical, como o Hamas, na maioria das vezes, as tréguas são tratadas em conformidade com a hudna(trégua)[7] que não significa o fim das hostilidades, mas um acordo por tempo determinado que poderá ser renovado. Para o Hamas, acertar um acordo definitivo ou fazer algum tipo de concessão significa render-se ao adversário. A manutenção do mesmo pensamento e da mesma atitude das partes envolvidas no conflito trava as negociações, o que passa a exigir dos intervenientes e da comunidade internacional, cada vez mais, a imparcialidade para tentar negociar um cessar-fogo em benefício, acima de tudo, das populações locais evitando, assim, mais um desastre humanitário.                

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Imagem Palestinos se abraçam perto de uma mesquita destruída na sequência de um ataque israelense em Jabalia, distrito do norte da Faixa de Gaza, 24 de julho de 2014” (Fonte):

http://www.haaretz.co.il/st/inter/Heng/news/images/wer1.jpg

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.al-monitor.com/pulse/originals/2014/04/gaza-growing-population-challences.html

[2] Ver:

http://www.theguardian.com/world/2014/jul/29/israel-gaza-infrastructure-blackouts-idf-civilian

[3] Ver:

http://www.theguardian.com/world/2014/jul/29/israel-gaza-infrastructure-blackouts-idf-civilian

[4] Ver:

http://english.al-akhbar.com/content/gaza-miracle-baby-dies-due-power-cuts

[5] Ver:

http://www.ochaopt.org/documents/ocha_opt_sitrep_04_08_2014.pdf

[6] Ver:

http://www.ochaopt.org/documents/ocha_opt_sitrep_04_08_2014.pdf

[7] Ver:

Segundo Khaled Hroub, a hudna é “uma prática de guerra islâmica tradicional mais flexível, que foi usada pela primeira vez pelo profeta Maomé na famosa hudna de Hudaybiyah...” (HROUB, 2008: 87).

HROUB, Khaled – Hamas. Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil, 2008.

About author

Possui graduação em Filosofia (bacharelado e licenciatura) pela Universidade Federal do Paraná (1999), com revalidação pela Universidade de Évora (2007), e mestrado em Sociologia (Poder e Sistemas Políticos) pela Universidade de Évora (2010). É doutoranda em Teoria Jurídico-Política e Relações Internacionais (Universidade de Évora). É professora da Faculdade São Braz (Curitiba), pesquisadora especialista do CEFi – Centro de Estudos de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa), e pareceirista do CEIRI Newspaper (São Paulo).
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