ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

A “Diplomacia Futebolística” no “Oriente Médio”

É importante não ignorar o papel que o futebol possui no cenário mundial, mobilizando, direta e indiretamente, grande número de atores e sendo instrumentalizado segundo os mais variados objetivos – sociais, econômicos, políticos e comerciais, por exemplo. Outrossim, muitas vezes este assume ares de uma contundente válvula de escape para tensões e conflitos, palco no qual pseudolutas são travadas, bem como esperanças e frustrações são canalizadas, refletindo, assim, a imagem do mundo em que vivemos nas suas mais diversas esferas, tanto política e econômica como social.

A acentuada penetrabilidade deste esporte no cenário internacional, haja vista que o futebol parece não conhecer limites nem fronteiras, o torna, muitas vezes, um percuciente instrumento de poder nas relações internacionais e, inclusive, matéria de pauta diplomática, dado que este tem sido comumente utilizado como propulsor da imagem e inserção internacional de alguns Estados na arena mundial. Com relação a este aspecto, segundo o pesquisador francês, Pascal Boniface, embora a definição clássica de Estado repouse sob três critérios tradicionais – um território, uma população e um governo – poderíamos acrescentar um quarto: uma equipe nacional de futebol. Ainda de acordo com Boniface, atualmente a independência nacional se caracterizaria pela capacidade de um Estado defender suas fronteiras, emitir moeda e disputar competições futebolísticas no plano internacional[1].

Por outro lado, o futebol também tem se mostrado uma ferramenta que auxilia na resolução de conflitos e na busca pela paz – dado ser este esporte um elemento de paz e aproximação entre os povos – e um instrumento de políticas de cooperação internacional e de ajuda ao desenvolvimento. Desta forma, por estar embasada na utilização do futebol como um relevante instrumento de ação nas relações internacionais esta prática diplomática não-tradicional recebe a denominação de diplomacia futebolística*. Em adição, cumpre registrar que a diplomacia futebolística não emana exclusivamente de atores estatais, embora os Estados sejam os que mais se favorecem desta prática. ONGs, fundações e, principalmente, clubes de futebol, vêm executando inúmeras ações no cenário internacional neste sentido.

Segundo Mario Santos, pesquisador deste tema, um dos mais recorrentes campos de aplicação da diplomacia futebolística tem sido o arrefecimento de conflitos – sejam estes internos ou entre países –, visto que o futebol representa um palco no qual se desenrolam gestos positivos e simbólicos que têm a capacidade de auxiliar, de forma muitas vezes mais significativa do que infrutíferos discursos políticos eivados de retórica ou certas resoluções internacionais, na solução pacífica de conflitos civis ou internacionais[2].

O Governo brasileiro, por exemplo, utilizou desta ferramenta em 2004, no Haiti, como estratégia fundamental para os esforços de pacificação no país, quando da liderança do Brasil na “Missão das Nações Unidas de Estabilização do Haiti (MINUSTAH), por ocasião do “Jogo da Paz”. E é justamente esta potencialidade do futebol que volta a se destacar no cenário internacional, desta vez pensada não por um governo, mas sim por um clube de futebol, o “FC Barcelona”, que carrega em seu seio uma identidade nacional catalã bastante acentuada.

Assim, conforme o noticiado na mídia, no início de agosto deste ano (2013), o Barcelona realizou uma “Peace Tour” (“Turnê da Paz”, em português) no “Oriente Médio”, tendo visitado Israel e Palestina, no intuito de contribuir para o processo de paz na região, tendo em vista a utilização do futebol como ferramenta. Segundo Javier Faus, vice-presidente econômico do Barcelona e responsável pela condução das negociações para a realização da “Peace Tour”, esta viagem foi pensada apenas por razões institucionais, não visando objetivos comerciais. Apesar de reconhecer que a “Peace Tour” ajudaria a promover o nome do clube junto aos povos árabe e judeu, Jaus ressalta que as razões determinantes foram baseadas na intenção de poder auxiliar, mesmo que de forma mínima, no processo de paz entre ambos os povos e na de mostrar como o esporte pode ser utilizado para construir pontes entre os povos.

Tornada concreta após sete meses de conversar e quatro visitas a ambos os Estados (Palestina e Israel), a “Peace Tour” foi iniciativa que contou com o apoio dos governos de Israel e da Palestina. Inicialmente, cogitou-se a realização de uma partida entre o Barcelona e uma equipe formada por jogadores palestinos e israelenses. Todavia, devido às complexidades políticas existentes na região à época do início das negociações, esta ideia foi rechaçada tanto pelo presidente israelense, Shimon Peres, quanto pelo presidente da “Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, segundo informam as reportagens consultadas. Destarte, tendo em vista a impossibilidade da realização da partida, o Barcelona sugeriu que houvesse duas clínicas de futebol – uma em Israel e outra na Palestina, sendo ambas de mesma duração, importância e gratuitas – para as crianças da região, o que ficou acordado entre a diretoria do clube e os governos dos dois países.

Em 3 de agosto de 2013, a delegação oficial do Barcelona (jogadores e dirigentes), liderada por Sandro Rosell, presidente do clube, iniciou viagem para o “Oriente Médio”, visando fortalecer laços institucionais com os líderes de Israel e da Palestina, bem como construir pontes para um diálogo de paz entre estes. Nesta mesma data, ao chegar na Palestina, a delegação do clube visitou, primeiramente, a “Basílica da Natividade”. Logo em seguida, foi recepcionada, com honras de “Chefe de Estado”, por Mahmoud Abbas, ocasião em que Jibril Rjoub, chefe da “Associação Palestina de Futebol”, declarou ser este um dia histórico para o povo palestino e que o esporte é a melhor forma de superar o ódio e as hostilidades. Após, os jogadores seguiram para o “Estádio Municipal de Dura”, na Cisjordânia, local de realização da primeira clínica de futebol da “Peace Tour”, com as crianças palestinas.

No dia seguinte, 4 de agosto de 2013, conforme a tratativa inicial, toda a delegação do Barcelona rumou para Israel, dando continuidade à “Peace Tour”. Em Israel o primeiro lugar visitado foi o “Muro das Lamentações”, em Jerusalém. Depois, a delegação foi recebida, em cerimônia oficial, por Shimon Peres e por Benjamin Netanyahu, primeiro ministro israelense. Após a cerimônia, todos se dirigiram para o “Bloomfield Stadium”, em “Tel Aviv”, local de realização da segunda clínica de futebol. A se ressaltar que, como parte desta clínica, o “Ministério da Educação de Israel” anunciou o lançamento da campanha “The Other is Me” (O “Outro sou Eu”, em português), iniciativa que irá vigorar nas escolas em Israel durante o ano letivo 2013/2014 e tem por meta estimular a tolerância e a paz no sistema educacional do país.

Cumpre registrar, de forma a deixar clara a prática da “Diplomacia Futebolística” em Israel e na Palestina, levada a cabo pelo Barcelona, o discurso de agradecimento proferido por Shimon Peres, para quem o futebol auxilia, sobremaneira, nos processos de pacificação. Nas palavras de Peres: “Vocês possuem um futebol de alto nível. Mas mais do que isso, vocês tem transmitido uma mensagem de solidariedade, amizade e cuidado para com os mais fracos. Vocês são mensageiros da paz. Milhões de pessoas os amam e vocês oferecem seu próprio amor a estas pessoas. Muitíssimo obrigado[3]. Por fim, encerrada a “Peace Tour”, a delegação do Barcelona seguiu para a Ásia, mercado no qual, segundo Sandro Rosell, o clube deve buscar atingir e divulgar sua respectiva imagem, visando inúmeros interesses econômicos na região.

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* Termo cunhado, em 2010, pelo estudioso das relações entre futebol e política externa, Mario A. Santos, e originalmente utilizado na dissertação de mestrado intitulada “Esporte e Relações Internacionais: A Diplomacia Futebolística como Ferramenta de Soft Power – O Caso do Brasil”.

** Amistoso disputado entre a seleção brasileira e a seleção haitiana de futebol, em “Porto Príncipe”, no Haiti.

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ImagemO Futebol Auxiliando no Processo de Pacificação no Oriente Médio” (Fonte):

http://www.fcbarcelona.com/club/detail/article/fc-barcelona-finalise-peace-tour-arrangements

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

BONIFACE, P. Football et Mondialisation. Paris: Armand Colin, 2010.

[2] Ver:

SANTOS, M. A. Esporte e Relações Internacionais: A Diplomacia Futebolística Como Ferramenta de Soft Power – O Caso do Brasil. Dissertação de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da UERJ/PPGRI-UERJ. Apresentada em novembro de 2011.

[3] Ver:

http://www.fcbarcelona.com/club/detail/article/missatge-de-pau-a-israel

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Ver Também:

http://www.fcbarcelona.com/club/detail/article/fc-barcelona-finalise-peace-tour-arrangements

Ver Também:

http://gulfnews.com/sport/football/shimon-peres-praise-for-barcelona-as-peace-tour-kicks-off-in-israel-1.1216622

Ver Também:

http://www.fcbarcelona.com/club/detail/article/palestine-goes-wild-for-barca

Ver Também:

http://www.fcbarcelona.com/club/detail/article/faus-we-re-the-number-one-team-in-israel-and-palestine

 

About author

Mestre em Relações Internacionais pela UERJ, Especialista em História das Relações Internacionais e Bacharel em Ciências Econômicas pela UFRJ. Possui experiência na área de Economia, com ênfase em Economia Política Internacional e Formação Econômica Brasileira. Foi bolsista de FAPERJ por um ano e Bolsista de Vocação para Diplomacia do Instituto Rio Branco (IRBr) por 4 (quatro) anos. Áreas de interesse: Esporte e Relações Internacionais; Diplomacia Futebolística; e Soft Power e Política Externa.
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