DIPLOMACIA CORPORATIVANOTAS ANALÍTICAS

A estratégia da empresa ucraniana Naftogaz para enfrentar o contencioso do gás entre Rússia e Ucrânia

A Rússia é o principal provedor de gás natural para o continente europeu. Só a Alemanha compra 60% da commodity, fornecida por corporações gigantes russas deste setor, como GAZPROM ou ROSNEFT. Quase todo esse gás passa por gasodutos que cruzam a Ucrânia e, não por acaso, este país também é muito dependente da matéria-prima energética proveniente de seu vizinho setentrional.

Como a situação política na Ucrânia tem sido marcada por instabilidade nos últimos anos, oscilando entre governos pró-russos e anti-russos, a nova estratégia do Kremlin tem sido criar uma rota alternativa para transportar a maior parte de seu gás para a Europa, sobretudo a Alemanha, sem que ocorram sobressaltos. Nesse sentido, apostou-se na construção de uma nova linha de transmissão no Mar Báltico, chamada de NORD STREAM 2, que é do interesse de Moscou e de Berlim, mas tal ação pode levar a duas consequências se nada for feito para contornar o resultado que ela trará: o isolamento geopolítico da Ucrânia e o seu estrangulamento econômico.

Gasodutos e oleodutos entre Rússia e Europa

O principal gasoduto atualmente utilizado foi construído nos tempos da extinta União Soviética, quando sequer se cogitava a instabilidade política contemporânea. Por volta de 70% do gás russo passa por território ucraniano e, quando do esfacelamento da antiga União Soviética, em 1991, ex-repúblicas que faziam parte dela se viram como países independentes, com necessidade de se inserirem no mercado mundial. Neste momento, a Ucrânia percebeu a possibilidade de fazer negócios, usando da principal “vantagem comparativa” que detém: a posição geográfica em que está entre o maior produtor, a Rússia, e os maiores consumidores, os países da Europa Ocidental.

São cerca de dois a três bilhões de dólares anuais deixados como uma espécie de pedágio para transmissão do gás natural, o equivalente a entre 2,5% a 3% do PIB da Ucrânia, um percentual considerado relativamente pequeno perto do tamanho do problema político. No que envolve os dois países, a Rússia e a Ucrânia, os contenciosos podem ser usados como instrumentos políticos. Dependendo do tipo de governo que assuma o controle na Ucrânia, a Gazprom, uma das principais exportadoras russas, pode aliviar ou aumentar os preços. As animosidades entre os dois países já levaram os ucranianos a ficarem sem gás em 2006 e em 2009 e, neste último caso, boa parte da Europa também foi afetada. Esta situação levou à busca de alternativas, como a importação de gás liquefeito do Qatar, ou gás natural da Noruega.

A partir de 2010, novas mudanças de rumo ocorreram. Victor Yanukovich assumiu a Presidência adotando um governo pró-Rússia que, por sua vez, aplicou uma política de preços baixos e trouxe benefícios à economia e às empresas do setor na Ucrânia. No entanto, embora a principal companhia de distribuição de gás deste país, o monopólio estatal NAFTOGAZ, empregue 175.000 pessoas, se tornando uma das principais fontes de renda para os ucranianos, tal situação é responsável também pelos déficits públicos, algo que, ao longo do tempo, sempre oscilou de acordo com a política adotada em relação à Federação Russa.

O mau desempenho da economia aliado à insatisfação política resultaram em meses de violentas manifestações em 2014, conhecido como EUROMAIDAN, o que levou ao afastamento do Presidente e à sua substituição por um governo pró-ocidental, próximo da União Europeia e OTAN. Tal movimento levou à detenção do conselheiro da Naftogaz, Yevehen Bakulin, e à sua substituição por Andriy Kobolyen, o novo CEO, cujas metas são basicamente duas: acabar com a corrupção da empresa, o que girava em torno de 4,5 bilhões de dólares ao ano (aproximadamente 17,16 bilhões de reais, de acordo com a cotação de 18 de março de 2019), ou  5% do PIB do país, segundo o Institute for Economic Research and Policy Consulting, um think tank de Kiev; e acabar com a dependência da Rússia. Observadores apontam que a primeira meta não é fácil devido aos poderes já encastelados na empresa, por essa razão a segunda meta se tonou o passo decisivo.

Acrescente-se que a implementação de uma reforma no setor do gás, retirando seus subsídios ao consumidor, fez com que a Naftogaz passasse a dar lucros pela primeira vez em décadas, razão pela qual a medida passou a ser vista como uma garantia para manter a empresa e a economia do setor saneados, levando a certeza de que deve ter continuidade. Além disso, a utilização de equipamentos mais modernos, por exemplo, ainda pode fazer o consumo energético da Ucrânia cair para a metade, revelando um grande potencial de economia e aumento de eficiência. Tais considerações demonstraram que o desperdício ainda é alto no país, se comparado a outras economias. Por exemplo, a Ucrânia tem um nível de consumo per capita mais de três vezes maior do que a Polônia.

Nesse interim, a Naftogaz passou de uma empresa deficitária com perdas da ordem de 6% do PIB (2014) para responder por 13% da renda do Estado. E o novo CEO, Kobolyen, foi além, ao contornar a tática russa de pressionar com preços altos contra governos pró-ocidentais, adotando uma estratégia baseada nas regras do mercado. Nesse sentido, nos contratos, todo gás enviado pelos russos passou a ser de responsabilidade e controle de seus importadores quando chega ao seu destino. Desta forma, Kobolyen enviava o gás russo pelo gasoduto na Ucrânia até a Eslováquia para depois recomprar o gás que retorna pelo mesmo gasoduto. Ao invés de arcar com os custos acrescentados por Moscou, a estratégia da Naftogaz reduziu o valor a cerca de 20% do que seria gasto no caso de uma importação direta.

Por mais eficazes que sejam tais procedimentos comerciais, o presidente da companhia russa, a Gazprom, já anunciou que, em 2020, o gasoduto que atravessa a Ucrânia só levará 10% do que transporta atualmente, embora avaliações mais recentes sejam da ordem de menos da metade, ou seja, talvez na casa de 40% e não 10%. Ainda assim, será uma queda significativa.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Logo da NAFTOGAZ, companhia de gás estatal ucraniana ” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Naftogaz_logo.png

Imagem 2 Gasodutos e oleodutos entre Rússia e Europa” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:RF_NG_pipestoEU.gif

About author

Licenciado em Geografia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 1987 e Mestre em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo (USP) em 2008. Mantém interesse e pesquisa nas áreas de Geografia Urbana, Geopolítica e Epistemologia da Geografia. Co-autor do livro "Não Culpe o Capitalismo".
Related posts
NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Conferência sobre albinismo nos PALOP

EUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Estônia reivindica território da Rússia

NOTAS ANALÍTICASTecnologia

Rússia aprova lei para banir aparelhos sem tecnologia doméstica

EUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Ataque com faca, em ponte de Londres, agita campanha eleitoral

Receba nossa Newsletter

 

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Open chat
Olá!
Powered by