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A estratégia econômica da Rússia para o Ártico

Considerado um dos lugares mais inóspitos e inacessíveis do planeta, o extremo norte da Federação Russa é banhado pelo Oceano Glacial Ártico, que cobre cerca de 60% dos mais de 37,6 mil quilômetros de litoral dessa nação, e, possuindo em sua plataforma marítima uma das maiores reservas de hidrocarbonetos do mundo, este oceano está transformando o país na potência dominante da região, segundo estudos do Instituto Sueco para os Assuntos Internacionais.

Região do Ártico

Nos últimos anos, a Rússia vem consolidando uma série de pesquisas e investimentos na área de prospecção de recursos naturais em ambientes extremos, que vão desde o lançamento de robôs para exploração submarina em grandes profundidades, até a criação de novos tipos de materiais resistentes ao frio extremo do Ártico, os quais serão utilizados nas plataformas de petróleo. Todo esse recurso empregado, que atingirá somas bilionárias, tem o objetivo de explorar depósitos em áreas litorâneas, com capacidades estimadas em 28 bilhões de barris de petróleo, 31 bilhões de barris de gás natural liquefeito, além dos incríveis 356 bilhões de metros cúbicos de gás, segundo estudos do United States Geological Survey (USGS).

A pesquisa também demonstra que a capacidade estimada total, ainda inexplorada para o Ártico, irá atingir mais de 90 bilhões de barris de petróleo, abrangendo não só os já citados depósitos da Federação Russa, mas, também, áreas do Estado norte-americano do Alasca, áreas do Canadá, Groelândia, Noruega, além de pontos ultramarinos não pertencentes à nação alguma, representando cerca de 20% do total da capacidade mundial.

Putin no Ártico

De olho nesse vácuo geopolítico das regiões inexploradas, a Federação Russa já vem reivindicando desde  2001 uma ampliação de suas fronteiras marítimas em 1,2 milhão de quilômetros quadrados para melhor exploração dos recursos naturais, pois, atualmente, de acordo com a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (norma da ONU de 1982), um país pode explorar economicamente os recursos naturais e os combustíveis fósseis que estiverem até 370 quilômetros de sua costa, sendo que, se essa nação apresentar evidências geológicas de que sua plataforma continental* se estenda além desta distância, poderá reivindicar o direito de ampliação do território a ser explorado. Em 2015, a ratificação do pedido de estender sua fronteira marítima foi suportada por testes sísmicos, exames de solo e outros dados científicos apresentados à Comissão da ONU de Limites da Plataforma Continental (CLCS – Commission on the Limits of the Continental Shelf), considerando que a cordilheira Lomonosov e o cume Mendeleiev são continuação da plataforma continental da Sibéria, que se encontra dentro do território russo.

Outro ponto importante na exploração econômica da região seria a ampliação de rotas marítimas comerciais no Mar do Norte, que se configura como uma alternativa à tradicional travessia pelo Canal de Suez, no Egito. Com o aquecimento global, as calotas de gelo que cobrem o extenso litoral ártico da Rússia tiveram sua espessura consideravelmente reduzida, permitindo um tráfego de navios de uma maneira muito mais fluída. Tomemos, como exemplo, uma viagem comercial, via Canal de Suez, entre Roterdã, na Holanda, até Ulsan, na Coreia do Sul, com aproximadamente 20 mil quilômetros de distância e um tempo de travessia em torno dos 70 dias. A mesma viagem, pela rota do Ártico, percorreria uma distância de 14,8 mil quilômetros (26% menor) e levaria em torno de 60 dias para chegar ao destino. Isto posto, além da economia de combustível, entre outros insumos, também poderia evitar o número de casos de pirataria, tão comuns na região entre a Indonésia, Malásia e costa da Somália. Em termos comerciais, levaria à uma redução considerável dos fretes e muito provavelmente a um aumento no número dessas trocas comerciais.

Rota marítima do Ártico

Com o intuito de reforçar sua soberania na região e colocar regras de navegação comercial ao longo da Rota Marítima do Norte, o presidente russo Vladimir Putin assinou uma nova lei que irá mudar o transporte de petróleo no Ártico, onde somente navios russos terão direito exclusivo de utilização do percurso. Esta norma entrará em vigor em 31 de dezembro de 2018. A partir desta data, a rota será fechada para os navios com bandeiras estrangeiras. No entanto, isso não significa que a Rússia esteja fechando completamente a entrada para empresas de outros países. Uma empresa estrangeira, se for registrada sob a bandeira russa, poderá passar ao longo da rota como em qualquer outra parte do Ártico.

Para garantir a efetividade das operações sob condições tão extremas de frio, tanto para a exploração dos recursos naturais, como para a utilização da nova rota marítima, os russos estão construindo a maior e mais forte frota de quebra-gelos do mundo. Em maio de 2015, eles tinham pelo menos 14 quebra-gelos em construção e mais outros em planejamento. Um dos projetos, o LK-60, com 173 metros de comprimento, um navio quebra-gelo movido a energia nuclear, será o maior navio do gênero no mundo, e será capaz de romper camadas de gelo com três metros de espessura. A Rússia está planejando a construção de, pelo menos, dois destes navios, com datas operacionais esperadas para o final de 2019 e final de 2020, respectivamente. Outro projeto em andamento é o LK-25, que será o maior navio quebra-gelo movido a diesel do mundo, capaz de atravessar calotas de gelo com dois metros de espessura. No geral, a Federação Russa tem mais de 40 quebra-gelos, significativamente mais do que qualquer outro país. Os Estados Unidos, por comparação, têm apenas um quebra-gelo pesado operacional em serviço.

Todo o processo de desenvolvimento econômico da região do Ártico será acompanhado também pelo reforço e modernização da infraestrutura militar russa no local, pois, apesar de ser o detentor da maioria do espaço geográfico e dos recursos de infraestrutura, a Rússia não estará sozinha nesta empreitada, tendo como “competidores” países da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), que cada vez mais estão interessados na exploração não só das riquezas da região, como também na localização estratégica que o Ártico apresenta.

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Notas:

* Em oceanografia, geomorfologia e geologia, chama-se plataforma continental à porção dos fundos marinhos que começa na linha de costa e desce com um declive suave até o fundo marinho mais pronunciado.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Plataforma de petróleo russa no Ártico” (Fonte):

http://only-paper.ru/_fr/202/1218585.jpg

Imagem 2 Região do Ártico” (Fonte):

https://pbs.twimg.com/media/DNtjRhcUMAAtBx4.png:large

Imagem 3 Putin no Ártico” (Fonte):

https://sputniknews.com/russia/201703301052132811-putin-franz-joseph-land/

Imagem 4 Rota marítima do Ártico” (Fonte):

https://guerraearmas.wordpress.com/tag/polo-norte/

About author

Bacharel em Ciências Econômicas pelo Centro Universitário da Fundação Santo André (CUFSA) e pós-graduado em Economia pela FEA-USP (MBA). Habilitado em Iniciação Científica em Defesa, pela Escola Superior de Guerra (ESG-RJ), e Especialista em Docência no Ensino Superior (SENAC). Atuou durante 7 anos como educador no Projeto Formare da Fundação Iochpe, ministrando aulas sobre Ética, Sociedade, Política e Democracia. Atualmente, é pós-graduando em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Tem grande interesse nas áreas de Geopolítica, Relações Internacionais e Economia Política Internacional
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