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A Força 14, embrião da Força Aérea e das Linhas Aéreas Palestinas

A Palestina, desde há muitos anos, tem feito tentativas para colocar em prática os elementos fundamentais que compõem um Estado. A criação de muitas dessas infraestruturas correspondeu ao sonho de seus líderes, dentre os quais se destaca Yasser Arafat. A Força 14 foi, na verdade, um objetivo estratégico delineado por Arafat, que constituiu o embrião da futura Força Aérea Palestina, fundada no seio do Fatah durante 1968 e 1969. Dois anos mais tarde, a Força 14 foi agregada à Brigada Yarmouk, grupo irregular fundado por militantes do Fatah, após o conflito entre as forças palestinas, que tencionavam derrubar o Rei Hussein, e o Exército da Jordânia[1]. Tempos depois, a futura Força Aérea Palestina foi transformada numa unidade independente, a já referida Força 14.

A Força 14 era constituída por pessoal de combate, tripulações de helicópteros e pilotos de transporte. Por muito tempo foi mantida em sigilo, pelo que as informações sobre ela eram praticamente inexistentes. A partir do vazamento de alguns relatórios, tornou-se possível conhecer mais detalhes sobre esta Força Aérea que, segundo informações, formou um dos braços armados da Organização para a Libertação da Palestina (OLP)[2]. De acordo com um relatório de 1985, o coronel piloto aviador palestino Husayn Uwaydah rompeu o silêncio sobre a Força 14 tendo afirmado que, quando criou esta Força Aérea, a OLP tinha a intenção de treinar pilotos suicidas para missões estratégicas contra Israel. Porém, em inícios de 1970, conforme afirmou o Coronel, ocorreu uma mudança de rumo e os objetivos passaram a concentrar-se na criação de uma Força Aérea Palestina para operar em coordenação com as Forças Aéreas dos países árabes e, assim, ampliar o braço aéreo da OLP[3].

Inicialmente, o plano de alargamento dessa força da OLP teve dificuldades para a implantação, pois os oficiais do Exército da OLP não estavam dispostos a investir num outro braço armado. Mas, com o tempo, eles mudaram de opinião e a ideia foi bem sucedida, tendo estabelecido laços com as Forças Aéreas e companhias aéreas de vários países, principalmente com as do Terceiro Mundo[4]. Contudo, o papel principal da Força 14 foi mais político do que militar e as suas atividades foram essencialmente o transporte de pessoas e de cargas, não havendo nenhum envolvimento em qualquer ação contra Israel. Alguns pilotos da Força 14passaram por treinamentos na URSS, Marrocos, Argélia e Líbia[5].

Contrariando as expectativas, o apoio da URSS e a formação dos pilotos em territórios estrangeiros não foram suficientes para a formação de uma Força Aérea Palestina. Porém, no decorrer dos anos, alguns acontecimentos confirmaram a presença aérea palestina fora do território nacional. Em 1982, um piloto palestino despenhou-se num Mig21, no Iêmen[6]. Outro dos indícios de desenvolvimento de uma Força Aérea foi a compra, em 1984, de um DC8 para transporte[7], fato que, de certo modo, revela uma mudança estratégica e de objetivos por parte das lideranças palestinas.

Após o fracasso dos Acordos de Oslo (1993), a Polícia Aérea [em inglês: Aviation Police] sucedeu à Força 14. A unidade foi alocada com três helicópteros russos MI17, que foram destruídos por Israel durante a Segunda Intifada, ou Intifada de alAqsa[8]. Os aviões e helicópteros utilizados pela Força 14 incluíam as seguintes aeronaves: Aermachi SF 260, Bell 206, Mi17,Boeing Ch47 Chinook, Fokker F27, McDonnell Douglas DC8, Mig21 e Mig23[9]. Na sequência, a Força 14 perdeu definitivamente o caráter militar e passou a ser designada como Linhas Aéreas Palestinas, sendo propriedade da Autoridade Nacional Palestina, com a fundação ocorrida em 1o de janeiro de 1995. A companhia iniciou as operações em 1997[10].

O Aeroporto Internacional Yasser Arafat, também conhecido como Aeroporto Internacional de Gaza, foi inaugurado em 1998, na cidade de Raffah, em Gaza, e significou, para os palestinos, um dos símbolos do futuro Estado. Mas ele não teve vida longa, pois Israel se sentiu ameaçado e pediu o encerramento daquela infraestrutura por motivos de segurança[11], após o fim das negociações de paz lideradas pelos EUA, em 2000[12].

Durante sete anos, a companhia esteve encerrada, em consequência do agravamento do conflito israelo-palestino, só voltando a operar em 2012, com apenas dois aviões turbo-hélice, de 48 lugares, em dois voos semanais[13]. Antes da cessação das operações, em 2005, a companhia atuou com diversos tipos de aeronave: um Boeing 727200, dois Bombardier Dash 8300 e um Il62. Foi encomendado um avião CRJ200, à Bombardier, mas este nunca chegou a ser entregue[14]. A frota atual é composta por um Boeing 727230, construído em 1978[15], e dois Fokker 50, respectivamente com matrícula SUYAH[16] e SUYAI[17].

Em 2012, com o Aeroporto Internacional de Gaza destruído, as Linhas Aéreas Palestinas passaram a operar baseadas no Aeroporto El Arish, no Egito, a 60 Km de Gaza[18]. Na época, o Presidente das Linhas Aéreas Palestinas, Zeyad Albada, fez a seguinte declaração: “A razão pela qual a companhia está de volta é para reduzir o sofrimento do nosso povo em Gaza.No momento, eles têm de viajar 400-500 quilômetros da fronteira para o aeroporto do Cairo de onde eles voam para o resto do mundo. A outra razão foi para reativar os nossos funcionários palestinos, porque estes são aviões que levantam a bandeira palestina, que é um símbolo de soberania para nós[19].

Hoje, o Aeroporto Internacional de Gaza encontra-se em ruínas[20] e o sonho palestino parece distante quando confrontado com a realidade. No mundo extremamente competitivo da aviação comercial, as Linhas Aéreas Palestinas têm seu futuro imediato seriamente comprometido. Com efeito, a ausência de um aeroporto internacional em território palestino, a frota escassa e obsoleta e a limitação de rotas concessionadas em muito contribuirão, num período de tempo não distante, para o desaparecimento desta companhia aérea criada pelos avatares da História recente do Oriente Médio.

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Imagem Boeing 727230, da Palestinian Airlines (SUYAK) (Fonte):

http://www.airliners.net/photo/Palestinian-Airlines/Boeing-727-230-Adv/1894158/L/

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://news.bbc.co.uk/onthisday/hi/dates/stories/september/17/newsid_4575000/4575159.stm

[2] Ver:

AAVV, Near East/South Asia Report – JPRS-NEA-85-145, Springfield, Foreign Broadcast Information Office – Joint Publications Research Service, 09.12.1985, pág. 43.

[3] Ver:

AAVV, Near East/South Asia Report – JPRS-NEA-85-145, op. cit., págs. 43-44.

[4] Ver:

AAVV, Near East/South Asia Report – JPRS-NEA-85-145, op. cit. pág. 44.

[5] Ver:

AAVV, Near East/South Asia Report – JPRS-NEA-85-145, op. cit. pág. 43.

[6] Ver:

https://malaysiaflyingherald.wordpress.com/

[7] Ver:

https://malaysiaflyingherald.wordpress.com/

[8] Ver:

http://www.ynetnews.com/articles/0,7340,L-3689276,00.html

[9] Ver:

https://malaysiaflyingherald.wordpress.com/

[10] Ver:

http://articles.latimes.com/keyword/palestinian-airlines

[11] Ver:

http://news.bbc.co.uk/2/hi/middle_east/4449461.stm

[12] Ver:

http://www.haaretz.com/news/diplomacy-defense/palestinian-airlines-back-in-the-air-after-7-years-1.432828

[13] Ver:

http://www.haaretz.com/news/diplomacy-defense/palestinian-airlines-back-in-the-air-after-7-years-1.432828

[14] Ver:

http://www.palestinianva.net/site/home/home-gallery/member-galleries/anna-papageorgiou/palestinian-airlines-crj200-c-ghut-82

[15] Ver:

http://www.airport-data.com/aircraft/SU-YAK.html

[16] A aeronave com matrícula SUYAH pertenceu sucessivamente à Austrian Air Services, às Linhas Aéreas Palestinas (desde 1996), foi alugado àAir Memphis, em 2011, tendo regressado à companhia proprietária em 2012. Em 1o de maio de 2014, a aeronave foi alugada à Niger Airlines. Ver:

http://www.airfleets.net/ficheapp/plane-f50-20123.htm

[17] A aeronave com matrícula SUYAI realizou seu primeiro voo em 20 de dezembro de 1988. Ela integrou, sucessivamente, a frota da Austrian Air Services (desde 1989), da Palestinian Airlines (a partir de 1996), tendo sido alugado à Air Memphis (2011). Regressou ao serviço da Palestinian Airlines em 1o de junho de 2012, tendo sido alugado à Niger Airlines em 1o de maio de 2014. Ver:

http://www.airfleets.net/ficheapp/plane-f50-20123.htm

[18] Ver:

http://www.thenational.ae/news/world/middle-east/palestinian-airlines-takes-off-after-being-grounded-for-seven-years

[19] Ver:

http://english.cntv.cn/program/newsupdate/20120528/107047.shtml

[20] Ver:

http://america.aljazeera.com/watch/shows/america-tonight/articles/2014/7/25/dashed-dreams-howgazasshortlivedairportnevertookoff.html

About author

Possui graduação em Filosofia (bacharelado e licenciatura) pela Universidade Federal do Paraná (1999), com revalidação pela Universidade de Évora (2007), e mestrado em Sociologia (Poder e Sistemas Políticos) pela Universidade de Évora (2010). É doutoranda em Teoria Jurídico-Política e Relações Internacionais (Universidade de Évora). É professora da Faculdade São Braz (Curitiba), pesquisadora especialista do CEFi – Centro de Estudos de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa), e pareceirista do CEIRI Newspaper (São Paulo).
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