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A Guerra Civil Síria: os passos dos atores envolvidos

A Guerra Civil na Síria entra em seu quinto ano, com perspectivas pessimistas em torno dos desdobramentos futuros. O conluio belicista que já vitimou aproximadamente 500 mil pessoas, afugentou de suas terras outros milhares e produziu o maior deslocamento humano desde os tempos da Segunda Guerra Mundial, direciona-se a uma nova fase, um cessar-fogo costurado como ferramenta diplomática emergencial, imposta no tabuleiro geopolítico pelas grandes potências (leia-se Estados Unidos e Rússia), a fim de iniciar um processo de estancamento das barbáries promovidas pelos inúmeros grupos que participam dessa empreitada hegemônica, nacionalista, étnica e sectária que forma um emaranhado de interesses impossíveis de desatar até o presente momento.

O cessar-fogo entrou em vigor à meia-noite deste último sábado, 27 de fevereiro de 2016,  em algumas regiões do território sírio, embora, de acordo com fontes do Observatório Sírio para Direitos Humanos, há relatos de combates no noroeste e no leste do país, uma vez que da trégua estão excluídas ações contra o Estado Islâmico (EI – ISIS – Daesh) e a Frente al-Nusra (esta última, uma ramificação síria da Al-Qaeda), além ocorrer a rejeição por parte das referidas organizações terroristas sobre o Acordo, as quais estão instando insurgentes ao combate, que, pro sua vez, intensificaram os ataques contra o regime de Bashar al-Assad e seus aliados.

Concomitantemente a medida negociada entre os aliados de Washington com os aliados de Moscou, há um lapso na preponderância política dessa disputa geoestratégica que envolve inúmeros atores, os quais travam enredos paralelos para legitimação de poder regional e  acabam por inviabilizar as oportunidades de pavimentar a paz na região.

Nesse sentido, ao passo que Jonh Kerry, Secretário de Estado Norte-Americano, com seu homônimo russo, o chanceler Sergei Lavrov, tentam desenhar através do cessar-fogo o caminho para um acordo que pode ocorrer por meio da divisão da Síria em federações para todos os grupos étnicos e sectários que se digladiam no Oriente Médio, há, ao mesmo tempo, forças contrárias a tal iniciativa, como, por exemplo, a do próprio presidente Bashar al-Assad, que reafirma a pretensão de unidade do país.

Diante de tamanha instabilidade, além dos últimos dezessete meses de bombardeios da coalizão liderada pelos norte-americanos contra o Estado Islâmico, da tentativa de municiar “rebeldes moderados” para instaurar uma contrainsurgência financiada com investimentos de agências de inteligência ocidentais, que buscam a queda do atual regime, e da derrocada das organizações extremistas, que lutam por espaço no espectro político de um Estado em ruínas, acabou por ser acrescentado nos últimos meses este ator, a Federação Russa, cujo envolvimento na política internacional baseada no protagonismo da política externa norte-americana era fruto apenas da história do século passado.

A Rússia, como a nova ingressante neste xadrez geopolítico, surgiu como potencial apoiadora do Ocidente, porém com ressalvas importantes, que, pela visão estratégica de Vladimir Putin, chancelou o regime de Bashar al-Assad, bombardeando o Exército Livre Sírio (ELS), grupo que os Estados Unidos apoiavam com armamentos e informações de inteligência, assim como treinamento e cooperação técnica militar, e  também recebe apoio financeiro das monarquias sunitas do Golfo Pérsico, principalmente da Arábia Saudita, que, implicitamente, incita a manutenção do caos, através do braço fundamentalista, Frente al-Nusra.

Na direção oposta, com a entrada de Moscou no imbróglio, o Irã, o Grupo Hizbollah e milícias xiitas iraquianas alinham grandes avanços por terra, na tentativa de estrangular as linhas delimitadas inicialmente pela coalizão dos Estados Unidos, usando como pretexto o poder territorial adquirido pelo Estado Islâmico.

Ainda em consonância com o emaranhado político-militar que se tornou a Síria, a Turquia, que se opõe veementemente a posição de Washington e seus pares europeus da OTAN, no que tange principalmente aos curdos, Estado Islâmico e as negociações na Síria, passou a utilizar artilharia para frear o ímpeto separatista dos curdos, que, pelas mãos da YPG, a guerrilha separatista do Curdistão Turco ligada ao PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão – Parti Karkerani Kurdistan), luta contra o avanço dos extremistas islâmicos.

Ao passo que as unidades militares curdas tem até então os melhores resultados e resistência no campo de batalha, mesmo com pouco aparato de dissuasão, acende o alerta em Ancara, que não admite a criação de um Estado Nacional Curdo dentro de suas fronteiras e interpreta as ações dos curdos como oportunidades de legitimação territorial.

Para alguns especialistas em Oriente Médio e Política Internacional consultados, a conjuntura criada nesses cinco anos de conflito não terá através do cessar-fogo um resultado positivo como um preâmbulo às negociações de paz, ao contrário, tais medidas que virão a ser negociadas poderão ganhar contornos perigosos e contraproducentes. Nesse âmbito, portanto, há três questões que restringem a disparidade entre as aspirações e a realidade de uma Síria estável. São elas:

  1. Alinhamento com uma oposição realmente moderada, com fortalecimento militar assistido e investimentos;
  2. Criação de um modelo novo de Estado que permita estabilidade. Há linhas de pensamento que analisam que a unidade não é uma opção viável, mas, sim, a fragmentação em vários Estados, fato este que sofre bastante resistência, pelo fato de Bashar al-Assad não medir esforços em manter o país inteiro, principalmente por ter o apoio russo e do Hizbollah.
  3. Operação multilateral internacional para manter os possíveis acordos gerados com base nas duas premissas anteriores citadas, aliado ao fato da necessidade de incluir grandes cidades, como Aleppo e Homs, dentro de uma zona sunita, a qual poderia, ao longo dos anos, gerar saldos para uma oposição forte assumir o poder democraticamente.

Todos os pontos alinhados nessa conturbada reconstrução da ordem internacional voltarão a passar pelas mãos dos antigos tomadores de decisão, Estados Unidos e Rússia. Ou seja, os dois atores estão a utilizar a Síria como primeiro campo de batalha global para angariar mais poder e influência, depois de um hiato de duas décadas.  Contudo, ambos os Estados tem consciência que pode haver cooperação, uma vez que nenhum será capaz de conquistar tudo o que deseja, visto que as mudanças promovidas pela Guerra Fria não permitem mais que apenas os dois decidam os rumos do sistema internacional. No caso específico do Oriente Médio, os atores regionais estão na vanguarda, aprendendo a cooperar e confrontar, e tais manobras provavelmente criarão um destino de lutas em detrimento da paz.

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Imagem (Fonte):                                                                                                                      

http://twt-thumbs.washtimes.com/media/image/2016/01/21/APTOPIX_Switzerland_US_Kerry.JPEG-01075_c0-191-4560-2849_s885x516.jpg?ee11b371f42ce24af02700360f2ec2d44525f845

About author

Bacharel em Relações Internacionais (2009) pela Faculdades de Campinas (FACAMP), Especialista em Direito Internacional pela Escola Paulista de Direito (EPD) e Especialista em Política Internacional pelo CEIRI (Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais). Atuou em duas grandes multinacionais do setor de tecnologia e na área de Cooperação Internacional na Prefeitura Municipal de Campinas com captação de recursos externos, desenvolvimento de projetos na área econômica e comercial e buscando oportunidades de negócios para o município. Foi Consultor de Novos Negócios na Avanth International em Campinas/SP e atualmente é Analista de Foreign Trade e Customer Care na Novus International Inc. Escreve sobre América do Norte com foco nos Estados Unidos.
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