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ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

A inovação como base do crescimento chinês

Na China, muitas atividades sócio-culturais são baseadas em valores e princípios antigos, como os apresentados no Confucionismo, no Budismo, no Taoismo dentre os de outras doutrinas filosóficas. Seguindo essas filosofias a sociedade chinesa é conduzida  e progride de acordo com o momento adequado. As filosofias chinesas também foram aplicadas para o desenvolvimento econômico, levando vários observadores a afirmar que estes princípios são os responsáveis pela sua transformação na grande potência que é, orientando ainda a maneira de “pensar” em relação à educação, à inovação e à especialização de produção.

 

Os avanços da China foram comentados durante o seminário Brazil-China in the XXI Century: The Role of Innovation”, realizado nesta semana pela “Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo” (FEA-USP), o qual contou com a presença de Shaowei He, “Professor Sênior” da “University of Northampton” (“Reino Unido”), o qual apresentou dados de sua pesquisa “Chinese Innovation Giants and the Implications for the Global Economy”.

Shaowei He entende que o crescimento da China ocorreu devido a forma como ela trabalhou cada seguimento da economia, mas também pela maneira de interpretar os mercados e a forma de fazer negócios e marketings das grandes potências globais no passado e no presente.  Segundo avalia, as autoridades competentes do “Gigante Asiático” estudaram o estilo com que os Estados Unidos e os países europeus atuaram internacionalmente, bem como a metodologia das ações em suas políticas econômicas, um procedimento comum para os agentes econômicos atuais, mas que não recebiam atenção adequada de vários países em décadas passadas.

Até os anos 1980s, a China ainda não contava com um pólo industrial de ponta e nem com produtos industriais exclusivos para atuar no comércio internacional, por isso o mercado chinês se projetou para complementar os mercados já existentes. Enquanto no Ocidente as empresas fabricavam aparelhos celulares, os chineses fabricavam as baterias para eles e, com as diferenças de valorização da moeda chinesa comparativamente com a de outros países, o trabalho na China, no ponto de vista de empresários, mostrou-se atrativo, já que tinha mão-de-obra barata.

Tais visões foram favoráveis para o desenvolvimento do país, que, apesar de seu sistema político comunista, construiu uma base capitalistas nas regiões costeiras, deixando claro que o capitalismo existente tinha por objetivo apenas produzir e exportar. A sociedade chinesa de trinta anos atrás não tinha o poder aquisitivo que possui na atualidade. Por isso, naquele momento o melhor processo de desenvolvimento para a China foi produzir para exportar, obrigando-a a investir em infra-estrutura portuária com o fim de escoar seus produtos pelos portos existentes em toda sua região costeira.

O Governo chinês já tinha um planejamento: (1) especializar-se na produção de componentes; (2) ter uma infra-estrutura eficaz e eficiente; (3) compreender e se especializar no comércio internacional, focado em suas exportações e (4) investir na educação para elevar seu poder de negociação e ter mão-de-obra qualificada visando melhorar seus produtos e serviços. Para o Governo ficava a pergunta: como executar este planejamento?

Com a mão-de-obra barata no país e um “palco” construído para receber o “capitalismo”, a China começou a receber as grandes corporações com “Investimento Externo Direto” (IED) necessário para que o aporte de recursos dessas empresas fossem suficientes para desenvolver as regiões nas quais estavam instaladas, deixando a energia do Estado focada apenas em ter uma boa infra-estrutura.

As instituições de ensino da China ainda não tinham o grau de excelência que tem hoje, por isso, na década de 1990, muitos chineses partiram para estudar no exterior, tendo os Estados Unidos e a Inglaterra como principais destinos. Muitos partiram de seu país objetivando entender o comércio e outras disciplinas para depois retornarem. Enquanto não tinha a disponibilidade de intelectuais e especialistas, o país importava mão-de-obra estrangeira para poder se desenvolver e aprender com os mesmos.

Por uma visão econômica, esses procedimentos são adotados em diversos Estados, mas a China tem um objetivo único para as diversas atividades: “ser a maior e melhor do mundo”. Trabalhando adequadamente tal ideia o país começou a ser entendido por números de desempenho, os quais chamaram e continuam chamando a atenção de economistas até os dias atuais.

Devido a esta “abertura econômica” algumas das maiores empresas do mundo se instalaram no país. Em 1993 a Motorola e depois a Ericsson foram as pioneiras em solo chinês. Segundo dados apresentados no Seminário por Shaowei He, tendo como base dados de “Wilsdon & Keeley” (2007), o crescimento de investimentos na China entre os anos de 1999 até 2007 foram de 20% ao ano, o que contribuiu para o desenvolvimento do país.

Este objetivo de se especializar em produzir componentes e alguns tipos de máquinas e equipamentos com valor agregado foi fundamental para se tornar um dos grandes exportadores globais. No ano de 2007, já tinha 70% da produção de “máquinas fotocopiadoras” do mundo. Também tinha 55% da produção de DVDs, 50% de “câmeras fotográficas” e 30% de “condicionadores de ar”. Além dos investimentos neste tipo de produção, aportou recursos em “Pesquisa e Desenvolvimento”, obtendo uma média de 6% do total global entre 2004 e 2007.

Os números são chamativos, mas o que antes fazia parte de uma geração de produtos e materiais de empresas estrangeiras, logo se transformou em uma produção de produtos fabricados por empresas chinesas.  A razão para tanto é transparente. Com a produção de empresas estrangeiras no país (sabendo-se que na China não há mecanismos de defesa da “propriedade intelectual”) foi  facilitado para os empresários chineses produzirem produtos “made in China”, os quais, de fato, eram cópias de produtos de grandes marcas internacionais.

Assim como os japoneses e sul-coreanos fizeram durante a segunda metade do século XX, a China atuou. Ela aprendeu, começou a produzir e, com o decorrer dos anos de investimentos em educação, chegou ao aperfeiçoamento dos produtos, levando algumas empresas chinesas a se destacassem e a se tornassem grandes competidoras no mercado internacional. Entre os anos de 2003 e 2010, as empresas chinesas entraram no mercado internacional de forma surpreendente. No primeiro ano existia apenas uma empresa chinesa conhecida e em 2010 já havia mais de 20 delas influentes no cenário internacional.

Mantendo a linha de serem as melhores e maiores do mundo, as indústrias chinesas chegaram a atingir importantes posições no ranking mundial, destacando-se a “China Petroleum & Chemical” (que está entre as 10 maiores corporações do seguimento no mundo desde 2003) e a “PetroChina”, que também está entre as 20 maiores do seguimento desde o ano de 2004. No campo da tecnologia, a ZTE e a Lenovo se mantêm dentro do “TOP 60”, desde o ano de 2005. Desde essa época, outras também empresas tiveram seu destaque, como, por exemplo, a Huawei e a Foxccon.

Durante a apresentação de Shaowei He, seguido de Jorge Arbache, do “Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social” (BNDES) e da “Universidade de Brasília” (UNB), questionamentos foram levantados, comparando o Brasil com a China e indagando a razão pela qual o país sul-americano não aproveitou as oportunidades que teve como os chineses o fizeram. Para tal questionamento foram trabalhados conceitos, avaliados os objetivos e interpretados os sistemas políticos de ambos os Estados, nos quais seus líderes tiveram visões de um modelo de crescimento diferentes, o que, por fim, levou Pequim a investir mais na indústria e o Brasil a se manter com as exportações de commodities.

Conforme destacam vários analistas, de fato, Pequim e seus planos qüinqüenais são inalteráveis, ou seja, mesmo com divergências dentro do “Partido Comunista Chinês”, as prioridades foram mantidas, com uma política sólida em prol do crescimento, diversamente do Brasil, que sofreu inúmeras mudanças no poder desde a década dos anos 1970s o que afetou o modelo de desenvolvimento, deixando o país atrasado.

Considerando os números da economia chinesa, o seu desenvolvimento desde a década de 1990 foi surpreendente, mas, mais do que os números puros, destaca-se o uso do IED para direcionar as energias e recursos visando “fôlego” ao desenvolvimento em várias áreas da economia de forma bem elaboradas, o que trouxe resultados positivos. Hoje, a China é referência em logística portuária e tem a segunda maior economia do mundo.

Destaca-se ainda que, atualmente, ela passou a sentir os “custos do desenvolvimento”, assim como as potências do passado, vindo a sofrer com os problemas ambientais e a ter preocupação com as fontes de energia fundamentais para o seu desenvolvimento, mas isso está sendo trabalhado por meio do incentivo à pesquisa e à inovação em diferentes setores da economia.

Da mesma forma, o país está sendo alvo de especulações na imprensa internacional devido a uma possível “crise política”, em razão da necessidade de reformas do Regime e da Economia. Sobre as questão, foram lançadas as seguintes perguntas a Shaowei He:

Perguntas (Fabrício Bomjardim): Da sua perspectiva, realmente existe a necessidade de “Reforma Política” e “Reforma Econômica” na China? E, caso ocorra uma crise política o país, isso afetará as políticas econômicas que visam o investimento em inovação?

Respostas (Shaowei He): A necessidade de reformas existe. Os líderes chineses já sabem dela, mas, agora, a questão é saber como aplicá-las. Mesmo com uma crise, a política econômica chinesa não sofrerá, pois as políticas chinesas de médio e longo prazo não sofrerão, caso ocorra uma mudança de líder e de ideias.

Levando-se em consideração as avaliações do especialista (as quais confluem com as opiniões de parte significativa dos analistas internacionais, mesmo com as atuais especulações negativas sobre o futuro da China), o país pode novamente vir a surpreender, pois as perspectivas de grandeza prevalecem, restando aos agente competentes do país descobrir como realizar mudanças em um sistema que começa a mostrar esgotamento, mas trouxe resultados positivos até o momento.

Acredita-se que, para equacionar este problema, o Estado manterá os incentivos à inovação, à pesquisa e à tecnologia até que se chegue à identificação do melhor meio para realizar as “mudanças”.

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Fontes:

Trabalho Jornalístico in Locu”: Fabrício Bomjardim

Imagem: Fabrício Bomjardim

About author

Bacharel em Relações Internacionais (2009) e técnico em Negociações Internacionais (2007) pela Universidade Anhembi Morumbi (UAM). Atua na área de Política Econômica com foco nos países do sudeste e leste asiático, sendo referência em questões relacionadas a China. É membro da Júnior Chamber International Brasil-China, promovendo as relações sócio-culturais sino-brasileiras em São Paulo e Articulista da Revista da Câmara de Comércio BRICS. Também atuou como Consultor de Câmbio no Grupo Confidence. Atualmente trabalha como repórter fotográfico.
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