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A instabilidade na América Central e a política estadunidense

Uma América Central de contrastes, instrumentaliza à chegada a um ponto crucial em sua história. Ao comparar a região da década de 1980, cujo legado de décadas de guerra civil assolou El Salvador (1979-1992) e Guatemala (1960-1996), com o atual momento é possível detectar que o contexto político-social pouco mudou. Ainda há instabilidades, violência armada, corrupção governamental e um apoio estadunidense tímido, através de Acordo de Livre Comércio que objetiva viabilizar recuperação econômica, instituições governamentais fortes e segurança, características estas que, em um contexto programático, auxiliaria a diminuir o fluxo imigratório para México e Estados Unidos.

Nos últimos anos, a região conhecida como Triângulo Norte, formada por El Salvador, Guatemala e Honduras, ganhou destaque justamente pelo fluxo crescente de imigrantes, dentre os quais inúmeras crianças desacompanhadas, fugidas da violência de gangues que costumam recrutá-las desde cedo para trabalhar nas atribuições do narcotráfico, ao passo em que as guerras civis da década de 1980 deixaram um legado de violência e instituições frágeis, constituindo um ambiente degradante para o desenvolvimento social.

No âmbito social, à luz de um processo desenvolvimentista iniciado na Guatemala e em Honduras, setores sociais céticos quanto ao futuro tem estimulado a chamada popularmente de “Primavera da América Central”, com manifestações em ambos os países em números expressivos contra a corrupção institucionalizada. Em Tegucigalpa, capital de Honduras, a “Marcha de las Antorchas” (Marcha das Tochas, em tradução livre), iniciada em maio, tem a finalidade de protestar contra a corrupção nos mais altos níveis do Governo.

Na vizinha Guatemala, os protestos que se iniciaram em abril exigem reformas do sistema político, a começar pela destituição do presidente Otto Pérez Molina, que renunciou ao cargo em setembro deste ano (2015), sendo posteriormente preso algumas horas depois.

Um dos principais resultados das instabilidades testemunhadas nos países do Triângulo do Norte é a quantidade de pessoas que buscam refúgio em outros países, especialmente nos Estados Unidos. Aproximadamente 10% dos trinta milhões de habitantes deixaram Honduras, Guatemala e El Salvador rumo aos Estados Unidos. Em 2013, cerca de 2,7 milhões de pessoas nascidas nos referidos países da América Central foram viver em terras estadunidenses, comparados a 1,5 milhão, em 2000.

Ao buscar refúgio em outros países, muitos solicitam o asilo em virtude de perseguições, violência, recrutamento forçado de gangues, extorsão, bem como pobreza e falta de oportunidades. Entre 2009 e 2013, os Estados Unidos registraram um aumento de sete vezes os requerentes de asilo na fronteira sul, 70% dos quais vieram do Triângulo Norte. Países vizinhos como Belize, Costa Rica, México, Nicarágua e Panamá também registraram aumento semelhante.

As prerrogativas nas esferas política, econômica e social revelam que a degradação crônica do aparelho estatal resultou no exponencial aumento da violência, números pelos quais se inserem os países do Triângulo do Norte no quadro de países mais violentos do mundo, cuja taxa de homicídio em El Salvador, por exemplo, é de noventa para cada cem mil habitantes, apenas em 2015. Outro fator a considerar é a extorsão galopante. Em julho de 2015, investigações promovidas pelos meios de comunicação hondurenhos revelaram que salvadorenhos e hondurenhos pagam um valor aproximado de US$ 390 mil a US$ 200 milhões em taxas anuais a grupos do crime organizado. Nesse sentido, os principais alvos são servidores públicos, do setor de transporte, além de pequenas empresas e moradores de bairros pobres.

Na cadeia de causalidades, a natureza da violência nos três países é diferente, porém com pontos em comum, dentre os quais a proliferação de gangues, o uso da região como ponto de transporte de narcóticos para os Estados Unidos e os altos índices de impunidade. Nesse sentido, o crime organizado no Triângulo do Norte inclui organizações criminosas transnacionais, associados com Mexican Drug-Trafficking Organizations (DTOs, na sigla em inglês), assim como grupos domésticos, dentre os quais a Mara Salvatrucha (MS-13), a Eighteenth Street Gang (M-18) e gangues de rua, ou pandillas.

Nos Estados Unidos, a preocupação maior é com a MS-13, cujos primeiros registros de atuação se dão na década de 1980 e é formada exclusivamente por salvadorenhos que fugiram da guerra civil, e com a M-18, com registro de operação em território norte-americano na década de 1960. São consideradas as maiores gangues, com oitenta e cinco mil membros, aproximadamente, que operam principalmente em Los Angeles, Califórnia. Na América Central, seu alcance ganhou projeção na década de 1990, em virtude do programa de deportações promovidos por Washington para indivíduos sem documentos e com antecedentes criminais.

Ainda dentro do âmbito de política externa para a América Central, os Estados Unidos tem promovido envio de ajuda para agências da região, a apoiar programas de combate ao narcotráfico e operações anti-gangues. Todavia, iniciativas de base, incluindo medidas para erradicar e pobreza e a falta de competitividade ainda não foram implementadas. Dentro dessa ótica, no ano fiscal de 2008 e no de 2015 os Estados Unidos ofertaram cerca de US$ 1 bilhão por meio da Central America Regional Security Initiative (CARSI, na sigla em inglês) para programas de segurança e preservação do Estado de Direito.

Para o ano fiscal de 2016, a administração Obama solicitou US$ 1 bilhão do Congresso para apoiar estratégias dos Estados Unidos na América Central, um plano que representaria um aumento significativo na despesa anual na região, concentrando esforços em segurança, governança e desenvolvimento econômico. O objetivo é criar linhas de ação na integração e fortalecimento das instituições da América Central, facilitação do comércio sob acordos de livre comércio existentes, integração fronteiriça, eficiência energética, redução da pobreza, desenvolvimento da força de trabalho, reforma na polícia, cooperação em defesa continuada, investimentos em reforma do serviço público, fortalecimento das instituições judiciais e reforço das instituições democráticas.

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Imagem (Fonte):

https://img.washingtonpost.com/rw/2010-2019/WashingtonPost/2014/07/22/SocialIssues-Religion-Immigration/Images/El_Salvador_Child_Migrants-08a1a.jpg?uuid=JwTYsBGkEeSY7trqhRM7yQ

About author

Bacharel em Relações Internacionais (2009) pela Faculdades de Campinas (FACAMP), Especialista em Direito Internacional pela Escola Paulista de Direito (EPD) e Especialista em Política Internacional pelo CEIRI (Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais). Atuou em duas grandes multinacionais do setor de tecnologia e na área de Cooperação Internacional na Prefeitura Municipal de Campinas com captação de recursos externos, desenvolvimento de projetos na área econômica e comercial e buscando oportunidades de negócios para o município. Foi Consultor de Novos Negócios na Avanth International em Campinas/SP e atualmente é Analista de Foreign Trade e Customer Care na Novus International Inc. Escreve sobre América do Norte com foco nos Estados Unidos.
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