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A luta pela independência energética na Ucrânia

O grande desafio da Ucrânia não está no desgaste de uma longa guerra, como a de Donbass, ou no processo de oficialização de um idioma único para toda a nação como “língua de estado”. Trata-se de obter um status de segurança energética através da independência em relação ao seu antigo aliado, a Federação Russa.

Na raiz de seus problemas está o excesso de confiança na compra de combustível russo barato e um setor energético doméstico que precisa de reformas urgentes. A importação não é feita diretamente do governo russo, mas de sua principal empresa de energia, a Gazprom. Em troca, o território ucraniano é a principal rota de passagem para o gás consumido pela Europa, de onde provém cerca de 2,5% do PIB da Ucrânia, o equivalente a US$ 3 bilhões em receitas anuais* (em janeiro de 2019). Além do mais, dois ingredientes básicos do setor energético nacional, o carvão e o urânio (64% e 55%, respectivamente), ainda provém da Rússia, que exige que o descarte de seus resíduos nucleares seja feito pela Ucrânia.

Com a terceira maior dotação de hidrocarbonetos na Europa (depois da Rússia e da Noruega) e um setor de renováveis em rápido crescimento, a Ucrânia combina seu passado de dependência do modelo soviético e infraestrutura antiga com a capacidade de ser exportador (até 2018) de energia.

Além da dependência na importação, a manutenção e renovação de usinas e refinarias estão defasadas, necessitando serem revistas. Observadores acusam, ainda, que seu mercado interno também é monopolístico e ineficiente. Paralelo a isso, a regulamentação e os complicadores para o licenciamento na extração de petróleo e gás não ajudam a criar um ambiente convidativo para o investimento no setor. Por outro lado, os recursos renováveis, como a energia solar e eólica estão evoluindo rapidamente, graças a empreendedores de mentalidade verde, embora estejam longe de substituir o montante de energia necessária fornecido pelas usinas térmicas e nucleares.

O percurso do Nord Stream II seguirá paralelamente ao duto atual, Nord Stream

Para Moscou, a Ucrânia é um obstáculo em sua relação com a Europa. Como principal fornecedora energética para a União Europeia, para a Alemanha, em particular, duas alternativas são essenciais para driblar a passagem dos combustíveis pelo território ucraniano: uma mais ao norte, conhecida como Nord Stream II (de US$ 11 bilhões**), da Gazprom, que é um oleoduto de 1.230 km no Mar Báltico por onde passarão 55 bilhões de metros cúbicos (bcm) e, futuramente, 110 bcm; outra, ao sul, no Mar Negro, que também está sendo implantada, o TurkStream, com capacidade de transporte de 32 bcm. Ambas apresentam aos analistas a possível estratégia do Kremlin: cercar e isolar a Ucrânia.

Com esses dois projetos em operação, a Rússia privará a Ucrânia de uma fonte de recursos obtida pelas taxas de trânsito cobradas, além do próprio gás. Outra consequência é que possíveis conflitos militares poderão ocorrer mais facilmente.

Nesse sentido, as reformas legais na Ucrânia mostram-se urgentes para integrar o país ao mercado de energia da União Europeia. Há dois anos, o Parlamento ucraniano adotou a lei que estipulava um novo modelo de mercado de eletricidade, o qual permitirá a integração da rede energética às redes de transporte europeias. O Instituto Ucraniano para o Futuro (UIF) avaliou que as empresas geradoras de eletricidade serão capazes de atrair 11,5 vezes mais investimentos em comparação com o atual cenário pré-reforma do setor.

As perspectivas são bastante animadoras com as reformas, e investimentos são esperados. Atualmente, os ucranianos exportam apenas 5 bilhões de kWh para a União Europeia, o que poderá ser elevado para 25 bilhões de kWh em 2030. Isto significa auferir US$ 1,5 bilhão*** em receitas, 50% do que se ganha com taxas sobre o transporte de gás russo pelo território ucraniano.

O monopólio de gás, a empresa Naftogaz, também sofrerá mudanças. A primeira onda de reformas visando a gestão, ocorrida em 2016, já proporcionou um lucro de US$ 1 bilhão****, pela primeira vez na história da empresa. Agora, a nova etapa de reformas irá separar a transmissão da produção e do fornecimento, em consonância com o terceiro pacote energético da União Europeia.

TurkStream é a nova linha projetada para transportar gás pelo Mar Negro

Kiev está avançando com reformas promissoras no setor de energia. A ameaça que representam os dutos Nord Stream II e TurkStream com a perda de lucrativas taxas de trânsito poderá ser compensada com fontes de energia mais baratas e limpas, mas isto levará tempo. Neste período de integração e adaptação, Kiev deverá utilizar sua influência para jogar com a Rússia e a União Europeia, propondo acordos com ambos. No entanto, internamente, a Ucrânia tem de lidar com uma burocracia que dificulta o mercado de investimentos no setor energético (e que favorece a corrupção), além de monopolizar o setor.

Porém, outro cenário mais conflituoso não está descartado: a dependência energética de seu grande rival geopolítico, a Rússia, bem como a defasagem tecnológica e a falta de investimento no setor demandam urgentemente pela abertura e diversificação desse mercado. Como a estratégia russa visa a criação de alternativas para deslocamento de petróleo e gás para a União Europeia, particularmente à Alemanha, a Ucrânia pode permanecer com um apoio menos efetivo da organização no futuro próximo. Como alternativa restante, isto poderia levá-la diretamente para a influência da OTAN. De uma forma ou de outra, conclui-se que a liberdade e soberania nacional da Ucrânia não podem prescindir de sua independência energética.

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Notas:

* Aproximadamente, 11,24 bilhões de reais, de acordo com a cotação de 19 de julho de 2019.

** Em torno de 41,21 bilhões de reais, também de acordo com a cotação de 19 de julho de 2019.

*** Próximo de 5,62 bilhões de reais, conforme a mesma a cotação de 19 de julho de 2019.

**** Na cotação do dia 19 de julho de 2019, 3,746 bilhões de reais.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Turbina eólica em construção, Boryspil, Ucrânia” (Fonte Foto por Adam Jones): https://www.flickr.com/photos/adam_jones/43478128644

Imagem 2 O percurso do Nord Stream II seguirá paralelamente ao duto atual, Nord Stream” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Nord_Stream-et_map.png

Imagem 3 TurkStream é a nova linha projetada para transportar gás pelo Mar Negro” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:TurkStream.png

About author

Licenciado em Geografia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 1987 e Mestre em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo (USP) em 2008. Mantém interesse e pesquisa nas áreas de Geografia Urbana, Geopolítica e Epistemologia da Geografia. Co-autor do livro "Não Culpe o Capitalismo".
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