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A militarização do estreito de Hormuz

O Estreito de Hormuz, faixa oceânica entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã, tornou-se tema de acaloradas discussões nos últimos meses. Especificamente nas últimas semanas, os Estados Unidos apresentaram a proposta de aumentar a presença militar na região, visando proteger o tráfego de navios comerciais na área. 

A passagem é de importância econômica reconhecida pelo mundo inteiro e as tensões preocupam vários países. Pelo Estreito de Hormuz passam diariamente 21 milhões de barris de petróleo. Em 2018, de acordo com Agência de Informação sobre Energia (EIA, na sigla em inglês) do governo dos Estados Unidos, a quantidade de combustível cruzando a região representou 21% do total consumido no mundo.

Mapa do Estreito de Hormuz, incluindo a divisão territorial

Segundo os Estados Unidos, os aliados são conclamados a somar esforços para pressionar o Irã e mitigar o que o Secretário de Estado estadunidense, Mike Pompeo, classificou como “um comportamento desestabilizador”. A proposta foi estendida a cerca de 30 países, dos quais somente o Reino Unido e Israel garantiram participação. A Alemanha e o Japão recusaram a participação, temendo um possível desequilíbrio.  

Desde julho de 2019 uma escalada de agressividade militar tem tomado lugar na região: a Guarda Revolucionária do Irã derrubou um Veículo Aéreo Não-Tripulado que sobrevoava o que o governo iraniano informou ser seu espaço aéreo sobre a região; os Estados Unidos afirmam ter derrubado um VANT iraniano também sobre o Estreito de Hormuz, ainda que Teerã não reconheça a perda; e a Marinha do Irã alega haver interceptado três cargueiros, incluindo um navio-tanque britânico transportando petróleo.

Navios Velayat-90, da Marinha Iraniana, realizam exercício naval

Em recente conferência realizada no Turcomenistão, o vice-presidente iraniano Eshaq Jahangiri afirmou que “a segurança da região somente pode, e deve, ser estabilizada pelos países da região”. Segundo Jahangiri, o Estreito de Hormuz é “uma linha vermelha” para o Irã e , de acordo com ele, as ações estadunidenses são “provocativas”.

Por hora, as ações militares não são claras. Somente o Reino Unido afirmou que destacará dois navios de guerra para a região. O Irã afirmou através do Porta-Voz do Ministério das Relações Exteriores que o envio de navios de guerra israelenses para esta iniciativa será considerada como uma ameaça à sua soberania, e que este elemento sozinho pode “desencadear uma crise”.

O destroier USS Jason Dunham realiza exercício naval no Egito

Outros países na área apressaram-se em expressar uma veemente negativa. O Ministro das Relações Exteriores do Iraque, Mohammed Ali al-Hakim, afirmou em suas redes sociais que a presença israelense no Golfo Pérsico é “inaceitável”.

Em recente declaração sobre o momento político que vive a região, o Ministro de Indústria e Comércio de Singapura, Koh Pon Koon, afirmou que Estados Unidos e Irã devem buscar entendimento em sua projeção de disputa, no interesse de manter “as linhas de comunicação marítimas abertas, livres e seguras”. Um potencial conflito poderia ter efeitos sensíveis no abastecimento energético global.

De acordo com a EIA, a inaptidão ao trânsito em um gargalo central como Hormuz, ainda que temporária, resultaria em severos atrasos, bem como aumento nos custos de transporte e energia no geral.

Há uma capacidade limitada para contornar uma possível interrupção do trânsito no Estreito. Somente a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos possuem uma rede de oleodutos capazes de entregar óleo bruto contornando a rota de Hormuz. A capacidade conjunta das redes nos dois países é de 6,5 milhões de barris por dia.

Em 2018, ambos transportaram uma média de 2,7 milhões de barris por dia, contando, portanto com uma capacidade ociosa de 3,8 milhões barris ao dia, distante de suprir o transporte dos 21 milhões que cruzam o Estreito diariamente, em uma eventual emergência.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Comboio da Marinha dos Estados Unidos atravessa o Estreito de Hormuz em 2016”(Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Strait_of_Hormuz#/media/File:CVN_69_transits_the_Strait_of_Hormuz_(28465403076).jpg

Imagem 2Mapa do Estreito de Hormuz, incluindo a divisão territorial” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Strait_of_Hormuz#/media/File:Strait_of_hormuz_full.jpg

Imagem 3Navios Velayat90, da Marinha Iraniana, realizam exercício naval” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Islamic_Republic_of_Iran_Navy#/media/File:Iranian_Velayat-90_Naval_Exercise_by_IRIN_(5).jpg

Imagem 4O destroier USS Jason Dunham realiza exercício naval no Egito”(FonteEspecialista em Comunicação Massiva 3a Classe Jonathan Clay/Marinha dos Estados Unidos): https://www.dvidshub.net/image/4532965/us-navy-photo-mass-communication-specialist-3rd-class-jonathan-clay-released

About author

É bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, atualmente é mestrando em História, Política e Bens Culturais no Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Integrou o Grupo de Estudos de Segurança Internacional (GEDES) na condição de pesquisador, onde também colaborou como redator do Observatório Sul-Americano de Defesa e Forças Armadas. Como pesquisador da Rede de Segurança e Defesa da América Latina desenvolveu trabalho na área de segurança pública, defesa e manutenção da paz. Atualmente desenvolve pesquisa sobre a reconstrução do Estado no Iraque. Como colaborador do CEIRI Newspaper escreve sobre a política e dinâmica regional do Oriente Médio.
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