ÁSIANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

A nova política demográfica da China

A China tem a maior população do mundo. Até os anos 1970, o crescimento demográfico era extremamente elevado, o que motivou o Governo a lançar políticas públicas de redução da natalidade, como a política do filho único*, estabelecida em 1979. O Estado preocupava-se com a possibilidade de que uma população muito numerosa pudesse reduzir o ritmo de crescimento. O êxito da iniciativa se manifestou pelo declínio das taxas de natalidade, associado à crescente urbanização e ao crescimento econômico. Atualmente, contudo, a população chinesa envelhece, o que tornou a política do filho único um obstáculo para o desenvolvimento.

 

Pirâmide etária da China em 2016

 

Em 2015, foi anunciado o fim oficial da política do filho único. Houve flexibilização para permitir dois filhos aos casais chineses. Isso ocorreu principalmente por causa da mudança na pirâmide etária** do país asiático. O topo, composto por pessoas idosas, alargou-se, enquanto a base, composta por jovens, reduziu-se. Desse modo, a tendência é de déficit previdenciário severo, já que aumenta a proporção de pessoas com necessidade de apoio financeiro dos mais jovens. Esse panorama é agravado pela questão cultural de que os filhos devem sustentar os pais idosos, tendo o Estado um papel subsidiário. Há, portanto, redução da renda disponível das famílias para gastos em consumo ou investimento, o que afeta negativamente o ritmo de crescimento econômico.

No primeiro ano da nova política de dois filhos, houve um aumento significativo no número de nascimentos, com crescimento de 1,3 milhão em relação aos nascimentos de 2015. Analistas acreditam que o impulso inicial posterior ao anúncio da nova política, contudo, não é sustentável. Dados de 2017 corroboram esse entendimento, já que houve declínio da quantidade de nascimentos em relação a 2016. Apesar disso, cerca de metade dos nascimentos ocorreu em famílias que já tinham um filho, o que prova que a nova política não foi totalmente ineficaz. Ainda assim, o presidente da Associação de População da China, Zhai Zhenwu, afirmou, em entrevista ao China Daily, em 2018, que “o número de pessoas nascidas irá, sem dúvidas, continuar a cair neste ano, bem como nos próximos anos”. A principal razão apontada pelo especialista é o declínio do número de mulheres em idade fértil.

Outros motivos também podem ser mencionados. A longa duração da política do filho único mudou a perspectiva da população chinesa, que passou a realizar planejamento familiar com apenas um filho, ou mesmo sem descendentes. Ademais, a urbanização aumentou os custos para a criação de crianças, em especial nas megacidades***. A modernização agrícola também reduziu a necessidade de ter muitos filhos no campo. Tradicionalmente, uma família numerosa significava mão de obra para cultivar bens agrícolas. Essa não é uma necessidade premente no contexto atual.

O êxito da nova política demográfica da China dependerá, provavelmente, de uma mudança cultural significativa. Cabe ao Estado enfatizar a mudança de perspectiva no planejamento familiar e estabelecer uma estrutura social eficaz para que os casais desejem ter mais filhos, como incentivos financeiros e creches bem equipadas. A necessidade de mudar a mentalidade da população é urgente, já que o atual ritmo de baixo crescimento demográfico pode gerar problemas sérios no futuro. 

———————————————————————————————–

Notas:

* Proibição de que as famílias chinesas tivessem um segundo filho. As sanções para o descumprimento eram severas, como o pagamento de multas, a denegação de registro do segundo filho e, em casos extremos, até prisão.

** Distribuição da população em faixas etárias, em estrutura piramidal.

*** Aglomerações urbanas com mais de 10 milhões de habitantes.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Trânsito em Pequim” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Demographics_of_China

Imagem 2 Pirâmide etária da China em 2016” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Demographics_of_China

———————————————————————————————–

Demais Fontes Consultadas: 

[1] Ver:

https://thediplomat.com/2015/11/the-welcome-demise-of-chinas-one-child-policy/

[2] Ver:

https://thediplomat.com/2018/11/chinas-number-of-births-just-keeps-dropping/

[3] Ver:

http://www.chinadaily.com.cn/a/201810/31/WS5bd91c6aa310eff303285a76.html

About author

Especialista em Direito e Relações Internacionais pela Universidade de Fortaleza. Especialista em Desafios das relações internacionais, especialização oferecida pela Universidade de Leiden & pela Universidade de Genebra em parceria com o Coursera. Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Ceará.
Related posts
Direito InternacionalNOTAS ANALÍTICAS

Especialistas independentes da ONU recomendam suspensão de Sanções a Estados durante a pandemia

NOTAS ANALÍTICASPOLÍTICAS PÚBLICASSAÚDE

Avifavir: o antiviral russo contra a Covid-19

ÁSIAECONOMIA INTERNACIONALNOTAS ANALÍTICAS

Em meio à pandemia global, exportações chinesas apresentam aumento inesperado no mês de julho

NOTAS ANALÍTICASSegurança Internacional

Soldado embriagado na República Democrática do Congo mata 12 civis

Receba nossa Newsletter

 

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Open chat
Olá!
Powered by