fbpx
NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

A oposição de Israel e dos Países Árabes Moderados ao Acordo Nuclear com o Irã

Desde 2013, as potências do P5+1 (EUA, Reino Unido, França, China, Rússia e Alemanha) têm trabalhado para alcançar um entendimento relativo ao Programa Nuclear Iraniano. Após este longo período de negociações, em 14 de julho, foi assinado aquele que, para os negociadores, é um Acordo histórico. A conclusão das conversações culminou na redução da capacidade iraniana para enriquecer material radioativo, sendo que a atividade foi limitada somente para fins pacíficos.

Para John Kerry, Secretário de Estado dos EUA, as medidas acordadas serão aplicadas por fases e submetidas às diligências constantes, e de modo transparente, em ordem a inibir as tentativas do Irã para desenvolver atividades nucleares para fins militares[1]. O anúncio do fim desse longo processo de conversações e ajustes foi recebido positivamente por uma parcela da comunidade internacional e com desconfiança por outra parte. Para Benjamin Netanyahu, PrimeiroMinistro de Israel, o Tratado é “um grande erro de proporções históricas[2]

Conforme determinam as regras do Acordo, as Sanções contra o Irã serão aliviadas. Em contrapartida, o país permitirá a investigação acerca do seu passado nuclear pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), na medida em que o Programa Nuclear Iraniano esteve sob suspeita de ter dimensão militar e o objetivo do pacto agora assinado consiste em eliminar o caráter bélico daquele Programa[3]. No entanto, as ações tomadas pelas grandes potências não foram suficientes para pôr fim às inquietações de Israel, que se sente ameaçado ante a desconfiança de que o Irã poderá continuar a tentar adquirir uma arma atômica e que, com o abrandamento das Sanções, o país possa aumentar o financiamento a grupos irregulares inimigos como, por exemplo, o Hezbollah, no Líbano.

Após a assinatura do entendimento, o Presidente dos EUA, Barack Obama, ofereceu pela segunda vez ajuda para melhorar a capacidade militar israelense e reconheceu o potencial militar do Hezbollah no combate a Israel. Sem se identificar, um alto funcionário norte-americano afirmou que a primeira oferta foi feita em 2 de abril, na sequência das conversações sobre o Programa Nuclear do Irã, em Lausanne, na Suíça, mas Netanyahu recusou dizendo que preferia lutar contra o Acordo[4]. Agora, no momento em que o Presidente NorteAmericano voltou a repetir a oferta, o PrimeiroMinistro de Israel solicitou que o Comitê de Ação Política AmericanoIsraelense (AIPAC) pressione o Congresso NorteAmericano para rejeitar o compromisso assumido entre o P5+1 e os iranianos[5].

A oposição à decisão tomada pelas potências P5+1 e o Irã não é exclusiva de Israel. A Arábia Saudita, o Egito, a Jordânia e alguns países do Golfo Pérsico também veem o futuro com desconfiança, a partir daquilo que foi acertado entre as grandes potências e os iranianos. Sob anonimato, uma autoridade saudita declarou que, “como vizinhos do Irã, nós aprendemos nos últimos 40 anos que a boa vontade nos levou apenas a colher uvas amargas[6].

Para o pesquisador saudita Mansour alMarzouki, o Acordo beneficia economicamente o Irã, que terá condições de criar uma arma atômica, uma vez que as medidas contempladas no Tratado não comprometem a capacidade técnica do país quanto à manutenção de um Programa Nuclear[7]. Por outro lado, o pesquisador dos Emirados Árabes Unidos, Nasser Ahmed Bin Ghaith, que considera os Estados do Golfo como os mais fracos em termos de influência regional, afirma que aqueles países sofrerão economicamente as consequências do entendimento entre as grandes potências e o Irã.

Segundo ele, com a suspensão das sanções sobre as exportações de petróleo, o Irã colocará no mercado aproximadamente 1,5 milhões de barris de crude ao dia. Isto inundará o mercado perolífero, já saturado, o que provocará a queda no preço dessa commodity e, consequentemente, comprometerá a economia dos países do Golfo, que já está sobrecarregada. Para o pesquisador, este fato levará estes Estados a realizarem, a longo prazo, mudanças para preservarem os seus interesses e, inclusive, a romperem a aliança militar e de segurança com os EUA em nome de uma cooperação própria conjunta[8].

A atual conjuntura leva-nos à hipótese de um novo realinhamento estratégico na região[9]. Domingo, 19 de julho, Shabtai ShavitExDiretor da Agência de Inteligência e Operações Especiais de Israel (o Mossad), durante os anos de 1989-1996, disse em uma rádio que o seu país tem agora uma causa comum com os países árabes sunitas, que se opõem à proposta ocidental pactuada com o Irã. Segundo Shavit, o recente Acordo assinado entre as potências P5+1 e o Irã possibilita a abertura de “uma nova ordem no Oriente Médio[10].

Shavit afirmou, também, que “temos aqui uma oportunidade única de experimentar e criar uma coalizão de países árabes moderados liderados pela Arábia Saudita e Israel, ambos, para abordar a potencial capacidade nuclear iraniana no futuro e também a fim de criar uma nova ordem no Oriente Médio[11]. Ele acredita que a formação de uma coligação entre Israel e estes países árabes tem por base a resolução do conflito israelo-palestino, admitindo que os Governos árabes moderados poderão contribuir para uma solução. Shavit afirmou ainda: “Eu acredito que os países sunitas moderados, estando envolvidos em uma solução política israelense-palestina, estão numa posição que pode contribuir em muito para atingir este objetivo. Devemos ter em mente o fato de que, até agora, não obtivemos êxito para (alcançar) qualquer tipo de solução definitiva com os palestinos, apesar da participação de todos os tipos de outras partes, como os norte-americanos, os europeus e outros[12].

Os descontentamentos regionais em torno da assinatura do pacto nuclear iraniano, mais do que oposição, são fruto da desconfiança. Os países críticos alegam que os critérios adotados não são suficientes para dissuadir o Irã de adquirir a arma nuclear. De fato, as regras e o controle sobre o enriquecimento de material radioativo não se estendem para fora do território iraniano, por exemplo.

Ante a suscetibilidade do Acordo, por parte de vários atores regionais, surge a possibilidade de, a médio e a longo prazo, ser delineado um novo realinhamento estratégico no Oriente Médio. Uma possível aproximação de Israel aos países árabes sunitas moderados, até agora impensada, também levanta a hipótese de se estabelecer uma nova ordem na região e o consequente afastamento ocidental.

——————————————————————————————–

Imagem Acordo nuclear com o Irã. Viena, 14 de julho de 2015. Da esquerda para a direita, Ministros das Relações Exteriores: Wang Yi (China);Laurent Fabius (França); FrankWalter Steinmeier (Alemanha); Federica Mogherini (União Europeia); Mohammad Javad Zarif (Irã); Philip Hammond (Reino Unido); John Kerry (Estados Unidos da América)” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Programa_nuclear_iraniano#/media/File:Iran_Talks_Vienna_14_July_2015_(19067069963).jpg

——————————————————————————————–

Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.state.gov/secretary/remarks/2015/07/244885.htm

[2] Ver:

http://www.theguardian.com/world/2015/jul/14/netanyahu-denounces-iran-nuclear-dealcriticism-israel

[3] Ver:

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/07/reuniao-fecha-acordo-sobre-programa-nuclear-do-ira-dizem-agencias.html

[4] Ver:

http://www.haaretz.com/news/diplomacy-defense/1.666205

[5] Ver:

http://www.jpost.com/Breaking-News/AIPAC-backing-group-that-plans-to-press-Democrats-on-Iran-deal-through-TV-ads-409355

[6] Ver:

http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/07/1655490-rivais-arabia-saudita-e-israel-se-unem-contra-acordo-nuclear-com-ira.shtml

[7] Ver:

http://www.aljazeera.com/news/2015/04/saudi-arabia-israel-oppose-iran-nuclear-deal-150401061906177.html

[8] Ver:

http://www.aljazeera.com/news/2015/04/saudi-arabia-israel-oppose-iran-nuclear-deal-150401061906177.html

[9] Ver:

https://ceiri.news/a-reacao-de-israel-ao-acordo-nuclear-com-o-ira/

[10] Ver:

http://www.jpost.com/Middle-East/Iran-nuclear-deal-opens-window-for-Israel-to-join-new-Mideast-order-409462

[11] Ver:

http://www.jpost.com/Middle-East/Iran-nuclear-deal-opens-window-for-Israel-to-join-new-Mideast-order-409462

[12] Ver:

http://www.jpost.com/Middle-East/Iran-nuclear-deal-opens-window-for-Israel-to-join-new-Mideast-order-409462

About author

Possui graduação em Filosofia (bacharelado e licenciatura) pela Universidade Federal do Paraná (1999), com revalidação pela Universidade de Évora (2007), e mestrado em Sociologia (Poder e Sistemas Políticos) pela Universidade de Évora (2010). É doutoranda em Teoria Jurídico-Política e Relações Internacionais (Universidade de Évora). É professora da Faculdade São Braz (Curitiba), pesquisadora especialista do CEFi – Centro de Estudos de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa), e pareceirista do CEIRI Newspaper (São Paulo).
Related posts
ÁSIAECONOMIA INTERNACIONALNOTAS ANALÍTICAS

Fundo Monetário Internacional estima crescimento da economia chinesa em quase 2%, contrariando tendência mundial

NOTAS ANALÍTICASPOLÍTICAS PÚBLICASSAÚDE

Conselho Europeu se reúne para tratar de ação conjunta europeia para combater a COVID-19

NOTAS ANALÍTICASPARADIPLOMACIA

As cidades mais caras da América Latina

NOTAS ANALÍTICASPOLÍTICAS PÚBLICASSAÚDE

Resposta à COVID-19 nas Américas pode sofrer transformação a partir de novos testes rápidos

Receba nossa Newsletter

 

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Open chat
Olá!