ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

A política externa da Turquia

A política externa do governo de Recep Tayyip Erdogan tem sido objeto de atenção já a algum tempo. O renovado interesse no mandatário turco decorre de ele buscar se consolidar como uma força política ativa em distintas questões do Oriente Médio.

Aliando um discurso extremamente nacionalista com uma aproximação de outros Estados na área, o governo da Turquia tem tentado tornar o país mais presente nos desafios políticos e se consolidar como um interlocutor razoável para países na região.

A Turquia tem buscado uma alternativa de alinhamento que alia diálogo com países e forças no Oriente Médio, bem como a consolidação de sua relação com atores extra-regionais como a China, mas, sobretudo, a Rússia.

Recentemente, o país vem empreendendo projetos ambiciosos em seu envolvimento na região. O primeiro é a presença militar na Líbia, visando, segundo Ankara, contribuir para solucionar as tensões naquele território. O segundo é o empreendimento de um gasoduto para explorar gás natural no Mediterrâneo. Em meio a esse contexto, guiada pela Rússia, a Turquia tem empreendido esforços para estabelecer um diálogo diplomático com a Síria.

O presidente Erdogan em encontro com o Presidente da Federação Russa, Vladimir Putin

Frente ao cenário de instabilidade do Oriente Médio, agravado pela escalada de violência entre os Estados Unidos e Irã após o ataque que matou o general iraniano Qassem Soleimani, a Turquia tomou rápidas atitudes para marcar sua posição.

Ainda que tenha condenado o ataque, Ankara não tomou ações mais enérgicas e afirmou ser favorável a uma solução para a crise. O diálogo do país com Teerã melhorou nos últimos anos, porém, como membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), é questionável se a Turquia deseja enfraquecer a posição dos Estados Unidos na região.

Até o momento, tem tomado posições pragmáticas, que podem indicar tanto o desejo de se envolver com uma questão que a desobrigue de participar do conflito entre EUA e Irã, bem como o desejo de aproveitar o momento para obter ganhos políticos.

Em 2 de janeiro de 2020, o Parlamento turco aprovou o envio de tropas do país para a Líbia. Esta decisão, resultado do diálogo entre o governo em Ankara e a gestão do primeiro-ministro líbio Fayez Sarraj, abre um novo capítulo da crise política que se estende desde 2011 naquele país.

A tropas turcas irão apoiar o Governo do Acordo Nacional (GAN), que assumiu o país no processo que seguiu à queda de Muammar Gadaffi e é reconhecido pelas Organização das Nações Unidas. Atualmente, este é frequentemente ameaçado pela ação do Exército Nacional da Líbia, grupo comandado pelo marechal Khalifa Haftar e que contesta a autoridade do governo de Trípoli.

Frente à posição de Ankara, Haftar anunciou que usará dos recursos na região para impedir exportação de gás e combustível para a Turquia. Dadas as dificuldades logísticas, o governo turco anunciou que espera contar com as bases militares da Argélia e da Tunísia para dar apoio às operações no terreno.

Através da ação militar na região, a Turquia pretende fortalecer o GAN e estabelecer um aliado no Mediterrâneo e norte da África. Em artigo publicado no dia 18 de janeiro, já frente a expectativa de um encontro a ser realizado no dia 19 de janeiro em Berlim, com o objetivo de discutir a situação da Líbia, Erdogan afirmou que o mundo “não fez o suficiente para defender atores que buscam o diálogo” na Líbia. O Presidente da Turquia também salienta que a União Europeia deve se posicionar como um “ator relevante” e alerta sobre o risco de uma escalada no terrorismo se a situação da Líbia não chegar a uma conclusão.

O governo turco também aprofundou o diálogo junto ao governo da Síria sobre questões estratégicas que vinculam os dois países. As relações entre ambos, ainda que nunca profundamente amistosas, haviam enfrentado um teste ainda mais profundo com a Operação Primavera da Paz.

Esta ação militar, empreendida pelo Exército turco no noroeste da Síria, visava criar uma “zona de contenção”, já demandada pelo país há muito tempo. Após a escalada do conflito, um acordo mediado pela Rússia permitiu estabelecer um cessar-fogo entre tropas locais e as forças da Turquia.

Em recente visita do presidente russo Vladimir Putin à Síria foi sugerida a busca de um entendimento com a Turquia através de diálogos diplomáticos. No dia 13 de janeiro foi reportado o encontro entre os chefes dos serviços de inteligência e conselheiros de segurança nacional da Síria e da Turquia em Moscou.

Os primeiros passos do diálogo não resolvem a tensão diplomática entre os dois países, marcadas por acusações mútuas, como a recente afirmação por parte do governo da Turquia de que o governo da Síria seria responsável pelas recentes agressões perpetradas por rebeldes em Idlib. Entretanto, a predisposição para dialogar com o governo sírio pode indicar que a Turquia possui outros planos, ou não deve tomar a ação na Síria como prioridade em um futuro próximo.

A Turquia ainda declarou que empreenderá a construção de campos de refugiado na zona de contenção estabelecida no nordeste da Síria. O presidente Erdogan afirmou que possui planos para restabelecer até um milhão de refugiados sírios na região. A Organização das Nações Unidas reconhece que existem 5,5 milhões de cidadãos sírios em condição de refúgio em janeiro de 2020, e 3,5 milhões destes se encontram na Turquia.

Os planos para exploração de gás natural, que envolvem um gasoduto contornando o Chipre, permitindo assim a exploração do recurso energético também no leste do mar Mediterrâneo, tem causado desentendimentos com países vizinhos.

O governo da Grécia afirmou que a medida fere a soberania sobre o mar territorial na ilha de Creta. Em 16 de janeiro, quando o presidente Erdogan se pronunciou sobre o projeto, informando que um acordo com a Líbia permitiria que os primeiros “passos concretos” fossem tomados, o Egito, ainda que não tenha se manifestado abertamente, já desenvolvia planos para explorar o gás do Mediterrâneo em conjunto com Chipre, Grécia e Israel.

Em resposta às posições sobre a operação de extração de gás na região, o porta-voz para a assuntos exteriores e política de segurança da União Europeia, Peter Stano, publicou que considera as “atividades ilegais de exploração da Turquia na Zona Econômica Exclusiva do Chipre”, pois, segundo Stano, são necessárias “medidas para criar um ambiente que conduza ao diálogo em boa fé”, complementando que as atitudes da Turquia vão, “lamentavelmente, na direção contrária”.

O Chanceler turco, Mevlüt Çavuşoğlu, reunido com o Secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo

Observa-se que o governo da Turquia busca usar para a região uma estratégia semelhante à aplicada no âmbito interno. Ao mesmo tempo em que consegue equilibrar interesses de distintos grupos para fortalecer a posição do governo, da mesma forma também apresenta forte discurso nacionalista com a defesa de uma política com visão ampla de Oriente Médio, com a qual pretende transitar entre distintos interesses para fortalecer e remodelar a presença na região.

Obtendo presença militar e econômica também no Mediterrâneo, a Turquia busca dar passos para construir um novo modelo geopolítico para o Oriente Médio. Em meio à presente crise política da região, é notório que o país possui dificuldades em promover mudanças de posicionamento e ainda não é completamente clara a natureza de suas ações. Entretanto, é possível observar que a Turquia atua de forma incisiva e pragmática para defender seus interesses na área.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, durante a Conferência sobre a Líbia realizada em Berlim” (FontePágina Oficial da Presidência da Turquia no Twitter, @trpresdiency): https://twitter.com/trpresidency/status/1218935941433372672

Imagem 2O presidente Erdogan em encontro com o Presidente da Federação Russa, Vladimir Putin” (FontePágina Oficial da Presidência da Turquia no Twitter, @trpresdiency): https://twitter.com/trpresidency/status/1218913903633141761

Imagem 3O Chanceler turco, Mevlüt Çavuşoğlu, reunido com o Secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo” (FontePágina Oficial de Mevlüt Çavuşoğlu no Twitter, @MevlutCavusoglu): https://twitter.com/MevlutCavusoglu/status/1218824951739736064

About author

É bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, atualmente é mestrando em História, Política e Bens Culturais no Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Integrou o Grupo de Estudos de Segurança Internacional (GEDES) na condição de pesquisador, onde também colaborou como redator do Observatório Sul-Americano de Defesa e Forças Armadas. Como pesquisador da Rede de Segurança e Defesa da América Latina desenvolveu trabalho na área de segurança pública, defesa e manutenção da paz. Atualmente desenvolve pesquisa sobre a reconstrução do Estado no Iraque. Como colaborador do CEIRI Newspaper escreve sobre a política e dinâmica regional do Oriente Médio.
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