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Na segunda-feira, dia 21 de janeiro de 2013, Barack Obama, o Presidente reeleito dos EUA, discursou perante a multidão em um dos atos do conjunto de eventos que representa a tomada de posse para seu segundo mandato consecutivo na Presidência do país. A investidura oficial correu no dia 20, domingo, à tarde, em cerimônia nas dependências da “Casa Branca[1], quando fez o juramento conforme exige a Constituição.

A multidão, de aproximadamente 600 mil pessoas, acompanhou o discurso público posse [2] com manifestações de apoio ao novo mandato e exigências de que ele cumpra suas promessas de campanha, agora que dará continuidade ao cargo presidencial tendo diante si um cenário menos tempestuoso na economia, embora o país ainda esteja em processo de saída da crise pela qual passa.

De acordo com especialistas, esta condição está configurada no fato de que, embora tenha ocorrido a queda da taxa de desemprego de 10% para, aproximadamente, 7,8%, os problemas ainda continuam e o número ainda é excessivamente alto para os padrões norte-americanos, bem como significativamente negativo para manter a dinâmica da sua economia, a qual, pela estrutura e configuração, sente fortemente a existência de uma taxa de desemprego tão elevada para o seu modelo.

Analistas interpretaram que neste discurso esteve presente um líder amadurecido, que apontou os temas principais que pretende enfrentar, mas terá grandes problemas a resolver pelos próximos quatro anos, principalmente pelo fato de, apesar de não ter entrado em detalhes sobre suas pretensões, reforçou o posicionamento de adoção da política de inclusão social que vem marcando seu comportamento.

Na linguagem dos observadores, ele objetiva manter a ideia de um “Estado Social” com expansão da classe média, sendo este último aspecto uma característica dos Estados Unidos que se consagraram por ser um país com classe média numerosa, além da forte defesa da iniciativa privada, do empreendedorismo, da inovação e sob condição de pleno emprego.

Na fala, apelou para a união dos estadunidenses, declarando “nós, o povo”, num chamado a uma ação conjunta, sem clivagens, e também apelou para condição de igualdade natural como consideração filosófica na afirmação de que “a verdade mais evidente é que todos nós fomos criados iguais [3].

Vários especialistas frisaram que esta consideração veio em reforço à ideia de que dará continuidade à política próxima do que seria chamado na Europa e no Brasil de “Política Social-Democrata”, apesar de o liberalismo mais puro ser considerado como o principal ideário forjador das tradições que moldaram a sociedade norte-americana.

Deve-se destacar, no entanto, que, historicamente, este posicionamento de tendência à social-democracia tem tradição nas manifestações e plataformas de governo do “Partido Democrata” estadunidense, razão pela qual o líder não se afasta de um comportamento que tem antecedentes e base doutrinária consolidada em seu partido. Mas, ressaltam os observadores que, neste momento, Obama é obrigado a reivindicar com mais intensidade tal postura política pelo fato de os EUA se verem diante de uma realidade em que emergiu uma vasta camada pobre em sua população e, por isso, a marca e o discurso social-democrata passaram a se firmar com mais força que o liberalismo diante do povo, ao ponto de vários intérpretes apontarem que o atual presidente vem adotando uma postura de centro-esquerda, mais próxima dos comportamentos típicos dos latino-americanos. Destacam isso quando citam a declaração presente no discurso de Obama em que afirma: “Nós, o povo, sabemos que o nosso país não pode progredir quando meia dúzia não têm problemas e a maioria mal consegue sobreviver. A prosperidade da América deve assentar nos ombros de uma classe média ascendente[4].

Enfatizam que parte das discussões entre os dois principais partidos (Republicano e Democrata) durante a campanha presidencial decorreu das percepções divergentes sobre os riscos de se abandonar uma tradição de economia liberal em que os problemas sociais se resolvem pela forma livre como a economia deve ser conduzida.

A proposta republicana era colocada na campanha de forma direta em estímulo ao empreendedorismo com redução dos impostos e diminuição dos gastos públicos para compensar esta incentivo, resolvendo assim o problema da atual taxa de desempregados e mantendo a taxa de classe média estável, sem queda, ou em constante crescimento. Isso resultaria ainda na geração de mais empregos e, em prazo alargado, no aumento da arrecadação sem precisar aumentar a tributação.

Já a proposta democrata, adotada por Obama, teve como consideração que as questões sociais não podem ser resolvidas apenas com a redução de impostos e dos gastos públicos, tal qual desejam os republicanos, que seguem mais fielmente os pressupostos do liberalismo econômico. A pretensão é aumentar os impostos dos mais ricos e investir em políticas de assistência social para criar um colchão às camadas que estão empobrecendo ou à beira da miséria.

De acordo com avaliadores, o embate será mais compreensível ao povo quando a atual política se consumar, já que os resultados serão visíveis e, neste momento, o que há como contraposição a essa crença do Presidente são apenas as considerações de que esta medida desestimulará os investimentos e acabará criando um hábito assistencialista difícil de ser remediado no futuro.

Ou seja, considerações de que talvez ele esteja criando outra bolha, agora assistencialista, que estourará no futuro quando o Estado criar uma dívida incapaz de ser sanada e a economia norte-americana estiver em queda pelo desestímulo aos empreendimentos, além de não haver mais condições de expandir o teto de endividamento do Estado.

Em contraposição, os partidários do mandatário discutem que o caos social será gerado se as medidas de inclusão não forem adotadas imediatamente e citam o caso do programa de saúde que Obama conseguiu aprovar (apelidado de Obamacare), o qual coloca toda a sociedade sob a possibilidade de receber assistência à saúde, algo que não existia, pois os princípios econômicos estadunidenses orientam-se perante a realidade de que o Estado não pode obrigar qualquer cidadão a comprar um produto, qualquer que seja, algo que se configuraria nesta situação dos planos de saúde.

Observadores apontam que a situação da saúde nos Estados Unidos é grave, pois a própria desregulamentação nacional dos Planos existentes cria uma condição de desequilíbrio entre as unidades subnacionais (os Estados e Municípios, que tem regras próprias e situações diversas), com concentração excessiva, possibilidade de exclusão de grandes massas populacionais de qualquer assistência e, paradoxalmente, gerando uma contraposição aos pressupostos do liberalismo econômico, pois permite concentrações e impedem concorrências adequadas, já que as grandes companhias detém o controle de suas regiões e não são obrigadas a cobrir todo o território nacional, nem são submetidas a regras igualitárias. Ou seja, um “Plano de Saúde” não tem aplicação em todo o país e não é submetido a esta obrigação, gerando falta de cobertura e situações perigosas para o contratante, além disso, não havia política para confrontá-las.

Rebatendo esta argumentação, os opositores republicanos perguntam qual será o custo desta medida para o Estado, que vive uma situação em que precisa aumentar o seu teto de endividamento para não falir e passa por situação de falta de investimentos, já que as empresas estão sendo desestimuladas e se vêem diante de uma competição externa acirrada, além de terem de enfrentar concorrentes estrangeiros dentro de seu próprio país de forma mais dinâmica. No caso da saúde, a volta do pleno emprego permitiria que o cidadão, novamente empregado, comprasse aquele Plano que lhe fosse mais adequado, de acordo com suas necessidades. Em síntese, o problema da saúde não estaria na regulamentação dos planos, mas no desemprego crescente, algo polêmico, que tem a maioria dos especialistas propensos a entender a questão da perspectiva de Obama.

Conforme apontaram os analistas, nos próximos quatro anos a resposta virá, pois será possível medir o resultado das medidas que o Presidente adotou, ou seja, das políticas sociais implantadas, bem como dos anunciados cortes de gastos em setores que considera desnecessários, ou vistos como inviáveis, além as políticas de estímulo que ele escolheu como adequadas para gerar empreendimentos econômicos.

Os observadores apontam que, apesar das especificidades do Presidente e dessas questões conjunturais, Obama manteve em seu discurso a receita do “Partido Democrata”, tal qual se viu nas declarações em defesa das minorias (“Nossa jornada não estará completa até que os nossos irmãos e irmãs sejam tratados como todos os outros pela lei[5]) e na defesa do multilateralismo nas relações internacionais, mas terá muitos desafios para resolver.

Em Política Externa, por exemplo, terá dificuldades para equacionar problemas críticos já neste primeiro semestre de 2013, pois, se vem seguindo a fórmula democrata de multilateralismo, de investimento na diplomacia e de aposta na segurança internacional (ressaltando-se que estes princípios configuram-se apenas como metodologia para defesa dos interesses estadunidenses e não o seu abandono), terá, no entanto, de encarar várias situações em que os interesses e a segurança do Estado norte-americano exigirão posições baseadas exclusivamente na “Razão de Estado”, gerando contradição em seu discurso e recuo para uma postura em relações exteriores mais próxima da republicana.

Podem ser citados: um possível conflito bélico com o Irã, seja por ação direta dos EUA, seja por iniciativa israelense; a forma como se comportará em relação ao caos na Síria, sabendo que enfrentará os russos diretamente, embora não militarmente; a inversão do déficit da sua balança comercial, quando terá de pensar nas empresas estadunidenses e não no equilíbrio da economia mundial; a retomada dos espaços perdidos na America Latina, até mesmo como forma de expandir seus interesses comerciais e o enfrentamento da economia chinesa, seja concorrendo no mercado mundial, seja preenchendo nichos abertos no mercado interno deste país, havendo inclusive possibilidade de associações, além ter de trabalhar globalmente para evitar a perda do posto de maior economia do mundo para os chineses, risco que merge no horizonte, conforme aponta o relatório da OCDE [6].

Também terá de enfrentar os problemas de cumprir as promessas do mandato anterior, dentre elas: fechar a “Prisão de Guantánamo”; retirar as tropas do Afeganistão dentro do calendário previsto (2014), que é um situação mais fácil de ser cumprida, pois está sendo seguido o cronograma proposto; e não participar de nova guerra, já que, segundo seu discurso e de acordo com a interpretação de especialistas, isto tem sido um dos principais responsáveis pelo endividamento do Estado e um dos causadores da crise norte-americana, além de representar um dos cortes necessários dos gastos públicos para que os recursos sejam direcionados para as políticas sociais que ele tanto defende. Alguns observadores, no entanto, mostram que as guerras surgem em decorrência de serem afetados interesses que, se não defendidos, afetam imediatamente a economia e a sociedade estadunidense, por isso, não se acredita que será cumprida a promessa de não participar ou iniciar novas guerras.

Destacam ainda os especialistas que Obama fez uma chamada ao diálogo para os republicanos com o discurso de união do povo, mas isso também dificilmente ocorrerá, mesmo que ele tenha sido comparado com o ex-presidente Ronald Reagan, o qual, em seu governo, deixou portas abertas ao diálogo com os democratas, apesar de impor sua agenda conservadora e ter seguido as exigências do “Partido Republicano”. Conforme apontam, na realidade sua proposta política pretende ser a imposição da agenda assistencialista, com negociações pontuais com os republicanos para impedir contraposição no que lhe for essencial, embora declare que deseja dialogar e tenha chamado isso de adaptações às exigências de seu tempo, de acordo com o que afirmou em seu discurso: “Devemos entender que os tempos mudam e nós próprios também devemos mudar. Novos tempos exigem novas respostas a novos desafios. A luta pela nossa liberdade e os valores exige a unidade da nação. Os americanos não devem sozinhos contrapor-se a desafios globais. Uma pessoa não é capaz de preparar sozinha professores para nossas crianças, não é capaz de construir estradas, criar laboratórios e abrir novos postos de trabalho. Hoje como nunca, a América deve unir-se como um único país e um único povo[7].

São poucas as personalidades que acreditam que ele será aberto ao diálogo com a oposição devido ao fato de sua proposta ter pontos essenciais de antagonismo às propostas republicanas, tanto que evitou tratar em seu discurso sobre economia, sobre a forma como pretende criar empregos e sobre a necessidade de reduzir o déficit público [8], problemas observados constantemente durante a campanha eleitoral e caros aos opositores republicanos, que acham serem estas questões os pontos centrais de qualquer projeto para os EUA neste momento e, se não forem resolvidas, não tirarão o país da crise.

Ou seja, apesar de mais amadurecido, de viver uma situação econômica menos caótica e de sentir-se mais a vontade com o cargo, a percepção da maioria dos especialistas é de que terá um mandato difícil, principalmente pelo fato de que, hoje, sua condição racial, biografia política, história social, postura, elegância e personalidade cativante não são mais novidades, tanto que o expressivo número de pessoas que acompanhou seu discurso, apesar de expressivo, foi apenas um quarto do que o ouviu em 2009. 

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Fontes consultadas:

[1]  Ver:

http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2013/01/obama-defende-igualdade-de-gays-mulheres-e-imigrantes-durante-posse.html

[2]  Ver:

http://iipdigital.usembassy.gov/st/portuguese/texttrans/2013/01/20130123141336.html?CP.rss=true#axzz2IrM6OPMt

[3]  Ver:

http://www.em.com.br/app/noticia/internacional/2013/01/21/interna_internacional,344908/barack-obama-discursa-durante-cerimonia-de-posse-em-washington.shtml

[4]  Ver:

http://pt.euronews.com/2013/01/22/barack-obama-apelou-a-defesa-do-estado-social/

[5]  Ver:

http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2013/01/obama-defende-igualdade-de-gays-mulheres-e-imigrantes-durante-posse.html

[6]  Ver:

http://g1.globo.com/jornal-da-globo/noticia/2013/01/barack-obama-assume-segundo-mandato-na-presidencia-dos-eua.html

[7]  Ver:

http://portuguese.ruvr.ru/2013_01_22/Tomada-de-posse-de-Barack-Obama/

[8] Ver:

http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2013/01/oposicao-acusa-barack-obama-de-nao-buscar-o-entendimento.html

————————

Ver também:

http://www.em.com.br/app/noticia/internacional/2013/01/21/interna_internacional,344908/barack-obama-discursa-durante-cerimonia-de-posse-em-washington.shtml

Ver também:

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2013/01/veja-cronologia-dos-principais-fatos-do-1-mandato-de-obama-nos-eua.html

Ver também:

http://180graus.com/politica/em-dia-de-posse-barack-obama-destoa-de-quatro-anos-atras-584415.html

Ver também:

http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/ultima-hora/barack-obama-envelhece-ao-longo-de-2500-fotos-com-video

Ver também:

http://br.noticias.yahoo.com/desafios-barack-obama-nos-próximos-quatro-anos-132212121.html

Ver também:

http://www.voaportugues.com/content/article/1586637.html

Ver também:

http://noticias.terra.com.br/mundo/estados-unidos/fim-de-semana-da-posse-de-obama-comeca-com-acoes-de-voluntariado,5f101a7db0e4c310VgnCLD2000000dc6eb0aRCRD.html

Ver também:

http://revista.cifras.com.br/noticia/rapper-critica-barack-obama-em-festa-de-posse-e-e-retirado-do-palco_5278

Ver também:

http://ofuxico.terra.com.br/noticias-sobre-famosos/barack-obama-danca-com-a-mulher-no-baile-da-posse/2013/01/22-160570.html

 

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About author

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.
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