Israel é um país geograficamente pequeno, com 20.770 Km² de superfície e, de acordo com o sítio web Country Meters, possui, atualmente, uma população de 8.437.381  habitantes, com dois idiomas oficiais, o hebraico e o árabe. Localizado numa das regiões habitadas mais antigas do planeta, com intenso significado para as três religiões monoteístas (ou do Livro), Israel é o marco simbólico do encontro entre o Oriente e o Ocidente, entre a tradição e a modernidade, no entrecruzamento de diferentes povos, culturas e etnias.

A diversidade cultural está presente na construção recente do país, através de seus fundadores, os quais, como Theodor Herzl, David Ben-Gurion, Golda Meir e Shimon Peres, são originários de diferentes locais da Europa, à semelhança de muitos cidadãos anônimos oriundos de várias partes do mundo que, fugindo da perseguição nazista, foram em busca de abrigo na terra dos antepassados.

A população que, sob o ponto de vista cronológico, antecedeu o Estado não partilhava, naquela época, os mesmos hábitos e costumes nem, sequer, o mesmo o idioma. Na confluência entre o passado e o presente, os únicos elementos que ligavam de fato aquelas pessoas, ou a maioria delas, eram a religião e a obstinação por um lugar seguro e livre dos infortúnios dos preconceitos que colocavam as suas vidas em risco, em nome de sociedades identitariamente hegemônicas.

O período compreendido entre a criação do Estado de Israel e a atualidade tem sido marcado por conflitos, frutos do desentendimento com os vizinhos árabes, que não aceitaram a presença do novo Estado na região. Porém, a contenda existente entre os dois povos, desde o princípio, é, na verdade, uma disputa territorial e não a rejeição religiosa, ou étnica, daqueles que se encontram envolvidos no conflito.

A presença da imigração em Israel sempre foi muito forte, algo que o torna um país multiétnico e uma sociedade multicultural. Segundo Reda Mansour, Embaixador israelense de origem drusa, que serviu como diplomata no Brasil, de 2014 a 2015, em Israel há “imigrantes de 70 países do mundo” e, “atualmente[,] 15” Embaixadores não judeus. “A ideia hoje é ter mais minorias”. Contudo, esta diversidade de povos e de culturas, coexistindo num mesmo espaço territorial, desafia qualquer Estado na elaboração e efetivação de políticas públicas para proteger a multiplicidade cultural e evitar o comunitarismo étnico em nome de uma identidade partilhada, rejeitando, assim, a visão unilateral de valores e princípios de uma coletividade.

De acordo com estudiosos, a sociedade israelense é culturalmente rica, na medida em que foi construída a partir da diversidade de culturas, o que beneficia o enriquecimento mútuo e a abertura ao Outro. Porém, esta sociedade não pode ser entendida como multicultural em sentido convencional, dado que “a característica principal de seus grupos é de rejeição mútua, enquanto que o conceito multicultural requer diálogo intergrupal respeitoso[1]. Nenhum grupo renuncia às suas tradições e sistemas de crenças e, às vezes, a formação da sua auto-identidade leva ao afastamento dos outros. Os “grupos se manifestam politicamente, eles lutam com outros grupos semelhantes, pelo controle sobre instituições políticas, econômicas e mídia estatal”. No entanto, isto não significa que haja um confronto em sentido nocivo, o que inviabilizaria a coexistência na mesma sociedade. Em Israel existe, isso sim, um embate saudável, próprio da democracia, entendido como parte estruturante do processo social.

A partir dos anos de 1990, com a chegada de imigrantes da antiga União Soviética (URSS), a cultura e a política israelenses sofreram mudanças significativas que se apresentaram como um desafio à cultura nacional dominante que, de certo modo, se rendeu às exigências cada vez maiores da adoção de princípios multiculturais. Para Yossi Yonah, “esta realidade apresenta, então, o que pode ser descrito como ‘a condição multicultural’. Isto é, ela é uma realidade em que a diferença e a diversidade recebem crescente legitimidade”[2]. Este fato corresponde a um aspecto primordial para a inovação e a conquista de direitos, principalmente pelas minorias, não implicando o rompimento com a tradição e os costumes antigos mas, antes, o respaldo indispensável para a modernização do Estado, na medida em que é saudável a oposição, a luta pelos direitos e a representatividade na democracia, demandas que vão ao encontro das exigências do mundo globalizado. Menachem Maltner, Avi Sagi e Ronen Shamir, por exemplo, defendem que a “sociedade israelense tem as condições necessárias para o desenvolvimento de uma consciência multicultural, como ela é construída de diferentes grupos culturais, cada um forma um grupo cultural completo, enraizada em heranças históricas seculares, e moldada por numerosos mitos, ethos e práticas[3].

A sociedade israelense é fruto de um tipo de imigração que se diferencia da imigração convencional. Normalmente, as pessoas migram por motivos econômicos, políticos e religiosos. As dificuldades financeiras enfrentadas por muitos são o motivo principal da imigração mundial e, em geral, o imigrado tem baixa qualificação profissional, visando apenas ganhar dinheiro e retornar ao país de origem, sem manifestar interesse de desenvolver algum tipo de vínculo com a pátria de acolhimento. Deste modo, a integração desses indivíduos na sociedade torna-se praticamente impossível.

Aquilo que acabámos de afirmar não acontece em Israel, pois o contingente de imigrantes é distinto em praticamente todos os aspectos daquele que indicamos, porque, regra geral, são pessoas com boa qualificação profissional, que não têm interesse em retornar à terra natal. Neste sentido, a imigração é encarada como mais do que a solução imediata de um problema, sendo encarada como a construção de um lar em outro país. Esta característica favorece a política em suas mais variadas configurações, permitindo o desenvolvimento daquele país, na medida em que o indivíduo não se isola, tem interesse em participar na vida do país e, consequentemente, procura a integração na sociedade.

O multiculturalismo, em Israel, não é sinônimo de facilidade, dado que, apesar de existirem dificuldades diárias enfrentadas ante situações de naturezas variadas, incluindo as hostilidades para com os palestinos[4], a sua sociedade tem alcançado o sucesso coletivo, o que tem atraído a atenção e o interesse daqueles que possuem as condições necessárias para recomeçar a vida em outra terra.

Nos últimos tempos, a imigração de brasileiros para Israel, por exemplo, aumentou significativamente. Em 2014, a imigração de brasileiros cresceu 70%. De acordo com o jornal Folha de S. Paulo, “o Brasil está acompanhando a tendência de crescimento da imigração a Israel. Segundo dados da Agência Judaica, o país experimentou em 2014 o recorde dos últimos anos, com a integração de 26,5 mil novos cidadãos. O número foi impulsionado por 7.000 franceses, que fogem de um panorama de ascensão do antissemitismo em seu país, e 5.800 ucranianos, desesperançados com o conflito com a Rússia”.

Os diversos povos que chegam a Israel também enfrentam obstáculos, principalmente os brasileiros, que encontram a barreira da língua, uma vez que aprender o hebraico é fundamental no âmbito do processo de integração. Porém, eles contam o auxílio da ONG Olei Brasil, cujo trabalho consiste em apoiar os imigrantes brasileiros. A Psicóloga Rita Cohen Wolf comenta que “o imigrante precisa ser flexível e paciente. No caso do brasileiro em Israel, há um grande choque: eles deixam de conviver com a cultura serviçal do ‘pois não’ para lidar com um povo pragmático que sempre lutou pela sobrevivência”.

Embora este seja um problema de mão dupla, ou seja, tanto para o imigrante quanto para o país de acolhimento, ele não é o único. Há questões complexas, que envolvem os povos culturalmente distintos que lá chegam. De entre as complexidades que integram os mais variados grupos étnicos, podemos mencionar os beduínos, povos originários da Península Arábica. Habitando principalmente o deserto do Neguev e a Galileia, começaram a transição do estilo de vida nômade para o seminômade no século XIX, durante o Mandato Britânico na Palestina, e, nas décadas de 1950 e 1960, não suportaram a pressão populacional e a redução das pastagens, tendo-se tornado sedentários e agricultores. A transição dos beduínos para a sedentarização não foi fácil, pois depararam com problemas como “a pobreza e a alta taxa de criminalidade enquanto se adaptam à vida nas cidades; e conflitos com o governo israelense sobre muitas das ‘aldeias não reconhecidas”.

Os dilemas e as dificuldades enfrentados pelos beduínos no processo de adaptação a uma sociedade sedentária são complexos, pois eles tiveram que renunciar ao antigo modo de vida, o que, em muitas situações, leva ao conflito. Na tentativa de encontrar uma solução para esta questão foi criado por Israel o Comitê Ministerial para o Avanço nas Relações Beduínas, que investe cifras consideráveis com o propósito de “encontrar uma solução equitativa para os povos beduínos”.

As peculiaridades desse povo nômade contrastam com o presente e, por mais que o mundo atual exija adequação entre os mais variados povos, para estes alguns costumes permanecem arraigados, como, por exemplo, a diferença entre raças dentro da própria cultura. Para os beduínos que vivem em Israel, nem todos comungam dos mesmos hábitos e costumes, de modo que os denominados “beduínos pretos”, de ascendência africana, e os “beduínos brancos”, de pele escura, não se aceitam mutuamente. Segundo informações, os primeiros não rejeitam os segundos, os quais, por sua vez, não têm a mesma atitude e consideram os beduínos pretos cidadãos de segunda classe. Por outro lado, o casamento entre os dois grupos ainda é tabu.

Os desafios a serem vencidos por uma sociedade multicultural são múltiplos a partir do momento em que várias tradições, hábitos e costumes se entrecruzam. Esta é a realidade israelense, cuja sociedade em muito tem contribuído para o avanço e a consolidação do país entre os mais desenvolvidos do mundo. Embora existam obstáculos a serem vencidos, a plêiade de culturas e de idiomas faz de Israel a única democracia do Oriente Médio[5]. Simultaneamente, ele é um baluarte do encontro de várias partes do mundo, provando que, ao contrário de uma sociedade homogênea, o multiculturalismo integra as pessoas na sociedade, sendo capaz de superar as diferenças e reinventar, positivamente, a política, a educação, as artes e a própria sociedade.

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Imagem Terra de encontro de religiões, Israel é, simultaneamente, a pátria de povos com origens e sensibilidades diferentes que se encontram no projeto comum de construção de um país” (Fonte):

https://tcproduction.blob.core.windows.net/media/%7B8f47d402-ff5b-4227-a839-9fda2854aa2e%7D.3912064941_3d4b63836e_o.jpg

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Fontes Consultadas:

[1] MENACHEM MAUTNER, AVI SAGI & RONEN SHAMIR. Multiculturalism in a Democratic and Jewish State. Tel Aviv, 1998, pág. 75, in RUTH KARK & NOAM PERRY. Museums and Multiculturalism in Israel. Jerusalém: Department of Geography – Hebrew University of Jerusalem, pág. 94.Disponível online em:

http://geography.huji.ac.il/.upload/RuthPub/119.pdf

[2] YOSSI YONAH. Israel As a Multicultural Democracy: Challenges and Obstacles. In Israel Affairs, vol. 11, n.º 1, janeiro de 2005, pág. 96. Disponível online em:

http://homepage.univie.ac.at/herbert.preiss/files/Yonah_Israel_As_a_Multicultural_Democracy.pdf

[3] MENACHEM MAUTNER, AVI SAGI & RONEN SHAMIR. Multiculturalism in a Democratic and Jewish State, op. cit., págs. 67-76, in RUTH KARK & NOAM PERRY. Museums and Multiculturalism in Israel. Jerusalém: Department of Geography – Hebrew University of Jerusalem, pág. 94.

[4] Os árabes têm como representantes políticos no Knesset (Parlamento de Israel) os seguintes partidos: Balad, Hadash, Raam e Taal. Eles defendem os interesses e os anseios dos 20% de árabes-israelenses, ocupando, atualmente, 13 assentos no Knesset. Disponível online em:

https://www.knesset.gov.il/faction/eng/FactionPageCurrent_eng.asp?PG=2

[5] MARIA DO CÉU DE PINHO FERREIRA PINTO. Infiéis na Terra do Islão: Os Estados Unidos, o Médio Oriente e o Islão, 2.ª ed. Coimbra: Fundação Calouste Gulbenkian – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, 2008, pág. 31.