ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

A questão das mudanças nas relações diplomáticas entre “Coreia do Norte” e China

Com os recentes testes nucleares e de outros equipamentos bélicos por parte da “Coreia do Norte”, vários analistas especulam sobre quanto tempo levará para a frente liderada pelos “Estados Unidos” e “Coreia do Sul” invadir o território da “Coreia do Norte”. Questionam também sobre as relações sino-norte-coreanas, principalmente se elas permanecerão estáveis. Em meio a um cenário de crises em todo o mundo, com crise financeira internacional, conflitos no “Oriente Médio” e em algumas regiões do continente africano, a “Coreia do Norte” pode ser apenas um coadjuvante para os interesses do governo chinês.

No dia 5 de março deste ano (2013) o presidente eleito XI Jinping será confirmado na eleição do “Congresso Nacional do Povo” e o novo líder chinês assumirá o cargo tendo de enfrentar diversos desafios, como a manutenção do papel da China perante à economia internacional, os casos dos conflitos territoriais com o Japão e outros países na Ásia, além de não poder se posicionar de forma neutra em assuntos que se relacionam à “Segurança Regional” e envolvem Pyongyang.

Para quem acompanha os noticiários na China e na “Coreia do Norte” é perceptível que o tema das relações diplomáticas entre os dois países é praticamente inexistente e não são divulgados dados sobre a relação entre seus líderes. Por isso, especialistas tentam traçar uma linha sobre como estes dois Estados manterão suas relações a partir deste momento em que a “ameaça nuclear” de Pyongyang se tornou uma ameaça à “Segurança Internacional”.

O especialista em política chinesa que atua em “Hong Kong”, Lau Yui-siu, por exemplo, fez algumas considerações em entrevista dada à rede de notícias NHK japonesa[1] quanto aos desafios que Jinping terá de encarar acerca de questões ligadas à China, à “Coreia do Norte” e ao Japão. Para ele, as relações sino-norte-coreanas, não serão afetadas pelos últimos acontecimentos. Crê que as medidas tomadas por Beijing em aceitar as sansões internacionais contra o Governo norte-coreano são apenas superficiais e, embora Kim Jong Un não siga os conselhos chineses, um corte de relações está distante de ocorrer.

Cortar relações com Pyongyang neste momento seria inviável para os chineses, agora que muitas instituições e pessoas oriundas da China são acusadas de ataques cibernéticos contra empresas norte-americanas [2]. Por isso, indiferente da gravidade de suas ações, hoje, a “Coreia do Norte”  é quem chama a atenção na região, podendo servir como um ofuscador de outros atos chineses que desestabilizem a segurança em qualquer parte do mundo.

Além disso, a China disputa territórios com vários Estados do sudeste asiático que são aliados dos Estados Unidos em termos de segurança, porém dependentes da economia chinesa para se manterem ativos. De certa forma, essas dependências e divergências acabam gerando certa estabilidade que beneficiam o planejamento estratégico de Beijing, pois, enquanto Washington está concentrado em resolver um problema que ameaça diretamente a sua segurança e a de seus aliados – o “Programa Nuclear da Coreia do Norte” – não são trabalhadas as estratégias norte-americanas para essas pequenas nações asiáticas contra Beijing. Essa situação tem criado um espaço de conforto para os chineses que se mantêm focados em seus principais objetivos, todos ligados em sua economia, além disso, no desenvolvimento e manutenção de uma imagem positiva perante o mundo.

Respaldando essa concepção, embora a China tenha investido em equipamentos militares nos últimos anos, os chineses evitam se envolver em conflitos regionais e em quaisquer outros locais no mundo, desde que eles não estejam dentro de algum programa, ou exigência da ONU. Por isso, essa postura, algumas vezes neutra, em outras em consonância com a comunidade internacional, que vem sendo assumida em diversos fóruns globais para punir países como a “Coreia do Norte”, foi percebida como um ato para promover a ideia de que a China trata tanto de assuntos leves, quanto dos mais graves de uma única forma: a diplomática.

O país substituiu a imagem de seus Tanques da época da “Guerra Fria” pelas negociações e pelo poder econômico. Essas novas armas foram até agora seus maiores trunfos para a consecução de diversos interesses que nos últimos anos o fizeram tornar-se a 2a maior economia do mundo e uma referência global em diversos setores econômicos.

Conforme apontam alguns observadores, a China, hoje, não abriria mão de seus interesses por Pyongyang, mas algumas ações do seu vizinho podem ser importantes para a estratégia chinesa, razão pela qual ela tenderá a manter sua postura de neutralidade e apoio indireto aos norte-coreanos. A partir do momento que Pyongyang desconsiderar a opinião chinesa e atuar autonomamente em assuntos que envolve a “Segurança Regional”, Beijing poderá se distanciar das ações do jovem Kim e, assim, livrar-se de possíveis críticas referentes à falta de um posicionamento chinês sobre ações norte-coreanas.

Apesar de Lau Yui-siu ter afirmado no noticiário da NHK que, “O presente líder supremo da Coreia do Norte, Kim Jong Un, tem insistido em realizar negociações diretas com os Estados Unidos desde que assumiu o poder. O governo norte-coreano não exibe mais a obediência cega à China que cumpria no passado[1], até o momento o Governo norte-coreano não agiu de forma que afete diretamente os chineses, por isso há perspectivas favoráveis de que as relações diplomáticas sejam mantidas intactas.

Mesmo com essas tentativas de diálogo autônomo entre “Coreia do Norte” e EUA, algo que em tese preocuparia a China, paradoxalmente, o intenso desafio do líder norte-coreano a Washington está desagradando mais os chineses, pela razão de que não é interessante para Beijing um conflito próximo ao seu território, principalmente neste caso, em que o combate seria liderado pelo seu maior rival político e econômico da atualidade: os EUA.

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www3.nhk.or.jp/nhkworld/portuguese/top/news04.html

[2] Ver:

http://idgnow.uol.com.br/internet/2013/02/19/china-tem-grupo-de-ciberespionagem-que-rouba-segredos-dos-eua-diz-relatorio/

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Ver também:

http://www.cfr.org/china/china-north-korea-relationship/p11097

About author

Bacharel em Relações Internacionais (2009) e técnico em Negociações Internacionais (2007) pela Universidade Anhembi Morumbi (UAM). Atua na área de Política Econômica com foco nos países do sudeste e leste asiático, sendo referência em questões relacionadas a China. É membro da Júnior Chamber International Brasil-China, promovendo as relações sócio-culturais sino-brasileiras em São Paulo e Articulista da Revista da Câmara de Comércio BRICS. Também atuou como Consultor de Câmbio no Grupo Confidence. Atualmente trabalha como repórter fotográfico.
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