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A recente escalada de violência na Líbia

A Líbia voltou recentemente a ocupar manchetes por conta da escalada do conflito no país. Um grupo militar comandado pelo general Khalifa Haftar lançou uma ofensiva sobre a capital do país, Trípoli.

Com pouco tempo de conflito ainda não é possível prever seu desfecho ou tampouco quais os efeitos mais duradouros que as manobras possam produzir. O Governo do Acordo Nacional, entidade reconhecida pelas Nações Unidas como governantes da Líbia, foram pegos de surpresa pelo anúncio de que tropas marchariam para tentar tomar definitivamente o controle do país.

Khalifa Haftar, membro das Forças Armadas da Líbia desde 1966, apoiou Muammar Gaddafi no golpe que este empreendeu contra o rei Idris I, em 1969. Nas décadas que serviu sob o comando do ditador líbio, o General ascendeu dentro das Forças, comandando as tropas no conflito com o Chade. Após desertar para a Frente Nacional de Salvação da Líbia, grupo opositor ao governo, decidiu exilar-se nos Estados Unidos, onde tornou-se cidadão.

Após a derrubada de Gaddafi, em 2011, o general Haftar regressou ao seu país. A partir de 2014, converteu-se em comandante autoproclamado do Exército Nacional Líbio (ENL), organização que contesta a autoridade do governo em Trípoli, proclamando uma autoridade paralela, com a conquista de territórios ao leste do país, por meio de uma campanha militar autoproclamada “Operação Dignidade.

Desde então, há uma disputa pelo controle do país, que é particularmente intensa na região de Tobruk, cidade ao leste. Neste cenário, os militares que apoiam Haftar possuem apoio de Estados como a Arábia Saudita, os Emirados Árabes e o Egito. As Nações Unidas tentam mediar o processo e desencorajar o grupo insurgente de perseguir seus objetivos.

O Secretario Geral das Nações Unidas, Antonio Guterres, que se encontrava na Líbia com objetivo de organizar uma conferência dedicada a planejar futuras eleições, deslocou-se até a cidade de Benghazi para demover o líder do ENL da sua ofensiva. Após a falha das negociações, Guterres declarou em 6 de abril que deixava a Líbia “com o coração pesado e profundamente preocupado. Eu ainda espero que seja possível evitar um confronto sangrento dentro e ao redor de Trípoli”.

Entretanto, no dia 4 de abril, o General divulgou um áudio entre a população anunciando o lançamento de sua ofensiva para conquistar a capital. Este foi o ponto de partida de uma iniciativa militar do autoproclamado governo paralelo, começando com ataques aéreos à capital, a partir do dia 7de abril.

A missão da ONU permaneceu no país, ainda que com pessoal reduzido, uma vez que a parte administrativa da missão foi deslocada para a vizinha Tunísia. Nos últimos dias tem se dedicado a remover alguns cidadãos em regiões de risco. Também haviam planejado uma conferência para discutir o cenário eleitoral, que deveria ter início no dia 14 de abril, mas, dadas as condições na Líbia, este compromisso foi adiado.

O Governo do Acordo Nacional que possui apoio das Nações Unidas, dentre outros membros da comunidade internacional, lançou uma contraofensiva militar e conta com uma série de milícias ao redor da capital dispostas a enfrentar as forças do autoproclamado ENL.

A Operação “Vulcão de Raiva, lançada pelas Forças Armadas da Líbia, leais ao governo, procura retomar territórios ocupados pelos insurgentes, incluindo o aeroporto nacional de Trípoli. Conflitos no sul da capital já deixaram mais de 3.400 desabrigados, segundo o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários. A entidade condena o conflito e urge a Haftar para cessar a escalada da violência.

De uma maneira geral, a comunidade internacional permanece silente à questão. Pelo que vem sendo disseminado na mídia, grandes países ocidentais tomaram pouca atitude ou não se pronunciaram quanto ao tema. No dia 8 de abril, os EUA retiraram as tropas que possuíam estacionadas no país alegando razões de segurança. Segundo a CNN, o secretario de Estado, Mike Pompeo, afirmou que “não há solução militar para o conflito na Líbia”, conclamando autoridades líbias e internacionais a buscar mediações.

A deflagração do maior conflito no território líbio nos últimos anos ainda deve permanecer sob observação. O Conselho de Segurança das Nações Unidas deve reunir-se em breve para lidar com preocupações como a segurança da população, como isto afetaria o fornecimento de matérias-primas e uma possível nova crise de refugiados.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Crianças desabrigadas pelo Conflito na Líbia” (Fonte Twitter do Chefe da OCHA na Líbia, @NielScott): https://twitter.com/NielsScott/status/1115631522298642432

About author

É bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, atualmente é mestrando em História, Política e Bens Culturais no Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Integrou o Grupo de Estudos de Segurança Internacional (GEDES) na condição de pesquisador, onde também colaborou como redator do Observatório Sul-Americano de Defesa e Forças Armadas. Como pesquisador da Rede de Segurança e Defesa da América Latina desenvolveu trabalho na área de segurança pública, defesa e manutenção da paz. Atualmente desenvolve pesquisa sobre a reconstrução do Estado no Iraque. Como colaborador do CEIRI Newspaper escreve sobre a política e dinâmica regional do Oriente Médio.
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