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A Rússia e a OPEP: redução da produção global de petróleo

A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) é uma instituição intergovernamental criada em 14 de setembro de 1960, na cidade de Bagdá, capital do Iraque. A OPEP nasceu com o propósito de promover uma coordenação da política de petróleo entre seus membros fundadores: Irã, Iraque, Kuwait, Arábia Saudita e Venezuela.

A estratégia de formação do grupo funcionou e os Estados-parte passaram a deter um maior poder econômico. O êxito da OPEP despertou o interesse de terceiros países, os quais também ingressaram na organização, a qual, atualmente, é composta por: Argélia, Angola, Congo, Guiné Equatorial, Gabão, Irã, Iraque, Kuwait, Líbia, Nigéria, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Venezuela.

Posteriormente se observam várias mudanças administrativas na Organização, visto que alguns Estados optaram pelo término de suas participações, a exemplo do Equador, em 2020, do Qatar, em 2019, e da Indonésia, em 2016. A exceção de retorno à participação foi o Gabão, em 2016.  

A OPEP possui sede em Viena, Áustria, desde 1965, e é alvo da atenção dos setores energéticos mundiais, pois suas decisões colaborativas tendem a influenciar diretamente na produção e no preço dos barris de petróleo pelo globo. Fato de magnitude ocorreu durante a Crise do Petróleo na década de 1970, quando houve um dramático aumento dos preços dos barris. O episódio trouxe alcance imediato na economia mundial daquele período, devido à decisão de queda de produção pelo Bloco.

Diante da sensibilidade da oferta de petróleo e das flutuações de preços, diversos Estados ficaram espantados com o poder que uma instituição não estatal adquiriu. Todavia, tal força se deve não à organização em si, mas à cooperação entre seus membros, os quais concentram os maiores volumes confirmados de petróleo do mundo.

Com a recente pandemia da Covid-19, as atividades econômicas foram reduzidas, pois maior quantitativo de pessoas permanece em suas casas, às quais deixaram de utilizar seus veículos. A baixa no consumo de petróleo provocou a expectativa de um declive na economia mundial, o que acarretou na decisão de redução do volume de barris produzidos pela OPEP. Dentro da lógica de redução da produção, a OPEP e o Grupo dos 20 (G20)* iniciaram negociações no tangente aos mecanismos de adoção que seriam implementados.

O resultado obtido foi um acordo entre os produtores, o qual prevê a sistematização de um planejamento em três etapas. O jornal Novaya Gazeta trouxe o modelo que será aplicado: na primeira etapa a redução prevista é de 10 milhões de barris por dia (bp) no período de maio a junho de 2020; na segunda etapa a redução prevista é de 8 milhões bp no período de julho até o fim de 2020; e, na terceira, a redução prevista de 6 milhões de bp no período de janeiro de 2021 a abril de 2022.

Em conformidade com o apresentado no jornal Novaya Gazeta, o objetivo do acordo é buscar reduzir o excedente de 1 a 2 milhões bp no período anterior à crise; gerar na primeira e segunda etapas uma compensação parcial devido aos efeitos de queda da demanda; e a redução no mercado de um adicional de suprimento russo de cerca de 4 milhões bp, por causa das discordâncias de preços com a Federação Russa.

Nesse sentido, é necessário observar a importância da Federação Russa na redução da produção de petróleo. Os russos e sauditas divergem quanto à política de preços, pois esses últimos possuem maior poder produtivo e podem utilizá-lo de forma a afetar a economia russa com perda de recursos. Os Estados buscam favorecer seus interesses e a cooperação somente se torna ativa enquanto houver benefício. Entretanto, após negociações, a Federação Russa concordou com os termos da OPEP e deverá diminuir sua produção em cerca de 2,5 milhões bp, pois os russos perceberam que a situação poderia ser pior para sua economia.

Ministro de Energia da Federação Russa, Alexander Novak

A Federação Russa apresentaria dificuldades com a exportação de petróleo a baixo preço, todavia, diante da emergência da Covid-19, a desvantagem com as perdas de um não acordo com a OPEP seriam bem maiores. Em relação a essa temática, o jornal RBC traz a declaração do vice-presidente da LUKOIL, Leonid Fedun, o qual sinalizou: “Isso seria um tapete fechado [dos poços]. A mineração teria caído muito mais. Não teríamos a oportunidade de enviar petróleo, exceto para nossas próprias refinarias, e o consumo é extremamente baixo na Federação Russa, para que pudéssemos fechar até 50% da produção”.

Vice-presidente da LUKOIL, Leonid Fedun

Por fim, o jornal Izvestia trouxe a declaração do Ministro de Energia da Federação Russa, Alexander Novak, sobre a questão, o qual afirmou: “Os parâmetros atuais dos acordos atendem plenamente aos interesses da Rússia em termos do efeito sobre a economia e o orçamento”. O Ministro observou a concordância dos líderes das principais empresas petrolíferas sobre o acordo e demonstrou otimismo quanto a um equilíbrio do mercado.

Os analistas apontam como realistas os parâmetros de consideração de vantagens e desvantagens que os Estados fazem no jogo da política internacional. Nessa perspectiva, a OPEP, com o acordo, apresentou soluções condizentes com os fatos observados, os quais correspondem aos interesses dos países que a compõem, e mesmo ao mundo, como forma de evitar um possível caos econômico.

Em relação à Federação Russa, suas autoridades optaram pela perda menor, a fim de ganharem estabilidade econômica e a manutenção de seu setor petrolífero. Resta-nos aguardar e esperar os acontecimentos futuros e observarmos se o acordo da OPEP será realmente cumprido à risca, ou se variáveis novas poderão surgir, não somente entre a Federação Russa e a Arábia Saudita, como também com terceiros atores não participantes da OPEP.  

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Nota:

* Grupo dos 20: é um grupo formado pelos Ministros de Finanças e Chefes de Bancos Centrais das 19 maiores economias do mundo e da União Europeia (UE). O objetivo visa à promoção do diálogo sobre pautas econômico-financeiras de destaque para os países participantes, visto que representam parcela significativa do comércio e população mundial. A composição do G20 abrange: Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, China, França, Alemanha, Índia, Indonésia, Itália, Japão, México, República da Coreia, Rússia, Arábia Saudita, África do Sul, Turquia, Reino Unido, Estados Unidos e União Europeia.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Navio petroleiro” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/66/Sirius_Star_2008b.jpg

Imagem 2 Ministro de Energia da Federação Russa, Alexander Novak” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/0/02/Alexander_Novak_portrait_%28cropped%29.jpg

Imagem 3 Vicepresidente da LUKOIL, Leonid Fedun” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/f/f4/Spartak-Zrvena_%281%29.jpg

About author

Mestre em Sociologia Política (2018) e Bacharel em Relações Internacionais (2014) pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro – IUPERJ vinculado a Universidade Cândido Mendes. Atualmente incorpora o quadro do CEIRI Newspaper, onde atua na qualidade de colaborador voluntário na produção de notas analíticas e conjunturais na área de política internacional europeia com ênfase nos Estados Nórdico-Bálticos e Rússia.
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