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ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIAEUROPA

A Rússia na “Organização para Cooperação de Xangai” (OCX)

A “Organização para Cooperação de Xangai” (OCX, ou “Shanghai Cooperation Organisation” – SCO) é uma organização internacional intergovernamental fundada em 15 de junho de 2001, composta pelos “gigantesRússia e China, mais quatro ex-repúblicas soviéticas da “Ásia Central”, quais sejam, Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão e Uzbequistão. Seu predecessor foi o “Shanghai Five*, mecanismo que obteve relativo êxito em suas demandas em um curto espaço de tempo, em razão, sobretudo, do compartilhamento das mesmas ameaças potenciais aos seus membros, tais como, o extremismo, o separatismo e o terrorismo.

No contexto histórico anterior aos “Atentados de 11 de Setembro de 2001”, em que as iniciativas de multipolaridade proliferavam ao redor do globo, a criação da “Organização para Cooperação de Xangai significou uma reestruturação das alianças entre os países. No alvorecer do século XXI, restou clara a necessidade de cooperação entre as potências regionais, com o objetivo de combater ameaças difusas e transfronteiriças e não mais outros Estados, algo que era característico do século XX, que findava.

Por esse motivo, a “Federação Russa” e a “República Popular da China”, cientes das similaridades que os uniam, intensificaram a parceria por meio da “Organização para Cooperação de Xangai”, tendo como base a ideia de região estratégica conferida à “Ásia Central”. Geopoliticamente, pode-se inserir essa região no rol das mais relevantes da era globalizada, entre outros motivos, em virtude da grande riqueza energética (petróleo e gás natural) e mineral, e confluência de importantes civilizações (confuciana, cristã, árabe, islâmica, persa), além de ser profícuo terreno para o tráfico internacional de drogas.

Após os “Atentados de 11 de Setembro de 2001 e seus desdobramentos, a comunidade internacional pôde presenciar a consequente guinada da política internacional para um momento de unilateralismo militar norte-americano baseado na “War on Terror”**. Nesse contexto, pode-se inferir um ganho de poder relativo a favor da “Organização para Cooperação de Xangai”, já que a ocupação do Afeganistão pelas tropas da “Organização do Tratado do Atlântico Norte” (OTAN)***, lideradas pelos “Estados Unidos da América” (EUA), resultou na mudança de prioridades da política externa norte-americana, em que a “Ásia Central” rapidamente passou a ganhar mais destaque e, por isso, houve maior aproximação entre os membros da OCX.

Com base nesses pressupostos, pode-se dizer que a Rússia, aproveitando-se dessa característica atual das relações internacionais, utiliza-se da “Organização para Cooperação de Xangai como plataforma para o exercício de seu soft power regional. Desse modo, impedir-se-ia uma expansão desmedida da OTAN por uma região historicamente vinculada aos desígnios russos. Prova disso é a recusa em aceitar os EUA como observadores na organização, status já conferido à Índia, Irã, Mongólia, Paquistão e Afeganistão[1], denotando clara rejeição às políticas e métodos norte-americanos direcionados à região.  

Por meio de cúpulas anuais de “Chefes de Estado”, a “Organização para Cooperação de Xangai” define estratégias e objetivos de atuação, tendo como fundamento basilar o combate ao terrorismo, ao extremismo e ao separatismo. Nesse arcabouço amplo, inserem-se exercícios militares conjuntos e cooperação em segurança, além de temas provenientes de cooperação econômica e cultural.

Temas de maior relevância internacional, tais como a questão nuclear do Irã, o conflito civil na Síria e a ocupação do Afeganistão por tropas dos EUA e da OTAN também são discutidos pela Organização.

No primeiro caso, apóia-se o direito do Irã à energia nuclear para fins pacíficos, ao mesmo tempo em que se respeitam as decisões da “Organização das Nações Unidas (ONU). Desse modo, em virtude das sanções no âmbito do “Conselho de Segurança das Nações Unidas” (CSNU), impede-se que esse país se torne membro pleno da OCX, segundo está previsto na sua Carta Constitutiva[2].

No caso sírio, o grupo defende a interlocução com a ONU. Os fortes vínculos históricos entre os alauítas sírios e os russos impedem qualquer radicalização no discurso ou nas ações por parte da Rússia, o que acaba resultando em uma criticada moderação a respeito dos atos praticados pelo governo de Bashar al-Assad contra os insurgentes em seu território.

O tema mais delicado, sem dúvida, é a invasão e ocupação do Afeganistão, que já completou mais de 10 anos e preocupa tanto a China quanto a Rússia. Com as tropas da OTAN tão próximas ao seu território, o papel da Rússia é o de cada vez mais cooptar as repúblicas da Ásia Central, por intermédio de seu soft power, na tentativa de mantê-las afastadas de uma aliança sólida com os norte-americanos[3]. No entanto, há frequentes contrapartidas de cooperação entre a OTAN e a OCX no combate ao Taleban****, muitas vezes por meio do envio de técnicos militares russos às bases localizadas no Afeganistão.             

Conforme se percebe na avaliação de vários e especialistas e nos fatos ocorridos ao longo do períodos, há uma clara influência da política externa russa na formulação das prioridades da OCX. Dessa forma, a Rússia intensificaria, com a ajuda da também interessada China, iniciativas para conter o hard power dos norte-americanos na região, fato que foi aprofundado com a invasão do Afeganistão, em 2001, no contexto da “War on Terror de George W. Bush.

Em 12 de fevereiro de 2013, o presidente da “Federação Russa”, Vladimir Putin, divulgou a atualização das bases conceituais para a atuação internacional do país. Nesse contexto,  a “Organização para Cooperação de Xangai insere-se como prioridade no “Novo Conceito de Política Externa russa”, pois o documento enfatiza a necessidade de aprofundar laços com as ex-repúblicas soviéticas, assim como com seus vizinhos imediatos, prioridade essa que está à frente até mesmo das relações com o Ocidente[4].

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* O Shanghai Five caracterizava-se como um fórum multilateral formado por Rússia, China, Cazaquistão, Quirguistão e Tadjiquistão. Tendo sido criado em 1996, em Xangai, seus objetivos baseavam-se na ideia de cooperação em matérias de segurança e confiança mútua nas áreas limítrofes entre seus membros.

** Termo criado pelo Governo de George W. Bush e por seus conselheiros de política internacional no momento posterior aos Atentados de 11 de Setembro de 2001. Refere-se à campanha militar internacional liderada pelos Estados Unidos com o intuito de eliminar organizações terroristas, tendo como principal alvo a al-Qaeda.

*** A “Organização do Tratado do Atlântico Norte” (OTAN) é uma aliança militar intergovernamental que foi fundada em 1949, liderada pelos Estados Unidos, tendo como  objetivo inicial o de combater a expansão do comunismo pela Europa, contrapondo-se ao então “Pacto de Varsóvia” dos soviéticos durante a “Guerra Fria.

**** O Taleban é um movimento islâmico fundamentalista e nacionalista com influências tanto no Afeganistão quanto no Paquistão, sendo que governou efetivamente aquele no período entre 1996 e 2001. É considerado como uma organização terrorista pela “União Europeia” e pela Rússia, além dos “Estados Unidos.

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ImagemLogotipo da Organização para Cooperação de Xangai” (Fonte):

http://darussia.blogspot.com.br/2010/06/organizacao-de-cooperacao-de-xangai-vai.html

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://portuguese.ruvr.ru/2012_06_07/sexteto-de-xangai-ganha-parceiros/

[2] Ver:

http://rbth.ru/articles/2012/06/09/sco_welcomes_afghanistan_15844.html

[3] Ver:

http://rbth.ru/international/2013/05/03/observing_the_fight_of_titans_25699.html

[4] Ver:

http://rbth.ru/international/2013/02/25/russia_updates_its_foreign_policy_concept_23211.html

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Ver também:

http://gazetarussa.com.br/opiniao/2013/04/03/responsabilidade_global_e_a_chave_do_futuro_18363.html

 

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About author

Pós-graduando do Curso de Especialização "Globalização, Justiça e Segurança Humana", organizado pela Escola Superior do Ministério Público da União (ESMPU). Graduado em Direito pela Universidade da Amazônia (UNAMA). Atualmente exerce o cargo de Oficial de Chancelaria no Ministério das Relações Exteriores (MRE), por meio do qual pôde realizar missões de trabalho no Catar e na Rússia.
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