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ÁSIANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

A situação dos curdos na Síria

O conflito da Síria já se estende por mais de 8 anos e tem afetado profundamente a vida da maioria da população do país e na região. Em 23 de março de 2019, as tropas das Forças Democráticas Sírias (SDF, em inglês) anunciaram a vitória sobre o Estado Islâmico (EI, ou ISIS, de Islamic State of Iraq and the Levant – traduzindo, Estado Islâmico do Iraque e do Levante) em seu território, após expulsar o grupo terrorista da cidade de Baghouz. Esta era reconhecida como último enclave territorial do ISIS na Síria.

Apesar das vitórias, os curdos ainda não possuem certeza quanto ao futuro que terão após o fim do conflito. Desde 2014, o SDF também tem enfrentado constantes embates com forças do governo sírio. Com o fim dos combates com o Estado Islâmico, os curdos controlam uma extensa parcela territorial do norte e leste da Síria, sobre a qual esperam negociar condições para incrementar a própria autonomia, senão almejar uma condição de independência parcial frente ao governo em Damasco (Síria).

O território controlado pela administração curda representa hoje quase 25% da extensão total da Síria, além de fazer fronteira tanto com a Turquia quanto com o Iraque. A proximidade com estes vizinhos representa a necessidade de enfrentar outras frentes de negociação.

O governo turco reconhece a entidade política curda síria, as Unidades de Proteção Popular (YPG, na sigla em curdo), como associada aos curdos na Turquia, representados pelo Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK, na sigla em curdo), compreendido pelos turcos como uma organização terrorista.

Por conta disto, o governo de Ankara possui severas restrições à autonomia curda no país vizinho. Com o fim dos conflitos contra o Estado Islâmico, foi percebido um aumento nas incursões militares e ataques do Exército turco contra forças do Curdistão sírio. Os turcos também requerem estabelecer e controlar uma “zona de segurança”, com 32 quilômetros de extensão, tanto entre a fronteira da Síria com a Turquia quanto com o Iraque.

O anúncio em princípios de 2019, por parte do presidente estadunidense Donald Trump, reforçou a situação de fragilidade para os curdos. A retirada dos soldados estadunidenses representa uma forte incerteza, uma vez que os Estados Unidos têm fornecido historicamente apoio tanto logístico quanto de recursos para os curdos, além do fato de a presença estadunidense frear o avanço de possíveis hostilidades.

Ante à ausência de Washington na negociação, a Rússia tem-se feito cada vez mais presente. Como Moscou detém bom trânsito junto à administração do presidente sírio Bashar al-Assad, e de sua contraparte turca, Recep Erdogan, tratou de destinar um grupo diplomático especializado para lidar com a situação. O foco das negociações por este lado tem sido demover os curdos do projeto de autonomia e aceitar a incorporação das suas forças no Exército sírio, leal a Assad.

O Presidente sírio, Bashar al-Assad, recebe em visita o Vice-Primeiro-Ministro para a Defesa da Rússia, Yuri Borisov, encarregado das negociações com a Síria

O Presidente sírio afirmou, segundo a Reuters, que os curdos não devem apoiar-se em Washington, e que somente a Síria pode defendê-los. Em um evento realizado em Moscou, uma assessora sênior da Presidência síria, Bouthaina Shaaban, afirmou à Reuters que “autonomia significa a partição da Síria. Nós não temos como dividir a Síria”.

Apesar da dificuldade em chegar a um acordo com o governo, Damasco também enfrentará resistência em reestabelecer as condições anteriores de sua relação com os curdos. Estes possuem uma memória extremamente presente do domínio do Baath (partido do governo de Assad) na região. Esta é relativa sobretudo à violência e repressões pelo governo central, como relatam veículos de mídia.

Por conta disso, trataram de estabelecer além de uma estrutura administrativa uma série de escolas, livrarias e manifestações cotidianas de autonomia. Retornar à condição anterior à guerra, quando o governo central proibia livros e expressões culturais no idioma curdo, é amplamente rejeitado pela população.

Os curdos afirmam estabelecer bases claras para a negociação, ao mesmo tempo em que enfrentam um crescente aumento da pressão por várias frentes. Com os Estados Unidos pressionando pela aceitação da entrada de tropas turcas, apresentaram ao Presidente sírio um plano para que possam chegar a um acordo. Ainda assim, deixam claro que não haverá incorporação de suas forças no Exército sírio sem uma contrapartida de autonomia política e que atos de violência serão respondidos com reações militares.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Combatente das Forças Democráticas Sírias posa em Rojava” (FonteTwitter oficial das Forças Democráticas Sírias @sdf_press1): https://twitter.com/sdf_press_1

Imagem 2O Presidente sírio, Bashar alAssad, recebe em visita o VicePrimeiroMinistro para a Defesa da Rússia, Yuri Borisov, encarregado das negociações com a Síria”(Fonte Twitter da Presidência da Síria. @Presidency_Sy): https://pbs.twimg.com/media/D4lsD8oW0AA3jXA.jpg

About author

É bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, atualmente é mestrando em História, Política e Bens Culturais no Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Integrou o Grupo de Estudos de Segurança Internacional (GEDES) na condição de pesquisador, onde também colaborou como redator do Observatório Sul-Americano de Defesa e Forças Armadas. Como pesquisador da Rede de Segurança e Defesa da América Latina desenvolveu trabalho na área de segurança pública, defesa e manutenção da paz. Atualmente desenvolve pesquisa sobre a reconstrução do Estado no Iraque. Como colaborador do CEIRI Newspaper escreve sobre a política e dinâmica regional do Oriente Médio.
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