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A Soberania da moeda: o poder do Euro e do Dólar

A emissão de moeda confere ao Estado o poder de controlar sua dinâmica monetária, econômica e fiscal e auxilia em suas operações na área cambial, equilibrando suas contas internas e externas, sendo uma importante ferramenta no exercício de suas funções. Ainda assim, com o aumento da integração entre países e das operações internacionais, muitos Estados renunciaram a suas moedas locais, cedendo, dessa forma, parte de sua autonomia em temas econômicos e financeiros.

Países que adotaram moedas estrangeiras, tais como Equador, El Salvador, Timor Leste, Palau, que passaram a usar o Dólar, são exemplos de como alguns Estados, em sua maioria dependentes economicamente do exterior, optaram por ceder parte das ferramentas econômicas proporcionadas pela emissão de moedas e atrelaram sua economia aos Estados Unidos, consequentemente também às decisões tomadas pelo Banco Central Americano, obtendo, dessa forma, maior competitividade no cenário internacional sem as crescentes oscilações do mercado cambial, como acontece atualmente em países como o Brasil, a Rússia e a Argentina, que devem enfrentar o desafio de equilibrar seus cenários internos com a pressão do Dólar frente suas moedas locais.

No entanto, a utilização de uma moeda estrangeira nem sempre traz benefícios, graças às assimetrias existente entre os países, que têm suas próprias dinâmicas internas, e acaba produzindo um menor controle em relação a inflação e às taxas de juro, gerando problemas para solucionar possíveis crises.

No caso do Euro, essa falta de autonomia ficou visível durante a crise dos países mediterrâneos, principalmente no caso da Grécia, que estudou a possibilidade de voltar a sua antiga moeda e abandonar a Zona do Euro e sua dependência do Banco Central Europeu, recuperando, dessa forma, a capacidade de implementar medidas internas paras salvar a sua economia[1], tais como: a flutuação das taxas de interesse; moeda mais competitiva; concessão de créditos em moeda local para a sociedade; saneamento das contas públicas, usando recursos externos, más convertidos na moeda nacional; e ajuste do custo da moeda em relação ao custo de vida.

Mas, o projeto Europeu está desenhado justamente para formar uma entidade supranacional que aos poucos vai adquirindo maior poder de decisão sob os países, graças às atribuições cedidas pelos Estados membros em termos de soberania, algo reforçado ao longo da Crise Grega, tanto pelo Governo Europeu como pelos principais players. A líder alemã Angela Merkel chegou a reiterar essa mensagem em alguns discursos[2], dizendo que é necessário que os países da região cedam parte de sua soberania para a sobrevivência do projeto europeu.

A integração do sistema bancário da Europa e a crescente integração financeira é outra forma de visualizar esse aumento de soberania criado ao redor do Euro, mas nem todas as nações da União Europeia usam o Euro e nem todos os países que usam a moeda são da União. O Reino Unido, por exemplo, preferiu manter sua moeda em curso e dessa forma total autonomia em relação à decisões monetárias.

No caso de Andorra, San Marino, Mônaco, Montenegro, entre outros, são países que utilizam a moeda europeia embora não sejam membros de fato da União.  Essa questão na Europa nunca foi precisamente um problema após a criação da “Europa a la Carte” e os acordos realizados com nações da região.  Pelo contrário, tal cenário facilita a maior circulação da moeda, reduz a possibilidade de triangular com esses países devido a um dumping monetário e ajuda na maior integração da região incrementando a hegemonia da União Europeia em todo o continente.

A possível independência da Catalunha, no entanto, colocou o tema em discussão dentro da União Europeia, já que um dos argumentos usados pela Espanha é que a região, caso fosse separada, estaria abandonando tanto a União Europeia como a zona do Euro[3].

A União Europeia se manteve neutra em relação as reivindicações e declarações da Espanha, reiterando que, até o momento, a questão da Catalunha se trata de problema interno e que não houve até a período nenhuma ilicitude ou ação contrária aos princípios democráticos do Bloco.

Seja como for, moedas como o Euro e o Dólar geraram sua própria soberania.  As decisões tomadas pelos líderes dessas regiões afetam o mundo inteiro, voltando a uma velha discussão entre os economistas sobre a necessidade de existir uma moeda global única para servir de referência, mas, com essa multipolaridade crescente no globo, uma dúvida fica em aberto sobre qual país ou órgão seria o responsável por tal criação e como os países iriam conviver com ela.

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Imagem (Fonte):

http://www.galizacig.gal/avantar/files/images/20100610_euro-dolar.jpg

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://actualidad.rt.com/economia/171010-grecia-regreso-dracma-abandono-euro

[2] Ver:

http://www.europapress.es/economia/macroeconomia-00338/noticia-economia-macro-merkel-afirma-paises-eurozona-deben-estar-preparados-ceder-soberania-20130422145211.html

[3] Ver:

http://afersexteriors.gencat.cat/en/representacio_a_l_exterior/delegacio_del_govern_davant_la_unio_europea/

About author

Atuou como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comércio e Investimentos do Governo da Catalunha. Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latinoamericano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura e mestrando em Polítcias Sociais em Migrações na Universidad de La Coruña (España). Fundador do thinktank NEMRI – Núcleo de Estudos Multidisciplinar das Relações Internacionais. Especialista em paradiplomacia, acordos de cooperação e transferência acadêmica e tecnológica, smartcities e desenvolvimento econômico e social. Morou na Espanha, Itália, França e Suíça.
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