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ESPORTENOTAS ANALÍTICAS

A utilização do Futebol na Independência da Argélia

A criação de uma narrativa nacional, ou regional, é algo único para cada individualidade e pode ser explicada pelo histórico das trocas culturais de cada coletividade, ou individuo, com outras populações. Para compreender a criação destas narrativas no Oriente Médio, neste caso, sinônimo de Mundo Árabe-Muçulmano, é interessante utilizar o Esporte e o seu papel na criação destas narrativas. Um dos casos em que a utilização do Esporte para a criação de uma narrativa se faz mais presente, sendo inclusive utilizado como método de propaganda internacional, é o caso da Independência da Argélia no período posterior a Segunda Guerra Mundial.

O esporte é um fenômeno cultural que evoca claramente paixões, conduz a economia, modela política, destaca ilegalidades e sublinha identidades étnicas, regionais e nacionais. Esta foi uma declaração de Catherine Palmer que é central para o entendimento da utilização do Esporte na criação de uma unidade nacional e de uma identidade, neste caso a identidade argelina[1].

A história da Argélia a partir do século XIX está ligada à expansão neocolonialista francesa, que, tal como outras potências europeias, decidiu expandir seus domínios para a África e Ásia, após terem perdido as Américas. Entretanto, diferentemente de todas as regiões dominadas pela França, a Argélia se tornou uma região francesa e contou com uma forte imigração por parte de europeus.

A instalação da França e de seus colonos não se deu de maneira pacífica, com a região já estando instável e com diversas revoltas contra o domínio imperial, já desde a segunda metade do século XIX. Os processos de independência após a Segunda Guerra Mundial se deram com a volta dos soldados das colônias para seus países de origem e com a emergência do nacionalismo que criou uma necessidade de as nações voarem com suas próprias asas, conforme aponta Hobsbawn [2].

A principal liderança do processo de Independência da Argélia, a Frente de Liberação Nacional (FLN), fez um comunicado em 1o de novembro de 1954, chamado a se engajar contra a colonização francesa e iniciando a Guerra da Argélia[3]. Durante os primeiros anos da Guerra de Independência, não existia visibilidade na mídia sobre o conflito. Uma das ideias que o FLN teve foi de criar um time de futebol que reunisse jogadores argelinos que viajassem o mundo para promover a Independência da Argélia. Este time foi criado em 1957 e, na época, os melhores jogadores argelinos jogavam todos no campeonato francês. Eram cerca de 40 jogadores atuantes na primeira e segunda divisão. A ideia é que este time representasse a bandeira e o hino nacional, carregando a causa da Argélia com a bola nos pés.

A fuga dos jogadores argelinos que jogavam na França, alguns sendo cotados para participar da copa de 1958 com a camisa da Seleção Francesa, teve um grande impacto na mídia. Assim como era esperado pelo FLN, com a partida brutal de dezenas de jogadores criou-se espaço na mídia para a discussão da Revolução, tanto na Argélia quanto na Metrópole. Evidentemente que todos os jogadores foram suspensos e tiveram seus contratos quebrados pelos seus antigos clubes, o que na verdade só criou um movimento maior de solidariedade, com a Seleção da França enviando uma carta de apoio à Causa durante a Copa do Mundo de 1958. Uma outra guerra se iniciou, uma guerra sem armas, mas que contribuiria muito para a independência do país. Durante os quatros que durou a seleção nacional do FLN, o time jogou 58 vezes perdendo somente 4.

Por causa de uma pressão da França com a Federação Internacional de Futebol Associada (FIFA), qualquer time ligado a esta Federação que jogasse com o time do FLN seria expulso desta. Isso fez com a maior parte dos jogos fosse contra times do bloco soviético e com países árabes. Alguns deles de grande tradição futebolística, que jogaram e perderam contra este time. Foram os casos de Hungria, Iugoslávia e URSS. Os Acordos de Evian, que colocaram um fim ao conflito e ratificaram a Independência da Argélia, fizeram com que não houvesse mais a necessidade de um time viajar para promover a independência do país.

Em 1963, foi criada a Federação Argelina de Futebol, que tinha como base os jogadores do time do FLN. A importância do time para o processo de Independência, por causa do esporte e de sua exposição midiática, foi tanta que o primeiro presidente da Argélia, Ahmed Ben Balla, mencionou diversas vezes em seus discursos a sua estima por este time.

De fato, a sua criação teve um grande impacto no processo de independência argelina, impacto esperado pelas lideranças do FLN. O grande problema do conflito com a França foi a falta de reconhecimento midiático neste país e, com a fuga dos jogadores argelinos, diversos jornais começaram a discutir a situação da Argélia e isso ajudou na caminhada para a Independência com a utilização do futebol como discurso[4]. A França só foi reconhecer que o processo de Independência foi uma guerra no final do século XX[5].

Outro ponto interessante na Argélia foi que durante o período da revolução, e dentro do time isso fica claro, não haviam rixas étnicas ou regionais que viriam à tona no período final do sec. XX. A união do time do FLN foi um grande sucesso e mostrou ao povo argelino que quando há um objetivo claro, é possível existir união para atingi-lo.

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Imagem1Seleção da FLN jogando no Vietnã” (Fonte):

http://america.aljazeera.com/articles/2014/6/16/algeria-soccer-nationality.html

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

PALMER, Catherine. Introduction: Anthropology and Sport. The Australian Journal of Anthropology, 13:3, p.253-256

[2] Ver:

HOBSBAWN, Eric. Nations and Nationalism since 1780: Programme, Myth, Reality. Cambridge: University Press, 2005 p.138

[3] Sobre a história do FLN e seu domínio sobre a política argelina no século XX, ver:

MEYNIER, Gilbert. L’Histoire Interieure du FLN. Paris: Fayard, 2002.

[4] Jornais da época:

France Football, vol.631, 22 Abril 1958; e

L’Equipe do dia 15 de Abril 1958

[5] Lei número 99-882 do dia 18 de outubro 1999, disponível em:

http://legifrance.gouv.fr/affichTexte.do?cidTexte=JORFTEXT000000578132

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Ver também Documentário sobre o assunto: “Eric Cantona apresenta: Os Rebeldes do Futebol: Rachid Mekloufi e o time do FLN”. Site do filme:

http://lesrebellesdufoot.com/les-5-histoires/mekloufi-le-rebelle/ (Disponível em: www.aljazeera.com)

About author

Mestrando em Estudos Políticos do Oriente Médio e do Mediterrâneo no King’s College London. Especialista em História e Política do Oriente Médio e Maghreb. Possui Bacharelado em Historia pela UFSC. Participou de diversos projetos de pesquisa ligados ao CNPQ: A imagem do Outro em relatos de viajantes; Diáspora Africana no Brasil e Movimento Sem Terra. Hoje, além de trabalhar academicamente com Esporte para o Desenvolvimento e para a Paz, é treinador voluntário em um projeto que ensina jovens de bairros desprivilegiados a jogar futebol.
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