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O Papa Francisco realizou, no dia 6 de junho, uma viagem apostólica a Sarajevo, capital da Federação da Bósnia e Herzegovina, país que procura a unidade para enfrentar as elevadas taxas de desemprego, a corrupção e a polarização política. A visita papal coincidiu com o 20.º aniversário da assinatura do Acordo de Paz de Dayton[1], que pôs termo à Guerra Civil nos Balcãs. A viagem àquele país do sudeste da Europa teve como objetivo, nas palavras do próprio Papa, “encorajar a convivência pacífica[2] entre os bósnios.

Fundada pelos Otomanos em 1461, Sarajevo era, em finais do século XVII, a cidade mais importante dos Balcãs. Ocupada pelo Império AustroHúngaro, em 1878, Sarajevo assistiu, algumas décadas mais tarde, em 28 de junho de 1914, ao assassinato do Arquiduque Francisco Ferdinando e de sua mulher, a Duquesa de Hohenberg, Sofia Chotek, acontecimento que constituiu o pretexto para o início da I Guerra Mundial. No século XX, Sarajevo foi um dos centros industriais da antiga Iugoslávia e sede dos Jogos Olímpicos de Inverno, em 1984.

A cidade mergulhou no nacionalismo extremo que envolveu os Balcãs, na sequência do colapso dos regimes políticos marxistas-leninistas na Europa, quando foi cercada pelos sérvios da Bósnia, em 6 de abril de 1992, num conflito que se arrastou por mais de três anos e causou mais de 100 mil mortos. Hoje, dos 800 mil fiéis católicos do período anterior à Guerra Civil, restam 400 mil, com uma tendência contínua para o decréscimo[3].

Sábado, em sua visita de um dia a Sarajevo, o Papa Francisco teve a oportunidade de se reunir com o Presidente de turno, Mladen Ivanić, com membros do Corpo Diplomático e, também, com os sacerdotes, religiosas, religiosos e seminaristas, na Catedral, mantendo um encontro ecumênico e inter-religioso no Centro Internacional Franciscano de Sarajevo.

A viagem a este país predominantemente islâmico, que assistiu a violentos motins anti-governamentais no mês de fevereiro do ano passado[4], foi a primeira efetuada pelo Papa após a viagem à Jordânia, aos Territórios Palestinos e a Israel[5] e desde que, no Oriente Médio, tiveram início as perseguições maciças aos cristãos[6]. Por outro lado, a ida do Sumo Pontífice a Sarajevo também marcou o regresso de um máximo representante da Igreja Católica à capital da Bósnia e Herzegovina, desde que, em 1997, João Paulo II, ignorando as ameaças de assassinato, urgiu um maior diálogo entre os bósnios muçulmanos, os católicos croatas e os sérvios ortodoxos[7].

Na homilia proferida no Estádio Koševo, de Sarajevo, na presença de 65 mil pessoas, o Papa Francisco exortou os bósnios, mas também o mundo ao desenvolvimento de um esforço coletivo pela paz: “A guerra significa crianças, mulheres e idosos nos campos de refugiados; significa deslocamentos forçados; significa casas, estradas, fábricas destruídas; significa sobretudo tantas vidas destroçadas[8]. Prosseguindo, Francisco apelou aos habitantes de Sarajevo: “Bem o sabeis vós, que experimentastes isto mesmo precisamente aqui: quanto sofrimento, quanta destruição, quanta tribulação! Hoje, amados irmãos e irmãs, desta cidade ergue-se mais uma vez o grito do povo de Deus e de todos os homens e mulheres de boa vontade: Nunca mais a guerra![9].

Apesar de ter tido um caráter religioso, a visita papal levantou um conjunto de questões políticas. As fortes relações do Vaticano com a Igreja Católica bósnia têm suscitado discussões em torno da posição da Santa Sé acerca da criação de uma terceira entidade política, que represente a minoria de croatas-bósnios[10] na Bósnia e Herzegovina[11]. Por outro lado, o anúncio do estatuto das polêmicas aparições marianas de Medjugorje[12], que estava previsto para finais de 2014, ainda não foi publicamente divulgado[13].

O Vaticano comunicou que a investigação havia sido concluída, estando os resultados em mãos do Papa desde janeiro de 2014[14]. Em entrevista coletiva concedida aos jornalistas que acompanhavam o Papa Francisco no voo de regresso a Roma, após a visita a Sarajevo, o Sumo Pontífice teve a oportunidade de esclarecer: “nós estamos no momento de tomar decisões… e então elas serão anunciadas… mas apenas algumas diretrizes serão dadas aos Bispos acerca das decisões que eles irão tomar[15].

Para lá das questões políticas e religiosas, a visita do Papa Francisco a Sarajevo teve alto significado, contribuindo para reafirmar as ligações do Vaticano com a região. Analistas da Igreja Católica na Bósnia tiveram o ensejo de enfatizar que a presença do Papa foi socialmente relevante no âmbito do cuidado e preocupação para com os socialmente mais desfavorecidos. A presença de Francisco na cidade-mártir de Sarajevo constituiu, portanto, um clamor contra a apatia social e, também, um “olhar para o futuro com esperança[16].

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Imagem O Papa Francisco durante a missa no estádio Koševo, de Sarajevo” (Fonte):

http://static2.businessinsider.com/image/5572d275eab8eab11259c283/pope-francis-says-he-senses-an-atmosphere-of-war-in-the-world.jpg

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.ohr.int/dpa/default.asp?content_id=380

[2] Ver:

http://w2.vatican.va/content/francesco/it/messages/pont-messages/2015/documents/papa-francesco_20150602_videomessaggio-sarajevo.html

[3] Em 2013, o Bispo Auxiliar de Sarajevo, Dom Pero Sudar, “apelou aos católicos americanos para pedirem ao Governo dos Estados Unidos para repensar o formato imposto em 1995 pelos Acordos de Dayton. Com efeito, o entendimento de Dayton sancionou a divisão da Bósnia em duas entidades separadas: a República Srpska, dominada pelos ortodoxos sérvios, e a Federação da Bósnia e Herzegovina, agora sob controle dos muçulmanos bósnios. Studar afirma que a mensagem básica de Dayton é a de que ‘há espaço no país unicamente para dois povos, não para três’ – excluindo os católicos. O impacto foi dramático. Em 1992, existia quase 1 milhão de católicos na Bósnia e Herzegovina […]. Hoje, Dom Pedro Sudar afirma que sobram unicamente 460 mil, o que significa que a presença católica foi cortada pela metade, na qual a maioria que ficou considera estratégias de saída”. Ver:

http://ncronline.org/blogs/ncr-today/bosnian-bishop-says-us-policy-fueling-catholic-exodus

[4] Ver:

http://www.theguardian.com/world/2014/feb/07/bosnia-herzegovina-wave-violent-protests

[5] Ver:

https://ceiri.news/o-papa-na-terra-santa-visita-pastoral-com-significado-politico/

[6] Ver:

http://www.reuters.com/article/2015/02/01/us-pope-bosnia-idUSKBN0L51HD20150201

[7] Ver:

http://www.reuters.com/article/2015/02/01/us-pope-bosnia-idUSKBN0L51HD20150201

[8] Ver:

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/homilies/2015/documents/papa-francesco_20150606_omelia-sarajevo.html

[9] Ver:

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/homilies/2015/documents/papa-francesco_20150606_omelia-sarajevo.html

[10] O movimento nacionalista croata emergiu na Bósnia em agosto de 1990, com a formação da União Democrata Croata da Bósnia e Herzegovina (Hrvatska Demokratska Zajednica Bosne i Hercegovine, HDZBiH). Na Croácia, um partido com o mesmo nome foi criado em junho de 1989, tendo ganho as primeiras eleições multipartidárias de abril-maio de 1990; seu líder, Franjo Tudjman, se tornou o primeiro Presidente da Croácia. As ligações entre os dois partidos eram fortes e Zagreb desempenhou, frequentemente, um papel proativo na política interna do HDZ bósnio”. Ver:

http://pesd.princeton.edu/?q=node/241

[11] A República Croata da HerzegBósnia foi uma entidade não-reconhecida na República da Bósnia e Herzegovina,  que existiu entre 1991 e 1994, durante a Guerra Civil da Bósnia. Ela foi proclamada em 18 de novembro de 1991 com o nome Comunidade Croata de HerzegBósnia, alegando ser distinta “política, cultural, econômica e territorialmente” do território da Bósnia e Herzegovina. A HerzegBósnia deixou de existir em 1994, quando foi remetida para a Federação da Bósnia e Herzegovina, após a assinatura do Acordo de Washington pelas autoridades da Croácia e da Bósnia e Herzegovina. (Cf. AAVV, Judgement of Julgamento de Mladen Naletilic, aka “TUTA”, And Vinko Martinovic, aka “ŠTELA”, s. l., United Nations International Tribunal for the Prosecution of Persons Responsible for Serious Violations of International Humanitarian Law Commited in the Territory Former Yugoslavia Since 1991, 31.03.2003):

http://www.icty.org/x/cases/naletilic_martinovic/tjug/en/nal-tj030331-e.pdf

Ver, também, INA VUKIC, “Towards A Croatian Entity In Bosnia And Herzegovina”, Croatia, The War, And The Future. Disponível online:

http://inavukic.com/2014/07/13/towards-a-croatian-entity-in-bosnia-and-herzegovina/

[12] Ver:

http://medjugorje.ie/files/DECLARATION-OF-THE-EX.pdf

[13] Ver:

http://www.balkanalysis.com/bosnia/2015/02/09/bosnians-await-pope-francis-june-2015-visit/

[14] Ver:

http://www.news.va/en/news/commission-to-submit-study-on-medjugorje

[15] Ver:

http://www.catholicnewsagency.com/news/pope-talks-medjugorje-coming-encyclical-on-return-from-bosnia-36240/

[16] Ver:

http://www.osservatoreromano.va/pt/news/do-confronto-ao-encontro

About author

É Licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto (Portugal) e Doutor em Filosofia pela Universidade de Évora (Portugal). Professor Associado da Universidade de Évora, reside em Curitiba desde início de 2012, onde é Professor na Faculdade São Braz e na Faculdade Inspirar. É autor de doze livros e mais de cem artigos científicos nas áreas da Ética, Filosofia da Educação e Filosofia Social e Política.
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