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A volta da Rússia ao continente africano

Logo após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o mundo seria testemunha de um embate político-ideológico entre a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e os Estados Unidos da América (EUA), que seria denominado historicamente como Guerra Fria*, o qual afetou de maneira incisiva os desígnios de grande parte das nações que se colocaram ao longo do percurso do rolo compressor dessa bipolaridade.

Continente africano

Segundo historiadores, um dos palcos mundiais onde o predomínio das duas superpotências teve grande repercussão foi o continente africano, devido aos inúmeros conflitos causados por uma combinação de componentes ideológicos, econômicos e étnicos, e que tinham como principal meta a quebra de laços “colonialistas” e “imperialistas”, sendo que, a partir da necessidade de suporte econômico e militar para assegurar esse processo de mudança, diversos países africanos absorveram influências soviéticas entre as décadas de 1950 e 1980.

Apesar de a Rússia já ter se inserido na região de forma político-militar em outras ocasiões, como foi a participação da Rússia Imperial no caso da Guerra Anglo-Boer** (1899-1902), a partir da Guerra Fria, a União Soviética, logo, também a Rússia, como a principal República da URSS, começou a visualizar o continente africano como um espaço territorial propício para se instalar, não só por meio de um processo de assistência à luta libertária de vários países africanos, mas, também, para o estabelecimento de relações diplomáticas e econômicas que pudessem romper seu isolamento marítimo que era imposto pelas nações ocidentais, valendo-se de localidades que serviriam como bases militares para possibilitar a projeção do seu poder bélico e, a partir de sua presença nesses territórios, poder vislumbrar uma possível perda ou redução da influência ocidental na região.

Sergey Lavrov visita presidente da Namíbia, Hage Geingo

Com o passar do tempo, de acordo com o politólogo e internacionalista Zbigniew Brzezinski***, a inserção político-econômica soviética se mostrou inadequada para influenciar decisivamente o desenvolvimento econômico interno no continente africano. A má administração local, a corrupção e os deslocamentos pela ruptura repentina de relações econômicas com os antigos poderes coloniais produziram fracassos econômicos de ampla escala na maioria desses países, levando a União Soviética a entrar num processo de seletividade geopolítica, culminando com um afastamento de seus antigos aliados africanos no governo de Mikhail Gorbatchov, o último líder da URSS, entre 1985 e 1991.

Após mais de um quarto de século desde a queda da União Soviética e o abrandamento das relações com o continente africano, o atual Presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, diante de mudanças no equilíbrio global de forças e da solidificação dos processos democráticos em vários países africanos, vem pautando uma reaproximação diplomática no intuito de expandir as relações político-econômicas com vários de seus antigos aliados. Com isso, em março de 2018, o Ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov, iniciou uma verdadeira maratona de visitas à Angola, Zimbábue, Namíbia, Moçambique, Etiópia e Ruanda no intuito de estreitar laços em áreas como educação, energia (petróleo, gás e energia nuclear) e cooperação militar, além de formar parcerias na exploração de recursos minerais como o manganês, o cromo e o urânio, que são abundantes neste continente e necessários à economia russa. Nessa reaproximação dos dois blocos globais, existem críticos que dizem que os Estados africanos devem estar atentos às oportunidades e armadilhas desta situação e precisam ver o interesse da Rússia dentro de um contexto estratégico mais amplo. Em meio a uma nova “luta pela África”, os formuladores de políticas africanas devem explorar uma atenção renovada de maneira vantajosa, em vez de se tornarem vítimas do “xadrez geopolítico”, como foi anteriormente o caso. Nesse sentido, acredita-se que a intermediação de acordos favoráveis será fundamental para determinar o sucesso do próximo capítulo nas relações russo-africanas.

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Notas:

* Designação atribuída ao período histórico de disputas estratégicas e conflitos entre os Estados Unidos e a União Soviética, compreendendo o período entre o final da Segunda Guerra Mundial (1945) e a extinção da União Soviética (1991), constituindo-se num conflito de ordem política, militar, tecnológica, econômica, social e ideológica entre as duas nações e suas zonas de influência. É chamada “fria” porque não houve uma guerra direta entre as duas superpotências, dada a inviabilidade da vitória em uma batalha nuclear.

** A Segunda Guerra Boer (ou dos bôeres), travada entre 11 de outubro de 1899 e 31 de maio de 1902, foi um conflito militar entre o Império Britânico e as duas nações Bôer, a República Sul-Africana (ou República de Transvaal) e o Estado Livre de Orange, sobre o domínio da África do Sul. Ficou conhecida também simplesmente como Guerra Boer ou Guerra Anglo-Boer. Na época, ainda como Império Czarista (1721-1917), a Rússia enviou tropas e armas para auxiliarem os Boers em sua luta contra o Império Britânico. O termo Boer se refere aos descendentes dos colonos calvinistas provenientes dos Países Baixos (Holanda), e também da Alemanha e Dinamarca, além de huguenotes franceses (protestantes franceses), que colonizaram a África do Sul e rivalizaram com os britânicos.

*** Zbigniew Kazimierz Brzezinski (1928-2017) foi um cientista político, geopolítico e estadista estadunidense, de origem polonesa. Brzezinski serviu como Conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos durante a presidência de Jimmy Carter, entre 1977 e 1981

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Bibliografia Consultada:

ARAUJO, Kelly Cristina Oliveira. Um breve balanço da influência russo-soviética na África Austral (1919 a 1975). 2015.

Disponível em: http://www.snh2015.anpuh.org/resources/anais/39/1427579787_ARQUIVO_Umbalancodainfluenciarusso_africa_Kelly_Araujo.pdf (Acesso em: 22 de junho de 2018).

FRANCISCON, Moisés Wagner. Ascensão e queda do império soviético na África: 1950-1991. 2012.

Disponível em: http://revista.unicuritiba.edu.br/index.php/RIMA/article/view/497 (Acesso em: 21 de junho de 2018).

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Mapa da África” (Fonte):

https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcRcGSjBKFBTh1hXBqKZLKv81ZfnIZzx8qoOvFo2NabBBqQsoHOj

Imagem 2 Continente africano” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/8/86/Africa_%28orthographic_projection%29.svg/250px-Africa_%28orthographic_projection%29.svg.png

Imagem 3 Sergey Lavrov visita presidente da Namíbia, Hage Geingo” (Fonte):

https://im8.kommersant.ru/Issues.photo/DAILY/2018/040/KMO_085447_09048_1_t218_222656.jpg

About author

Bacharel em Ciências Econômicas pelo Centro Universitário da Fundação Santo André (CUFSA) e pós-graduado em Economia pela FEA-USP (MBA). Habilitado em Iniciação Científica em Defesa, pela Escola Superior de Guerra (ESG-RJ), e Especialista em Docência no Ensino Superior (SENAC). Atuou durante 7 anos como educador no Projeto Formare da Fundação Iochpe, ministrando aulas sobre Ética, Sociedade, Política e Democracia. Atualmente, é pós-graduando em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Tem grande interesse nas áreas de Geopolítica, Relações Internacionais e Economia Política Internacional
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