ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Após um ano de protestos populares e de sua própria renúncia, Hariri retorna ao posto de Premier no Líbano

Um ano após apresentar sua renúncia como resultado das manifestações populares, Saad Hariri foi nomeado Primeiro-Ministro do Líbano, no último 22 de outubro de 2020. O então Premier havia se demitido do cargo em 29 de Outubro de 2019. Como resultado das consultas feitas pelo presidente Michel Aoun com diversos blocos parlamentares, Hariri foi incumbido de formar seu quarto governo, obtendo uma apertada maioria de 65 votos no Parlamento.

Além do apoio dos deputados de seu próprio Movimento Futuro, o Primeiro-Ministro foi referendado por membros do Amal, do Partido Socialista Progressista Druso e do Partido Social Nacionalista Sírio. Conforme informa a Al Jazeera, 53 parlamentares se abstiveram, inclusive deputados das Forças Libanesas. Membros do Hezbollah, ainda que tenham apoiado sua nomeação no passado, não votaram a favor do Premier.

Em pronunciamento, Saad Hariri prometeu formar um governo não partidário, composto de tecnocratas e especialistas, responsável por implementar as reformas fiscais, monetárias, políticas e administrativas apresentadas pelo presidente francês Emmanuel Macron, em 3 de Setembro de 2020, durante sua segunda visita ao Líbano após as explosões de 4 de agosto no porto de Beirute. O Primeiro-Ministro insistiu na aprovação das reformas e na continuidade do plano delineado na residência oficial do Embaixador francês no Líbano, a Residence des Pins. Hariri declarou em 23 de outubro de 2020 que “hoje existe um colapso no país. Devemos aproveitar esta oportunidade pondo de lado todas as nossas diferenças políticas e sendo positivos, a fim de restaurar a confiança dos cidadãos e da comunidade internacional no Estado”, publicou a National News Agency. 

As explosões no porto de Beirute deixaram 200 mortos e 300.000 deslocados, tendo causadoperdas estimadas em até US$ 15 bilhões(cerca de 84 bilhões de reais, conforme a cotação de 23 de outubro de 2020). A liberação da urgente ajuda financeira por doadores externos está condicionada à implementação das reformas mencionadas por Hariri.

Manifestantes nas ruas de Beirute, próximo à Mesquita Mohammad Al-Amin,em 20 de outubro de 2019

Desde 17 de outubro de 2019, manifestantes libaneses protestam de forma contínua contra a corrupção generalizada, impostos e taxações, crise econômica, desvalorização da moeda e prestação de serviços deficitária. A chamada “Revolução de Outubro” levou à renúncia de Hariri ainda no primeiro mês das manifestações, apenas nove meses após a formação de seu Gabinete. O Premier foi sucedido por Hassan Diab, um político independente e ex-Ministro da Educação, em 19 de dezembro de 2019.Diab formou um governo de coalizão em 21 de janeiro de 2020, composto por supostos tecnocratas e políticos independentes. O público, entretanto, alegava que muitos eram endossados ou leais aos partidos e líderes políticos tradicionais.

Resultado da explosão do porto de Beirute em 4 de agosto de 2020

Após o trágico incidente no porto da capital, manifestantes voltaram a tomar as ruas com mais intensidade e em 10 de agosto de 2020 o então primeiro-ministro Diab apresentou sua renúncia e a de seu gabinete. Ele foi sucedido pelo diplomata libanês Mustapha Adib, em 31 de agosto.Adib eventualmente apresentou sua renúnciaem 26 de setembro, em meio a um impasse político sobre a composição do Gabinete, principalmente em torno do Ministério das Finanças, deixando o cargo vago até a mais recente nomeação de Saad Hariri.

Um ano após as manifestações de 17 de outubro, pouco mudou na realidade do país, apesar do entusiasmo inicial do movimento: episódios de paralisia política e instabilidade institucional permanecem frequentes; a crise econômica e financeira se agrava; a moeda teve seu valor depreciado em mais de 80%; há registro no aumento dos índices de pobreza; e a população nas ruas ainda não foi capaz de consolidar um programa unificado que impusesse sua agenda à classe política tradicional. O retorno de Hariri ao cargo de Premier, enquanto forte aliado do setor econômico e bancário do Líbano, representa o próprio status quocontra o qual os manifestantes se opõem. “É o pico da contra-revolução”, disse Nizar Hassan, ativista político do grupo independente Li Haqqi.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 PrimeiroMinistro libanês,Saad Hariri(Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:AP18127513994957.jpg

Imagem 2 Manifestantes nas ruas de Beirutepróximo à Mesquita Mohammad AlAmin,em 20 de outubro de 2019(Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/2019%E2%80%9320_Lebanese_protests#/media/File:Mohammed_al_Amin_20.jpg

Imagem 3 Resultado da explosão do porto de Beirute em 4 de agosto de 2020(Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Explos%C3%B5es_no_porto_de_Beirute_em_2020#/media/Ficheiro:Damages_after_2020_Beirut_explosions_1.jpg

About author

Doutoranda e mestre pelo programa de Ciência Política da USP e diretora de Relações Internacionais do Icarabe, Instituto da Cultura Árabe. Possui bacharelado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo e pós-graduação em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). É integrante do Grupo de Trabalho sobre Oriente Médio e Mundo Muçulmano na Universidade de São Paulo (GT OMMM).
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