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Arábia Saudita, EAU e Bahrein reestabelecem embaixadores no Qatar

Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Bahrein concordaram no último domingo, 16 de novembro, em reinstituírem seus embaixadores em Doha, no Qatar, sinalizando o fim de um racha de oito meses sobre o apoio do país à grupos islâmicos[1]. O anúncio foi feito pelo Conselho de Cooperação do Golfo (GCC, em inglês) e veio depois de uma reunião de emergência na capital saudita Riad para discutir a disputa, que estava ameaçando a cúpula anual a ser realizada no Qatar, em dezembro[1]. O Conselho declarou que a reunião de domingo tinha alcançado um “entendimento destinado a virar uma nova página nas relações entre os seis membros da organização do Golfo[1], que inclui também Kuwait e Omã.

Em um movimento sem precedentes, em março de 2014, os três países retiraram seus embaixadores Qatar, acusando-o de “prejudicar a segurança interna e estabilidade do GCC através de seu apoio ao movimento islâmico, a Irmandade Muçulmana[1]. O GCC acusou Doha de não cumprir o acordo de não interferência nos assuntos internos dos membros do Conselho[2]. Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Bahrein têm apelado para uma maior união militar e diplomática dentro do GCC. No entanto, Qatar e Omã até agora resistiram à maior integração nesses campos[1].  

Os Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita indicaram a Irmandade Muçulmana como uma organização terrorista e veem o islã político como uma ameaça aos seus próprios sistemas políticos despóticos[3]. O Qatar é acusado de ter apoiado a Irmandade no Egito, nos Emirados Árabes Unidos e, mais recentemente, na Líbia. O país tem dado abrigo a alguns membros da Irmandade e estendeu cidadania ao Sheikh Youssef al-Qaradawi, um clérigo com laços com o grupo[1][4]. Riad e os Emirados Árabes Unidos também veem o canal de notícias Al Jazeera, com sede em Doha, como sendo um porta-voz da Irmandade Muçulmana – algo que o Qatar nega[1][4]. A Arábia Saudita baniu a Irmandade, acusando-a de tentar derrubar as monarquias do Golfo. No domingo, os Emirados Árabes Unidos designaram a Irmandade e cerca de 80 outros grupos como “organizações terroristas[2].

De acordo com Joseph Kechichian, escritor sênior da Gulf News, a Irmandade Muçulmana não foi o único ponto de discórdia entre os países do GCC. “Há outras questões em jogo aqui. A grande disputa entre os membros do GCC é sobre o que fazer com o crescente [número] de extremistas quer seja no Iêmen, na Síria, ou no Egito. Houve uma grande quantidade de desacordo entre todos os estados membros. De alguma forma, foi tomada uma decisão que envolveu concessões[2].

Diplomatas em Doha disseram que, entre outras coisas, como fruto do acordo, o Qatar havia prometido aos Emirados Árabes Unidos que a Irmandade não seria autorizada a operar a partir do país. Contudo, não houve confirmação imediata deste dado[1][4]. O acordo de segurança regional solicitou ao Qatar que cessasse o apoio a organizações que “ameaçam a estabilidade do Golfo[5]. Em uma tentativa de restaurar as relações com os seus vizinhos, o Qatar pediu que figuras importantes da Irmandade deixassem o país em setembro[6], durante o que foi chamado pelo The Wall Street Journal e pela Al Arabiya como “uma das piores crises desde a criação do GCC em 1981[6].

O Qatar foi o único país árabe do Golfo a manter seu apoio à Irmandade depois que o Exército Egípcio derrubou o presidente islamita Mohammed Morsi no ano passado, após grandes protestos populares contra seu governo. Outros membros do GCC, em contrapartida, ofereceram bilhões de dólares em apoio aos novos governantes militares do Egito[6].

A falta de clareza sobre o que foi acordado e a forma pela qual o Qatar foi pressionado para esse acordo permanecem desconhecidos e podem ter consequências problemáticas para qualquer política unificada do GCC no futuro[6]. Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Qatar têm usado suas receitas de petróleo e gás para influenciar os acontecimentos em outros países do Oriente Médio e qualquer resolução de suas diferenças pode alterar o ambiente político na Líbia, Egito, Síria, Iraque e Iêmen[1][4].

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ImagemO Emir do Qatar Sheikh Tamim beija a testa do rei saudita Abdullah na reunião de surpresa do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC) na noite de 16 de novembro em Riyadh” (FonteAl Arabiya/SPA):

http://english.alarabiya.net/en/News/middle-east/2014/11/16/Gulf-leaders-meet-in-Riyadh-for-surprise-GCC-meeting-.html

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Fonte Consultada:

[1] Ver:

http://www.reuters.com/article/2014/11/16/us-gulf-summit-ambassadors-idUSKCN0J00Y420141116

Ver também:

http://www.bbc.com/news/world-middle-east-26447914

[2] Ver:

http://www.aljazeera.com/news/middleeast/2014/11/gulf-leaders-reinstate-ambassadors-qatar-20141116202842331341.html

[3] Ver:

http://www.nytimes.com/2014/11/18/world/middleeast/qatar-ambassadors-to-return.html?_r=0

Ver também:

http://abcnews.go.com/International/wireStory/ambassadors-gulf-arab-states-return-qatar-26956231

[4] Ver:

http://www.theguardian.com/world/2014/nov/16/gulf-state-ambassadors-return-to-qatar-after-eight-month-rift?utm_source=Sailthru&utm_medium=email&utm_term=%2AMorning%20Brief&utm_campaign=2014_MorningBrief

[5] Ver:

http://www.foxnews.com/world/2014/11/16/saudi-arabia-uae-and-bahrain-agree-to-return-ambassadors-to-qatar-signaling/

[6] Ver:

http://online.wsj.com/articles/saudi-uae-and-bahraini-ambassadors-to-return-to-qatar-ending-rift-1416228182

Ver também:

http://english.alarabiya.net/en/News/middle-east/2014/11/16/Gulf-leaders-meet-in-Riyadh-for-surprise-GCC-meeting-.html

About author

Doutoranda e mestre pelo programa de Ciência Política da USP e diretora de Relações Internacionais do Icarabe, Instituto da Cultura Árabe. Possui bacharelado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo e pós-graduação em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). É integrante do Grupo de Trabalho sobre Oriente Médio e Mundo Muçulmano na Universidade de São Paulo (GT OMMM).
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