ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

Aristides de Sousa Mendes, um justo em “Yad Vashem”

Natural de “Cabanas de Viriato”, distrito de Viseu, Portugal, Aristides de Sousa Mendes nasceu em 1885, em uma família aristocrática. Aos vinte e dois anos, licenciou-se em Direito pela “Universidade de Coimbra”, destacando-se como um dos melhores alunos do seu curso. Em 1910, ingressou na carreira diplomática, como “Cônsul em Zanzibar” tendo, posteriormente, sido colocado no Brasil. Neste país Sousa Mendes exerceu funções em Curitiba, Porto Alegre e São Luiz do Maranhão. Nos anos seguintes ele foi designado para os EUA, Espanha, Bélgica e França, mais especificamente em Bordéus[1], onde protagonizou um dos atos humanitários mais dignos da História contemporânea.

Aristides de Sousa Mendes desempenhou funções diplomáticas em momentos conturbados da História, para o seu país e para o mundo. Internamente, ele presenciou o fim da Monarquia e a instauração da República enquanto que, ao nível da política externa, assistiu à disputa entre as grandes potências europeias da época, que levaram à “Primeira Guerra Mundial”. O término da Grande Guerra, em 1918, não conseguiu pôr um fim definitivo aos conflitos no Velho Continente e, em 1933, o mundo presenciou a ascensão de Adolf Hitler ao poder. A Alemanha do III Reich, recorde-se, foi responsável pela perseguição sistemática aos judeus e a outras minorias, tendo exterminado milhões de pessoas em seus campos de concentração.

Enquanto a Europa vivia momentos de apreensão e incerteza ante a possibilidade de outro grande conflito, em 1938 Sousa Mendes foi designado “Cônsul de Portugal em Bordéus”. Em 1940, a França capitulou frente à Alemanha, o que tornou insustentável a situação dos refugiados em território francês, que passaram a ter como única alternativa de fuga a travessia da fronteira Sul em direção a Espanha e, depois, Portugal para, finalmente, chegarem à América. Até 10 de maio de 1940, os vistos de trânsito para Portugal poderiam ser obtidos em Bordéus[2]. Após esta data a rota de fuga para essas pessoas ficou proibida[3], na medida em que, depois a invasão da Alemanha, Portugal suspendeu a autorização para a entrada dos refugiados em seu território. 

Ante o agravamento da situação dos refugiados, Aristides de Sousa Mendes se viu confrontado com duas alternativas de atuação: ou obedecer às ordens de seu país ou agir em nome da causa humanitária. Ele decidiu-se pela segunda hipótese e, contrariando as determinações do Governo português, emitiu vistos de trânsito a todos os refugiados num escritório improvisado no Consulado de Portugal, em Bordéus. O Cônsul contou com a ajuda de dois de seus filhos e de vários judeus. As pessoas sem condições financeiras receberam os vistos gratuitamente[4]. Sousa Mendes trabalhou afincadamente durante os dias 17, 18 e 19 de junho de 1940 sem se permitir descanso. Segundo o Rabino Haim Kruger, é provável que, nesses três dias, tenham sido emitidos mais de trinta mil vistos, sendo que dez mil foram para cidadãos judeus[5].

A ação do Cônsul não ficou limitada a Bordéus, mas estendeu-se a Bayonne e a Hendaye, onde Sousa Mendes, enquanto superior hierárquico, ignorou as objeções dos diplomatas daqueles Consulados e emitiu pessoalmente milhares de vistos aos refugiados de guerra[6]. Porém, a sua atitude não passou despercebida e a notícia da “desobediência” chegou a Lisboa. O diplomata recebeu, imediatamente, ordens para retornar à sua terra natal.

Em Portugal, Aristides de Sousa Mendes foi destituído do cargo de Cônsul sem direito a indenização ou aposentadoria e passou a uma condição de ostracismo em sua sociedade. Sem emprego e proibido de exercer a profissão de advogado, o ex-Cônsul vendeu os pertences de sua casa para sustentar a família; os filhos foram impedidos de frequentar a Universidade e de trabalhar em Portugal, situação que os obrigou a emigrar para os EUA e o Canadá, com o auxílio dos judeus salvos pelo pai durante a perseguição nazista[7].

Após a demissão compulsória, a vida de Aristides de Sousa Mendes foi de muito sacrifício pessoal que perdurou até a sua morte, em 1954. Em vida, ele acabou por perder até o reconhecimento por seu gesto humanitário. A atitude nobre de Sousa Mendes foi atribuída, pela propaganda do Estado Novo português, ao então Presidente do Conselho de Ministros, António de Oliveira Salazar, considerado como o salvador dos refugiados do Sul de França[9], honra que também foi partilhada pelo Embaixador Teotónio Pereira.

Aristides de Sousa Mendes morreu pobre e desonrado e a sua bravura e honradez só começaram a ser restituídas em seu país em 1987, altura em que o presidente Mário Soares entregou a “Ordem da Liberdade” à filha do ex-Cônsul, em cerimônia realizada na “Embaixada de Portugal”, em Washington. A honra do Cônsul só foi restaurada completamente em 1989, quando a Parlamento português o reintegrou, por “unanimidade e aclamação”, no serviço diplomático português[8]. Mas um ato em agradecimento ao valor da ação de Aristides Sousa Mendes já havia acontecido em Israel, no ano de 1966, quando ele foi reconhecido, em Jerusalém, como “Justo entre as Nações” pelo “Yad Vashem”, o “Museu Memorial do Holocausto[10], com a sua mais elevada distinção, uma medalha com a seguinte inscrição do Talmude: “Quem salva uma vida humana é como se salvasse um mundo inteiro[11].

Hoje, Aristides de Sousa Mendes permanece vivo através do exemplo da mais alta dignidade de um ser humano, que é a defesa da vida sem discriminação. É esta qualidade de homem ímpar que o tornou um Justo em “Yad Vashem” e tem mobilizado os descendentes dos refugiados a contribuírem para restaurar a antiga casa senhorial de “Cabanas de Viriato[12] que, em diversas ocasiões, foi o lar temporário de perseguidos pelos nazistas, tal como o fora a residência do Cônsul, em Bordéus.

A dignidade, que pautou a vida de Aristides de Sousa Mendes é, na verdade, o maior patrimônio deixado por ele. Em nossos dias, e nos tempos vindouros, a partir do seu exemplo de vida, temos de ter presente que o ideal de Justiça deve preponderar entre os seres humanos, acima das nacionalidades, raças, religiões e, também, das ideologias.

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Imagem (Fonte):

http://www.mundolusiada.com.br/wp-content/uploads/2013/02/AristidesSousaMendes.jpg

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://fundacaoaristidesdesousamendes.com/index.php?option=com_content&view=article&id=55&Itemid=53&lang=pt

[2] Ver:

http://www.yadvashem.org/yv/en/righteous/stories/mendes.asp

[3] Ver:

http://www.yadvashem.org/yv/en/righteous/stories/mendes.asp

[4] Ver:

http://www.yadvashem.org/yv/en/righteous/stories/mendes.asp

[5] Ver:

http://www.pt.chabad.org/library/article_cdo/aid/664716/jewish/Aristdes-de-Sousa-Mendes-1885-1954.htm

[6] Ver:

http://www.pt.chabad.org/library/article_cdo/aid/664716/jewish/Aristdes-de-Sousa-Mendes-1885-1954.htm

[7] Ver:

http://www.pt.chabad.org/library/article_cdo/aid/664716/jewish/Aristdes-de-Sousa-Mendes-1885-1954.htm

[8] Ver:

http://www.revistamarcaportugal.pt/portugueses-na-historia-aristides-de-sousa-mendes/

[9] Ver:

http://www.revistamarcaportugal.pt/portugueses-na-historia-aristides-de-sousa-mendes/

[10] Ver:

http://www.haaretz.com/jewish-world/jewish-world-features/.premium-1.539054

[11] Ver:

http://www.pt.chabad.org/library/article_cdo/aid/664716/jewish/Aristdes-de-Sousa-Mendes-1885-1954.htm

[12] Ver:

http://www.haaretz.com/jewish-world/jewish-world-features/.premium-1.539054

 

About author

Possui graduação em Filosofia (bacharelado e licenciatura) pela Universidade Federal do Paraná (1999), com revalidação pela Universidade de Évora (2007), e mestrado em Sociologia (Poder e Sistemas Políticos) pela Universidade de Évora (2010). É doutoranda em Teoria Jurídico-Política e Relações Internacionais (Universidade de Évora). É professora da Faculdade São Braz (Curitiba), pesquisadora especialista do CEFi – Centro de Estudos de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa), e pareceirista do CEIRI Newspaper (São Paulo).
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