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As Implicações Geopolíticas do Surto de Coronavírus

O coronavírus é uma família de vírus que causam infecções respiratórias. O novo agente do coronavírus (nCoV-2019) foi descoberto em Wuhan, na China, em 31 de dezembro de 2019, pouco antes do feriado do Ano Novo Lunar, o período da maior migração anual de seres humanos na Terra. O pico da nova epidemia na China pode ocorrer neste mês (fevereiro de 2019) e acarretar graves consequências geopolíticas e geoeconômicas.

O surto de coronavírus coincidiu com uma desaceleração econômica, já que a China enfrenta o aumento da dívida, queda da demanda doméstica e as pesadas tarifas dos Estados Unidos. A taxa de crescimento do Produto Interno Bruto de 6,1% em 2019 aproximou-se do limite da meta de Pequim e caiu acentuadamente em relação aos 6,6% de 2018. Em 15 de janeiro de 2020, chineses e americanos assinaram um acordo comercial provisório, os primeiros passos para o fim da guerra comercial Estados Unidos-China. Mas a celebração durou pouco, pois poucos dias depois a gravidade do coronavírus começou a ficar clara.

A primeira consequência deriva do fato de Wuhan, capital da província de Hubei, localizar-se no centro do coração industrial chinês. Esta cidade encontra-se bem no meio do “Quadrilátero Industrial” do país, a área delimitada por Pequim/Tianjin, Chengdu/Chongqing, Macau/Hong Kong e Xangai. A província de Hubei abriga sete zonas econômicas cruciais: a Zona de Desenvolvimento de Alta Tecnologia do Lago Leste de Wuhan (o maior centro de produção de produtos óptico-eletrônicos da China); a Zona de Desenvolvimento Industrial de Alta Tecnologia de Xiangyang; a Zona de Desenvolvimento Industrial de Alta Tecnologia de Yichang; a Zona de Desenvolvimento Industrial de Alta Tecnologia de Xiaogan; a Zona de Desenvolvimento de Nova e Alta Tecnologia de Jingmen;  a Zona de Desenvolvimento de Alta Tecnologia de Xiantao; e o Parque Industrial de Alta Tecnologia de Suizhou. Wuhan também possui o maior porto fluvial da China e o maior aeroporto da China Central.

Enquanto na economia nacional chinesa houve uma desaceleração do crescimento em 2019, Wuhan teve um crescimento que atingiu o patamar de 7,8%. De acordo com o governo da Província de Hubei: “Estima-se que o valor agregado dos setores de alta tecnologia e economia digital represente 24,5% e 40% do PIB [Wuhan]”. As perspectivas de Wuhan pareciam brilhantes para 2020. O governo de Hubei também declarou: “Mais de 300 das 500 maiores empresas do mundo se estabeleceram em Wuhan. O número de empresas de alta tecnologia recém-instaladas atingiu um recorde, com um aumento líquido de cerca de 900 empresas”. O relatório de trabalho do governo, apresentado no 14º Congresso Popular Municipal de Wuhan, estimava que o PIB de Wuhan cresceria entre 7,5% e 7,8% em 2020, e haveria a geração de 220.000 novos empregos.

Se o surto se expandir, poderá interromper o tecido da economia global. Pequim já demonstrou que é capaz de mobilizar milhões de pessoas com o objetivo de conter o vírus e, simultaneamente, isolar milhões de seus cidadãos. A província de Hubei, com uma população de 58 milhões de pessoas, foi praticamente isolada de todo o país.

Segundo, o surto de coronavírus coloca em risco o crescimento do PIB chinês e, como consequência, a economia internacional como um todo. A Unidade de Inteligência da Revista The Economist (EIU, em inglês), de Londres, estima que o novo surto de coronavírus na China pode reduzir o crescimento real do PIB em 2020 entre 0,5 e 1 ponto percentual. As primeiras vítimas econômicas foram transportadoras aéreas e empresas de viagens; as indústrias de viagens e turismo serão duramente atingidas. A taxa de crescimento projetada pela EIU para a China foi de 5,9% e, se a epidemia atingir o status de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS, em inglês), que atingiu o mundo nos anos de 2002 e 2003, o PIB chinês poderá cair para 4,9%. O coronavírus já infectou mais pessoas do que o SARS, mas o último foi mais letal: o SARS, em 2003, matou 9,6% dos portadores do vírus, enquanto o surto atual tem uma taxa de mortalidade de 2% dos infectados. Note-se que em 2003 o PIB chinês era de 1,66 trilhão de dólares (aproximadamente 7,13 trilhões de reais, de acordo com a cotação de 14 de fevereiro de 2019) contra 14,3 trilhões de dólares em 2019 (aproximadamente 61,42 trilhões de reais ainda de acordo com a cotação de 14 de fevereiro de 2019). Em 2003, a economia chinesa era a sétima maior; agora é a segunda maior economia do mundo. O papel da China no mercado global é indispensável.

O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, encontra o Presidente da China, Xi Jinping (2017). O surto de coronavírus poderá enfraquecer a China na guerra comercial com os Estados Unidos

Terceiro, o coronavírus está se espalhando em meio à guerra comercial com Washington e à desaceleração geral da economia chinesa. Para enfrentar esse grande desafio, os chineses precisam mobilizar os recursos de toda a nação e seus 1,4 bilhão de habitantes. No entanto, esses recursos agora devem ser desviados para combater uma epidemia, que pode eventualmente forçar a sua economia a “hibernar” e até mesmo exigir uma retirada temporária da política mundial. Além disso, os Estados Unidos têm sido um dos grandes beneficiários do surto, apesar dos riscos que ele impõe à saúde pública. A desaceleração econômica chinesa continuará e, temporariamente, o equilíbrio de poder pode mudar em favor dos Estados Unidos. O Secretário de Comércio estadunidense, Wilbur Ross, chegou a afirmar: “Acho que isso ajudará a acelerar o retorno de empregos para a América do Norte”.

Atualmente, grupos de países soberanos lutam por políticas externas independentes, o que muitas vezes contradiz a visão dos Estados Unidos. Em particular, Irã, China, Rússia e agora a Turquia acreditam que, quando se unirem em um “grupo”, todos os membros serão capazes de resistir aos americanos e ao Ocidente em geral. Mas, se um país for expulso, especialmente do arranjo tripartite China-Rússia-Irã, o equilíbrio global de poder tenderá a favor do Ocidente. Assim, o recuo da China do cenário internacional seria um pesadelo para a Rússia e o Irã, especialmente.

Por fim, o resto do mundo está respondendo com uma onda crescente de segregação contra os chineses e, de fato, contra todos os povos do Leste da Ásia, porque muitas pessoas ao redor do mundo geralmente não fazem distinção entre as nações asiáticas. Na mídia, existem inúmeros relatos sobre a reação racista e o estigma contra a diáspora chinesa em países como os Estados Unidos, o Canadá e o Reino Unido. Em particular, cidadãos franceses de ascendência asiática se queixam de abusos no transporte público, na mídia e na internet. Isso inspirou o uso da hashtag “JeNeSuisPasUnVirus” (“Eu não sou um vírus”). Se o coronavírus não for interrompido em um futuro próximo, é alta a probabilidade de testemunharmos mais xenofobia e racismo em relação ao povo chinês, que, por sua vez, poderá inflamar o nacionalismo e o ressentimento na China.

Após a construção de diversas cadeias internacionais de valor em torno do gigante asiático durante quatro décadas, a desaceleração da segunda maior economia do mundo não deixará ninguém intocado. Mesmo que o coronavírus seja bloqueado com sucesso no resto do mundo, a economia global vai sofrer com a economia da China.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Mercado de frutos do mar em Wuhan que foi fechado após o surto de coronavírus” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/w/index.php?title=Special:Search&limit=20&offset=20&profile=default&search=wuhan+coronavirus&advancedSearch-current={}&ns0=1&ns6=1&ns12=1&ns14=1&ns100=1&ns106=1#/media/File:Mercado_de_mariscos_de_Wuhan_cerrado_tras_detectarse_ahi_por_primera_vez_el_Nuevo_Coronavirus_.jpg

Imagem 2O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, encontra o Presidente da China, Xi Jinping (2017).  O surto de coronavírus poderá enfraquecer a China na guerra comercial com os Estados Unidos”(Fonte): https://commons.wikimedia.org/w/index.php?sort=relevance&search=xi+jinping+trump&title=Special:Search&profile=advanced&fulltext=1&advancedSearch-current=%7B%7D&ns0=1&ns6=1&ns12=1&ns14=1&ns100=1&ns106=1#/media/File:President_Donald_J._Trump_and_President_Xi_Jinping_at_G20,_July_8,_2017.jpg;

https://commons.wikimedia.org/w/index.php?sort=relevance&search=File%3AChina+Israel&title=Special:Search&profile=advanced&fulltext=1&advancedSearch-current=%7B%7D&ns14=1 – /media/File:Reuven_Rivlin_meeting_with_Wang_Qishan,_October_2018_(7375).jpg

About author

Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP). Bacharel em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Durante a graduação, foi bolsista do Programa Santander Universidades na Universidade de Coimbra, em Portugal. Integra o Grupo de Pesquisa Pensamento e Política no Brasil da Universidade de São Paulo. Tem experiência na área de Ciência Política, com ênfase nas linhas de pesquisa de Pensamento Político Brasileiro e de Relações Internacionais, atuando principalmente nos estudos sobre Política Doméstica e Externa da China, Segurança Internacional, Diplomacia e Diásporas Asiáticas. Associado à Midwest Political Science Association (MPSA).
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