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As políticas de Modi contra a indústria de carne na Índia

Uma ação do Primeiro-Ministro da Índia, Narendra Modi, no último dia 23 de maio, tem gerado grande discussão na sociedade indiana. O ato foi um anúncio do Ministério do Meio Ambiente que tem como objetivo geral impedir maus tratos ao gado indiano. Entre várias medidas, que devem ser implementadas pela sociedade no prazo de três meses após o anúncio, a que gerou polêmica é a proibição da venda de qualquer tipo de gado para o abate nos mercados de gado, que se dedicarão somente à compra e venda de animais para a agricultura. É um anúncio que tem claras implicações econômicas e políticas, e também sinaliza para um fortalecimento das políticas de caráter hinduísta no país.

Em termos econômicos, a proclamação dificulta a produção das indústrias de couro e de carne. As exportações de carne bovina da Índia são 23,5% do total global e,  de maneira conjunta, as duas indústrias representam exportações anuais de 10 bilhões de dólares (aproximadamente, 33 bilhões de reais, na cotação de 15 de julho de 2017). Além dessas indústrias, a medida também afeta aquelas que utilizam da carne para a produção de derivados.

Estados indianos e a proibição ao abatimento de vacas em 2915 (Em verde: vacas, touros e bois. Em amarelo: Apenas touros e bois. Em vermelho: Nenhuma das citadas)

 

Apesar de a Índia ser o país com maior porcentagem de vegetarianos no mundo, como mostra a imagem ao lado, o mercado interno de carne vermelha também é relevante, principalmente nas regiões sul e nordeste do país, estimado em 1 trilhão de rúpias (aproximadamente, 15 bilhões de dólares, ou 51 bilhões de reais, na cotação de 15 de junho de 2017). Além disso, a venda de vacas e búfalos em mercados locais para as indústrias é fonte de renda para fazendeiros indianos, e, logo, a medida do governo central ameaça os meios de vida de milhares de pessoas. Até tradicionais apoiadores do Governo estão contra ela, dado o seu contraste ao caráter liberal que a Administração Modi se propõe na área econômica.

Na política, a medida do governo central desestabiliza suas relações com os Estados indianos. A legalidade ou não do abatimento de vacas, animais considerados sagrados para a religião hinduísta, e de búfalos, é tradicionalmente uma decisão dos Governos estaduais, como mostra a figura ao lado. A decisão de Modi, nesse sentido, ao colocar o abatimento de gado como questão ambiental, é vista pelos governantes regionais como um abuso de poder. Por isso, o governo de Kerala, Estado do sul da Índia onde é legal o abate de qualquer tipo de gado, protestou contra as medidas no jornal Hindustan Times. Declarou: “Nós não deixaremos o governo aplicar políticas fascistas […]. Deixe ele anunciar várias notificações, nós não as seguiremos”.

 

Vegetarianos pelo mundo (Em verde: Comum. Em verde claro: Moderadamente comum. Em amarelo: Incomum. Em Laranja: Moderadamente Raro. Em vermelho: Raro) 

 

Por último, a medida também é um indicativo de diretrizes religiosas, com interpretações de que seria a favor da imposição do hinduísmo como política nacional, ou, dito de outra maneira, uma forma de imperialismo cultural. Os mercados locais de gado eram lugares onde tradicionalmente fazendeiros hindus vendiam suas vacas, após elas não serem mais úteis para o arado e produção de leite, para donos de indústrias de abate, que normalmente estão nas mãos de muçulmanos. Além da destruição desses laços entre hinduístas e muçulmanos, as decisões do Governo central levaram ao aumento da violência por parte de grupos hinduístas que são contra o abate de gado e fiscalizam informalmente os matadouros. Dessa forma, as medidas de Modi atacam de maneira indireta, mas violenta, a vida dos cerca de 182 milhões de muçulmanos que vivem no país.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1A Vaca Sagrada na Índia” (FonteRod Waddington):

https://commons.wikimedia.org/wiki/Category:Cows_in_India?uselang=pt-br#/media/File:Holy_Cow_(7438681490).jpg

Imagem 2 “Estados indianos e a proibição ao abatimento de vacas em 2915 (Em verde: vacas, touros e bois. Em amarelo: Apenas touros e bois. Em vermelho: Nenhuma das citadas)” (FonteBarthateslisa): 

https://www.quora.com/India-Why-is-India-considered-vegetarian-when-almost-80-percent-of-the-Indians-are-non-vegetarians

Imagem 3 “Vegetarianos pelo mundo (Em verde: Comum. Em verde claro: Moderadamente comum. Em amarelo: Incomum. Em Laranja: Moderadamente Raro. Em vermelho: Raro)” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Cattle_slaughter_in_India#/media/File:Status_of_cow_slaughter_in_India.png

About author

Mestranda em Economia Política Internacional pela UFRJ e Bacharel em Relações Internacionais pela UFRGS. Ex-pesquisadora do Núcleo Brasileiro de Estratégia e Relações Internacionais e do Centro Brasileiro de Estudos Africanos. Atualmente é estagiária do the South-South Exchange Programme for the Research on the History of Development (SEPHIS). Se interessa por assuntos relacionados aos países em desenvolvimento e recentemente tem focado no sistema financeiro internacional.
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