ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

As verdades inconvenientes da pandemia

A discrepância entre os países no ritmo e evolução da disseminação do novo coronavírus tem escancarado como políticas públicas são construídas e implementadas de maneira distinta entre as nações, especialmente no que diz respeito ao gerenciamento de fatores de risco sistêmico. Neste sentido, muito se tem perguntado o quanto os Estados estão prontos para os principais desafios postos para o século XXI: para além da própria Covid-19 e outras possíveis mutações futuras, as mudanças climáticas, a crescente desigualdade e o aumento vertiginoso e contínuo das populações urbanas são tópicos cada vez mais preocupantes e demandantes de ações concretas de mitigação.

A redução de riscos sistêmicos resume um conjunto de atividades de caráter preventivo. Não necessariamente os seus efeitos ocorrem diretamente no tempo presente, uma vez que suas consequências serão majoritariamente sentidas no futuro. O isolamento social, por exemplo, ilustra o caráter preventivo frente ao novo coronavírus, sendo um “investimento social” que se faz no presente para a redução de impactos negativos já no curto prazo.

Segundo analistas, a pandemia reforçou a necessidade de se erguer ações no presente que previnem as sociedades e o planeta como um todo dos riscos que estão postos para os anos e décadas seguintes. O efeito avassalador da pandemia sobre sistemas de saúde desestruturados ao redor do mundo, sobre comunidades urbanas intensamente povoadas e com ínfimas condições sanitárias, somada a discrepância entre vítimas por classe social, demonstrou a inaptidão da atual estrutura social, econômica e institucional em lidar com as consequências de crises sistêmicas.

A Comissão Europeia tem debatido como
propor um plano de recuperação econômica da
Europa baseado na sustentabilidade econômica

O tema das mudanças climáticas, por exemplo, vem mobilizando ao longo das últimas décadas uma série de movimentos sociais, empresas e outros grupos da sociedade civil no debate e reivindicações por um modelo de desenvolvimento sustentável, especialmente baseado em economias de baixo carbono. Em pesquisa recentemente divulgada no jornal britânico BBC, cerca de 80% da população chinesa, 75% dos franceses e 70% dos brasileiros acreditam que os efeitos futuros do aquecimento global serão tão sérios quanto as consequências sanitárias e econômicas da Covid-19. O dado, acima de tudo, revela o caráter urgente que o tema assume entre ampla maioria da população mundial.

No entanto, um grande entrave para a construção de um modelo de desenvolvimento adaptado às condições necessárias para a mitigação dos efeitos da mudanças climáticas – o qual inclua, por exemplo, fim do desmatamento das florestas tropicais e redução no consumo de combustíveis fósseis – é a disposição do Estado em promover estímulos fiscais e apoio institucional a setores da economia e práticas produtivas alinhadas com a pauta da sustentabilidade, uma vez que a pressão pela continuidade de subsídios e incentivos para setores poluidores ainda é significativa. Especialmente no contexto pós-pandemia, onde as economias nacionais estarão mergulhadas em recessão ou em crescimento lento, é muito provável que haja uma “corrida ao Estado” por parte de empresas e associações empresariais – boa parte delas não alinhadas com a ideia de um futuro não muito diferente do atual –, o que pode impulsionar a reprodução da agenda econômica prévia à pandemia do que necessariamente induzir a mudanças sistêmicas de grande fôlego.

A mesma tendência à reprodução de padrões sociais e econômicos ocorre na esfera da desigualdade, uma vez que o combate ao crescente abismo entre ricos e pobres demanda intensas medidas, como a tributação das heranças, das grandes fortunas e combate às fraudes fiscais, por exemplo. Se, por um lado, alguns países, como Chile, experimentaram a adoção de uma nova política fiscal sobre essa questão durante a pandemia, do outro, muito se pergunta o quanto novas condutas de tributação e redistribuição de renda entrarão amplamente em vigência nos próximos anos.

Crises severas possuem a inconfundível característica de não somente alterar o estado presente das coisas, mas, principalmente, de sujeitar planos futuros a profundas correções de rota. O quanto o cenário pós-pandemia estará associado à adoção de novos padrões e políticas públicas que caminhem para a redução e mitigação dos riscos sistêmicos, ou se reproduzirá, em larga escala, o contexto institucional e social prévio à emergência do novo coronavírus, irá depender, em última instância, do espaço que as agendas progressistas terão dentro de um Estado intensamente disputado pelas mais variadas matizes de interesses políticos e econômicos.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 A pandemia do novo coronavírus tem escancarado as limitações de países em governos em mitigar riscos sistêmicos” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Cronologia_da_pandemia_de_COVID-19

Imagem 2 A Comissão Europeia tem debatido como propor um plano de recuperação econômica da Europa baseado na sustentabilidade econômica” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/European_Commission

About author

Economista pela ESALQ-USP, é atualmente mestrando em Sociologia pelo Programa de Pós- Graduação do IFCH-UFRGS. Foi pesquisador do Programa de Mudanças Climáticas do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (IDESAM). Atualmente desenvolve pesquisas na área de Sociologia Econômica, Economia Política e Sociologia do Desenvolvimento. Escreve no CEIRI Newspaper sobre economia e política africana, como foco em Angola, Etiópia e Moçambique
Related posts
AMÉRICA DO NORTEANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

Rumos geopolíticos entre Rússia e EUA, após as eleições norte-americanas

ÁFRICAANÁLISES DE CONJUNTURA

Movimento #EndSARS na Nigéria

ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

França, Europa e o apogeu da intolerância

ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Após um ano de protestos populares e de sua própria renúncia, Hariri retorna ao posto de Premier no Líbano

Receba nossa Newsletter

 

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Open chat
Olá!