AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURA

A Bolívia e a corrida do lítio

Apelidado de “nova gasolina” pelo banco de investimentos Goldman Sachs e também conhecido na mídia como “ouro branco” e “petróleo branco”, o lítio tem tido crescente demanda no mercado. A Bolívia detém a maior reserva mundial e está diante do desafio de tirar proveito dessa riqueza.

Utilizado corriqueiramente na indústria de vidros, graxas e medicamentos, este metal passou a ser mais valorizado a partir dos anos 2000, em razão da sua aplicação em baterias de celulares, PCs, notebooks, tablets e eletrônicos similares. Nos próximos anos espera-se ainda maior impulso no consumo, em razão da expectativa de substituição de motores a explosão por motores híbridos e elétricos nos diversos tipos de veículos.

A produção do lítio por país não é diretamente proporcional ao tamanho das respectivas reservas. Os rankings de países produtores costumam listar a Austrália em 1º lugar, seguida por Chile, China e Argentina, nesta ordem. Há consenso, entretanto, de que a maior parte das reservas estão concentradas numa região de fronteira denominada “Triângulo do Lítio”, que é formada por depósitos de sal (salares) na Argentina, Chile e Bolívia.

Logo da Yacimientos de Lítio Bolivianos (YLB)

Motivadas pela valorização da commodity, as nações que possuem reservas, sobretudo as sul-americanas, têm investido fortemente na produção, numa espécie de “Corrida do Lítio”. Segundo o periódico América Economia, a Argentina iniciou em maio de 2019 a construção do que seria a “primeira fábrica de baterias de lítio da América do Sul”, com início de produção em 2020. A produção de baterias agrega valor ao produto com excelentes reflexos nas receitas e, por conseguinte, na balança comercial.    

O Chile, segundo maior produtor mundial e cujas exportações teriam aumentado de valor em 1.200% de 2013 a 2018, promove com cautela a regulação da exploração por empresas privadas. Enquanto isso, já prospectam parcerias no Japão para a instalação de fábrica de baterias em solo chileno, seguindo o exemplo argentino. Os peruanos, que não constavam no ranking de grandes produtores, encontraram uma vasta reserva na região fronteiriça à Bolívia e estão elaborando marco regulatório com apoio dos americanos.

Recentemente, descobriu-se que o Salar de Uyuni, na Bolívia, abriga a maior reserva global de lítio, estimada em pelo menos 21 milhões de toneladas, ou 40% do total existente no planeta. Anteriormente, nos anos noventa, uma empresa americana já havia explorado o lítio na Bolívia, quando somente se havia descoberto 8,9 milhões de toneladas. Evo Morales, em 2008, dois anos depois de assumir a Presidência, estatizou o processo e iniciou a produção em janeiro de 2013 por meio da Planta Piloto de Carbonato de Lítio.

Em 2017, o Governo de La Paz criou a Empresa Pública Nacional Estratégica de Yacimientos de Litio Bolivianos (YLB), em substituição à estrutura de gestão existente. Segundo consta no site da YLB, a Planta Piloto de Baterias de Íon Lítio havia sido inaugurada em fevereiro de 2014, instalada por uma empresa chinesa. Uma notícia no site da Agencia Boliviana de Información (ABI) leva a crer que a fábrica já estaria em produção, o que colocaria em xeque a primazia da planta argentina. Outra fonte informa que a “Bolívia fabricará baterias a partir de 2022”, por meio do que seria a primeira fábrica da América Latina.

Carbonato de Lítio produzido na Bolívia

Carlos Montenegro, Gerente da YLB, declarou à ABI que o Governo Boliviano já investiu mais de 600 milhões de dólares no projeto como um todo e que Evo Morales entende que a Bolívia, juntamente com a Argentina e o Chile devem estabelecer o preço do lítio no mercado internacional, uma vez que juntos concentram mais de 70% das reservais mundiais. Montenegro afirmou que o país tem 3 desafios para 2019: concluir a Planta Industrial de Carbonato de Lítio; consolidar a parceria com empresa alemã para produção das baterias e expandir a exploração do lítio aos Salares de Coipasa de Oruro e de Pastos Grandes.

De fato, a cadeia produtiva do lítio é complexa, o próprio Governo da Bolívia estima em mais de 40 plantas das quais não tem nem metade ainda, apesar de já estar atuando no setor com apoio da China e da Alemanha. Além desses parceiros, o país vem ensaiando negociações com a Turquia, com os Emirados Árabes Unidos e também com a Índia, cujo Presidente visitou o país andino pela primeira vez na história dos dois Estados.

Além dos desafios elencados pelo Executivo da YLB, os bolivianos ainda têm outros obstáculos: a falta de conhecimento para fabricar produtos derivados com valor agregado e a falta de capital, os quais vem sendo buscados junto às nações amigas; as questões ambientais, que afetam inclusive os plantadores de quínua na região do Salar de Uyuni; e a dificuldade de acesso para empresas estrangeiras que detenham expertise.

Sobre este último aspecto, a edição 2019 do Índice Global de Complexidade para Negócios (Global Business Complexity Index) da TMF Group apresenta um ranking dos países mais desafiadores para se fazer negócios. No Index, a Bolívia ocupa o posto nº 5, de um total de 76 posições, onde o Brasil aparece em 3º lugar, com a ressalva de que permanece economicamente atrativo apesar da baixa classificação. 

A publicação, na página 12, atribui ao Governo Boliviano “regulação exigente e alta taxação”, embora reconheça que tem havido facilitação dos trâmites burocráticos. A oportunidade está posta e é percebida com clareza pelo Estado Plurinacional da Bolívia, o volume de reservas já confere ao país a alcunha de “Arábia Saudita do Lítio”, utilizada também para denominar o Chile como maior produtor sul-americano. Caberá aos bolivianos vencer as dificuldades no sentido de produzir e vender volumes maiores e, preferencialmente, concluir a cadeia produtiva de modo a agregar valor ao produto primário e exportar baterias.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Salar de Uyuni” (Fonte): https://scontent.fssa17-1.fna.fbcdn.net/v/t1.0-9/61982147_1266015523560001_4761796044545589248_n.jpg?_nc_cat=108&_nc_oc=AQmjKtzEuFPR30rpXhMXii_Y3PxT55bdkU6aySLm15d3XEj7xf2DrVigu4AF0ZvIEGk&_nc_ht=scontent.fssa17-1.fna&oh=715ea4399dada767c0870f02352b9b3c&oe=5D8A04F5

Imagem 2 Logo da Yacimientos de Lítio Bolivianos (YLB)”(Fonte): https://scontent.fssa17-1.fna.fbcdn.net/v/t1.0-9/38405425_1056261101202112_5752994073199771648_n.jpg?_nc_cat=105&_nc_oc=AQmxNLbJ7BPb2muj9AobVTaIl8CkObNJqLbygrisVrytOlLgQpVrd_eH6p6D3N3iLtY&_nc_ht=scontent.fssa17-1.fna&oh=f339f497247cf2341f878fb410d38a3c&oe=5D81B028

Imagem 3 Carbonato de Lítio produzido na Bolívia” (Fonte): https://scontent.fssa17-1.fna.fbcdn.net/v/t1.0-9/58689460_1238624756299078_5094926696004452352_n.jpg?_nc_cat=108&_nc_oc=AQkjcgLzHTCk56B2tLJxDvAFyB2IO8FAvDD6nvtqsJSNTDjBjNRNKi0aA5G81FQ2BdA&_nc_ht=scontent.fssa17-1.fna&oh=7125060a0601f2c1155d654b0e5cc69a&oe=5D90522B

AMÉRICA LATINAECONOMIA INTERNACIONALNOTAS ANALÍTICAS

Cone Monetário e Passaporte bolivianos ganham prêmio internacional

A Primeira Família de Bilhetes (PFB) do Estado Plurinacional da Bolívia recebeu o prêmio de “Melhor Série Nova de Cédulas 2019” no fórum regional High Security Printing (HSP) Latin America (Imprensa de Alta Segurança América Latina). Os organizadores, que também agraciaram o passaporte boliviano, anunciaram a premiação em 4 de junho de 2019, em São José, capital da Costa Rica.

A PFB é a primeira série de cédulas bolivianas que traz estampada a denominação Estado Plurinacional da Bolívia. As cédulas foram lançadas em 2018, com 3 objetivos: 1) incluir desenhos de personagens e imagens de representatividade nacional, regional e de gênero, com desenho moderno e seguro; 2) consolidar maior uso da moeda nacional e 3) melhorar as medidas de segurança já conhecidas pela sociedade e agregar outras novidades.

O Cone Monetário da Bolívia disputou a premiação com os de Aruba, Argentina, Bahamas, Guatemala, México e Venezuela e, segundo nota do Banco Central da Bolívia, além da segurança, os organizadores elogiaram a inclusão inédita de heróis indígenas e de sítios naturais que representam a riqueza e diversidade da fauna e da flora, inclusive espécies ameaçadas de extinção.

Passaporte Eletrônico da Bolívia

As Conferências HSP são eventos regionais anuais organizados pela Reconnaissance International, uma empresa de consultoria especializada. Neles participam empresas e instituições responsáveis pela emissão de documentos, tais como documentos de identidade, documentos de posse de veículos, cédulas monetárias, passaportes e visas, com ênfase no uso de tecnologia. A HSP Asia teve início em 2001, a HSP EMEA (Europe, Middle East and Africa) em 2002, a HSP Latin America teve início em 2012, no Rio de Janeiro, e já está na sua 8ª edição.

Na HSP Latin America 2019, que aconteceu de 3 a 5 de junho de 2019, na Costa Rica, outros países premiados foram: a Colômbia por “Melhor Passaporte Atualizado”; o México por “Melhor Cédula Nova”, para a de 500 pesos mexicanos; e o Uruguai pela “Melhor Cédula Comemorativa”. A Bolívia arrebatou mais um prêmio na categoria “Melhor Passaporte Eletrônico”. A Reconnaissance destacou que o novo Passaporte da Bolívia incorpora 30 recursos de segurança e tecnologia de ponta sem ter alterado o custo do documento para o cidadão.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Cédula de 20 Bolivianos da PFB” (Fonte): https://resources.reconnaissance.net/wp-content/uploads/2019/06/05163953/BOL_20_Anverso.jpg

Imagem 2 Passaporte Eletrônico da Bolívia” (Fonte): https://resources.reconnaissance.net/wp-content/uploads/2019/06/05163953/Boliva.jpg

AMÉRICA LATINAECONOMIA INTERNACIONALNOTAS ANALÍTICAS

Colômbia e Bolívia substituem plantações de coca por lavoura cafeeira

O Governo da Colômbia e a empresa Nespresso acabaram de firmar uma parceria com o objetivo de reativar a lavoura de café na cidade de El Rosario, em substituição ao cultivo de coca. O anúncio foi feito em 28 de maio de 2019, por Ivan Duque, Presidente da Colômbia, e, em 6 de maio, o Governo da Bolívia havia anunciado a visita da firma francesa Malongo Café para celebração de acordo similar, no município de La Asunta.

A aliança com a Colômbia envolve ainda a Federación Nacional de Cafeteros (FNC) e a Fundação Howard G. Buffet, com o objetivo de ampliar a cafeicultura na região cocaleira. Cerca de 2 milhões de dólares serão investidos na melhoria de infraestrutura local e das fazendas, aproximadamente, 7,9 milhões de reais, conforme a cotação de 31, maio de 2019. Além disso, 100 produtores serão capacitados para praticar a agricultura sustentável e obter grãos de excelente qualidade. A produção será adquirida pela Nestlé Nespresso, pioneira em café em cápsulas, com 800 lojas em mais de 80 países.

O Governo Boliviano tem o apoio da representação local do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC, em inglês) e juntos estão coordenando a celebração de acordo com a empresa francesa para aquisição da produção cafeeira e apoio técnico aos produtores.  A Malongo Café processa mais de 8 mil toneladas de grãos por ano, que são servidos em hotéis, restaurantes e mercados franceses. Com sede em Nice, na Côte d’Azur, no litoral Sul da França, a empresa familiar especializada em café gourmet exporta também para a Europa.

Plantação de café

O Presidente colombiano enfatizou a transformação social que será gerada pelo cultivo de produto legal, projeto que ele espera ver expandido às demais regiões do país. Cabe salientar que a Colômbia é o 3º maior país produtor de café do mundo (Brasil e Vietnam são 1º e 2º, respectivamente), segundo dados da Organização Internacional do Café.

Já a Bolívia, cuja produção cafeeira é bastante modesta (0,6% da colombiana), aposta na qualidade do seu café para atender um nicho específico de mercado na Europa. Em ambos os países coincide o esforço em criar alternativa econômica que reduza o cultivo da coca, que termina por alimentar o tráfico de drogas ilícitas e prejudiciais.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Grãos de café torrado” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/c/c5/Roasted_coffee_beans.jpg/800px-Roasted_coffee_beans.jpg

Imagem 2 Plantação de café” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/c/cf/Coffee_Berries.jpg/800px-Coffee_Berries.jpg

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Evo Morales inicia campanha ao 4º mandato na Bolívia

Em 18 de maio de 2019, na pequena cidade de Chimoré, Departamento de Cochabamba, na região central da Bolívia, Evo Morales deu início à sua campanha para a reeleição que poderá levá-lo ao quarto mandato. O candidato participou de caminhada, ao lado do seu vice Álvaro Garcia, e discursou para um público que foi estimado em mais de um milhão de pessoas de todo o país.

Na Presidência da Bolívia desde 2006, Morales teve seu pleito à nova candidatura derrotado no Referendo de 2016, que ratificou a restrição imposta pela Constituição de 2009 de uma única reeleição. Seu Partido apelou ao Tribunal Constitucional Plurinacional, que em novembro de 2017 o autorizou a participar das prévias. A decisão julgou que o direito político estabelecido no Artigo 23 da Convenção Americana sobre Direitos Humanos se sobrepunha à Carta Magna. Em dezembro de 2018, o Tribunal Supremo Eleitoral habilitou sua candidatura para as eleições de 2019.

Em visita à Bolívia um dia antes do início da campanha, o Secretário-Geral da OEA, Luís Almagro, declarou que a candidatura de Morales tinha respaldo jurídico legal. O Secretário chamou de “disparate a acusação, por parte da oposição, de estar defendendo o boliviano em troca de apoio para sua própria reeleição à OEA. Almagro, cujo mandato termina em maio de 2020, sete meses depois das eleições bolivianas, foi eleito em 2015 com 33 votos mais 1 abstenção dos 34 estados-membros e necessita de maioria simples (metade mais um, ou 18 votos) para uma possível reeleição.

Almagro ainda reforçou que não entende a reeleição como um direito humano, mas que a decisão da Suprema Corte Boliviana é soberana e, portanto, não pode ser contestada por instituições supranacionais. Durante a visita do Secretário, o Governo da Bolívia firmou acordo com a OEA para o envio de Missão de Observação Eleitoral para acompanhar o pleito, ocasião em que o Executivo boliviano convidou a ONU e a União Europeia a também enviarem observadores.

Chanceler da Bolívia assina acordo com Secretário-Geral da OEA

Opositores solicitaram apoio do Governo da Colômbia para realizar consulta à Corte Interamericana de Direitos Humanos (CorteIDH) quanto à interpretação do Artigo 23 da Convenção Americana de Direitos Humanos. O Chanceler da Bolívia, Diego Pary, esclareceu que qualquer país-membro da OEA pode consultar a CorteIDH por intermédio da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH). Entretanto, ele alega que não se pode encaminhar consulta sobre caso específico nem a resposta pode alterar a decisão da Corte Boliviana. Concluiu por lembrar que a Bolívia não interfere em assuntos internos da Colômbia e que espera daquele país a mesma postura respeitosa.

No comício de campanha, Morales ressaltou o desenvolvimento do país sob sua gestão, reconhecido inclusive por organismos multilaterais. Em meados de 2018 ele realizou viagens internacionais para estabelecer acordos com a Rússia e com a China. Em 17 de abril 2019 foi a Dubai visando atrair investidores dos Emirados Árabes Unidos. E, poucos dias antes, conseguiu que, pela primeira vez na história, um Presidente da Índia visitasse a Bolívia, quando firmaram diversos acordos de cooperação bilateral.

Pesquisa recente realizada pela Tal Cual para o periódico La Razón aponta 38,1% de intenção de votos para Evo Morales e 27,1% para Carlos Mesa, seu principal concorrente. O candidato Óscar Ortiz obteve 8,7%, bem abaixo dos 16,2% de votos ocultos (não sabe/não quis responder). Em La Paz e capitais de Departamento, Carlos ultrapassa Morales com 32,6% contra 31%, mas nas cidades médias e zona rural perde por diferença superior a 30 pontos. O maior percentual a favor de Evo por Departamento é de 47%, em Cochabamba, o que explica o fato dele ter iniciado ali a sua campanha.

A segunda parte da pesquisa trata da economia e 60% dos entrevistados declararam que vivem “muito melhor” que seus pais e 71% crê que seus filhos viverão “muito melhor”. No total são 8 candidatos disputando o posto de Executivo e o percentual de votos ocultos ocupa a 3ª posição na média. Esse cenário favorece a Evo que tem inclusive o apoio da antes antagonista Central Obrera Boliviana (COB), similar à brasileira Central Única dos Trabalhadores. Confiante, ele desafiou a oposição a se unir em torno de uma candidatura e de um partido para enfrentá-lo, o que já foi descartado de imediato por 3 candidatos.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Evo Morales inicia campanha em Chimoré” (Fonte): https://www1.abi.bo/fotografias/2019/05/18/0061.jpg

Imagem 2 Chanceler da Bolívia assina acordo com SecretárioGeral da OEA” (Fonte): http://www.cancilleria.gob.bo/webmre/system/files/images/WhatsApp%20Image%202019-05-17%20at%2014_45_23.jpeg

AMÉRICA LATINANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONALTecnologia

Colômbia inaugura 1º centro latino-americano da indústria 4.0

Foi inaugurado em 30 de abril de 2019 o Centro para a Quarta Revolução Industrial (em inglês, Center for Fourth Industrial Revolution, ou C4IR), na cidade de Medellín, com a presença de Ivan Duque, Presidente da Colômbia. A primeira instituição latino-americana dessa natureza trabalhará em projetos relacionados a Inteligência Artificial, internet das coisas, robótica, cidades inteligentes, aprendizagem automática e blockchain

O Presidente havia proposto, em 2018, abrigar o primeiro centro em país de língua espanhola. Em janeiro de 2019, a ideia foi acatada no Fórum Econômico Mundial, em Davos, Suíça, e o anúncio foi feito pelo próprio mandatário colombiano, em conferência de imprensa realizada no evento, em 23 de janeiro de 2019.

O Fórum Econômico Mundial (World Economic Forum, ou WEF, em inglês) é uma organização internacional, sem fins lucrativos, criada em 1971, com sede em Genebra, Suiça, e busca engajar políticos, empresários e lideranças para elaboração de agenda global, local e industrial. O WEF se autodenomina como uma instituição “independente, imparcial e não vinculada a interesse específico”. As críticas ao WEF fizeram nascer o Fórum Social Mundial, como um contraponto de ideias e o slogan “um outro mundo é possível”.

Os Centros para a Quarta Revolução Industrial (C4IR) são espaços que reúnem diversos stakeholders para elaborarem políticas e estabelecerem acordos de colaboração que permitam superar entraves e acelerar os benefícios da ciência e da tecnologia. O primeiro C4IR foi estabelecido em março de 2017, em San Francisco, Estados Unidos; em 2018 foi a vez da Índia, China e Japão. Em 2019 foram abertas as unidades dos Emirados Árabes Unidos (28 de abril), da Colômbia (30 de abril) e a rede de C4IRs em breve contará com unidades na África do Sul e Israel.

Presidente Ivan Duque concede entrevista na saída da visita ao Google

Duque, que tem buscado colocar seu país na vanguarda da indústria 4.0, ou  quarta revolução industrial, esteve nos Estados Unidos, nos dias 8 e 9 de maio de 2019,  onde cumpriu agenda de visitas a  megaempresas da área tecnológica. No primeiro dia, no Vale do Silício, ele esteve acompanhado de 14 empreendedores colombianos que tiveram a oportunidade de apresentar seus negócios e casos de sucesso. A aceleradora de empreendimentos 500 Startups interessou-se em apoiar os jovens empresários.

A Apple manifestou interesse em participar do C4IR de Medellín, apoiar na área de educação e em políticas ambientais. Com a Cisco foi assinado um acordo para modernização das instituições públicas, dentre outras coisas. Ivan Duque pediu à Google apoio para estender o acesso à internet a lugares remotos e que identificasse empreendedores nativos que possam colaborar no trabalho.

Segundo ele, a Microsoft prometeu investir quase 10 bilhões de pesos (cerca de 12 milhões de reais à taxa de 10 de maio de 2019) em conectividade para atender em torno de 150 mil pessoas, cujo acesso à tecnologia é precário. Na Amazon, o Presidente encontrou colombianos que trabalham na empresa e iniciou conversações para o estabelecimento de uma parceria.

Em Medellín já existe o centro de inovações e negócios Ruta N, em cujo complexo está também sediado o C4IR e, além disso, funciona em Bogotá o Innpulsa, instituição de gestão do crescimento empresarial do governo federal.  Embora criada em 2012, na gestão de Juan Manuel Santos, antecessor de Duque, a organização tem como objetivos atuais levar a Colômbia a ser uma das 3 economias mais inovadoras até 2025, e uma das mais competitivas da América Latina até 2032.

Além das instituições existentes no país e dos investimentos que estão sendo feitos, Ivan Duque aposta na indústria criativa, também conhecida como economia laranja. Duque é coautor do manual “A Economia Laranja: uma oportunidade infinita”, publicado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e disponível para download em quatro idiomas. Ao final das visitas ele declarou que tem como meta que a Colômbia seja vista como protagonista na América Latina, atraindo investimentos e obtendo êxito no setor tecnológico e de indústrias criativas.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Complexo Ruta N, onde funciona o C4IR de Medellín” (Fonte): https://www.rutanmedellin.org/images/rutan/edificio/arutan.jpg

Imagem 2 Presidente Ivan Duque concede entrevista na saída da visita ao Google” (Fonte): https://id.presidencia.gov.co/Galeria_Fotografica/190508-Google-1800.jpg

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O Chapéu Panamá busca firmar sua identidade como produto do Equador

O elegante Chapéu Panamá nunca sai de moda. Está sempre em evidência nos desfiles e seu uso foi adotado por celebridades que vão de Fernando Alonso, Piloto de Fórmula 1, a Michael Jackson, Rei do Pop. O que pouca gente conhece é a história desse adereço, cuja tecelagem é Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade e que, apesar do nome, é fabricado no Equador.

A história começa nos idos de 1630 na cidade de Jipijapa, na Província* de Manabí, na costa do Pacífico no Equador, quando o indígena Domingo Choéz começou a fabricar chapéus artesanais inspirados nos modelos espanhóis, utilizando fibras (palha) do talo de uma palmeira cultivada mais ao sul, onde hoje fica a Província* de Santa Elena.

Nos anos 1800, a planta popularmente conhecida como “jipijapa recebeu o nome botânico de carludovica palmata em homenagem a Carlos IV e sua esposa Maria Luísa, Rei e Rainha da Espanha. Mais tarde viria a ser conhecida como paja toquilla e o chapéu como sombrero de paja toquilla. Em meados do século XIX estes sombreros superaram o cacau na pauta de exportação e, até 1863, mais de 500 mil unidades foram exportadas pelo porto da cidade de Guayaquil. 

Presidente Roosevelt usa Chapéu Panamá em visita às obras do Canal

construção do Canal do Panamá gerou uma demanda de chapéus para proteção do sol pelos trabalhadores, contribuindo para a fama e para a distribuição a outras partes do mundo em razão da localização estratégica do país centro-americano. O Presidente dos EUA, Theodore Roosevelt, fez uma visita de inspeção às obras do Canal em 1906 e para proteger-se utilizou um sombrero de paja toquilla. A cobertura fotográfica da mídia ajudou a popularizar o sombrero que passou a ser conhecido mundialmente como Chapéu Panamá (Panama Hat, em inglês).

Os diversos produtos industriais superaram o comércio do chapéu artesanal, mas a sua confecção se mantém como uma tradição nas Províncias* de Azuay, Cañar, Manabí e Santa Elena, onde se formaram cadeias produtivas que unem plantação (toquilleros), tecelagem (artesãos) e venda (comerciantes).  Um vídeo do Instituto Cultural de Patrimônio Cultural (INPC) no YouTube  conta a história e descreve o processo de produção desde a colheita.

Em dezembro de 2012 o processo de tecelagem manual do sombrero de pajo toquilla foi reconhecido pela Unesco como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, para alegria dos equatorianos, que passaram a celebrar a data. Cabe registrar que a Unesco também reconheceu, em 2017, como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade os procedimentos e técnicas de extração de fibras vegetais para confecção do sombrero pintao, este sim um chapéu típico produzido no Panamá, mas que não deve ser confundido com o Chapéu Panamá feito no Equador.

Delegação do Equador nos Jogos Olímpicos 2016 usando o Chapéu Panamá

O Chapéu é confeccionado em diversos modelos masculinos e femininos, dos mais simples aos mais sofisticados e caros. Inovações tem sido incorporadas, tais como cores por tingimento e bordados, conforme noticiado recentemente pelo periódico equatoriano El Telégrafo. A divulgação do item como originário do Equador também tem sido uma constante. Nos Jogos Olímpicos de 2016 (Rio 2016) a delegação equatoriana desfilou usando o Chapéu Panamá, reforçando a associação do produto ao seu país.

Em final de março de 2019 a Associação de Jovens Empresários de Cuenca, capital da Província* de Azuay, em conjunto com o Ministério do Turismo, lançou a campanha Hat Friday (Dia do Chapéu, em inglês). Os equatorianos são convidados a usarem o Chapéu nas sextas-feiras e compartilhar fotos nas redes sociais com a hashtag #HatFriday. Num segundo momento da campanha, formadores de opinião investirão na promoção internacional do sombrero de paja toquilla como Equadorian Hat em lugar de Panama Hat.

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Nota:

Províncias são divisões político-administrativas do território do Equador, similares aos Estados no Brasil. Azuay, Cañar, Manabí e Santa Elena são algumas das 24 Províncias do país.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Chapéu Panamá do Equador” (Fonte): https://pbs.twimg.com/media/CByxzh_WgAAv60N.jpg:large

Imagem 2 Presidente Roosevelt usa Chapéu Panamá em visita às obras do Canal” (Fonte): https://www.turismo.gob.ec/wp-content/uploads/2018/12/D%C3%ADa-del-Sombrero-Tejido1.jpg

Imagem 3 Delegação do Equador nos Jogos Olímpicos 2016 usando o Chapéu Panamá” (Fonte): https://pbs.twimg.com/media/Cwim-niWEAAKHSB.jpg