AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURA

CEPAL divulga análise de comércio exterior da América Latina e Caribe

A Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL) divulgou, em janeiro de 2019, o seu relatório Perspectivas do Comércio Internacional da América Latina e do Caribe,  elaborado no último trimestre de 2018 e apresentado, em primeira mão, na Cidade do México, em 31 de outubro daquele ano, pela Secretária-Executiva da CEPAL, Alicia Bárcena.

O relatório é composto por três capítulos: o primeiro analisa o contexto do comércio internacional e o impacto na América Latina; o segundo trata da participação da região no mercado de minerais e metais; e o terceiro e último analisa o comércio eletrônico como potencial indutor do aumento de exportações. O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), por sua vez, lançou a edição 2019 do seu documento Estimativas das Tendências Comerciais – América Latina e Caribe, sendo que ambos os relatórios trabalham com dados estimados para o ano de 2018.

A CEPAL é uma das cinco comissões regionais da ONU, tem sede em Santiago do Chile e realiza estudos na área de desenvolvimento econômico e social abrangendo os países da América Latina e do Caribe. Já o BID, segundo informa o website daquele Banco, ajuda a melhorar a saúde, educação e infraestrutura por meio de apoio financeiro e técnico, visando reduzir a pobreza e a desigualdade nos países latino-americanos e caribenhos. Convém destacar que o México está contemplado em ambos os estudos, em que pese ser considerado como país da América do Norte, em termos geográficos, fazer parte do NAFTA e ter ligações comerciais estreitas com os seus parceiros e vizinhos do Norte: EUA e Canadá.

Ao analisar o contexto, a CEPAL afirma que os efeitos da crise iniciada em 2008 ainda se refletem na economia mundial uma década depois, tanto que as projeções de crescimento da economia e do comércio internacional para 2018 e 2019 foram revisadas para baixo. Com o fim do chamado boom das commodities, em 2012, e as restrições de financiamento, em 2018, os países latino-americanos, tradicionais exportadores de produtos primários e que haviam se beneficiado desse período de bonança, perderam tanto a capacidade de importar quanto de exportar. A previsão de queda no volume de comércio exterior desses países em 2018 está evidenciada nas previsões da CEPAL e do BID, que indicam 12,2 % (2017) contra 9,9% (2018).

A CEPAL estima um aumento em 9,7% nas exportações regionais e esclarece que este crescimento se deve mais a uma elevação dos preços de produtos (7,6%) do que no aumento do volume exportado (2,1%). A Comissão ressalta que este percentual de aumento de volume (2,1%) ainda é menos que a metade dos 4,6% previsto pela OMC para o conjunto dos países em desenvolvimento. No que se refere ao aumento, tanto a CEPAL quanto o BID apontam que a retração nas quantidades exportadas pela região foi resultante do baixo desempenho da América do Sul. A elevação dos preços do petróleo, minerais e metais foi o fator responsável pelo aumento de exportações estimado.

De acordo com ambas as instituições, a China apresentou o maior crescimento como destino das exportações dos países latino-americanos e já é o segundo fornecedor comercial, superado apenas pelos EUA que é o primeiro país de origem das importações da região. O BID informa que EUA e China são os principais responsáveis pelo aumento das exportações, respondendo por mais de 60%, enquanto a União Europeia e o comércio intrarregional tiveram tendência de baixa.

Logo de aniversário da CEPAL

No segundo capítulo do relatório, a CEPAL analisa os dados de exportação de minerais e metais da América Latina, esboçando preocupação com esta especialização em produtos de baixo valor agregado, que é estimulada pela China, que, por um lado, demanda matérias-primas tais como os minérios de ferro e de cobre, e, por outro, compete com a região no fornecimento de metais mais elaborados, como o cobre fundido, aço e alumínio. Uma luz no fim do túnel é apontada no fim deste capítulo com a sugestão de criação de um programa de agregação de valor ao lítio, produto abundante em alguns países da região e com demanda crescente, sobretudo na indústria automobilística.

O comércio eletrônico é abordado no final do documento como uma grande oportunidade para a América Latina dinamizar e diversificar exportações. A região aumentou o volume de importação online, mas, em contrapartida, não deslanchou nas exportações porque existem algumas deficiências a serem corrigidas: a criação de infraestrutura digital, incluindo internet de banda larga e tecnologias de comunicação; criação de marco jurídico para o comércio eletrônico internacional; aprimoramento da logística e do desembaraço aduaneiro; e sistemas de pagamento, inclusive redução dos impostos sobre tais operações financeiras internacionais. Aponta o relatório, na página 17, que as empresas que se utilizam do comércio eletrônico “tendem a exportar mais do que aquelas que não o fazem, vendem seus produtos e serviços a mais mercados, são mais diversificadas, sobrevivem durante mais tempo e se caracterizam por apresentar níveis elevados de produtividade e salários”.

A CEPAL alerta, no segundo capítulo, para os riscos da perpetuação do padrão histórico de exportação de produtos primários e recomenda a integração regional como solução para a diversificação da pauta exportadora, com vistas a uma futura exportação de produtos de maior valor agregado, isto é, intensivos em tecnologia e conhecimento. Esta ênfase está também presente no subtítulo do relatório da CEPAL: “As tensões comerciais exigem uma maior integração regional”. De igual forma, na página 18 do item Conclusões do seu relatório, o BID sugere que os países da América Latina e Caribe invistam na melhoria da competitividade comercial e na integração regional como receita para reduzir os riscos de mercado. 

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 SecretáriaExecutiva da CEPAL apresenta relatório na Cidade do México”(Fonte): https://www.cepal.org/sites/default/files/pr/images/lanzamiento_perspectivascomercio-2018_675paraweb.jpg?timestamp=1541005052

Imagem 2 Logo de aniversário da CEPAL” (Fonte): https://www.cepal.org/sites/default/files/logo_anniversary

AMÉRICA LATINAÁSIAECONOMIA INTERNACIONALNOTAS ANALÍTICAS

Equador recebe empréstimo de 900 milhões de dólares da China

O Governo do Equador anunciou no último dia 12 de dezembro, quarta-feira passada, a obtenção de um crédito de $ 900 milhões de dólares, junto à China, aproximadamente 3,53 bilhões de reais,conforme a cotação do dia 17 de dezembro de 2018. Por meio da conta oficial da Presidência no twitter, o Executivo informou que este empréstimo, obtido com a “taxa de juros mais baixa da história”,  foi o principal benefício econômico-financeiro da visita oficial ao país asiático, que faz parte de uma agenda de visitas que inclui também o Catar e a Espanha.

https://platform.twitter.com/widgets.js

Segundo matéria publicada, em 2013, no periódico equatoriano La Hora, o país já se encontrava em posição de dependência do financiamento chinês, que acumulava, de 2005 a 2011, um montante de 7,254 milhões de dólares(em torno de 28,41 milhões de reais, também de acordo com a cotação do dia 17de dezembro), mais de 45 vezes o valor recebido do Banco Mundial e quase o triplo do obtido junto ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) no mesmo período. Ainda segundo o La Hora, o Equador ocupava o posto de 4º maior tomador de empréstimo chinês no continente, superado por Venezuela, Argentina e Brasil.

Analistas criticavam a situação, na época, afirmando que: a) tratava-se de uma estratégia de disputa de espaço na região, por parte da China, em relação aos Estados Unidos; b) havia desvantagens para o Equador, que deixava de diversificar suas fontes de financiamento, em troca de uma relação assimétrica;c) os chineses tinham maior poder de decisão, o que resultava, dentre outras coisas, na reduzida contratação de empresas locais. 

O presidente Correa justificava que os empréstimos se davam a longo prazo, com a exigência de contrapartida em petróleo e não do que ele classificou de “sacrifícios horrendos” exigidos pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Para o analista e professor da Universidade de São Francisco de Quito, Pedro Romero, a preferência pela China era coerente com a diretriz correista de não depender das instituições de crédito multilaterais tradicionais.

Chegada do presidente Moreno à China

Os empréstimos contraídos na década passada dessa maneira tornaram-se mais difíceis de serem quitados, por conta da queda nos preços do petróleo, por isso a dívida do Equador com a China atinge hoje a cifra de $ 6,5 bilhões de dólares (em torno de 25,46 bilhões de reais, na mesma cotação), levando o atual Presidente, Lenín Moreno, a buscar solução para o problema, cogitando inclusive o financiamento por parte das instituições que Correa evitava.

De acordo com a agência de notícias Associated Press (AP), a Chancelaria equatoriana informou que a taxa de juros a ser aplicada pelo Banco de Desenvolvimento da China é de 6,5%em um período de 6 anos, com até 2 anos de carência. Moreno obteve ainda, com os chineses, um valor de $ 69,3 milhões de dólares para reconstrução e US$ 30 milhões, a título de assistência não reembolsável, respectivamente, próximos de 271,39 milhões de reais e 117,45 milhões de reais,na mesma cotação.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Assinatura do termo de empréstimo ChinaEquador”(Fonte Facebook da Presidência do Equador): https://scontent.fbsb8-1.fna.fbcdn.net/v/t1.0-9/48174604_2257828417563010_3223151760537288704_n.jpg?_nc_cat=101&_nc_ht=scontent.fbsb8-1.fna&oh=aae425f260911d770fce9ff354c913f7&oe=5C90F4DC

Imagem 2 Chegada do presidente Moreno à China”(Fonte Facebook da Presidência): https://scontent.fbsb8-2.fna.fbcdn.net/v/t1.0-9/48356368_2255302084482310_2683276497438900224_n.jpg?_nc_cat=107&_nc_ht=scontent.fbsb8-2.fna&oh=211ee6e033748f70c591c91835605d39&oe=5CA7EDC5

AMÉRICA LATINANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Colômbia é a 5ª marca país mais valorizada da América Latina

A Colômbia ocupa o 5º lugar na América Latina no ranking mundial de marcas país mais valorizadas, de acordo com o relatório Nation Brands 2017 da consultora Brand Finance.  A marca colombiana teve crescimento de 32%, em relação a 2016, e aparece na 40ª posição na classificação mundial de 100 países, com 4 nações latinas à frente: México, Brasil, Argentina e Chile.

A metodologia utilizada pela Brand Finance se assemelha à avaliação feita para marcas de empresas e considera 3 eixos: 1) Investimento em governança, marketing, gestão e desenvolvimento de pessoas; 2) Sociedade (corrupção, segurança, sistema jurídico, imagem, qualidade de vida e ética) e; 3) Bens e Serviços de governança, de marketing e de turismo. No relatório, os Estados Unidos detêm o 1º lugar, como marca mais valiosa por investimentos e resultado; Cingapura (27º lugar na classificação geral) aparece como a mais forte, especialmente pelos investimentos em capacitação de pessoas; e a Islândia (101º lugar geral) aponta como a de maior crescimento (83% em relação a 2016).

Marca Colômbia

Outra empresa, a Future Brand, apresenta estudo similar onde a Colômbia aparece na 10ª posição no relatório Country Brand Report 2017-2018 da América Latina. Conforme consta no documento “A FutureBrand levantou dados quantitativos e qualitativos de 2.500 formadores de opinião e de frequentes viajantes internacionais, a negócios ou a lazer, em 15 países”. O método empregado levanta percepções em duas dimensões: a) experiência com produtos “Made in país”, com viagens de turismo e com aspectos culturais e de patrimônio e b) propósito, relacionado ao sistema de valores, aptidão para os negócios e qualidade de vida.

A marca país se compõe de um conjunto de atributos, capaz de atrair turistas e investidores estrangeiros, e os países investem na divulgação com objetivo de dinamizar a economia e possibilitar o seu desenvolvimento. Um caso emblemático é dos Emirados Árabes Unidos (EAU), outrora conhecido apenas como um dos dez maiores produtores de petróleo e membro da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). O país passou a investir em obras de infraestrutura e promoção como destino turístico,  tendo como carro-chefe a cidade de Dubai. Há cerca de dez anos, Dubai já recebia a mesma quantidade de turistas que o Brasil (5 milhões anuais) e, em 2016, chegaram a 14,9 milhões de visitantes, mais que o dobro dos 6,6 milhões de turistas que visitaram terras brasileiras no mesmo ano. Seguindo o exemplo, o Qatar, outro pais membro da OPEP, vai sediar a Copa do Mundo de Futebol 2022, de olho nas oportunidades de investimento e alavancagem da indústria do turismo e da economia como um todo.

A análise do Country Brand Report 2017-2018 evidencia que a Colômbia apresenta razoável potencial para negócios e é reconhecida pelo seu patrimônio e cultura, o que gera um potencial de atração turística. A nota mais baixa é no quesito Segurança do item Qualidade de Vida e, na avaliação do Global Peace Index 2018, que mede o nível de segurança e de ausência de conflitos, a Colômbia aparece na 145ª posição, numa classificação de 163 países. Em que pese os esforços e êxitos do país, inclusive reconhecidos pela ONU, estará nas mãos de Ivan Duque, Presidente da República da Colômbia, empossado no último dia 7 de agosto de 2018, dar continuidade ao trabalho de melhoria das condições do país e, por conseguinte, da “Marca Colômbia”.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Colombianas” (FonteImagem do Facebook da Colombia Travel):

https://scontent.fssa17-1.fna.fbcdn.net/v/t1.0-9/35728608_10156589701856941_6937079426714697728_n.jpg?_nc_cat=0&oh=d78aa3464f1ad203dfc2cc63c0692d2e&oe=5C3ABDE5

Imagem 2 Marca Colômbia” (Fonte):

https://www.facebook.com/marcacolombia/photos/a.10150091644062002/10156632145907002/?type=3&theater

AMÉRICA LATINAECONOMIA INTERNACIONALNOTAS ANALÍTICAS

Peru descobre vasta reserva de lítio

Em julho de 2018, a direção da empresa Macusani Yellowcake anunciou a descoberta de 2,5 milhões de toneladas de lítio nos depósitos explorados pela mineradora na região de Puno, sul do Peru, próxima à fronteira com a Bolívia. O Governo peruano recebeu com entusiasmo a notícia e trabalha na elaboração do marco legal de exploração do metal.

Fronteira Peru-Bolívia

De acordo com a Revista Electricidad, do Chile, entre 2020 e 2025 terá início um boom na demanda mundial de lítio, com aumento de 60%. Este aumento está relacionado sobretudo ao setor de mobilidade, uma vez que estudos apontam para um futuro com predominância de veículos elétricos, os quais deverão utilizar baterias de hidróxido de lítio. Essa crescente valorização faz com que o metal já seja conhecido como “a nova gasolina” e também como o “petróleo branco”.

De olho neste mercado futuro, a Argentina e o Chile iniciaram cooperação visando a extração sustentável do mineral, sem causar danos ao meio ambiente, na região de fronteira dos dois países com a Bolívia, conhecida como “triângulo do lítio” e “Arábia Saudita do lítio”, por reunirem 60% das reservas mundiais conhecidas. O governo de Evo Morales, que por um tempo preferia que a exploração fosse feita pelo próprio Estado, terminou por reconhecer as limitações técnicas e optou por uma parceria com a Alemanha, mas com controle de 51% pela Bolívia e produção de baterias naquele país.

Até 2019, a Macusani Yellowcake concluirá estudos para determinar com precisão o volume das reservas peruanas e apresentará estudos de impacto ambiental. A mineração é conhecida por gerar poluição do solo, bem como poluição e redução do volume de água utilizada pelos habitantes do entorno. A descoberta do que pode vir a ser a maior mina de lítio do mundo, em um sítio pré-histórico e de população pobre, coloca o Governo do Peru diante de um desafio: garantir que a exploração possa gerar benefícios para a sociedade, de modo sustentável e com transparência. 

Os escândalos de corrupção que resultaram na renúncia do presidente Pedro Pablo Kuczynski (PPK), em março (2018), e de diversos membros do Poder Judiciário, em julho (2018), abalaram sobremaneira a confiança do povo peruano e caberá a Martin Vizcarra, atual Presidente do Peru, aproveitar este momento em que a taxa de aprovação da sua gestão experimentou em meados de agosto uma reversão no declínio, pela primeira vez desde sua posse, e resgatar a credibilidade do Governo.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Exploração de lítio em Puno, Peru” (Fonte):

https://portal.andina.pe/EDPfotografia3/Thumbnail/2018/07/16/000518533W.jpg

Imagem 2 Fronteira PeruBolívia” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Fronteira_Bol%C3%ADvia-Peru#/media/File:Lago_titicaca_001.png

AMÉRICA LATINANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Equador poderá se tornar Estado Associado da Aliança do Pacífico

A Aliança do Pacífico (AP) aceitou o pedido de vinculação do Equador como Estado Associado do grupo. O aceite foi formalizado por meio da Declaração de Puerto Vallarta, assinada pelos Presidentes dos países associados, em 24 de julho de 2018, no encerramento da XIII Cúpula da Aliança do Pacífico, na cidade mexicana que dá nome ao documento.

Membros associados e observadores da Aliança do Pacífico

A Aliança do Pacífico foi criada em junho de 2012, pelo Chile, Colômbia, México e Peru, para ser “um mecanismo de articulação política, econômica, de cooperação e integração que busca encontrar um espaço para impulsionar um maior crescimento e maior competitividade das quatro economias que a integram”. A estrutura de gestão consiste em um colegiado dos Presidentes das quatro Repúblicas, um Conselho de Ministros e a Presidência Pró-Tempore, no momento exercida pela Colômbia. Além destes quatro, conta nos cinco continentes com 55 Estados Observadores, dos quais, cinco estão em processo de análise para se tornarem Associados: Austrália, Canadá, Cingapura, Coreia do Sul e Nova Zelândia.

O Equador foi aceito como membro observador em maio de 2013, durante a gestão de Rafael Correa (2007-2017), entretanto, ele via com restrições a instituição. Em uma palestra na Universidade de Sorbonne, na França, em novembro de 2013, o mandatário argumentou que diferentemente dos arranjos como a Unasul, que buscavam uma real integração dos povos sul-americanos, a Aliança do Pacífico atendia interesses das grandes potências de fazer do continente apenas um grande mercado consumidor. Cerca de um ano depois do ingresso como observador, Correa descartou a possibilidade de vinculação do país como associado do Bloco e afirmou que estariam mais alinhados com a visão econômica do Mercosul, mesmo assim, com a entrada sujeita a um prévio estudo de custos versus benefícios.

O Equador compõe a Comunidade Andina (CAN), juntamente com três dos quatro membros da Aliança – Chile, Colômbia e Peru –, com os quais mantém relações  comerciais, inclusive realizam juntos rodadas de negócios desde 2012. Correa via a CAN com distinção, tanto que nunca desvinculou o país da Comunidade, embora rejeitasse o acesso à AP. Para o atual governo de Lenín Moreno este vínculo comercial pré-existente com três quartos dos integrantes da Aliança, juntamente com a existência de um antigo acordo básico bilateral com o México, justificam a maior aproximação, além de trazer a perspectiva de fortalecer a relação com os outros cinco países que pleiteiam se tornar igualmente associados. 

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 XIII Cúpula da Aliança do Pacífico no México” (Fonte):

https://alianzapacifico.net/cloudcomputing/iadb-org/serverhosted/alianzapacifico/multimedia/archivos/28708364347_004289165d_z.jpg

Imagem 2 Membros associados e observadores da Aliança do Pacífico” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Alian%C3%A7a_do_Pac%C3%ADfico#/media/File:Pacific_Alliance.svg

AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURA

Bolívia exerce protagonismo para impulsionar projeto do trem bioceânico

Nos dias 30 e 31 de julho de 2018, autoridades brasileiras e bolivianas estiveram reunidas em Corumbá (MS) para acertar detalhes do projeto de trem bioceânico. Reunião similar foi mantida com o Peru no início de julho para impulsionar as obras deste ambicioso plano de interconexão ferroviária sul-americano. Evo Morales, Presidente do Estado Plurinacional da Bolívia, está pessoalmente empenhado na efetivação do Corredor Ferroviário Bioceânico de Integração (CFBI).

Traçado do Corredor Ferroviário Bioceânico de Integração

A ideia da integração física na América do Sul vem sendo debatida desde os anos 90, pelo menos, e uma das primeiras tentativas de estruturar planos com essa finalidade foi a criação da Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IIRSA), no ano 2000, conduzida por um Comitê de Direção Executiva. Em 2011, a IIRSA foi incorporada à Unasul e passou a ser gerida pelo Conselho Sul-Americano de Infraestrutura e Planejamento (Cosiplan), criado em 2009 e formado por Ministros de Estado das nações membros do Bloco.

O termo Corredor Bioceânico tem sido utilizado para identificar diversas ideias de rodovias e de ferrovias que atravessam a região e unem os dois Oceanos, Atlântico e Pacífico. Uma empresa privada apresentou, em 2009, uma solução de linha férrea denominada Corredor Bioceânico Aconcágua que uniria os países do Cone Sul, mas a iniciativa não prosperou e tudo indica ter sido abandonada.  Para escolher o percurso rodoviário, dirigentes de empresas de transportes e logística do Brasil fizeram uma expedição do Mato Grosso ao litoral chileno, indo pela Bolívia e voltando por Argentina e Paraguai. Ao final, a rota definida pelo governo e pelos empresários brasileiros foi a que liga Campo Grande aos portos na região de Iquique e Antofagasta, no Chile, atravessando somente o Paraguai e a Argentina. Da capital sul-mato-grossense o corredor se conecta ao porto brasileiro de Santos por rodovia pré-existente.

O CFBI encurta distâncias

Para o trajeto ferroviário, a primeira opção, incentivada pela China, interligava apenas o Peru ao Brasil, contornando o território boliviano, sem adentrar no país. Evo Morales, com apoio do então Presidente peruano, Pedro Pablo Kuczysnki (PPK), conseguiu aprovar a rota atual, que perpassa cidades bolivianas, sobretudo com dois argumentos: 1) ao contrário do anterior, que era um arco de 5 mil km, ao custo de 50 bilhões de dólares, o trajeto que corta a Bolívia é uma “reta que liga dois pontos” sendo 25% mais curto e custo estimado em 14 bilhões de dólares; 2) a ferrovia em arco acarretaria, principalmente para o Brasil, maior gasto financeiro e dano ambiental para transpassar a selva amazônica. Além disso, esta rota é de grande interesse para a Bolívia, que, desde 2013, reivindica junto à Corte Internacional de Justiça uma saída para o mar pelo território chileno. 

Os 3.755 km do Corredor Ferroviário unem o Porto de Santos ao Porto de Ilo, no Peru, abrangendo Brasil, Bolívia e Peru, e o Governo de La Paz conseguiu convencer o Chile, o Paraguai e o Uruguai a realizarem estudos de viabilidade para interligar linhas férreas e hidrovias ao eixo principal. O projeto, originalmente chamado de Corredor Ferroviário Bioceânico Central (CFBC), passou então a ser denominado de Corredor Ferroviário Bioceânico de Integração (CFBI) pela nova perspectiva de inclusão. O Parlamento do Mercosul (Parlasul) manifestou apoio em novembro de 2017 e acenou com a  possibilidade de financiamento pelo Fundo de Convergência Estrutural do Mercosul (FOCEM). Por sua vez, o Cosiplan da Unasul, reunido em Buenos Aires, em dezembro de 2017, emitiu declaração especial de compromisso em consolidar o CFBI.

O representante boliviano nas reuniões operacionais é Milton Claros, Ministro de Obras Públicas, Serviços e Habitação que informou em junho (2018), em entrevista à Red Uno da Bolívia, que cerca de 90% da via está construída. Ele explicou que todo o trecho brasileiro até a fronteira já existia, embora necessite obras de reforço para suportar o trânsito de cargas mais pesadas. Portanto, dos 3.775 km o que falta construir de fato são 400 km na Bolívia e 340 km no Peru para consolidar o projeto que estima estar pronto em um horizonte de cinco anos. O Governo boliviano conseguiu atrair a atenção da Alemanha, Espanha, Reino Unido, Rússia e Suíça e de outros parceiros europeus, os quais tem interesse em participar das obras, seja oferecendo assistência técnica, financiamento ou parceria público-privada.

Hoje em dia, uma carga despachada no Porto de Santos para a China, pelo tradicional roteiro via Canal do Panamá, leva 67 dias, mas se for embarcada no Peru serão apenas 38 dias. Esse diferencial levou Evo Morales a afirmar enfaticamente que o trem bioceânico é o “Canal do Panamá do Século XXI” e utilizá-lo como ferramenta estratégica para agregar os países vizinhos em prol de um objetivo integracionista. A Unasul sofre com o afastamento de alguns Estados-partes, precedida por forte dissensão que impediu até mesmo o consenso para indicar um Secretário-Geral, posto que permanece vago até o momento (Julho/2018).

Ao assumir a Presidência Pró-Tempore (PPT) da União de Nações Sul-Americanas (Unasul), em abril (2018), o mandatário boliviano imprimiu ainda mais energia para deslanchar o CFBI. A vacância do cargo de Secretário-Geral da instituição tem deixado mais espaço para a sua atuação. A estratégia de Morales vem obtendo êxito em reunir pelo menos 7 dos 12 Estados-parte em torno de uma proposta de interesse comum que beneficia a todos: 1) o trem bioceânico abre uma “porta” ao Oceano Pacífico para os países banhados pelo Atlântico (Argentina, Brasil e Uruguai); 2) propicia uma saída ao Atlântico para as nações do Pacífico (Chile e Peru); 3) Bolívia e Paraguai, os únicos sem litoral marítimo, ganham saída para 2 oceanos. Para se ter uma ideia do que isso representa, ao exportar produtos para a costa leste da América do Norte, para o Caribe, a Europa e a África a partir de um porto no Atlântico encurtam-se distâncias e reduzem-se custos de transporte. O embarque desde o Pacífico traz os mesmos benefícios se o destino for a costa oeste americana, Ásia e Oceania. A existência do corredor ferroviário oferece a todos a possibilidade de escolher o oceano de embarque de acordo com a sua conveniência.

Reuniões têm sido realizadas sistematicamente com os envolvidos para ajustar questões relativas à facilitação dos trâmites aduaneiros, regras de imigração e a implantação de fluxo de trem de passageiros na mesma linha, visando impulsionar o turismo. Evo Morales tem enfatizado que deseja trens de alta velocidade que desenvolvam 300 a 350 km por hora. Se conseguir este objetivo, o CFBI, além de se firmar como via principal bioceânica ferroviária, poderá se tornar mais rápido que o corredor rodoviário. Dessa maneira, além de aumentar as chances de reintegrar a Unasul, o Presidente boliviano reduz a dependência do seu país em relação aos portos do Chile e, qualquer que seja o resultado da contenda com aquele país no âmbito da Corte Internacional de Justiça, ele já garante saída rápida por dois oceanos para escoamento dos produtos “Made in Bolívia”.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Corredor Ferroviário Bioceânico de Integração” (Fonte):

https://scontent.fssa17-1.fna.fbcdn.net/v/t1.0-9/25507639_1766421566711053_2525029477731225850_n.jpg?_nc_cat=0&oh=b412c9e06c4f3a55334082f7c35159e7&oe=5BD922C3

Imagem 2 Traçado do Corredor Ferroviário Bioceânico de Integração” (Fonte):

https://3.bp.blogspot.com/-8fojW7znMug/WxGxL11f5tI/AAAAAAAAHj4/__2rq6aHxfsKuIiHt6ryQRCJtf6tNT8HQCEwYBhgL/s400/corredor.png

Imagem 3 O CFBI encurta distâncias” (Fonte):

https://scontent.fssa17-1.fna.fbcdn.net/v/t1.0-9/37872821_2026947833991757_2786814110107435008_n.jpg?_nc_cat=0&oh=a41f8339d6d9fb30f42b113d14ec6c21&oe=5BD1A101