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Costa Rica elege a primeira Vice-Presidente negra da América Latina

Epsy Alejandra Campbell Barr tornou-se a primeira mulher afrodescendente a ocupar o cargo de Vice-Presidente de uma nação latino-americana, ao ser eleita no domingo, 1o de abril, na chapa do candidato Carlos Alvarado, pelo Partido da Ação Cidadã (PAC).

Campbell é economista, Mestre em Cooperação Internacional para o Desenvolvimento, Mestre em Técnicas de Gestão e Decisão, foi duas vezes Deputada (2002-2006 e 2014-2018) e Presidente do PAC de 2005 a 2009. É conhecida por sua destacada atuação na defesa dos direitos das minorias, inclusive como palestrante e escritora.

A República da Costa Rica, localizada na América Central, tem quase 5 milhões de habitantes e adota o sistema presidencialista, com Parlamento unicameral representado pela Assembleia Legislativa, integrada por 57 deputados. As eleições presidenciais deste ano foram marcadas pela acirrada disputa entre Fabrício Alvarado Muñoz, do Partido Restauração Nacional (PRN), e Carlos Alvarado Quesada, do partido governista, o PAC. O candidato do PRN, que defendia uma pauta considerada mais conservadora,  liderou no primeiro turno por uma diferença de 3 pontos percentuais. No segundo turno, o candidato do governo venceu as eleições com mais de 60% dos votos.

Localização da Costa Rica no Mapa Mundi

A participação das mulheres na política costa-riquenha tem como ícones: Thelma Curling, primeira deputada negra da Costa Rica (1982-1986); Victória Garrón, pioneira na ocupação do cargo de Vice-Presidente (1986-1990); e Laura Chichilla, a primeira Presidente feminina de uma nação da América Central (2010-2014). Em Julho de 2017, no Dia Internacional das Mulheres Afrodescendentes da América Latina, do Caribe e da Diáspora, Epsy Campbell pronunciou-se destacando  os avanços obtidos e conclamando as mulheres afrodescendentes a participar mais ativamente da política.

No dia da eleição, em entrevista ao jornal CRHoy.com, quando perguntada sobre este marco que representa a sua eleição, ela declarou que “É uma responsabilidade não só para representar os afrodescendentes, mas para representar todas as mulheres e todos os homens deste país. Um país onde pessoas como eu tem as mesmas oportunidades, por isso quero seguir trabalhando”*, e finalizou dizendo: “creio que seria uma oportunidade de seguir aprofundando a democracia costarriquense justamente no quatriênio em que celebraremos o bicentenário da independência”* (Tradução Livre).   

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Nota:

* No original: “Es una responsabilidad no solo para representar a los y las afrodescendientes sino para representar a todas las mujeres y a todos los hombres de este país. Un país en donde personas como yo tenemos las mismas oportunidades, por eso quiero seguir trabajando (…) creo que sería una oportunidad de seguir profundizando la democracia costarricense justamente en el cuatrienio donde celebraremos el bicentenario de la independencia”,

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Epsy Campbell Barr” (Fonte Foto da sua página no Facebook):

https://www.facebook.com/EpsyCampbellBarr/photos/a.447613314451.240592.45370099451/10156229470679452/?type=1&theater

Imagem 2 Localização da Costa Rica no Mapa Mundi” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/8/89/CRI_orthographic.svg/550px-CRI_orthographic.svg.png

AMÉRICA LATINANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Projeto turístico do Equador é destaque em publicação conjunta OEA/OMT

O Projeto Comunitário Karanki Magdalena, do Equador, é um dos 14 estudos de caso apresentados na publicação intitulada “O Turismo e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: Boas Práticas nas Américas” da Organização dos Estados Americanos (OEA) e  Organização Mundial do Turismo (OMT). 

A primeira publicação conjunta das duas organizações multilaterais foi lançada por ocasião do XXIV Congresso Interamericano de Ministros e Altas Autoridades de Turismo, realizado de 21 a 22 de março passado, em Georgetown, capital da Guiana. O evento teve como tema central “Conectando as Américas por meio do Turismo Sustentável”.

No prefácio do livro, o Secretário Geral da OMT, Zurab Pololikashvili, ressalta que as Américas receberam cerca de 207 milhões de turistas internacionais e que os governos perceberam o potencial do turismo para promover a economia e o desenvolvimento sustentável. Por sua vez, Kim Osborne, Secretária Executiva de Desenvolvimento Integral da OEA, destacou que viagens e turismo respondem por 8,5% do PIB e por 10% dos empregos nas Américas. 

O desenvolvimento deste setor com enfoque multisetorial é apresentado por meio do estudo de práticas exitosas em 14 países do continente americano, a saber: Chile, Colômbia, Equador, Estados Unidos, Guatemala, Guiana, Honduras, Jamaica, México, Panamá, Peru e São Cristóvão e Névis. As iniciativas demonstram a contribuição do turismo para o desenvolvimento sustentável em consonância com os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) privilegiando a inclusão e a sustentabilidade, sem descuidar da proteção ao meio ambiente e ao patrimônio cultural.

Capa do livro da OMT/OEA

O case equatoriano apresentado na página 30 do livro, trata-se de um projeto turístico comunitário, por meio do qual o visitante se hospeda nas casas dos nativos e pode participar das atividades de colheita, artesanatos, passeios a cavalo e de bicicleta no coração dos Andes. O projeto foi reconhecido como uma das melhores experiências de viagem no livro The World’s Best Travel Experiences da National Geographic.

A comunidade Karanki Magdalena, que fica a 110 km da capital Quito, foi beneficiada com reforma das casas e treinamentos de hospitalidade, culinária, higiene, saúde, agricultura orgânica, gestão de custos e inglês. O projeto, realizado por uma operadora de turismo, permitiu ainda a abertura de um posto médico, tratamento da água e da coleta de lixo. O número de turistas aumentou significativamente e os visitantes elogiam a experiência intercultural de coexistência e aprendizado. Tudo isso proporcionou melhoria da qualidade de vida e da renda, com impacto positivo na economia local e na sustentabilidade ambiental.

Não é a primeira vez que o Equador tem esse tipo de iniciativa na área de turismo, com benefício comunitário. Em 2002 se concluiu em Guayaquil, maior cidade do país, um conjunto de ações que transformou o bairro de Cerro Santa Ana, antes perigoso e marginalizado, em um local de atração turística. O projeto obteve reconhecimento da Organização Internacional do Trabalho (OIT) como solução inovadora de geração de receitas para a comunidade. Ao percorrer as ruas da localidade, o visitante pode desfrutar da experiência de observar a vida cotidiana dos moradores e perceber a geração de renda nos pequenos comércios instalados em lojinhas e janelas.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Comunidade Karanki Magdalena” (Fonte):

https://www.gogalapagos.com/images/karanki/karanki-magdalena1.jpg

Imagem 2 Capa do livro da OMT/OEA” (Fonte):

https://www.e-unwto.org/doi/pdf/10.18111/9789284419685

AMÉRICA LATINAECONOMIA INTERNACIONALNOTAS ANALÍTICAS

Venezuela corta três zeros da moeda

O presidente Nicolás Maduro, da República Bolivariana da Venezuela, anunciou na semana passada o corte de três zeros na moeda nacional, como parte da chamada reconversão monetária.

A moeda atual, que se chama bolívar, dará lugar ao bolívar soberano, a partir de 4 de junho, informou o mandatário, enfatizando que “Não vamos dolarizar nossa economia, vamos defender nosso Bolívar”. A dolarização da economia venezuelana é defendida por Henri Falcon, principal concorrente de Maduro nas eleições presidenciais marcadas para 20 de maio próximo.

A reforma monetária com corte de zeros não é uma novidade no mundo, Brasil e Argentina já lançaram mão da medida nos anos 90 e o Governo da Colômbia está cogitando fazer o mesmo para 2019. Na Venezuela, em 2007, Hugo Chávez implantou reforma similar e, na ocasião, o bolívar foi substituído pelo bolívar fuerte.

Maduro apresenta o bolívar soberano

O governo venezuelano justifica que a mudança tem cinco objetivos: simplificar cálculos para facilitar as transações econômicas e comerciais; aumentar a disponibilidade de moeda em espécie na economia; facilitar os sistemas contábeis de empresas públicas e privadas; evitar o contrabando de moeda nacional, garantindo o desenvolvimento da economia doméstica; permitir a solvência da economia no Plano da Pátria 2025.

Correntes contrárias à reconversão argumentam que se trata de uma “maquiagem” que não ataca as causas da hiperinflação, a qual atingiu mais de 6.000%, segundo estimativas do Congresso Nacional venezuelano, de maioria oposicionista. Colocam em dúvida a capacidade de logística do governo para emissão e distribuição da nova moeda no prazo estabelecido. Alegam ainda que a pura e simples conversão dos salários não otimizará o poder de compra e apontam um problema bastante peculiar à realidade do país: como os preços de  passagens de metrô e gasolina são muito baixos, a  menor  unidade do bolívar soberano, que é a moeda de 50 centavos, compraria 1.250  bilhetes e não haveria troco para quem enchesse um tanque de 50 litros, que custaria 30 centavos.

Críticos moderados acreditam na validade da reconversão, mas alertam para a necessidade de uma política fiscal, uma política monetária e de uma boa estratégia de comunicação junto à população.

A cédula de maior valor atualmente, a de 100.000 bolívares, suficiente apenas para comprar um cafezinho, será substituída pela de 100 bolívares soberanos. O novo cone monetário – conjunto de notas e moedas de um país – mantém o padrão de estampa com faces de personagens ilustres e animais ameaçados de extinção. O bolívar soberano  entrará em vigor logo depois das eleições e o Presidente do Banco Central da Venezuela informou que  haverá amplo debate e campanhas de esclarecimento informativas, inclusive já existe um site denominado bolivarsoberano.com.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Maduro apresenta o bolívar soberano” (Fonte):

http://www.presidencia.gob.ve/Site/Web/Principal/imagenes/adjuntos/Web/2018/03/2018-03-22_billetes_/Aimg-9483_3.png

Imagem 2 Site bolivarsoberano.com” (Fonte):

http://bolivarsoberano.com/billete-de-2-bss/

AMÉRICA LATINAECONOMIA INTERNACIONALEUROPANOTAS ANALÍTICAS

Venezuela busca ampliar voos para a Europa

Na segunda quinzena de março, autoridades do Aeroporto Internacional Simon Bolívar da Venezuela se reuniram com representantes da empresa aérea espanhola Plus Ultra, para firmarem acordo e acertarem detalhes para o início de voos regulares da Europa para Caracas. A ação faz parte da diretriz de ampliação de conectividade aérea do Ministério dos Transportes  venezuelano, que está também alinhada com a estratégia do Ministério do Turismo, de utilizar o turismo como motor de desenvolvimento daquele país.

Por ocasião da 25ª Exposição Internacional de Viajes e Turismo de Moscou (MITT 2018, na sigla em inglês), que reuniu 23 mil profissionais da Rússia e de mais de 100 países, de 13 a 14 de março último, a Venezuela se fez presente com um stand e o seu Vice-Ministro de Turismo Internacional firmou acordo de cooperação com autoridades da Abecásia para promoção dos dois países como destino turístico.

Ao longo do ano de 2017, diversas empresas aéreas desativaram suas operações na Venezuela, preocupadas com a falta de segurança, a instabilidade política e a retenção de fundos devidos às companhias. A Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA, em inglês), que representa cerca de 275 empresas e 83% do tráfego aéreo internacional, manifestou-se, em meados de 2017, contrária à negativa do Governo de Caracas, de repatriar mais de 3,8 bilhões de dólares* de fundos das empresas, insistindo que “respeitem os padrões globais, para assegurar a competitividade e sustentabilidade do transporte aéreo na Venezuela”.

Banner no site da Plus Ultra

Em matéria publicada em janeiro de 2018, o jornal online australiano news.com.au, tece duras críticas ao país sul-americano quanto ao que chamou de “plano audacioso para sair do caos econômico” e aponta problemas diversos como:  a insegurança causada pela violência urbana; a escassez de voos destinados ao país; flutuação dos preços, em razão da instabilidade da moeda; a precária infraestrutura dos hotéis, devido às dificuldades de manutenção e roubos de equipamentos; dentre outros.  Ainda segundo o news.com.au, o principal obstáculo é que, por essas razões, ninguém quer visitar a Venezuela.

Não obstante as posições contrárias, o governo venezuelano dá continuidade ao plano e a página principal do site da Plus Ultra já oferece reserva de voos ida e volta entre as capitais espanhola e venezuelana. Mais abaixo, na mesma página, um banner anuncia que a empresa aterrissou na Venezuela e que a rota Madri-Caracas será inaugurada em 22 de maio de 2018. Além disso, os dirigentes do Instituto Aeroporto Internacional de Maiquetía** (IAM) informam que estão avaliando com a Turkish Airlines a ampliação da frequência de voos Istambul-Caracas.

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Nota:

* Aproximadamente, 37,95 bilhões de bolívares venezuelanos, ou 12,44 bilhões de reais, nas cotações de 22 de março de 2018.

** Município limítrofe a Caracas, em cujo território está localizado o Aeroporto Internacional Simón Bolívar também conhecido como Aeroporto de Maiquetía.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Aeroporto Internacional Simón Bolívar” (Fonte):

http://www.aeropuerto-maiquetia.com.ve/web/img/galeria/img001.jpg

Imagem 2 Banner no site da Plus Ultra” (Fonte):

https://plusultra.com/

AMÉRICA LATINANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Equador: após rompimento com Moreno, Rafael Correa e aliados criam grupo opositor ao governo

No último dia 23 de fevereiro, seguidores do ex-presidente Rafael Correa, do Equador, decidiram criar um grupo político de oposição ao governo, que se chamará Movimiento de la Revolución Alfarista.

A decisão foi tomada após o rompimento do ex-mandatário com o atual presidente Lenín Moreno e uma disputa pela direção do Alianza País, que resultou na saída de Correa e aliados do partido. Os correistas alegam que o governo de Moreno é “contrarrevolucionário e liberal” e não mais se coaduna com os ideais do grupo liderado por Correa, que eles defendem como sendo democráticos, inclusivos e revolucionários.

Logo do partido Alianza País

Fundado em 2006, por Rafael Correa, o Alianza País é um partido socialista que em 2011 congregava em torno de 1,5 milhão de afiliados, e pelo qual Correa se elegeu sucessivamente Presidente do Equador, em 2007, 2009 e 2013.  Nas eleições de 2017 o partido indicou Lenin Moreno como candidato, que fora vice-presidente de Correa no período 2007-2013.

Ele tomou posse como Presidente em 24 de maio de 2017, e a relação com Correa começou a se deteriorar a partir da abertura de diálogo com setores que eram antes antagonizados pelo seu antecessor. Poucos meses depois, o vice-presidente Jorge Glas, aliado de Correa e também seu vice de 2013 a 2017, foi afastado e preso preventivamente, em razão de acusação de crime de corrupção passiva, envolvendo a empresa brasileira Odebrecht e, por fim, condenado a 6 anos de prisão.

Rafael Correa, que estava na Bélgica desde que deixou a Presidência, voltou ao Equador, em novembro do ano passado (2017), para participar de uma convenção do Alianza País e, na ocasião, declarou seu desejo de expulsar Moreno do partido. Em entrevista concedida, em janeiro último, ao periódico Página 12,  da Argentina, o ex-Mandatário acusa Moreno e seu grupo de terem se aliado à direita e traído seus antigos companheiros, e questiona inclusive a prisão de Glas.

A mais recente querela entre o ex-Presidente e o atual Presidente se deu em 5 de fevereiro, quando foi feita uma consulta popular, composta de 7 perguntas que promoviam mudanças no legado deixado por Correa.  Os correistas fizeram campanha pelo não, mas ao final venceu o sim, inclusive para o fim da reeleição indefinida que permitiria uma nova candidatura de Rafael Correa.

Ele e seus seguidores trabalham agora com a perspectiva de recolher 175 mil assinaturas, como requer a legislação, para requerer o registro do partido político que pretende fazer oposição ao governo.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Assembleia de criação do Movimiento de la Revolución Alfarista” (Fonte):

https://pbs.twimg.com/media/DWvjamKX0AUnpLy.jpg:large

Imagem 2 Logo do partido Alianza País” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Alianza_Pa%C3%ADs#/media/File:Alianza_PAIS_02.svg

                                                                             

AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURA

Diversificação do parque Industrial e da receita governamental: os desafios bolivianos para manter desenvolvimento

O Estado Plurinacional da Bolívia tem se destacado como o país sul-americano que mais cresce no continente, com média de 5% anuais há mais de dez anos, fenômeno que tem sido chamado de “milagre econômico boliviano”.

As projeções da Comissão Econômica para América Latina e o Caribe (Cepal) para 2017, ainda não confirmadas, estimaram um crescimento da economia boliviana da ordem de 4,3%, uma pequena queda, mas, ainda assim, o maior índice do continente. Para 2018, o Jornal de Negócios apresenta, com base em dados do FMI, um infográfico no qual a Bolívia aparece com o maior índice de expectativa de crescimento da América do Sul. O desafio boliviano é manter este ritmo de crescimento, fomentando a expansão da indústria nacional de modo a reduzir a dependência externa e alcançar um patamar de desenvolvimento endógeno e sustentável. 

Evolução do PIB da Bolívia

O país vem logrando êxito por meio de uma política sustentada por três pilares: a nacionalização de hidrocarbonetos como gás e petróleo; investimento público e políticas sociais; e a estabilidade política e social da longeva gestão de Evo Morales. A estatização de empresas e a renegociação de contratos permitiu ao Estado ampliar as receitas com hidrocarbonetos, alavancadas com a exportação de gás para o Brasil e a Argentina. Os investimentos públicos, por sua vez, foram custeados com este extraordinário aumento de receitas que possibilitou a geração de uma reserva financeira capaz de sustentar também os programas sociais. Dentre os 14 anos de crescimento econômico, observa-se que Evo Morales esteve como chefe do executivo nos últimos onze anos, o que certamente contribuiu para a continuidade da política de Estado adotada. 

Em que pese o longo período de bonança, o governo não fez o pagamento, por dois anos consecutivos, da segunda parcela do Aguinaldo, uma espécie de 13º salário pago em junho e dezembro na Bolívia.  As autoridades econômicas bolivianas atribuem à crise brasileira, que fez reduzir a demanda, a indisponibilidade de recursos para honrar tal pagamento.  Acreditam, entretanto, numa melhoria em 2018, com base na expectativa de crescimento da demanda externa, de importadores como o Brasil, Estados Unidos, China e países da Europa.  

Os críticos veem com reservas a manutenção do crescimento da Bolívia, que denominam jaguar sul-americano, numa cética alusão ao fenômeno dos tigres asiáticos. Destacam que, a despeito das altas taxas de crescimento, o país segue sendo o mais pobre do continente e questionam se o aumento da dívida pública acumulada e o esgotamento das reservas não causarão uma estagnação no futuro.

A economia boliviana está baseada no rentismo, no caso, a receita advinda das exportações de petróleo e gás que sustenta os investimentos públicos e a importação de produtos, inclusive os de primeira necessidade. Os riscos, para a diversificação da indústria, em países com economia rentista altamente dependente do petróleo, já haviam sido apontados por Celso Furtado em duas análises sobre a Venezuela, sendo a primeira em 1957. Nas décadas seguintes, o perigo de desindustrialização, em país desenvolvido, foi objeto de análise aplicada à Holanda, que iria dar origem ao termo “doença holandesa” (Dutch Disease).  

A exemplo da economia venezuelana, o perigo do rentismo para a Bolívia reside na aposta em fonte única de receitas, ou seja, a indústria do petróleo, de modo que se desestimule o desenvolvimento de outros setores da indústria nacional. Uma das consequências é a crise de abastecimento, decorrentes de quedas nos preços do petróleo e gás que comprometam o equilíbrio das contas públicas e a capacidade de importação. 

Em recente decisão da justiça boliviana, Evo Morales adquiriu o direito de tentar nova reeleição em 2019 e a possibilidade de continuar na gestão, no período de 2020 a 2025. Desde já e para os próximos anos, seja com Evo Morales ou outro Presidente, o desafio da Bolívia, para não seguir o caminho da Venezuela, é utilizar parte das reservas obtidas com o rentismo e aplicá-la no fomento aos demais segmentos da indústria nacional. Dessa forma, pode-se diversificar a fonte de receitas e reduzir a dependência externa para o abastecimento das necessidades de consumo interno. 

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Fontes das Imagens:

Imagem 1O Presidente Evo Morales discursa nas Jornadas Europeias de Desenvolvimento” (Fonte):

https://www.facebook.com/MinPresidencia/photos/a.223952224648280.1073741828.221347191575450/446888029021364/?type=3&theater

Imagem 2Evolução do PIB da Bolívia” (Fonte):

https://www.ine.gob.bo/