EUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Resultados eleitorais e política externa na Ucrânia

Após o segundo turno das eleições presidenciais na Ucrânia, que ocorreu no dia 21 de abril de 2019, a expectativa era de que haveria uma mudança na política externa do país, especialmente uma aproximação com a Rússia, acusada de envolvimento na Guerra do Donbass. Mas, a população ucraniana, assolada por uma crise, não tinha abandonado, necessariamente, seu desejo de integração à União Europeia, nem o lema de Poroshenko, “Exército, Fé e Língua”. A rejeição à figura pessoal do ex-Presidente não significou um total abandono de princípios que guiaram esses eleitores e cidadãos até o momento.

A razão possível da derrota de Poroshenko estava na pobreza no país, na identificação do aumento do custo de vida e da corrupção e não por sua política externa, assim como casos de corrupção que estouraram em seu governo, sobretudo os ligados ao setor de Defesa. Mas, apoiadores do ex-presidente Poroshenko acreditavam que sua possível derrota significaria uma mudança radical na estratégia geopolítica da Ucrânia, o que não ocorreu. Até o momento, a vitória de Zelenski não rompeu com essa política externa. Uma prova disso é que a grande maioria, especialmente nos Oblasts do Sul e do Leste, que concentram os falantes de idioma russo, continuaram apoiando os esforços da Ucrânia para se afastar da Rússia e conquistar uma maior integração na União Europeia.

Conforme dados pesquisados, candidatos abertamente pró-russos, como Yuriy Boyko e Oleksandr Vilkul obtiveram, juntos, apenas 15,8% de todos os votos no primeiro turno, o que significou apenas 3 milhões de votos. Outros, com posições claramente anti-russas (Poroshenko, Hrytsenko, Tymoshenko etc.) receberam nada menos que 51% dos eleitores, ou seja, 9,5 milhões de votos. Boyko e Vilkul foram vencedores apenas em Donetsk, Lugansk, que são áreas conflagradas, e Kharkov. Qualquer que fosse o candidato, Zelenski ou Poroshenko, não poderia adotar uma postura pró-russa e, por mais diversificado que sejam as visões de política externa dos eleitores do candidato vitorioso, Zelenski, o máximo que se poderia chegar sem comprometer a campanha é o que se chegou a fazer: propor um processo de pacificação na região de Donbass. Antes do primeiro turno das eleições, 53,3% dos seus eleitores apoiaram a integração da Ucrânia com a União Europeia, enquanto 45,4% apoiaram a adesão da Ucrânia à OTAN e 32,6%, não.

É importante entender que as eleições não foram um reflexo étnico. Segundo o Instituto Internacional de Sociologia de Kiev (KMIS)antes do segundo turno das eleições presidenciais, 44% dos eleitores eram ucranianos de língua ucraniana, 23,8% eram bilíngues e 28,2% falavam o idioma russo. Ou seja, a maioria que votou e elegeu Zelenski apoiava sua plataforma de diplomacia e diálogo com um país supostamente agressor, a Rússia, e falava fluentemente o ucraniano, ou seja, não era russófila. Isto, por si só, revela um potencial de união entre os diversos grupos, que foi bem explorado pela equipe de campanha do atual Presidente, e dentre os principais temas dos eleitores estava a Segurança Nacional e a Paz no Donbass.

Se, por um lado, o Presidente se elegeu propondo diálogo e paz, isto não significa, necessariamente, uma mudança radical. O que difere são os métodos de se atingir a paz, mas não os princípios em que se baseia a maioria da população. Como Zelenski precisa de um Parlamento com maioria para seu apoio, a política externa não pode se posicionar como aliada da Rússia e sim se guiar pelo que a maioria da população do país se orientava antes das eleições: as forças nacionalistas e anti-russas.

Mapa do resultado do segundo turno das eleições presidenciais na Ucrânia

geografia do voto na Ucrânia é clara, os partidos pró-russos teriam recebido 73,7% no Donbass (leste do país), controlados pela Ucrânia, contra 6,5% dos partidos anti-russos; enquanto que, no Oeste, os partidos pró-russos mal alcançaram os 4% de apoio. Pelo menos 50% do país votou em uma orientação pacifista e pró-diplomática da plataforma de Zelenski (exceto o Donbass). Foram 55,4% no Leste, 66,7% no Sul, 87,6% no Centro e 89,6% no Oeste. Na vaga hipótese de que Zelenski optasse por se aliar aos partidos pró-russos, sua situação seria de crescente oposição no Oeste, mas também no Centro do país.

Uma política interna que aproveite estes dados para costurar alianças entre os partidos poderá unir a Ucrânia, um exemplo está no Sul, que, sem grande apoio de outras regiões, apoiou uma pauta comum nas eleições. Houve uma confluência de interesses diversos contra os escândalos de corrupção e a pauperização da economia. À oposição, por sua vez, resta torcer por um Parlamento fragmentado e um Presidente enfraquecido. Os partidos pró-russos sabem que suas chances estão diminuindo e isto pode torná-los mais imprudentes na arena política. Em suma, Vladimir Zelenski tem toda uma conjuntura a seu favor e não pode desperdiçá-la, nem ignorar os pontos comuns de seus eleitores.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Manifestação próUnião Europeia na Ucrânia” (Fonte): https://torange.biz/pt/protests-ukraine-27787

Imagem 2 Mapa do resultado do segundo turno das eleições presidenciais na Ucrânia” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:%D0%A0%D0%B5%D0%B7%D1%83%D0%BB%D1%8C%D1%82%D0%B0%D1%82%D0%B8_%D0%92%D0%B8%D0%B1%D0%BE%D1%80%D1%96%D0%B2_%D0%9F%D1%80%D0%B5%D0%B7%D0%B8%D0%B4%D0%B5%D0%BD%D1%82%D0%B0_%D0%A3%D0%BA%D1%80%D0%B0%D1%97%D0%BD%D0%B8_2019_%D0%B7%D0%B0_%D0%BE%D0%BA%D1%80%D1%83%D0%B3%D0%B0%D0%BC%D0%B8_(%D0%B4%D1%80%D1%83%D0%B3%D0%B8%D0%B9_%D1%82%D1%83%D1%80).svg

ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

A Disputa pelo Gás no Mar Negro

As disputas pelo controle do gás no Mar Negro remetem ao comércio mútuo entre Rússia e Ucrânia em 2005, quando Moscou alterou a política de preços do combustível. O contrato entre os dois países era refeito anualmente, mas, a partir de 2004, a Rússia quis adotar valores de mercado que elevavam o custo de transporte em até cinco vezes, o que a Ucrânia não aceitou.

Após o fornecimento ser interrompido em 1º de janeiro de 2009, a remessa para a Europa continuou, mas com a perda de pressão nos dutos em países da Europa Oriental. Como a rede de gasodutos atravessa o território ucraniano, a suspeita de desvio recaiu, obviamente, sobre Kiev. Vladimir Putin, Primeiro-Ministro à época, ordenou que a Gazprom, fornecedora do gás russo, reduzisse a distribuição na quantidade do que, supostamente, foi desviado pela Ucrânia. No dia 7 de janeiro de 2009, a crise se agravou e a interrupção se estendeu, por consequência, à Bulgária, Eslováquia e Moldávia.

O fornecimento de gás foi finalmente restabelecido ainda em janeiro do mesmo ano, após a retomada de negociações, nas quais a ex-primeira-ministra Yulia Tymoshenko teve papel fundamental ao lado de Vladimir Putin. Ao final das contas, oprejuízo econômico foi para ambos os países. A falta de gás levou ao fechamento, ainda que temporário, de fábricas químicas e siderúrgicas. Foram perdidos 100 bilhões de dólares devido à interrupção da distribuição de combustível para a Europa.

Em parte, a eleição que levou Vladimir Zelenski ao poder retratou um desejo de retorno à época do gás barato. Mas, como a História já mostrou, esse baixo custo tem um preço político e, consequentemente, econômico, que, por sua vez, é enorme: a dependência energética da Rússia. Observadores acreditam que na primeira crise que irromper novamente entre os dois países as habitações poderão ficar sem energia e a população vitimada pela doença, especialmente os idosos, além da perda na produção industrial.

Custos indiretos também devem ser computados, como quando empresas intermediárias privadas foram autorizadas pelo governo a comprar gás da Gazprom e vendê-lo para distribuidores de energia ucranianos, e o governo russo insistiu em garantias de empréstimos à Ucrânia. Mas, quando algumas dessas empresas faliram, o erário arcou com os prejuízos, tendo que cortar automaticamente o orçamento para escolas, saúde pública, infraestrutura viária etc.. Portanto, o gás pode se manter barato durante algum tempo, mas, ao menor sinal de crise o consumidor ucraniano tende a ser sacrificado.

Como consequência das manifestações de 2014, que levaram à fuga do Presidente pró-russo da Ucrânia, Viktor Yanukovych, o país procurou uma maior diversificação na produção de gás natural, o que não ocorreu, no entanto, com outro importante combustível. O país não investiu o suficiente no refino de petróleo e a deterioração do setor levou a uma maior dependência da Rússia.

Essa expansão russa não vem desacompanhada da proteção que requer. Seja o Nord Stream 2, no Mar Báltico, ou o Turk Stream, no Mar Negro, tais gasodutos servem como justificativa para o incremento da presença militar em suas águas e na costa. Conforme apontam especialistas, o objetivo é duplo:  tanto com o comércio com a Alemanha, a Turquia ou a Bulgária, mas, também, com a Rússia buscando neutralizar a ação americana e dos países bálticos, Polônia e Ucrânia, com o bônus de ainda dividir interesses de membros da OTAN.

A Rússia é acusada de extrair mais de 3,5 bilhões de metros cúbicos de gás ilegalmente do Campo de Odessa. Alega-se que a zona econômica pertenceria à Ucrânia e que a perfuração de onze poços na região foi ilegal, e teriam sido tomados os ativos da empresa de exploração de gás ucraniana na região, a Chornomornaftogaz (uma subsidiária da Naftogaz, na exploração de gás). Neste contexto é que se compreende a abordagem de embarcações ucranianas no Mar de Azov, em novembro de 2018, quando forças russas usaram poder de fogo para neutralizá-las e capturaram 23 tripulantes militares.

A Ucrânia poderia atingir a autossuficiência na exploração de gás ao explorar suas reservas no Mar Negro, incluindo o supracitado Campo de Odessa, o que não é do interesse russo que ocorra. Em 2016, a empresa Chernomorneftegaz, controlada pela Rússia, instalou sistemas de vigilância para ambientes superficiais e subaquáticos em plataformas de perfuração e plataformas fixas na zona costeira próxima à Crimeia, que serviria como ponta de lança para expansão da hegemonia russa no Mar Negro.

Mapa do mar territorial da Crimeia

Uma das explicações para o recrudescimento do conflito do gás se deve às tentativas de adesão ucraniana à União Europeia e OTAN, assim como há sugestões de que a política ucraniana seja resultado da influência norte-americana. O fato é que, seja qual for o competidor, tenta-se convencer a opinião pública de seus argumentos em uma guerra de relações públicas. Enquanto isso, a relação entre os dois países foi abalada de modo que a desconfiança mútua passou a permear os contratos envolvendo a produção e distribuição de energia, assim como outros temas.

Os conflitos envolvendo Rússia e Ucrânia adquiriram um aspecto “sistêmico”, no qual ambos os países retroalimentam prejuízos econômicos para seu adversário, na melhor das hipóteses, e, na pior, em conflitos armados. É igualmente difícil enxergar um caminho sem a diplomacia e a insistência em novos acordos que não impliquem em mais danos às sociedades russa e ucraniana.

———————————————————————————————–

Nota:

Fonte do mapa obtida em:Valentin J. Schatz and Dmytro Koval, “Ukraine v. Russia: Passage through Kerch Strait and the Sea of Azov (Part I)”, Völkerrechtsblog, 10 January 2018, Doi**: 10.17176/20180110-131019.

** Um identificador de objeto digital (DOI) é uma cadeia alfanumérica exclusiva, atribuída por uma agência de registro (a “International DOI Foundation”) para identificar o conteúdo e fornecer um link persistente para sua localização na Internet. O editor atribui um DOI quando seu artigo é publicado e disponibilizado eletronicamente. Para maiores esclarecimentos, consultar: “O que é um identificador de objeto digital ou DOI?” – https://apastyle.apa.org/learn/faqs/what-is-doi

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Porto de Odessa ao entardecer” (Fonte): https://pixabay.com/photos/odessa-port-evening-cranes-clouds-2577800/

Imagem 2 Mapa do mar territorial da Crimeia” (Fonte): https://voelkerrechtsblog.org/ukraine-v-russia-passage-through-kerch-strait-and-the-sea-of-azov/

ENERGIANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICAS PÚBLICAS

A dependência energética da Ucrânia

A Ucrânia está entre os maiores consumidores de energia do continente europeu e com um nível mediano de consumo per capita em termos mundiais. Poucos países são tão dependentes de combustível estrangeiro quanto a Ucrânia. Esta realidade forçou o país, desde o Euromaidan*, em 2014, a diversificar o rol de fornecedores, ao ponto de se tornar independente da importação de gás russo. Por outro lado, as importações de diesel da Rússia aumentaram no país, respondendo por ¼ do consumo ucraniano, em que pese o embargo aos seus produtos entre outubro de 2015 e março de 2016. Hoje, metade de seu mercado é abastecido pela Bielorrússia. No total, 85% dos produtos petrolíferos é importado, o que revela a elevada dependência externa dessas commodities.

O setor petrolífero ucraniano sofre a defasagem atual após anos de falta de investimentos, o que sucateou a sua capacidade de refino. A questão vai além do mero cálculo econômico. Na última década surgiu um mercado concorrencial na distribuição de combustíveis, mas que depende, basicamente, de uma empresa, a Proton Energy Group S/A, sediada em Genebra, na Suíça, que leva ao país o diesel russo produzido pela Rosneft

Além dos hidrocarbonetos, a Ucrânia é altamente dependente da energia nuclear (15 reatores geram cerca de metade da eletricidade). A maior parte de seus serviços nucleares e combustível derivado provém da Rússia (apesar da redução desta dependência através de compras da Westinghouse). Em 2004, encomendou dois novos reatores e o governo planeja manter a participação nuclear na produção até 2030, daí seu interesse em investimentos e tecnologia ocidentais.

Em 2013, o consumo energético, segundo a matriz destacada, foi distribuído da seguinte forma:

·               Combustível fóssil sólido (carvão), 36%;

·               Gás natural, 34%;

·               Nuclear, 19%;

·               Derivados de petróleo, 9%;

·               Renováveis (hidroelétrica, solar, eólica, biomassa), 2%.

As reservas de carvão ucranianas estão entre as sete maiores do mundo e a maior parte dessas jazidas é localizada na bacia de Donbass, atualmente em conflito. Em 2010, a Ucrânia foi o 13º maior minerador de carvão do mundo e, em 2011, o volume de carvão-vapor (destinado à geração de eletricidade) alcançou 62% da produção total.

O mercado de distribuição e venda de eletricidade no país é altamente concentrado, as empresas nesta área são monopólios naturais** e,em alguns casos, parcialmente controlados pelo Estado, que, na maioria deles, é um sócio minoritário. Grandes empreendedores são proprietários dessas empresas, por vezes não diretamente, mas através de empresas a que são filiados. Muitas dessas corporações são registradas no exterior, como estratégia de evasão fiscal***.

Plataforma de perfuração da Chornomornaftogaz

Outra importante variável a ser considerada quando se fala em produção energética na Ucrânia é a geopolítica. A Rússia tenta impedir a exploração de hidrocarbonetos na plataforma continental**** ucraniana no Mar Negro. As plataformas de perfuração da empresa estatal Chornomornaftogaz, uma subsidiária da Naftogaz, foram capturadas pelas Forças Especiais Russas em março de 2014 durante uma operação na Crimeia. A infraestrutura marítima civil instalada contempla sistemas de vigilância para ambientes superficiais e subaquáticos nas plataformas offshore fixas. Seu uso híbrido, civil e militar, prevê a estratégia de contenção para possíveis ações futuras da OTAN. Seguindo esta configuração, os gasodutos de Nord Stream, Nord Stream II e TurkStream nos mares Báltico e Negro também contarão com o aumento da presença da Marinha Russa, justificada pelo argumento da necessidade adicional de proteção.

A Ucrânia é o maior país integralmente localizado no continente europeu, riquíssimo em recursos minerais, solos férteis e com grandes possibilidades de aumentar seu parque energético. No entanto, a sustentabilidade de suas obras e infraestrutura não depende apenas do aporte econômico ou vontade política, mas, também, de um plano geopolítico de longo prazo para evitar a perda de recursos para potências que estão contrapostas ao país. Neste sentido, o consenso em temas cruciais é o primeiro passo para seu Parlamento, que já começa a ser renovado, tão logo ocorram as eleições marcadas para o dia 21 de julho.

———————————————————————————————–

Notas:

* Euromaidan significa, literalmente, “Europraça”, referindo-se a uma série de manifestações de cunho nacionalista, anti-russa e pró-União Europeia, que durou quatro meses, entre novembro de 2013 e março de 2014.

** Monopólio natural corresponde ao monopólio de uma indústria onde os custos fixos, de infraestrutura, são tão altos que praticamente barram a entrada de um competidor no mercado, tornando único seu fornecedor original.

*** Evasão fiscal é quando o contribuinte deixa de recolher impostos ou o órgão arrecadador, por algum motivo, não consegue arrecadá-los. No caso específico, uma empresa instala sua sede em um país que lhe fornece vantagens fiscais, isto é, menos impostos.

**** Plataforma continental corresponde à formação geológica submarina que se estende do litoral do continente até o talude continental, quando começa o declive mais acentuado. Ela apresenta profundidade média de 200 metros e sua importância estratégica e econômica está na maior predisposição à formação de jazidas petrolíferas e de gás natural.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Usina Nuclear de Rivne,Varash” (Fonte): https://uk.wikipedia.org/wiki/%D0%90%D1%82%D0%BE%D0%BC%D0%BD%D0%B0_%D0%B5%D0%BB%D0%B5%D0%BA%D1%82%D1%80%D0%BE%D1%81%D1%82%D0%B0%D0%BD%D1%86%D1%96%D1%8F

Imagem 2 Plataforma de perfuração da Chornomornaftogaz” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:%D0%9F%D0%BB%D0%B0%D1%82%D1%84%D0%BE%D1%80%D0%BC%D0%B0_-2%D0%A1%D0%9F%D0%91%D0%A3_-_panoramio.jpg

EURÁSIANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Quem é quem na equipe de governo de Zelenski

Vladimir Zelenski tomou posse como Presidente da Ucrânia em 20 de maio de 2019 com um discurso de integração. “Somos todos ucranianos. Não há um maior ou menor. Cada um de nós é ucraniano”, afirmou, fazendo referência às minorias étnicas de seu país e apontando para a paz com a Rússia na questão do Leste ucraniano. As expectativas com relação ao seu governo e quem faria parte da equipe eram grandes e o Presidente respondeu com boa parte das indicações correspondendo a membros e colegas de ofício na área de comunicação, onde fez carreira como ator.

O primeiro nome, Serhiy Volodymyrovych Trofimov,foi encarregado como Primeiro Vice-Chefe da Administração Presidencial. Trofimov foi produtor e roteirista do estúdio Kvartal 95, canal de TV aberta operando desde 2003.

Outro colega, Ivan Bakanov, amigo de infância de Zelenski, que dirigiu o canal de TV Kvartal 95 a partir de 2013, e foi Presidente do Partido Servo do Povo, foi nomeado Vice-Chefe do Serviço de Segurança da Ucrânia e Chefe da Direção Principal de Combate à Corrupção e ao Crime Organizado da Direção Central do Serviço de Segurança da Ucrânia. Terá um papel fundamental na interação com a Verkhovna Rada (o Parlamento ucraniano).

Os profissionais oriundos da área de comunicação, sobretudo da TV, predominaram nas indicações para funções administrativas ou auxiliares:

·               Serhiy Shefirm, co-fundador da produtora Kvartal 95, como Primeiro Assessor do Presidente;

·               Yuriy Kostiuk, roteirista da Kvartal 95, como Vice-Chefe da Administração;

·               Kyrylo Tymoshenko, fundador da empresa de comunicação Goodmedia, produtora especializada em anúncios políticos, o criador por trás dos vídeos de campanha de Zelenski, foi nomeado como Chefe da Administração;

·               Andriy Yermak, advogado especializado em propriedade intelectual e produtor de cinema, que já foi assessor dos extinto Partido das Regiões, foi nomeado Assessor do Presidente;

·               Ruslan Ryaboshapka, ex-Vice-Ministro da Justiça, que foi membro da Agência Nacional para a Prevenção da Corrupção, foi indicado para o Gabinete dos Ministros;

·               Ruslan Stefanchuk, advogado, foi nomeado Assessor do Presidente e enviado como assessor presidencial ao Parlamento. Professor e membro da Academia Nacional de Ciências Jurídicas da Ucrânia, Stefanchuk é o visionário da equipe de Zelenski, o ideólogo da campanha presidencial e principal responsável pela reforma das instituições estaduais e jurídicas, e pelo trabalho legislativo.

Com exceção de Andriy Bohdan, não houve polêmica envolvendo nenhum dos nomes anteriores. Bohdan trabalhou para um dos homens mais ricos da Ucrânia, Ihor Kolomoisky, com um papel fundamental na campanha eleitoral do Presidente, recebeu o cargo de Chefe da Administração Presidencial.

Segundo opositores de Zelenski, Bohdan foi um oficial no governo do Presidente deposto, Viktor Yanukovych, razão pela qual estaria totalmente impedido de ocupar qualquer posto oficial. O governo atual discorda, afirmando que sua equipe não está infringindo a lei.

Ruslan Khomchak e Vladimir Zelenski, 2019

Outro cargo importante acompanhado de controvérsia foi a substituição do Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas da Ucrânia, trocando o general Viktor Muzhenko por Ruslan Khomchak. De acordo com o regulamento do Estado-Maior, o Presidente substitui o Chefe em conjunto com o Ministro da Defesa, o que não ocorreu.

A equipe de governo de Zelenski apresenta alguns nomes que não são consensuais, mas é formada na sua maioria por membros que não são agentes com tradição em funções de Estado. Este será um dos pontos mais lembrados ao longo da trajetória deste governo e, se esta estratégia for bem-sucedida, servirá como uma forma de avaliação para as preferências e métodos de escolha das equipes e governos precedentes.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Andriy Bohdan, 2019” (Fonte): https://uk.wikipedia.org/wiki/%D0%A4%D0%B0%D0%B9%D0%BB:Andriy_Bohdan_(crop).jpg

Imagem 2 Ruslan Khomchak e Vladimir Zelenski, 2019” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Khomchak_with_Zelensky.jpg

EURÁSIANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

O 12º Fórum de Segurança de Kiev

O Fórum de Segurança de Kiev, realizado anualmente na capital ucraniana desde 2007, é o único encontro do gênero na Europa Central e Oriental. Criado pela organização Fundação Arseniy Yatsenyuk “Open Ukraine*, o encontro mantém discussões sobre a segurança nacional, no Mar Negro, na Europa e no mundo. Anualmente são reunidos políticos e representantes de think tanks europeus, americanos, russos e de países da região do Mar Negro.

Seus objetivos são:

  • Estabelecer um fórum independente de discussão para tecer estratégias de segurança global;
  • Reforçar o diálogo e cooperação no domínio da segurança entre União Europeia e região do Mar Negro;
  • Impactar o processo de elaboração de políticas na Ucrânia.

Neste ano, nos dias 11 e 12 de abril, o 12º Fórum de Segurança de Kiev contou com um número recorde de participantes (mais de 1.000), dentre os quais funcionários do alto escalão do Estado Ucraniano, diplomatas e representantes de especialistas de mais de 20 países.

Intitulado neste ano (2019) como “Onda incansável: escolha estratégica da Ucrânia e do Ocidente”, o evento fez referência ao senador americano John McCain, grande apoiador da Ucrânia, falecido em 25 de agosto de 2018, que lançou livro homônimo.

Arseiy Yatsenyuk, organizador do Fórum é explícito em relação a como enxerga a origem do problema de segurança nacional da Ucrânia: “Qualquer tentativa de encontrar uma plataforma de negociação com Vladimir Putin e a Rússia, sobre o fato de que ele parou a guerra, é uma quimera”.

Na sua opinião, a Ucrânia deve receber armas de países ocidentais e ser incluída no sistema de segurança coletiva. O ex-presidente Petro Poroshenko ainda asseverou que se trata de uma luta pelo Estado ucraniano e se o futuro Presidente do país não traçar linhas claras, Putin entenderá como um convite à agressão.

Condoleezza Rice, ex-Secretária de Estado dos Estados Unidos, e Arseniy Yatsenyuk, criador do Fórum de Segurança de Kiev, 23 de setembro de 2007

Embora o Fórum tratasse da questão da segurança nacional, os processos políticos internos são considerados como parte integrante de uma mudança estrutural necessária. Valores coletivos, liberais e democráticos fazem parte da identidade nacional, da sobrevivência ucraniana, ponderou Danylo Lubkivsky, assessor do Primeiro-Ministro da Ucrânia (2014-2016). Em suas palavras: “Organizações internacionais determinam os limites do que é possível. Mas cabe a nós como expandimos essas fronteiras. E eu não estou aqui para ensinar os representantes de outros países, mas do ponto de vista de um ucraniano, eu acredito, que a Ucrânia tem uma palavra sobre o assunto. É a definição do nosso papel internacional, é um entendimento inegável de que a agressão contra nós é uma grande oportunidade para a transformação interna”.

Como o próprio Arseniy Yatsenyuk, o organizador do Fórum, declarou, “nosso caminho é democrático, efetivo, profissional e pró-ocidental” (grifos nossos), deixando claro sua posição anti-russa. E a posição de outros membros também tem sido pela expansão da OTAN na Europa. Hennadiy Kovalenko, vice-presidente de Operações Bilaterais de Cooperação e Manutenção da Paz da Ucrânia contestou a ideia de que as posições da organização nos Países Bálticos, na Polônia e na Romênia sejam suficientes para deter a Rússia. Para Kovalenko, “a Rússia só irá parar quando for forçada a parar, não antes”.

Como deixou registrado em entrevista, Brian Whitmore, investigador americano da política russa durante o 12º Fórum de Segurança de Kiev sobre as estratégias do Kremlin para o Ocidente, sua posição é de que, independentemente de quem seja o Presidente da Rússia, “qualquer projeto imperial russo começa com a Ucrânia, mas não termina com a Ucrânia”. Whitmore também considerou que, à revelia dos resultados da política doméstica, a Rússia fará de tudo para manter a Ucrânia em sua esfera de influência, afastando-a de alianças euro-atlânticas e utilizando os clássicos meios de pressão militares ou aliança com oligarcas ucranianos e corrupção.

A crise ucraniana, impulsionada por fatores internos, econômicos e os externos, mais especificamente a anexação da Crimeia e a intervenção e apoio russos no Leste, têm forçado a uma mudança no país.

———————————————————————————————–

Nota:

* Fundação criada por Arseniy Arsen Petrowytsch Yatsenyuk, Presidente do Parlamento ucraniano entre dezembro de 2007 e setembro de 2008, e Primeiro-Ministro da Ucrânia de 27 de fevereiro de 2014 a 10 de abril de 2016. Sua orientação é pró-União Europeia.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Jens Stoltenberg, SecretárioGeral da OTAN, e o expresidente ucraniano Petro Poroshenko, 10 de julho de 2017” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Ukraine%E2%80%93NATO_relations

Imagem 2 Condoleezza Rice, exSecretária de Estado dos Estados Unidos, e Arseniy Yatsenyuk, criador do Fórum de Segurança de Kiev, 23 de setembro de 2007” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Rice_-_Yatsenyuk_2007_09_23_ukraine_600.jpg

EUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

O Estado-Tampão Ucraniano

O nome Ucrânia significa, literalmente, “no limite”, “fronteira”, “margem” e, embora seja um país reconhecido mundialmente, para a geopolítica russa seu significado etimológico vale na prática. Como bem asseverou George Friedman, “a Ucrânia é tão importante para a Rússia quanto o Texas para os Estados Unidos e a Escócia para a Inglaterra”. O país paga um preço por sua localização estratégica, sempre situada na borda de impérios ou grandes potências. Nos séculos XVII e XVIII foi dividida entre a Polônia, a Rússia e o Império Otomano; no século XIX, pela Rússia e pelo Império Austro-Húngaro; no século XX foi livre por um breve período após a I Guerra Mundial, para, depois, fazer parte da União Soviética na maior parte da sua história moderna.

Em termos de controle territorial efetivo, a Ucrânia é um país dividido em três domínios: o Leste, com as províncias de Donetsk e Lugansk – na denominada região de Donbass – nas mãos de rebeldes separatistas (chamados de “terroristas” por Kiev); o Centro e o Oeste, sob administração da capital ucraniana; e a Península da Crimeia, sob controle da Rússia. Essa situação começou a ser gerada em 2013, quando o então presidente Viktor Yanukovych se negou a assinar os termos de um acordo de cooperação com a União Europeia para buscar apoio com o Kremlin.

Este foi o estopim para uma série de protestos – o Euromaidan – que se estenderiam por 2014 acompanhados de repressão. Sem condições de governar, Yanukovich deixa o país e se refugia, provavelmente na Rússia, com paradeiro desconhecido. As acusações de violência de um governante pró-russo facilitaram a chegada ao poder de Petro Poroshenko, magnata ucraniano formalmente comprometido com as reformas modernizantes para futura integração com a União Europeia.

Kiev foi o epicentro dos acontecimentos que representavam o centro e o oeste do país, cuja maioria de seus habitantes fala o ucraniano e se sente motivada a integrar a União Europeia. Mas, o mesmo não era válido para o leste e sul, mais “eurocético”. Na esteira dos acontecimentos, o referendo da Crimeia em 16 de março de 2014 sobre a possibilidade de se juntar à Rússia, com 96,77% de aprovação, deu a “legitimidade” para que a Rússia anexasse a península e fosse dado apoio militar e humanitário aos rebeldes no Donbass, levando a uma animosidade crescente entre os governos russo e ucraniano.

Restou à Ucrânia manter estratégias complementares em três níveis de atuação:

1ª. Militar – as tropas ucranianas lutam na frente de batalha contra as forças separatistas pró-russas;

2ª. Diplomática – Kiev busca apoio da comunidade internacional, embora seja uma estratégia difícil na medida em que a Rússia faz parte do Conselho de Segurança da ONU, com poder de vetar determinadas Resoluções;

3ª. Econômica – busca de apoio na aplicação de sanções contra a Rússia e na criação de incentivos para o término da guerra.

Seja em seu passado ou no seu presente, a Ucrânia não é só dividida por forças externas, mas também apresenta uma dicotomia interna entre grupos étnicos e linguísticos com opções e visões políticas majoritárias antagônicas. Entre uma nação pró-russa ou pró-europeia há uma terceira via de estruturação política: o chamado “estado-tampão”. A ideia é seguir um modelo independente em que não se alie a nenhum dos poderes que disputa seu apoio, especialmente sem formular sua política externa de acordo com o interesse de nenhum outro governo estrangeiro, leia-se Moscou ou Washington.

No entanto, conforme tem sido observado, sua aplicação não é algo fácil, especialmente quando lideranças locais desejam uma maior integração com um outro país, com uma ou outra economia. Enquanto empresários e profissionais autônomos desejam ampliar seus laços com polos próximos, em cidades como Varsóvia ou Frankfurt, o Leste, com a indústria de extração mineral, vê o mercado russo como um porto seguro para seus empregos e modo de vida.

Mapa da Orientação Geopolítica da População Ucraniana, 2015

Embora haja casos bem-sucedidos de Estados-tampão na história, como a Finlândia, a Suécia e Áustria o foram durante a Guerra Fria, ou a Suíça durante séculos, nem sempre houve sucesso, como se viu no caso da Bélgica durante a I Guerra Mundial, da Polônia no Entre Guerras, ou do Afeganistão no século XIX. Além disso, não se pode descartar as constantes intrigas internas que irão ocorrer pela busca de apoio externo e acusações mútuas de interferência. Normalmente, Estados-tampão funcionais são aqueles que não apresentam grau de ameaça alguma para seus vizinhos ou potências em disputa, e, conforme se observa, este não é o caso da Ucrânia.

Em termos militares, a vantagem para Moscou nesta disputa é que não há um interesse concreto na invasão militar por parte da OTAN, nem tampouco em armar a Ucrânia, pois os custos e riscos de uma operação desta monta seriam muito elevados.

Para a Rússia, a Ucrânia oferece: (a) posição estratégica e (b) produtos agrícolas e minerais. Enquanto que os últimos têm grande importância, o primeiro é fundamental para a existência da Federação Russa. A longa linha de fronteira e a distância de apenas 490 quilômetros do território ucraniano em uma topografia plana, de fácil travessia, tornam sua defesa imprescindível.

Acrescente-se que os portos ucranianos de Odessa e de Sevastopol na Crimeia são mais importantes que o de Novorossiysk, localizada no Krai de Krasnodar e ponto chave de acesso ao Mar Negro, e permitem a presença e influência russas nos mares Negro e Mediterrâneo. Os outros portos russos ao norte, no Báltico, têm seus mares congelados no inverno e podem ser bloqueados pela Groenlândia-Islândia-Reino Unido a oeste; pela Dinamarca no Báltico; e pelo Japão no extremo Leste.

Uma Ucrânia neutra pode ser algo desejável, mas não é garantia de estabilidade do ponto de vista russo, dadas as possibilidades de mudança da percepção social (como já ocorreu) e de posição política interna. Acredita-se que o caminho esteja na constituição de parcerias internacionais para um desenvolvimento conjunto. Daniel Drezner avaliou a melhor solução para conflito que passa pela restauração econômica do país: “Para salvar a Ucrânia e, eventualmente, restaurar uma relação de trabalho com Moscou, o Ocidente deve procurar fazer da Ucrânia um estado neutro entre a Rússia e a OTAN. Deveria se parecer com a Áustria durante a Guerra Fria. Para esse fim, o Ocidente deveria explicitamente tirar a expansão da União Europeia e da Otan, e enfatizar que seu objetivo é uma Ucrânia não alinhada que não ameace a Rússia. Os Estados Unidos e seus aliados também devem trabalhar com Putin para resgatar a economia da Ucrânia, uma meta que é claramente do interesse de todos”.

A Ucrânia é interesse estratégico para a Rússia, e grandes potências não abandonam seus interesses estratégicos. Nesse sentido, conforme vem sendo destacado por analistas, armar o país é ideia arriscada que potencializaria a crise. Pelos elementos observados, conclui-se que os líderes russos não vão aceitar a retirada da Ucrânia de sua órbita de influência e a solução para o conflito não passa pelo confronto, mas pela diplomacia.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Encontro entre Viktor Yanukovych e Vladimir Putin, 25 ago. 2012” (Fonte): http://en.kremlin.ru/events/president/news/16298

Imagem 2 Mapa da Orientação Geopolítica da População Ucraniana, 2015” (Fonte): http://soc-research.info/blog/index_files/category-geopolitics.html