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Debate na TV pode influenciar as eleições na Ucrânia

No dia 19 de abril de 2019, próxima sexta-feira, haverá o debate presidencial entre Vladimir Zelenski e Petro Poroshenko, no estádio Olímpico, em Kiev, com capacidade para 70.000 pessoas, dois dias antes do segundo turno das eleições que ocorrerá no dia 21 de abril. Em tom jocoso, o candidato e comediante Zelenski propôs que fosse feito exame antidoping para provar que o futuro presidente da Ucrânia “não será um alcoólatra nem um viciado em drogas”, além de que Yulia Tymoshenko, ex-Primeira-Ministra e candidata colocada em terceiro lugar no primeiro turno, fosse a mediadora. Poroshenko aceitou o desafio do que será o segundo debate da TV ucraniana. O primeiro ocorreu em 2004, entre Viktor Yushchenko (ex-Presidente que fora envenenado com poderosa toxina durante a campanha) e Viktor Yanukovich (ex-Presidente que abandonou o cargo após a onda de protestos conhecida como Euromaidán, em 2014).

Segundo o Instituto de Sociologia de Kiev, 74% da população utiliza a TV como principal meio de informação.  Mas, de acordo com o Instituto Ucraniano para o Futuro, 76% da programação televisiva no país é controlada por quatro oligarcas: Victor Pinchuk, Rinat Akhmetov, Dmytro Firtash e Ihor Kolomoisky. Este último é conhecido por suas ligações com Zelenski, acerca das quais seu rival, Poroshenko, faz acusação de que o candidato é um mero fantoche do bilionário.

Logo do Canal 1 + 1, de propriedade de Ihor Kolomoisky

Basicamente, a TV na Ucrânia se divide claramente entre os canais favoráveis ao presidente Petro Poroshenko, os contrários a ele e os neutros. Na primeira categoria temos o TRK Ukraine, de Akhmetov; o Inter, de Firtash, que é um dos canais mais assistidos no país; além do Canal 5, de propriedade do próprio Poroshenko. Outros como o ZIK veiculam notícias com as versões de aliados de Poroshenko e o Pryamii, que elogia o Presidente e critica com veemência seus adversários, além de mais outros, como o Canal 112 e o NewsOne, que também entram nesta lista. Como oposição ao governo há o “1 + 1”, de Ihor Kolomoisky, que apoia Zelenski, o 24 e a TV Nash, pró-russa. Canais como o ICTVNovyi Kanal e STB têm uma abordagem bastante neutra, abrindo espaço para todos os candidatos.

Na sociedade emerge a questão de saber quem se sairá melhor no segundo turno, se será o ator, conhecido das telas, ou o dono de um canal de mídia com apoio de vários outros canais. O presidente Poroshenko tem conquistas como ter estabilizado a economia e racionalizado a distribuição de gás. Pesquisa realizada em sites como o Foreign Affairs e o Atlantic Councilmostram que ele tem a simpatia e apoio ocidentais. Ressalte-se que ele é o candidato pró-Ocidente, leia-se União Europeia e OTAN, mas cujo governo é acusado de incompetência na execução das reformas propostas e no combate à corrupção. Por outro, apesar de ter vários canais ao seu lado, Poroshenko não tem o mesmo apelo midiático de seu rival.

O candidato melhor colocado no primeiro turno das eleições ucranianas em 31 de março, com 30% dos votos, foi Vladimir Zelenski que não é um político conhecido, tampouco experiente, mas um ator que se notabilizou no seu país pela série “O Servo do Povo”. Nela, o candidato interpretava um professor, “Vasyl Petrovych Holoborodko”, que, indignado com a corrupção em seu país, se lança à disputa para a Presidência, sendo bem-sucedido. Zelenski defende a ideia de plebiscitos, não tem histórico de rusgas com o presidente russo Vladimir Putin, fala fluentemente o russo e busca integração com o Leste. Por isso, ele se torna o candidato favorito do Kremlin.

Com apenas 18% dos votos no primeiro turno, acredita-se Poroshenko não perderia em participar do debate a dois dias do final da eleição, quando se adentra no estágio em que as ações caem na condição de valer tudo ou nada. No caso da exposição pública de Zelenski, esta daria aos eleitores a chance de conhecer, de fato, o homem atrás da personagem.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Logo do Canal 5de propriedade de Petro Poroshenko” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/Category:5_Kanal_(Ukraine)

Imagem 2 Logo do Canal 1 + 1, de propriedade de Ihor Kolomoisky” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:1%2B1logo.png

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Yulia Tymoshenko pode ser uma das aliadas de Vladimir Zelenski no segundo turno das eleições ucranianas

Apesar do feito de Vladimir Zelenski em obter 30% dos votos à Presidência da Ucrânia, no segundo turno, a ser realizado em 21 de abril, as dificuldades apontam para a necessidade da criação de alianças, e o mais provável é que ele busque obter apoio de Yulia Tymoshenko, ex-Primeira-Ministra, que obteve apenas 14% dos votos.

O que há de comum entre ambos é a retórica anti-establishment junto a seu rival, Anatoliy Hrytsenko, ex-Ministro da Defesa. Parece simples, mas parte da força da campanha de Zelenski se baseava na ideia de ser “contra todos” e não seria o mesmo se em determinado momento se aliasse com políticos como Tymoshenko, quem já foi acusada de encomendar o assassinato de Yefhen Shcherban, um dos membros do Parlamento e um dos homens mais ricos da Ucrânia, e também de sua esposa, no aeroporto de Donetsk, em 1996. Ou ainda acusações de tentativa de suborno à Suprema Corte do país, em 2004, entre outros crimes.

Isto não exclui os méritos e estratégia de Zelenski. O comediante e político conseguiu se conectar com os ucranianos falantes de idioma russo do Sudeste, que também não são favoráveis à secessão, como querem os separatistas de Lugansk e Donetsk. Por outro lado, ele contou com uma vantagem, que foi a cisão dentro do Bloco de Oposição, pró-russo, que lançou dois candidatos à Presidência em janeiro de 2019: Yuriy Boyko,pela “Plataforma de Oposição – Para a Vida”; e Oleksandr Vikul,pelo “Bloco de Oposição – Partido da Paz e Desenvolvimento” (renomeado como “Partido Industrial da Ucrânia”).

Mapa Etno-linguístico da Ucrânia

No entanto, se os pró-russos estão divididos, os pró-ocidente (União Europeia e Otan), na figura de Petro Poroshenko, o atual Presidente, não conseguiram articular uma boa campanha e agora recorrem ao discurso nacionalista que descarta as diferentes culturas baseadas nos idiomas falados no país.

O cansaço do eleitor se explica pelo falido programa de reformas de Poroshenko, considerado muito ambicioso, mas desacreditado por acusações de corrupção. Há pouco mais de cinco anos, em 2014, o Euromaidan, a série de protestos que sacudiu o país e pôs em fuga o ex-presidente Yanukovych, que era pró-Rússia e está com paradeiro desconhecido, levou a um processo de euforia e posterior desilusão.

Acredita-se que com a ocupação da Crimeia pela Rússia e a irrupção de violência separatista no Leste, o voto em Zelenski se mostrou uma tentativa de buscar alternativa para evitar a divisão que assola o país: entre Leste e Oeste, entre diferentes idiomas, e entre Rússia e Ocidente.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Yulia Tymoshenko” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Yulia_Tymoshenko_November_2009-3cropped.jpg

Imagem 2 Mapa Etnolinguístico da Ucrânia” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Ethnolingusitic_map_of_ukraine.png

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UKROBORONPROM: acusações de corrupção no setor de defesa da Ucrânia

Em pleno conflito com os rebeldes separatistas das regiões de Donetsk e Lugansk, na região de Donbass, leste da Ucrânia, o presidente Petro Poroshenko é acusado de participar de um esquema de corrupção envolvendo a estatal do setor de Defesa, a UkrOboronProm (UOP).

Em 2017, funcionários da estatal de Defesa ucraniana foram acusados de terem se apropriado ilegalmente de xxxxxxxx (aproximadamente, 22,8 milhões de reais, conforme a cotação de 25 de março de 2019), em um acordo para fornecer peças de aviões ao Ministério de Defesa do Iraque, além de adquirir motores velhos para quarenta tanques com preço de novos para a Ucrânia.

Tanque ucraniano em parada do Dia da Independência

A UkrOboronProm é um sistema com 80.000 funcionários e 130 empresas independentes, das quais 42 estão endividadas e inativas e 30 na fila para serem privatizadas. Além destas medidas, seu diretor geral, Pavlo Bukin, quer agilizar suas exportações e importações reduzindo a centralização de comando sobre o setor e adaptar os seus salários aos do mercado, isto é, elevá-los, para combater a corrupção. Mas, para que a credibilidade internacional e os financiamentos decorrentes ocorram, as auditorias contra a corrupção necessitam deixar de ser proteladas.

O escândalo de corrupção se tornou público após a divulgação de um relatório pelo site Bihus.info, no dia 25 de fevereiro. Nele, o filho do vice-presidente do Conselho Nacional de Segurança e Defesa (já demitido do cargo), Ihor Hladkovskyy, é acusado de organizar um círculo de contrabandistas de peças sobressalentes de equipamentos militares russos em 2015, um ano após a Rússia ter invadido a Crimeia, e apoiado militantes separatistas no leste do país.

O relatório ainda afirma que Ihor e seus sócios teriam ganho 250 milhões de grívnias (moeda ucraniana), aproximadamente, 34,56 milhões de reais, de acordo com a cotação de 25 de março de 2019, contrabandeando o material russo através de três empresas privadas, uma das quais pertencia ao presidente Poroshenko.

Os protestos contra a corrupção se avolumam no país. No dia 9 de março, o partido de direita “NATIONAL CORPS” realizou uma manifestação em frente à administração presidencial no centro de Kiev e em Cherkasy, cidade a sudeste, onde discursava o Presidente. E no sábado retrasado, dia 17, cerca de 10.000 pessoas foram novamente às ruas protestar contra o atual governo e seu envolvimento na compra de material deteriorado e superfaturado. O tom das manifestações já passou de ser contra a corrupção e a máquina administrativa, envolvendo o setor de Defesa, para uma crítica ao atual governo. Intitulado Svinarchuks (“porcos”) de Poroshenko, o protesto exigia a prisão de todos os envolvidos.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Logo da UkrOboronPromempresa estatal do setor de defesa da Ucrânia” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:UkrOboronProm.svg

Imagem 2 Tanque ucraniano em parada do Dia da Independência” (Fonte): https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:T-64BM_pre_parade.jpg

DIPLOMACIA CORPORATIVANOTAS ANALÍTICAS

A estratégia da empresa ucraniana Naftogaz para enfrentar o contencioso do gás entre Rússia e Ucrânia

A Rússia é o principal provedor de gás natural para o continente europeu. Só a Alemanha compra 60% da commodity, fornecida por corporações gigantes russas deste setor, como GAZPROM ou ROSNEFT. Quase todo esse gás passa por gasodutos que cruzam a Ucrânia e, não por acaso, este país também é muito dependente da matéria-prima energética proveniente de seu vizinho setentrional.

Como a situação política na Ucrânia tem sido marcada por instabilidade nos últimos anos, oscilando entre governos pró-russos e anti-russos, a nova estratégia do Kremlin tem sido criar uma rota alternativa para transportar a maior parte de seu gás para a Europa, sobretudo a Alemanha, sem que ocorram sobressaltos. Nesse sentido, apostou-se na construção de uma nova linha de transmissão no Mar Báltico, chamada de NORD STREAM 2, que é do interesse de Moscou e de Berlim, mas tal ação pode levar a duas consequências se nada for feito para contornar o resultado que ela trará: o isolamento geopolítico da Ucrânia e o seu estrangulamento econômico.

Gasodutos e oleodutos entre Rússia e Europa

O principal gasoduto atualmente utilizado foi construído nos tempos da extinta União Soviética, quando sequer se cogitava a instabilidade política contemporânea. Por volta de 70% do gás russo passa por território ucraniano e, quando do esfacelamento da antiga União Soviética, em 1991, ex-repúblicas que faziam parte dela se viram como países independentes, com necessidade de se inserirem no mercado mundial. Neste momento, a Ucrânia percebeu a possibilidade de fazer negócios, usando da principal “vantagem comparativa” que detém: a posição geográfica em que está entre o maior produtor, a Rússia, e os maiores consumidores, os países da Europa Ocidental.

São cerca de dois a três bilhões de dólares anuais deixados como uma espécie de pedágio para transmissão do gás natural, o equivalente a entre 2,5% a 3% do PIB da Ucrânia, um percentual considerado relativamente pequeno perto do tamanho do problema político. No que envolve os dois países, a Rússia e a Ucrânia, os contenciosos podem ser usados como instrumentos políticos. Dependendo do tipo de governo que assuma o controle na Ucrânia, a Gazprom, uma das principais exportadoras russas, pode aliviar ou aumentar os preços. As animosidades entre os dois países já levaram os ucranianos a ficarem sem gás em 2006 e em 2009 e, neste último caso, boa parte da Europa também foi afetada. Esta situação levou à busca de alternativas, como a importação de gás liquefeito do Qatar, ou gás natural da Noruega.

A partir de 2010, novas mudanças de rumo ocorreram. Victor Yanukovich assumiu a Presidência adotando um governo pró-Rússia que, por sua vez, aplicou uma política de preços baixos e trouxe benefícios à economia e às empresas do setor na Ucrânia. No entanto, embora a principal companhia de distribuição de gás deste país, o monopólio estatal NAFTOGAZ, empregue 175.000 pessoas, se tornando uma das principais fontes de renda para os ucranianos, tal situação é responsável também pelos déficits públicos, algo que, ao longo do tempo, sempre oscilou de acordo com a política adotada em relação à Federação Russa.

O mau desempenho da economia aliado à insatisfação política resultaram em meses de violentas manifestações em 2014, conhecido como EUROMAIDAN, o que levou ao afastamento do Presidente e à sua substituição por um governo pró-ocidental, próximo da União Europeia e OTAN. Tal movimento levou à detenção do conselheiro da Naftogaz, Yevehen Bakulin, e à sua substituição por Andriy Kobolyen, o novo CEO, cujas metas são basicamente duas: acabar com a corrupção da empresa, o que girava em torno de 4,5 bilhões de dólares ao ano (aproximadamente 17,16 bilhões de reais, de acordo com a cotação de 18 de março de 2019), ou  5% do PIB do país, segundo o Institute for Economic Research and Policy Consulting, um think tank de Kiev; e acabar com a dependência da Rússia. Observadores apontam que a primeira meta não é fácil devido aos poderes já encastelados na empresa, por essa razão a segunda meta se tonou o passo decisivo.

Acrescente-se que a implementação de uma reforma no setor do gás, retirando seus subsídios ao consumidor, fez com que a Naftogaz passasse a dar lucros pela primeira vez em décadas, razão pela qual a medida passou a ser vista como uma garantia para manter a empresa e a economia do setor saneados, levando a certeza de que deve ter continuidade. Além disso, a utilização de equipamentos mais modernos, por exemplo, ainda pode fazer o consumo energético da Ucrânia cair para a metade, revelando um grande potencial de economia e aumento de eficiência. Tais considerações demonstraram que o desperdício ainda é alto no país, se comparado a outras economias. Por exemplo, a Ucrânia tem um nível de consumo per capita mais de três vezes maior do que a Polônia.

Nesse interim, a Naftogaz passou de uma empresa deficitária com perdas da ordem de 6% do PIB (2014) para responder por 13% da renda do Estado. E o novo CEO, Kobolyen, foi além, ao contornar a tática russa de pressionar com preços altos contra governos pró-ocidentais, adotando uma estratégia baseada nas regras do mercado. Nesse sentido, nos contratos, todo gás enviado pelos russos passou a ser de responsabilidade e controle de seus importadores quando chega ao seu destino. Desta forma, Kobolyen enviava o gás russo pelo gasoduto na Ucrânia até a Eslováquia para depois recomprar o gás que retorna pelo mesmo gasoduto. Ao invés de arcar com os custos acrescentados por Moscou, a estratégia da Naftogaz reduziu o valor a cerca de 20% do que seria gasto no caso de uma importação direta.

Por mais eficazes que sejam tais procedimentos comerciais, o presidente da companhia russa, a Gazprom, já anunciou que, em 2020, o gasoduto que atravessa a Ucrânia só levará 10% do que transporta atualmente, embora avaliações mais recentes sejam da ordem de menos da metade, ou seja, talvez na casa de 40% e não 10%. Ainda assim, será uma queda significativa.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Logo da NAFTOGAZ, companhia de gás estatal ucraniana ” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Naftogaz_logo.png

Imagem 2 Gasodutos e oleodutos entre Rússia e Europa” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:RF_NG_pipestoEU.gif