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UKROBORONPROM: acusações de corrupção no setor de defesa da Ucrânia

Em pleno conflito com os rebeldes separatistas das regiões de Donetsk e Lugansk, na região de Donbass, leste da Ucrânia, o presidente Petro Poroshenko é acusado de participar de um esquema de corrupção envolvendo a estatal do setor de Defesa, a UkrOboronProm (UOP).

Em 2017, funcionários da estatal de Defesa ucraniana foram acusados de terem se apropriado ilegalmente de xxxxxxxx (aproximadamente, 22,8 milhões de reais, conforme a cotação de 25 de março de 2019), em um acordo para fornecer peças de aviões ao Ministério de Defesa do Iraque, além de adquirir motores velhos para quarenta tanques com preço de novos para a Ucrânia.

Tanque ucraniano em parada do Dia da Independência

A UkrOboronProm é um sistema com 80.000 funcionários e 130 empresas independentes, das quais 42 estão endividadas e inativas e 30 na fila para serem privatizadas. Além destas medidas, seu diretor geral, Pavlo Bukin, quer agilizar suas exportações e importações reduzindo a centralização de comando sobre o setor e adaptar os seus salários aos do mercado, isto é, elevá-los, para combater a corrupção. Mas, para que a credibilidade internacional e os financiamentos decorrentes ocorram, as auditorias contra a corrupção necessitam deixar de ser proteladas.

O escândalo de corrupção se tornou público após a divulgação de um relatório pelo site Bihus.info, no dia 25 de fevereiro. Nele, o filho do vice-presidente do Conselho Nacional de Segurança e Defesa (já demitido do cargo), Ihor Hladkovskyy, é acusado de organizar um círculo de contrabandistas de peças sobressalentes de equipamentos militares russos em 2015, um ano após a Rússia ter invadido a Crimeia, e apoiado militantes separatistas no leste do país.

O relatório ainda afirma que Ihor e seus sócios teriam ganho 250 milhões de grívnias (moeda ucraniana), aproximadamente, 34,56 milhões de reais, de acordo com a cotação de 25 de março de 2019, contrabandeando o material russo através de três empresas privadas, uma das quais pertencia ao presidente Poroshenko.

Os protestos contra a corrupção se avolumam no país. No dia 9 de março, o partido de direita “NATIONAL CORPS” realizou uma manifestação em frente à administração presidencial no centro de Kiev e em Cherkasy, cidade a sudeste, onde discursava o Presidente. E no sábado retrasado, dia 17, cerca de 10.000 pessoas foram novamente às ruas protestar contra o atual governo e seu envolvimento na compra de material deteriorado e superfaturado. O tom das manifestações já passou de ser contra a corrupção e a máquina administrativa, envolvendo o setor de Defesa, para uma crítica ao atual governo. Intitulado Svinarchuks (“porcos”) de Poroshenko, o protesto exigia a prisão de todos os envolvidos.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Logo da UkrOboronPromempresa estatal do setor de defesa da Ucrânia” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:UkrOboronProm.svg

Imagem 2 Tanque ucraniano em parada do Dia da Independência” (Fonte): https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:T-64BM_pre_parade.jpg

DIPLOMACIA CORPORATIVANOTAS ANALÍTICAS

A estratégia da empresa ucraniana Naftogaz para enfrentar o contencioso do gás entre Rússia e Ucrânia

A Rússia é o principal provedor de gás natural para o continente europeu. Só a Alemanha compra 60% da commodity, fornecida por corporações gigantes russas deste setor, como GAZPROM ou ROSNEFT. Quase todo esse gás passa por gasodutos que cruzam a Ucrânia e, não por acaso, este país também é muito dependente da matéria-prima energética proveniente de seu vizinho setentrional.

Como a situação política na Ucrânia tem sido marcada por instabilidade nos últimos anos, oscilando entre governos pró-russos e anti-russos, a nova estratégia do Kremlin tem sido criar uma rota alternativa para transportar a maior parte de seu gás para a Europa, sobretudo a Alemanha, sem que ocorram sobressaltos. Nesse sentido, apostou-se na construção de uma nova linha de transmissão no Mar Báltico, chamada de NORD STREAM 2, que é do interesse de Moscou e de Berlim, mas tal ação pode levar a duas consequências se nada for feito para contornar o resultado que ela trará: o isolamento geopolítico da Ucrânia e o seu estrangulamento econômico.

Gasodutos e oleodutos entre Rússia e Europa

O principal gasoduto atualmente utilizado foi construído nos tempos da extinta União Soviética, quando sequer se cogitava a instabilidade política contemporânea. Por volta de 70% do gás russo passa por território ucraniano e, quando do esfacelamento da antiga União Soviética, em 1991, ex-repúblicas que faziam parte dela se viram como países independentes, com necessidade de se inserirem no mercado mundial. Neste momento, a Ucrânia percebeu a possibilidade de fazer negócios, usando da principal “vantagem comparativa” que detém: a posição geográfica em que está entre o maior produtor, a Rússia, e os maiores consumidores, os países da Europa Ocidental.

São cerca de dois a três bilhões de dólares anuais deixados como uma espécie de pedágio para transmissão do gás natural, o equivalente a entre 2,5% a 3% do PIB da Ucrânia, um percentual considerado relativamente pequeno perto do tamanho do problema político. No que envolve os dois países, a Rússia e a Ucrânia, os contenciosos podem ser usados como instrumentos políticos. Dependendo do tipo de governo que assuma o controle na Ucrânia, a Gazprom, uma das principais exportadoras russas, pode aliviar ou aumentar os preços. As animosidades entre os dois países já levaram os ucranianos a ficarem sem gás em 2006 e em 2009 e, neste último caso, boa parte da Europa também foi afetada. Esta situação levou à busca de alternativas, como a importação de gás liquefeito do Qatar, ou gás natural da Noruega.

A partir de 2010, novas mudanças de rumo ocorreram. Victor Yanukovich assumiu a Presidência adotando um governo pró-Rússia que, por sua vez, aplicou uma política de preços baixos e trouxe benefícios à economia e às empresas do setor na Ucrânia. No entanto, embora a principal companhia de distribuição de gás deste país, o monopólio estatal NAFTOGAZ, empregue 175.000 pessoas, se tornando uma das principais fontes de renda para os ucranianos, tal situação é responsável também pelos déficits públicos, algo que, ao longo do tempo, sempre oscilou de acordo com a política adotada em relação à Federação Russa.

O mau desempenho da economia aliado à insatisfação política resultaram em meses de violentas manifestações em 2014, conhecido como EUROMAIDAN, o que levou ao afastamento do Presidente e à sua substituição por um governo pró-ocidental, próximo da União Europeia e OTAN. Tal movimento levou à detenção do conselheiro da Naftogaz, Yevehen Bakulin, e à sua substituição por Andriy Kobolyen, o novo CEO, cujas metas são basicamente duas: acabar com a corrupção da empresa, o que girava em torno de 4,5 bilhões de dólares ao ano (aproximadamente 17,16 bilhões de reais, de acordo com a cotação de 18 de março de 2019), ou  5% do PIB do país, segundo o Institute for Economic Research and Policy Consulting, um think tank de Kiev; e acabar com a dependência da Rússia. Observadores apontam que a primeira meta não é fácil devido aos poderes já encastelados na empresa, por essa razão a segunda meta se tonou o passo decisivo.

Acrescente-se que a implementação de uma reforma no setor do gás, retirando seus subsídios ao consumidor, fez com que a Naftogaz passasse a dar lucros pela primeira vez em décadas, razão pela qual a medida passou a ser vista como uma garantia para manter a empresa e a economia do setor saneados, levando a certeza de que deve ter continuidade. Além disso, a utilização de equipamentos mais modernos, por exemplo, ainda pode fazer o consumo energético da Ucrânia cair para a metade, revelando um grande potencial de economia e aumento de eficiência. Tais considerações demonstraram que o desperdício ainda é alto no país, se comparado a outras economias. Por exemplo, a Ucrânia tem um nível de consumo per capita mais de três vezes maior do que a Polônia.

Nesse interim, a Naftogaz passou de uma empresa deficitária com perdas da ordem de 6% do PIB (2014) para responder por 13% da renda do Estado. E o novo CEO, Kobolyen, foi além, ao contornar a tática russa de pressionar com preços altos contra governos pró-ocidentais, adotando uma estratégia baseada nas regras do mercado. Nesse sentido, nos contratos, todo gás enviado pelos russos passou a ser de responsabilidade e controle de seus importadores quando chega ao seu destino. Desta forma, Kobolyen enviava o gás russo pelo gasoduto na Ucrânia até a Eslováquia para depois recomprar o gás que retorna pelo mesmo gasoduto. Ao invés de arcar com os custos acrescentados por Moscou, a estratégia da Naftogaz reduziu o valor a cerca de 20% do que seria gasto no caso de uma importação direta.

Por mais eficazes que sejam tais procedimentos comerciais, o presidente da companhia russa, a Gazprom, já anunciou que, em 2020, o gasoduto que atravessa a Ucrânia só levará 10% do que transporta atualmente, embora avaliações mais recentes sejam da ordem de menos da metade, ou seja, talvez na casa de 40% e não 10%. Ainda assim, será uma queda significativa.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Logo da NAFTOGAZ, companhia de gás estatal ucraniana ” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Naftogaz_logo.png

Imagem 2 Gasodutos e oleodutos entre Rússia e Europa” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:RF_NG_pipestoEU.gif