ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

20 anos de Vladimir Putin à frente da Rússia

O Presidente russo, Vladimir Putin. Ex-agente da inteligência soviética KGB, nascido em 1952, em Leningrado (agora, São Petersburgo), Vladimir Putin iniciou sua carreira à sombra de Boris Ieltsin, tornando-se Primeiro-Ministro da Rússia em 6 de agosto de 1999, com meros 1% de aprovação eleitoral. No mesmo ano, a renúncia de Ieltsin escalou Putin a Presidente Interino e, em 2000, foi oficialmente eleito Presidente da Federação Russa. Desde então, nunca deixou a linha de frente da política do país, tornando-se, “sem dúvida, o líder mundial de maior importância desde Winston Churchill”, na opinião do colunista Oliver Carroll, do “The Independent”.    

Ranking do PIB” (Fonte – FMI via Bloomberg)

Pouco após assumir o poder, o sucessor de Ieltsin iniciou uma jornada que levaria a Rússia ao crescimento de 7% ao ano, nos sucessivos oito anos, através de investimentos no campo energético e de petróleo e da expansão da influência russa em territórios nos quais jazia esquecida, por exemplo: estreitando laços com a China; apoiando regimes de poder locais na Síria e Líbia; suprindo aparatos de defesa aérea para a Turquia; cerrando tratados sobre fornecimento de petróleo com a Arábia Saudita; aproximando-se da Alemanha, através do suprimento de energia e construção de gasodutos. Em 2012, o país chegou perto de alcançar o patamar de desenvolvimento de Portugal, e, no mesmo ano, atingiu o pico do Produto Interno Bruto (PIB) per capita, alcançando oitava posição no ranking mundial.

Embora seu governo seja marcado por alterações no escopo das próprias políticas, Vladimir Putin é reconhecido, mesmo por críticos, por ter alcançado três objetivos: construir um forte Estado Russo, consolidar a Rússia como um poder global e manter-se intermitentemente no poder. No ano 2000, seu índice de aprovação era de 64%, saltando para 80% em 2008, após os 5 dias de conflito na Georgia. Contudo, durante seu termo como Primeiro-Ministro, sob à Presidência de Dmitri Medvedev (2008-2012), sua popularidade caiu novamente para 66% e manteve-se em baixa até o impasse com a Crimeia, em 2014, quando o ex-agente viu o ápice de sua renovada Presidência (eleito novamente em 2012), com quase 90% de aprovação.

Pagamento da dívida russa

Uma das principais características de Putin no poder é sua capacidade de gerenciar o orçamento estatal. Com apenas 8% da equivalência da economia americana, a “prudência fiscal de Putin… tornou as folhas de balanço do governo algumas das mais saudáveis do mundo, ganhando reconhecimento de agências monetárias e mesmo do Fundo Monetário Internacional (FMI)”, aponta a Bloomberg. De acordo com dados do FMI, a maior parte da dívida russa foi paga pelo governo de Putin. De fato, esse cuidado é refletido no novo gabinete do Presidente russo, que apontou o Chefe do Serviço de Impostos do governo, Mikhail Mishustin, para substituir o ex-primeiro-ministro Dmitry Medvedev, que pediu demissão, após as mudanças constitucionais anunciadas por Putin, em janeiro deste ano (2020).

Ora, a liderança de Putin não foi sempre linear. Gleb Pavlovsky, consultor político do Kremlin durante os primeiros 12 anos de liderança do atual mandatário presidencial da Rússia, afirma que “As pessoas pensam que se você tem um Presidente, você tem apenas uma política. Não é assim de todo. O primeiro termo de Putin não tem nada em comum com o corrente termo”. De fato, um dos primeiros passos de Vladimir Putin ao assumir a Presidência em 2000 foi em consonância com um novo realismo, projetando os interesses econômicos da Rússia, ao mesmo tempo em que reconhecia que sua imagem internacional não era positivamente elaborada, e introduzia uma política externa mais coerente, que conciliasse as visões dos Ocidentalistas (os quais defendem que a Rússia deve abrir-se para a cultura ocidental), Orientalistas (propugnam que a Rússia deve buscar mais diálogo com o oriente) e Nacionalistas.

Putin na Praça Vermelha, em Moscou, 2005

Naquele momento, essa nova vertente de fazer política fez o recém eleito Presidente cair nas graças do então presidente americano Bill Clinton, de modo que, ao se questionar o líder americano sobre a possibilidade de a Rússia juntar-se à OTAN algum dia, obteve-se a seguinte resposta: “Eu não me oponho”. Na época, acreditava-se que Putin seguiria os passos de Ieltsin e procederia com a “Ocidentalização” do país. Após oferecer suporte aos Estados Unidos em virtude do 11 de Setembro, por um breve período de tempo a relação entre EUA e Rússia estreitaram, mas as coisas tomaram um rumo diferente com a Invasão do Iraque e a revolução da Georgia (em 2003) e da Ucrânia (em 2004), que deu início a um “jogo de culpas” que segue até os dias atuais, com Estados Unidos e Rússia constantemente apontando como as políticas de cada um interfere nos assuntos domésticos do outro.

Mais recentemente, Angela Merkel (Alemanha) e Emmanuel Macron (França), embora coniventes com as sanções impostas pela União Europeia em face ao impasse da Crimeia de 2014, o qual também ocasionou a suspensão da Rússia do G8, buscam não comprometer os regalos oferecidos pelo maior país do mundo (sobretudo no campo energético e da agricultura), e o Presidente francês urge que a OTAN pare de ver a Rússia como inimiga, clamando que esta “pertence à Europa”.

Embora a Federação Russa ainda não tenha alcançado Portugal (como Putin inicialmente almejava), o padrão de vida dos russos melhorou e a expectativa de vida aumentou de 64,9 anos, em 1999, para 72,8 anos, em 2018, e a inflação caiu na faixa de aproximadamente 40% para 4%, desde a assunção de Putin ao poder. São feitos prodigiosos, considerando que a economia global sofreu vertigens e a imagem da Rússia no mundo não foi estática. Mesmo com a corrente pandemia global do Covid-19, Vladimir Putin mantém-se uma figura pragmática e imponente, lidando com os impactos de maneira resiliente e garantindo que um possível futuro termo seja melhor que o anterior, nos conformes do legado que tem deixado durante seus 20 anos à frente da Federação Russa.    

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Vladimir Putin assume o terceiro mandato, 7 de maio de 2012” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Vladimir_Putin_inauguration_7_May_2012-10.jpeg

Imagem 2 Ranking do PIB” (Fonte FMI via Bloomberg): https://www.bloomberg.com/news/features/2019-12-28/putin-s-russia-is-20-years-old-and-stronger-than-ever-or-is-it

Imagem 3 Pagamento da dívida russa” (Fonte FMI via Bloomberg): https://www.bloomberg.com/news/features/2019-12-28/putin-s-russia-is-20-years-old-and-stronger-than-ever-or-is-it

Imagem 4 Putin na Praça Vermelha, em Moscou, 2005” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Victory_Day_Parade_2005-5.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

A delicada relação entre Rússia e a União Europeia

A Federação Russa e a União Europeia (UE) desenvolveram relações bilaterais fortes até 2014. De acordo com folhas fatuais do Parlamento Europeu, o Kremlin e Bruxelas trabalharam juntos em áreas como comércio, energia, pesquisa, cultura, segurança, não proliferação de armas nucleares e resolução de conflitos no Oriente Médio, inclusive, a UE apoiou a entrada da Rússia na Organização Mundial do Comércio, completada em 2012. Contudo, os laços construídos enfraqueceram-se com o impasse sobre a Crimeia e, cerca de um ano mais tarde, a intervenção de Putin na Guerra da Síria como amparador do regime de Assad contribuiu para aumentar as tensões entre seu país e o Ocidente.     

O Conselho da União Europeia enumera as sanções repetidamente impostas à Rússia desde março de 2014, que englobam: – medidas diplomáticas (ex. suspender reuniões do G8 e manter o formato das reuniões como G7, suspensão do suporte ao país na acessão à Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE); – medidas de restrições individuais (tal como banir a entrada de certos cidadãos e organizações russas na UE); – restrições nas relações econômicas entre Crimeia e Sebastopol (ex. proibir a importação de bens destes territórios, limitar comércio e proibir o suprimento de atividades turísticas nos mesmos); – sanções econômicas gerais; – medidas concernentes à cooperação econômica entre UE e Rússia. Ainda, a UE implementou sanções no mercado energético russo, porém, limitadas ao petróleo, uma vez que os países do Bloco estão entre os maiores consumidores de gás proveniente de lá (em 2018, cerca de 40% de todo o gás importado veio da Rússia).

Putin em reunião com representantes de Crimeia e Sebastopol

Deste modo, cabe salientar que as relações entre a Federação Russa e a União Europeia no atual contexto são de caráter mutualista e não-facultativo: a UE necessita da energia russa, e a Rússia está atrelada ao mercado europeu. Apesar de o Bloco europeu ser reconhecidamente unido na liberdade de bens e movimento entre cidadãos de seus Estados Membros, divergências entre os governantes dos países com relação a decisões tomadas por Bruxelas são inevitáveis.

A doutora Kristi Raikk, diretora do Instituto Estoniano de Política Internacional, acredita que a UE peca em não ter uma “direção comum nas políticas com relação à Rússia. Tal premissa é fundamentada nas posições de líderes como o presidente francês Emmanuel Macron, que enfatizou que a Rússia pertence à Europa e ofereceu-se para sediar a Cúpula Normandy Four, em 2019, com foco a chegar a um consenso sobre os conflitos em Donbass, na Ucrânia. Já a Chanceler alemã, Angela Merkel, ajudou a sustentar as sanções impostas à Rússia, mas sem comprometer a construção do gasoduto Nord Stream 2, que deve dobrar o envio de gás natural à Alemanha neste ano (2020). Em contrapartida, os países do leste europeu, sobretudo a Polônia e os países bálticos, veem as investidas francesas e alemãs com desconfiança, e mesmo uma prepotência reducionista a seus próprios interesses, de acordo com a doutora Raikk.   

Mais recentemente, após o surto do Covid-19 e mesmo apresentando uma resposta admirável à pandemia, a Rússia tem sido severamente criticada por suposta campanha de desinformação lançada no Ocidente. Em relatório lançado pelo Serviço Europeu de Ação Externa em 16 de março (2020), o Kremlin é apontado como gerador de pânico e discórdia nos países europeus através de uma suposta campanha online de fake news em vários idiomas, utilizando dados confusos e perniciosos para dificultar a resposta da União Europeia à crise.

De acordo com a Reuters, que teve acesso ao documento, a desinformação espalhada pelo Kremlin tem o escopo de “agravar a crise na saúde pública dos países Ocidentais…em linha com a estratégia mais ampla do mesmo de subverter as sociedades Europeias”. O porta-voz do governo, Dmitry Peskov, apontou a falta de evidências no relatório e salientou que “Estamos falando novamente sobre alegações infundadas, as quais, no atual contexto, são provavelmente o resultado de uma obsessão anti-Rússia”.

Um gesto do presidente Putin colocou em evidência as acusações feitas pela agência da União Europeia: no domingo passado (22 de março de 2020), uma operação do Exército russo denominada “De Rússia, com Amor, enviou ajuda médica para a Itália. Naquele dia, ao menos três aviões carregados com caminhões de desinfestação de veículos, prédios e locais públicos, equipamentos médicos e profissionais da saúde saíram de Moscou rumo às cidades italianas mais atingidas pelo Coronavírus. O Ministro da Defesa russo disse que o auxílio total consiste em nove aviões militares tripulados com brigadas médicas compostas por virologistas e especialistas médicos de alto escalão. A ajuda foi prontamente agradecida pelo Primeiro-Ministro italiano, Giuseppe Conte.

Caminhão da operação ‘De Rússia, com Amor’ – retirada de Ministério da Defesa da Rússia

Ainda que delicadas, as recorrentes relações Federação Russa – União Europeia restam inabaladas pelos conflitos de caráter subjetivo que surgem como efeito de uma era de informações abundantes, irrestritas e não-filtradas. O espírito de cooperação impera no momento singular em que vivemos, e mesmo que os resultados por vir desta crise global se manifestem nos âmbitos político e econômico, talvez sirvam como catalisadores de uma mudança geral de mentalidade.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Emmanuel Macron, Vladimir Putin e Angela Merkel” (Fonte): http://www.kremlin.ru/events/president/news/55010/photos/49345

Imagem 2 Putin em reunião com representantes de Crimeia e Sebastopol” (Fonte): http://en.kremlin.ru/events/president/news/63021

Imagem 3 Caminhão da operação De Rússia, com Amor’ – retirada de Ministério da Defesa da Rússia” (Fonte): http://eng.mil.ru/en/news_page/country/[email protected]

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Mudanças constitucionais na Rússia revelam o poder de agência de Putin

A Federação Russa tem sido destaque na mídia internacional desde o impasse da Crimeia em 2014, por muitos motivos. Contudo, em 2019, o país virou objeto de análise intelectual de especialistas em áreas diversas como ciência, economia, tecnologia, militarização e inteligência. Em meados de 2020, a mente que se considera que engendra a exponencialidade russa no mundo, Vladimir Putin, tornou-se o centro das atenções no palco político mundial ao ser o estopim da demissão voluntária de todo o seu próprio gabinete presidencial.

Em vinte anos de governo, o ex-agente da KGB foi visto como fonte de bravura e genialidade, sobretudo nas condições em que assumiu após Gorbachev, com os conflitos da Chechênia (1999), onde atuou primeiramente como líder da ofensiva e finalmente como apaziguador das rebeliões em 2009. Em seu mandato, traçou relações diplomáticas positivas com o Ocidente, integrou o G8 e foi recebido pessoalmente pela rainha Elizabeth II da Inglaterra, um feito inédito para um líder russo desde 1874.

Apesar de todo esforço para tornar a Rússia relevante no contexto geopolítico da primeira década do século XXI, a Constituição não permitia a Putin assumir um terceiro mandato consecutivo na Presidência do país. Para contornar a situação, em 2008, o atual Presidente da Rússia ocupou posição de prestígio durante o tempo em que serviu como Primeiro-Ministro, suscitando ideias de que o então presidente Dimitri Medvedev era mero aprendiz, quiçá títere de suas vontades e ambições. Em 2012, Putin reassumiu seu posto de Presidente da Federação Russa e uma manobra peculiar encenada no Discurso do Estado da Nação de 2019 revelou que a vontade do ex-agente de permanecer no controle geral do Estado é real e fundamentada.

Vladimir Putin em Discurso à Assembleia Federal

Em seu discurso, Vladimir Putin abordou assuntos como a demografia decrescente na Rússia e a necessidade de inverter essa situação, falou sobre a possível potencialização do Conselho de Estado (State Council – órgão interno criado por Putin em 1991 para aconselhar o Chefe de Governo), dos requisitos para ser elegível à Presidência e ao Parlamento (conhecido como State Duma), inclusive colocando em xeque questões de dupla-cidadania. Mais precisamente, uma série de mudanças em termos de balanço de poder foram expostas pelo Presidente. O site The Moscow Times elencou algumas das propostas de Emendas Constitucionais, a citar, entre outras:

Edição Presidencial da Constituição Russa

1.             Restrições aos candidatos presidenciais, incluindo o banimento de dupla-cidadania ou residência permanente no exterior, e requerer que tenham vivido na Rússia por 25 anos;

2.             Priorizar a Constituição Russa acima dos Tratados Internacionais;

3.             Tornar o Conselho de Estado um órgão oficial de governança;

4.             Proibir o Legislativo, Ministros de Gabinete, Juízes e oficiais federais de possuírem dupla-cidadania ou residência fora do país;

5.             Garantir ao Legislativo autoridade para apontar o Primeiro-Ministro, Deputados e Gabinetes e barrar o Presidente de rejeitar essas nominações;

6.             Garantir aos Senadores a autoridade para consultar o Presidente no apontamento de chefes das agências de segurança;

7.             Garantir aos Senadores a capacidade de rejeitar Juízes Constitucionais e da Suprema Corte com base em proposta presidencial.

Pouco após o anúncio das reformas propostas por Putin, o primeiro-ministro Dmitry Medvedev pediu demissão, seguido dos outros chefes de Gabinete da Rússia, em um movimento concebido para facilitar a revisão constitucional. De fato, a casa legislativa onde o presidente Putin possui maioria representativa, a Duma, aprovou unanimemente as mudanças constitucionais propostas, no dia 23 de janeiro de 2020, fortalecendo posições que o atual presidente Putin poderá vir a assumir, caso seu mandato de presidência expire em 2024.

Regina Smyth, professora associada de Ciências Políticas da Universidade de Indiana, afirmou que essa atitude de Putin não veio como surpresa para estudiosos e observadores das eleições no Kremlin nos últimos 30 anos. A acadêmica assinalou que o Presidente russo já havia revelado suas intenções na conferência anual de imprensa, em dezembro de 2019, quando mencionou potenciais mudanças constitucionais.

Mikhail Mishustin

Críticos das mudanças e testemunhas dos vinte anos de controle de Putin sobre a Rússia alegam se tratar de um “golpe constitucional”, devido ao aparente repentino deslocamento do centro de poder do Executivo para o Legislativo, algo raro na Federação. O político Dmitry Gudkov pronunciou que “Golpes constitucionais como esse ocorrem e são completamente legais”. O professor de Políticas Russas e Europeias da Universidade de Kent, Richard Sakwa, discorda dessa ideia, e diz que esta é apenas uma maneira de garantir a continuidade da atual elite que preside o país.

O chefe do Serviço de Impostos do governo, Mikhail Mishustin, foi apontado por Putin para substituir Medvedev. Apesar de desconhecido do público, Mishustin é um popular tecnocrata em seu meio e famoso por cumprir bem sua função de cobrar impostos, o que pode ser o primeiro passo para conciliar a estabilidade de Putin no poder e alavancar a estagnada economia russa.

Há vinte anos Vladimir Putin está atrelado à imagem da Rússia, e não há sinais de que um novo proeminente líder surgirá tão cedo no país.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Vladimir Putin em Discurso à Nação, 2020” (Fonte): http://en.kremlin.ru/events/president/news/62582/photos/62934

Imagem 2Vladimir Putin em Discurso à Assembleia Federal” (Fonte): http://en.kremlin.ru/events/president/news/62582/photos/62925

Imagem 3Edição Presidencial da Constituição Russa” (Fonte): http://www.kremlin.ru/https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Red_copy_of_the_Russian_constitution.jpg

Imagem 4Mikhail Mishustin” (Fonte): http://www.kremlin.ru/events/president/news/57848/photos

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A dinâmica do serviço de inteligência russo

A Inteligência Russa, reconhecida pela sua destreza, sutileza e paradoxal dureza, goza de proteção política e status privilegiado de sentinela do Kremlin. Com aparatos herdados da outrora União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e um sistema de informações visto por muitos analistas como orwelliano, a Intel de Moscou é órgão vital da Federação Russa em sua investida por influência externa e rechaço das atividades ocidentais que possam ser vistas como agressivas à Rússia.

A Lei da Internet Soberana, as alegações de parcialidade do Sci-hub, a instalação de softwares russos em aparelhos comercializados no país e os dissídios frequentes entre a Sociedade de Proteção da Internet e redes sociais parecem representar um modus operandi interno para a angariação de dados sensíveis e importantes para as necessidades do governo. O GRU (Diretório Principal de Inteligência e Equipe Geral, responsável por investigações domésticas) dá novo sentido ao HUMINT (Human Intelligence – Inteligência Humana) e ao SIGINT (coleta de dados através de interceptação de sinais, ou, simplificadamente, Inteligência de Sinais), utilizando todas as ferramentas que a modernidade pode oferecer. Cabe lembrar que a Rússia é famosa pela sua presença online através de memes, acusações de fake news e desinformação, existindo pesquisas conduzidas por anos consecutivos que apontam haver uma parceria crescente entre as agências de Inteligência russas e cyber-criminosos, embora seja algo que precisa ser comprovado.  

Centro Administrativo de Defesa Nacional

No âmbito internacional, o Serviço de Inteligência Estrangeira Russa (SVR) conduz operações de HUMINT e SIGINT de maneira mais audaz. Atualmente, GRU e SVR se comunicam pela Agência Federal para Comunicações e Informação do Governo (FAPSI), responsável pelo desenvolvimento e manutenção de bancos de dados e sistemas de comunicação para apoiar a inteligência e a aplicação da lei russa. Nota-se que os rebentos da KGB perfazem suas competências e, com o auxílio da recente FAPSI, zelam conjuntamente pela segurança nacional da Rússia, cada qual aplicando seus métodos independentes.  

Emblema do Serviço de Inteligência Estrangeira Russa (SVR)

Um possível exemplo do funcionamento da Intel russa é o dispêndio excessivo com militarização, o qual levanta questões sobre os motivos destes investimentos em tempos de relativa paz, e a adoção de campanhas de desinformação na África, que remete ao colonialismo chinês no continente em ações que serviços de contrainteligência de outros países consideram como nocivas e com o objetivo-mor de desestabilizar as potências ocidentais, sobretudo, da Europa e os Estados Unidos.

A Nato Review considera que as operações da Intel russa estão mudando suas táticas, e não seus objetivos. Na revista online, Dr. Mark Galeotti afirma que as campanhas de inteligência do Kremlin contra o ocidente em 2018 foram ousadas, dirigidas sobre alvos potencialmente perigosos para os interesses da Federação Russa. Entre os exemplos citados pelo Dr. Galeotti estão diplomatas expulsos e banidos da Grécia por tentativas de interferir na eleição histórica da mudança de nome da atual República da Macedônia do Norte, um espião russo tornou-se persona non grata na Suécia, entre muitos outros casos envolvendo agentes russos. O próprio presidente da Sérvia acusou a Rússia de espionagem, alegação rebatida por Maria Zakharova, representante das Relações Exteriores, dizendo que as provas de vídeo apresentadas eram apenas provocação para causar impasse entre os países.

Em novembro deste ano (2019), o ex-legislador búlgaro, Nikolai Malinov, acusado de espionar para a Rússia, recebeu um prêmio especial do presidente Vladimir Putin. Malinov foi acusado de transmitir informações sigilosas para duas organizações estratégicas russas, e sua condecoração foi vista no ocidente como a representação do descaso de Moscou para as constantes alegações de que a Rússia possui olhos famintos nos negócios das outras nações. 

Vladimir Putin como agente KGB, 1980

É inquestionável que a fama da Inteligência russa a precede, o que pode ser atestado pela compostura sagaz do atual Presidente do país e antigo agente da KGB, Vladimir Putin, frente às adversidades e oportunidades (Ver Bebês CRISPR e Parceria Rússia-China). Contudo, fazer parte de uma rede tão complexa de espionagem pode tornar-se uma armadilha para ursos: quanto mais se dedica o agente, mais preso às incumbências ele fica. Ralph Peters, do New York Post, afirma por experiência de primeira mão que “ninguém realmente se aposenta da inteligência russa” e, no final das contas, a própria Rússia é “Putin incorporado”.

Uma série de ataques a antigos oficiais russos no Reino Unido tomou conta dos tabloides em certas ocasiões. Em 2018, o ex-agente da GRU, Sergei Skripal, acusado de alta-traição por fornecer informações ao MI6, sofreu uma tentativa de assassinato pela substância tóxica novichok enquanto estava com sua filha em Salisbury, Inglaterra, ação sobre a qual existem acusações contra o governo, mas sem provas. A BBC ainda relata o caso de Alexander Litvinenko, ex-agente do Serviço Federal de Segurança Russo (FSB), envenenado pela substância radioativa polônio-210, que investigava, à época do seu assassinato, a morte de uma jornalista russa impertinente ao Kremlin.

Acusa-se que a existência de planos de calar dissidentes não são fenômenos recentes, apenas mudaram-se os meios de ação. Em 1974, o então comandante da KGB, Yuri Andropov, exilou o escritor Solzhenitsyn sob a acusação de que sua obra “O Arquipélago Gulag” era um perigoso documento político. No final, o plano de Andropov falhou, pois Solzhenitsyn não se tornou uma figura marcante dos emigrantes russos e tampouco se tornou o sussurro do Kremlin na Casa Branca, embora seu livro tenha feito um sucesso fenomenal ao retratar o tratamento e a vida nos campos de trabalho forçado do Comunismo Soviético. Apesar disso, nos anos seguintes, conforme apresentam pesquisadores, o então governo soviético continuou a tradição de exilar dissidentes ou mesmo trancafiá-los em sanatórios.

Atualmente, os serviços de inteligência reconhecem a influência dos expatriados na política de seus países de origem. No ano 2000, exilados russos no Reino Unido lançaram uma campanha feroz contra o recém-eleito presidente Putin, e percebeu-se que exilados e expatriados abastados podem interferir na imagem de seus países de origem dentro da nação acolhedora, claramente influenciando decisões tomadas por líderes e mesmo a criação de políticas internas e externas. Basta um intelecto ativo como o de Solzhenitsyn e Bulgakov* para causar repercussão.

Se forem verídicos os envolvimentos do governo russo nos casos de Litvinenko e Skripal, isso pode demonstrar que a inteligência russa teve que se adaptar para não perecer após a queda da União Soviética. Diferente da China, sobre a qual se acusa que recruta e infiltra homens e mulheres sem o título explícito de agentes, a Rússia continua a exportar inteligência de alto nível, e mesmo suas aparentes falhas, são meticulosamente calculadas. De acordo com a Quartz**, o agente veterano da CIA, Dan Hoffman, que serviu anos em Moscou, diz que algumas operações da intel russa são carregadas de incompetência proposital, e isso faz parte de uma estratégia maior. Por exemplo, a reunião de 2016 de Donald Trump Junior, Jared Kushner e o campanhista Paul Manafort deixou uma trilha desde o Trump Tower até o Kremlin, o que levou Vladimir Putin a alcançar dois objetivos: causar tumulto no governo Americano e dar à Rússia o “direito de gabar-se sobre seu poder no palco global”.

Tomando os fatos apresentados, observa-se que o desgastado urso russo é capaz de aprender novos truques, e a recorrente exposição do país na mídia demonstra que se está fazendo notar, mesmo pelas “falhas”.

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Nota:

* Mikhail Bulgakov: Médico, escritor e satirista, crítico do regime Estalinista; seu romance de maior sucesso, censurado e banido por muito tempo foi “O Mestre e Margarida”. https://www.britannica.com/biography/Mikhail-Bulgakov

** Quartz: Revista virtual de cunho principalmente econômico. (https://qz.com/)

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Sala de Conferência do Centro Administrativo de Defesa Nacional” (Fonte): http://www.kremlin.ru/events/president/news/47256

Imagem 2 Centro Administrativo de Defesa Nacional” (Fonte): http://structure.mil.ru/structure/structuremorf.htm

Imagem 3 Emblema do Serviço de Inteligência Estrangeira Russa (SVR)” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/9f/Emblem_of_the_Foreign_Intelligence_Service_of_Russia.svg

Imagem 4 Vladimir Putin como agente KGB, 1980” (Fonte Kremlin.ru): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/d/d6/Vladimir_Putin_in_KGB_uniform.jpg

ECONOMIA INTERNACIONALEURÁSIANOTAS ANALÍTICAS

“Poder da Sibéria” muda perspectivas de mercado energético para Rússia e China

Percorrendo incríveis 8.111 quilômetros de extensão (3.000 km na Rússia, e 5.111 km na China) e com capacidade de exportação de 38 bilhões de metros cúbicos de gás por ano, Vladimir Putin e Xi Jinping celebraram a cerimônia de lançamento do gasoduto Poder da Sibéria (Power of Siberian) durante videoconferência na segunda-feira (2 de dezembro de 2019). A parceria entre Gazprom e China National Petroleum Corporation (CNPC) é descrita como “um prodígio da infraestrutura energética – e da engenharia política”.

Marcando o septuagésimo aniversário das relações diplomáticas entre Rússia e China, o funcionamento do gasoduto ocorre num momento em que as duas nações enfrentam sanções impostas pelas potências ocidentais. A República Popular da China tem buscado alternativas ao carvão devido a problemas de poluição do ar e emissão excessiva de carbono, ao mesmo tempo em que a Rússia tenta mitigar os impactos das restrições financeiras advindas do impasse sobre a Crimeia em 2014.

O projeto de 55 bilhões de dólares (aproximadamente, 227,7 bilhões de reais)* sinaliza a ignição de um acordo de 30 anos, assinado entre Moscou e Beijing em 2014, num valor estimado em 456 bilhões de dólares (em torno de 1,89 trilhão de reais)*. Alguns especialistas, contudo, duvidam da viabilidade do gigantesco gasoduto em termos de lucros: o colapso do rublo russo em 2016 aumentou o gasto do valor inicial em cerca de 29 bilhões de dólares (próximo de 120 bilhões de reais)*. Jenny Yang e Anna Galtsova, analistas da IHS Markit, escreveram em nota que, todavia, é impossível prever se a Gazprom terá lucros no projeto, uma vez que foi concebido numa época em que o preço do petróleo era aproximadamente duas vezes o valor atual, e a Gazprom sempre conectou seus contratos ao valor do petróleo.

Conforme reportado pela Reuters, o compromisso de Moscou em suprir energia para a China consolida a posição desta como maior mercado de exportação do país, dando à Rússia uma alternativa aos mercados do Ocidente. Putin assistiu, em videoconferência simultânea com Xi Jinping, ao início dos serviços do Poder da Sibéria, e considerou o evento “histórico, não apenas para o mercado de energia global, mas, acima de tudo, para nós – Rússia e China”.

O Presidente chinês também se pronunciou e disse: “O gasoduto da rota leste é um projeto notável da cooperação energética China-Rússia e um paradigma de profunda convergência entre os interesses dos dois países, e uma cooperação ganha-ganha”. Xi ainda reforçou a necessidade de tornar o gasoduto “verde, fortalecendo laços de amizade e desenvolvimento das regiões envolvidas. Em seu site, a Gazprom garante que todos os tubos utilizados no Poder da Sibéria foram produzidos na Rússia e que a empresa se baseia em práticas não nocivas ao meio-ambiente.

Infográficos do Poder da Sibéria

Independentemente do veredicto econômico dos analistas, a revista online Fortune considera que a parceria energética Rússia-China tem um viés de autopreservação. Enquanto a Rússia diversifica seus mercados de exportação, não dependendo tanto da Europa, a China reduz a pressão auto-imposta das tarifas sobre as importações de Gás Liquefeito de Petróleo (GLP) americano (25%), e também explora novas rotas de suprimento energético para sua economia crescente, antes limitadas ao gasoduto Turcomenistão-China.

Putin e Xi Jinping, 13/11/2019

O mega-gasoduto deve operar com capacidade total em 2025, e, por enquanto, envia 10 milhões de metros cúbico de gás para a China todos os dias. Alexei Grivatch, Diretor Geral da Fundação Russa para Segurança Energética, consolida a ideia de uma cooperação quase simbiótica em tempos de crescimento industrial, incerteza econômica e combate ao aquecimento global: “Por um lado, o gasoduto vai expandir o suprimento de gás natural no mercado mais dinâmico do mundo, com crescimento de dois dígitos ao ano. Por outro lado, vai abrir o acesso da China aos estáveis fornecedores russos para suprir sua demanda crescente. Especialmente nas regiões que, no momento, não podem receber gás importado e, como resultado, sofrem extremamente com uma grande porção de carvão na balança energética”. Como afirmou Xi Jinping, é uma relação benéfica para ambas as partes. 

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Notas:

* Cotação do dólar em 09/12/2019: US$ 1 = BRL 4,14.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Primeira seção do Poder da Sibéria” (Fonte): http://en.kremlin.ru/catalog/regions/SA/events/46527

Imagem 2Infográficos do Poder da Sibéria” (Fonte): https://www.gazprom.com/press/media/2019/308796/

Imagem 3Putin e Xi Jinping, 13/11/2019” (Fonte): http://en.kremlin.ru/catalog/persons/351/events/62039

NOTAS ANALÍTICASTecnologia

Rússia aprova lei para banir aparelhos sem tecnologia doméstica

Após a entrada em vigor da Lei da Internet Soberana na Rússia, o país aprovou uma medida legal para banir a venda de dispositivos que não contenham tecnologia russa pré-instalada. A lei abrange smartphones, smart TVs e computadores, e os detalhes sobre os softwares e aparelhos afetados estão ainda por ser divulgados. Contudo, determinou-se que surtirá efeito a partir de Julho de 2020.

Em meio a polêmicas sobre o controle estrito do Kremlin à internet do país , proponentes da legislação defendem que esta é uma maneira de promover a inovação russa, sem que isso signifique o cerceamento de aparelhos e tecnologias estrangeiras. Conforme reportado pela BBC, em entrevista à Interfax, um dos coautores do documento, Oleg Nikolayev, explicou que a maioria dos aplicativos instalados nos aparelhos eletrônicos é de origem ocidental, e argumentou que “Naturalmente, quando uma pessoa os vê… deve pensar que não há alternativas domésticas disponíveis. E se, juntamente com os aplicativos pré-instalados, oferecermos aplicativos russos aos usuários, então eles terão o direito de escolher”.

Corroborando com a ideia de que a nova lei é um adendo benéfico, Alexander Yushchenko, do Partido Comunista, diz que ela  tornará os eletrônicos mais acessíveis aos idosos, pois “É claro que muitas pessoas podem instalar o que quiserem em seus smartphones e computadores, mas indivíduos de mais idade podem encontrar problemas, e eles precisam de ajuda”. Em outras palavras, não significa que software estrangeiro está banido do mercado, contudo, o software doméstico deve, mandatoriamente, fazer parte do quadro de aplicativos pré-instalados.

Alexander Yushchenko

Ainda que hajam pontos positivos e de autopromoção imbuídos na decisão, críticos da legislação temem que ela poderá forçar grandes empresas de tecnologia, como a Apple, para fora do país. De fato, acredita-se que foi criada de modo a taxar a gigante da tecnologia, pois foi elaborada por representantes dos quatro partidos do Parlamento russo e, de acordo com informação divulgada pelo The Bell, dois oficiais que participaram das discussões sobre a lei disseram que a administração presidencial estava fazendo lobbying para sua aprovação. A lei está sendo informalmente chamada de “lei contra a Apple”, uma vez que a companhia não instala softwares estranhos aos seus em nenhum lugar do mundo, inclusive na China. Um mandato para adicionar aplicações de terceiros seria o equivalente a jailbreaking* e significaria uma ameaça à segurança dos usuários dos dispositivos Apple, um risco que o titã americano pode não estar disposto a assumir.

Respaldando as críticas, a Associação de Companhias de Comércio e Fabricantes de Aparelhos Domésticos e Equipamentos de Computador (RATEK) constatou que não será possível pré-instalar software russo em alguns aparelhos e, confirmou que, como consequência, empresas internacionais presentes no mercado devem abandonar a Federação Russa. A RATEK (que engloba membros como Google, Apple e Samsung) enviou uma carta ao presidente Putin urgindo-o a vetar a lei, porque ela “terá um impacto negativo na nossa indústria; deteriorará a competitividade no campo do software russo e levará à sua monopolização”. 

Mais além das preocupações concernentes ao livre mercado, há uma forte desconfiança por parte de interpelantes da lei de que esta possa ser um método de espionar os usuários na Rússia. Após passar pelas duas Câmaras do Parlamento, a lei aguarda assinatura presidencial. Resta a Vladimir Putin a palavra final.

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Fontes das Imagens:

* Jailbreak: De acordo com o site Techtudo, “representa uma metáfora para o ato de burlar as restrições impostas por uma empresa em seus dispositivos, adicionando funcionalidades não oficiais a eles”.

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Fontes das Imagens:                                                                                                                

Imagem 1 Kapersky, desenvolvedora de softwares” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Kaspersky_virlab.JPG

Imagem 2 Alexander Yushchenko” (Fonteduma.gov.ru [CC BY 4.0 (https://creativecommons.org/licenses/by/4.0)]): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Alexander_Yushchenko_(2018-06-14).jpg