ECONOMIA INTERNACIONALEURÁSIANOTAS ANALÍTICAS

“Poder da Sibéria” muda perspectivas de mercado energético para Rússia e China

Percorrendo incríveis 8.111 quilômetros de extensão (3.000 km na Rússia, e 5.111 km na China) e com capacidade de exportação de 38 bilhões de metros cúbicos de gás por ano, Vladimir Putin e Xi Jinping celebraram a cerimônia de lançamento do gasoduto Poder da Sibéria (Power of Siberian) durante videoconferência na segunda-feira (2 de dezembro de 2019). A parceria entre Gazprom e China National Petroleum Corporation (CNPC) é descrita como “um prodígio da infraestrutura energética – e da engenharia política”.

Marcando o septuagésimo aniversário das relações diplomáticas entre Rússia e China, o funcionamento do gasoduto ocorre num momento em que as duas nações enfrentam sanções impostas pelas potências ocidentais. A República Popular da China tem buscado alternativas ao carvão devido a problemas de poluição do ar e emissão excessiva de carbono, ao mesmo tempo em que a Rússia tenta mitigar os impactos das restrições financeiras advindas do impasse sobre a Crimeia em 2014.

O projeto de 55 bilhões de dólares (aproximadamente, 227,7 bilhões de reais)* sinaliza a ignição de um acordo de 30 anos, assinado entre Moscou e Beijing em 2014, num valor estimado em 456 bilhões de dólares (em torno de 1,89 trilhão de reais)*. Alguns especialistas, contudo, duvidam da viabilidade do gigantesco gasoduto em termos de lucros: o colapso do rublo russo em 2016 aumentou o gasto do valor inicial em cerca de 29 bilhões de dólares (próximo de 120 bilhões de reais)*. Jenny Yang e Anna Galtsova, analistas da IHS Markit, escreveram em nota que, todavia, é impossível prever se a Gazprom terá lucros no projeto, uma vez que foi concebido numa época em que o preço do petróleo era aproximadamente duas vezes o valor atual, e a Gazprom sempre conectou seus contratos ao valor do petróleo.

Conforme reportado pela Reuters, o compromisso de Moscou em suprir energia para a China consolida a posição desta como maior mercado de exportação do país, dando à Rússia uma alternativa aos mercados do Ocidente. Putin assistiu, em videoconferência simultânea com Xi Jinping, ao início dos serviços do Poder da Sibéria, e considerou o evento “histórico, não apenas para o mercado de energia global, mas, acima de tudo, para nós – Rússia e China”.

O Presidente chinês também se pronunciou e disse: “O gasoduto da rota leste é um projeto notável da cooperação energética China-Rússia e um paradigma de profunda convergência entre os interesses dos dois países, e uma cooperação ganha-ganha”. Xi ainda reforçou a necessidade de tornar o gasoduto “verde, fortalecendo laços de amizade e desenvolvimento das regiões envolvidas. Em seu site, a Gazprom garante que todos os tubos utilizados no Poder da Sibéria foram produzidos na Rússia e que a empresa se baseia em práticas não nocivas ao meio-ambiente.

Infográficos do Poder da Sibéria

Independentemente do veredicto econômico dos analistas, a revista online Fortune considera que a parceria energética Rússia-China tem um viés de autopreservação. Enquanto a Rússia diversifica seus mercados de exportação, não dependendo tanto da Europa, a China reduz a pressão auto-imposta das tarifas sobre as importações de Gás Liquefeito de Petróleo (GLP) americano (25%), e também explora novas rotas de suprimento energético para sua economia crescente, antes limitadas ao gasoduto Turcomenistão-China.

Putin e Xi Jinping, 13/11/2019

O mega-gasoduto deve operar com capacidade total em 2025, e, por enquanto, envia 10 milhões de metros cúbico de gás para a China todos os dias. Alexei Grivatch, Diretor Geral da Fundação Russa para Segurança Energética, consolida a ideia de uma cooperação quase simbiótica em tempos de crescimento industrial, incerteza econômica e combate ao aquecimento global: “Por um lado, o gasoduto vai expandir o suprimento de gás natural no mercado mais dinâmico do mundo, com crescimento de dois dígitos ao ano. Por outro lado, vai abrir o acesso da China aos estáveis fornecedores russos para suprir sua demanda crescente. Especialmente nas regiões que, no momento, não podem receber gás importado e, como resultado, sofrem extremamente com uma grande porção de carvão na balança energética”. Como afirmou Xi Jinping, é uma relação benéfica para ambas as partes. 

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Notas:

* Cotação do dólar em 09/12/2019: US$ 1 = BRL 4,14.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Primeira seção do Poder da Sibéria” (Fonte): http://en.kremlin.ru/catalog/regions/SA/events/46527

Imagem 2Infográficos do Poder da Sibéria” (Fonte): https://www.gazprom.com/press/media/2019/308796/

Imagem 3Putin e Xi Jinping, 13/11/2019” (Fonte): http://en.kremlin.ru/catalog/persons/351/events/62039

NOTAS ANALÍTICASTecnologia

Rússia aprova lei para banir aparelhos sem tecnologia doméstica

Após a entrada em vigor da Lei da Internet Soberana na Rússia, o país aprovou uma medida legal para banir a venda de dispositivos que não contenham tecnologia russa pré-instalada. A lei abrange smartphones, smart TVs e computadores, e os detalhes sobre os softwares e aparelhos afetados estão ainda por ser divulgados. Contudo, determinou-se que surtirá efeito a partir de Julho de 2020.

Em meio a polêmicas sobre o controle estrito do Kremlin à internet do país , proponentes da legislação defendem que esta é uma maneira de promover a inovação russa, sem que isso signifique o cerceamento de aparelhos e tecnologias estrangeiras. Conforme reportado pela BBC, em entrevista à Interfax, um dos coautores do documento, Oleg Nikolayev, explicou que a maioria dos aplicativos instalados nos aparelhos eletrônicos é de origem ocidental, e argumentou que “Naturalmente, quando uma pessoa os vê… deve pensar que não há alternativas domésticas disponíveis. E se, juntamente com os aplicativos pré-instalados, oferecermos aplicativos russos aos usuários, então eles terão o direito de escolher”.

Corroborando com a ideia de que a nova lei é um adendo benéfico, Alexander Yushchenko, do Partido Comunista, diz que ela  tornará os eletrônicos mais acessíveis aos idosos, pois “É claro que muitas pessoas podem instalar o que quiserem em seus smartphones e computadores, mas indivíduos de mais idade podem encontrar problemas, e eles precisam de ajuda”. Em outras palavras, não significa que software estrangeiro está banido do mercado, contudo, o software doméstico deve, mandatoriamente, fazer parte do quadro de aplicativos pré-instalados.

Alexander Yushchenko

Ainda que hajam pontos positivos e de autopromoção imbuídos na decisão, críticos da legislação temem que ela poderá forçar grandes empresas de tecnologia, como a Apple, para fora do país. De fato, acredita-se que foi criada de modo a taxar a gigante da tecnologia, pois foi elaborada por representantes dos quatro partidos do Parlamento russo e, de acordo com informação divulgada pelo The Bell, dois oficiais que participaram das discussões sobre a lei disseram que a administração presidencial estava fazendo lobbying para sua aprovação. A lei está sendo informalmente chamada de “lei contra a Apple”, uma vez que a companhia não instala softwares estranhos aos seus em nenhum lugar do mundo, inclusive na China. Um mandato para adicionar aplicações de terceiros seria o equivalente a jailbreaking* e significaria uma ameaça à segurança dos usuários dos dispositivos Apple, um risco que o titã americano pode não estar disposto a assumir.

Respaldando as críticas, a Associação de Companhias de Comércio e Fabricantes de Aparelhos Domésticos e Equipamentos de Computador (RATEK) constatou que não será possível pré-instalar software russo em alguns aparelhos e, confirmou que, como consequência, empresas internacionais presentes no mercado devem abandonar a Federação Russa. A RATEK (que engloba membros como Google, Apple e Samsung) enviou uma carta ao presidente Putin urgindo-o a vetar a lei, porque ela “terá um impacto negativo na nossa indústria; deteriorará a competitividade no campo do software russo e levará à sua monopolização”. 

Mais além das preocupações concernentes ao livre mercado, há uma forte desconfiança por parte de interpelantes da lei de que esta possa ser um método de espionar os usuários na Rússia. Após passar pelas duas Câmaras do Parlamento, a lei aguarda assinatura presidencial. Resta a Vladimir Putin a palavra final.

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Fontes das Imagens:

* Jailbreak: De acordo com o site Techtudo, “representa uma metáfora para o ato de burlar as restrições impostas por uma empresa em seus dispositivos, adicionando funcionalidades não oficiais a eles”.

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Fontes das Imagens:                                                                                                                

Imagem 1 Kapersky, desenvolvedora de softwares” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Kaspersky_virlab.JPG

Imagem 2 Alexander Yushchenko” (Fonteduma.gov.ru [CC BY 4.0 (https://creativecommons.org/licenses/by/4.0)]): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Alexander_Yushchenko_(2018-06-14).jpg

EUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Adoção de crianças na Rússia pode ser a chave para salvar complexos rurais

Vilarejos ao norte da Rússia, em áreas remotas entre as grandes metrópoles de Moscou e São Petersburgo, estão sofrendo uma crise demográfica, inerente aos efeitos da globalização, qual seja o intenso fluxo de pessoas e informação e a procura de novas oportunidades. A expansão iminente da Rússia como ator global e regional após as reformas iniciadas com o presidente Mikhail Gorbachev (Glasnost e Perestroika) vulnerabilizou as áreas rurais, que, agora, sofrem com déficit de população economicamente ativa.

Após a dissolução da União Soviética, a demografia russa entrou em declínio. De acordo com a Radio Free Liberty, a população da Rússia diminuiu em 5 milhões de habitantes desde 1991 e cerca de 26.000 escolas fecharam suas portas nas últimas duas décadas, sendo 22.000 delas na zona rural. Neste contexto, muitas crianças são entregues para adoção (relembrando que na época soviética não havia o termo “acolhimento” e “adoção” era o termo generalizado, o que ainda hoje ocorre), porque seus tutores já não podem mantê-las ou foram incapazes de levá-las consigo na jornada em busca de trabalho.

Crianças de Kitezh e Orion

Em Brodi, 500 quilômetros ao norte de Moscou, esses jovens são acolhidos por famílias que desejam compartilhar seu lar e manter vivas as tradições do lugar onde nasceram. Os lares permitem às crianças viver uma juventude saudável, ao mesmo tempo que evitam o desaparecimento gradual do vilarejo e despertam esperança em seus conterrâneos. O vilarejo, que hoje conta com apenas três escolas, credita a sobrevivência das instituições aos esforços dos “pais adotivos”. Gennady Chistyakov, um dos diretores de escola, crê que os arranjos beneficiam as crianças e o mecanismo de sobrevivência das vilas, pois, enquanto o Estado suporta as pessoas que cuidam dos órfãos”, elas não saem em busca de trabalho em outros lugares. Em contrapartida, os jovens não precisam crescer em orfanatos.

A professora Yekaterina Solovyova já acolheu 11 crianças desde 1998. Uma sanção imposta pela Federação Russa aos Estados Unidos em 2012, proibindo a adoção de crianças russas por americanos, agravou a crise de órfãos e obrigou o país a estimular internamente a adoção/acolhimento, o que ajudou pessoas como a professora Yekaterina. Hoje, ela conta com uma ajuda mensal do governo equivalente a US$ 94.00 (aproximadamente R$386,0, na cotação de 19/11/2019) por criança. Solovyova diz que não o faz pelo dinheiro, e explica que “Quando há crianças na vila, quando há uma escola, o vilarejo vive (…) significa que a vila não vai morrer”.

Família russa com filhos sem distinção

Contudo, embora Brodi conte com a ajuda de moradores e professores para manter a cidadela viva por ora, há uma preocupação legítima com a nova geração de docentes e profissionais em geral. Talvez, a resposta para este desafio esteja em outros projetos similares, como, por exemplo, a Vila Orion, fundada em 2004 por Dmitry Morozov, o qual recebeu uma Ordem de Honra do próprio presidente Putin em 2007.

Com um conceito um pouco distinto, a vila é composta por famílias de acolhimento que vivem com seus rebentos de sangue e ainda com seus filhos acolhidos em casas individuais. Conforme retratado pela BBC News, os órfãos são convidados a se juntarem às famílias, e todas as atividades desenvolvidas no âmbito das comunidades do complexo são centradas no desenvolvimento das crianças.

Por tratarem os jovens acolhidos com respeito e carinho, as pequenas comunidades russas podem contar com aliados para manter o legado de gerações que se foram e ainda estão por vir.    

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Comunidade para Crianças Orion” (Fonte): https://www.ecologia.org.uk/kitezh-orion/

Imagem 2 Crianças de Kitezh e Orion” (Fonte): https://www.ecologia.org.uk/wp-content/uploads/2014/06/Kids-Band-1140×460.jpg

Imagem 3Família russa com filhos sem distinção” (Fonte): https://files.globalgiving.org/pfil/14787/ph_14787_70850.jpg?m=1425332832000

ÁSIAEURÁSIANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Rússia e China na guerra da (des)informação

Com o ardiloso uso das redes sociais para espalhar fakenews, a desinformação tornou-se uma ferramenta poderosa de controle das massas. A velocidade e a quantidade de dados que trafegam diariamente em nossas páginas iniciais não permitem um escrutínio necessário. Por vezes, o receptor crê em títulos bem elaborados ou textos passionais, sem analisar o conteúdo. Rússia e China se beneficiam desta estratégia.

Recentemente, protestos pró-democracia em Hong Kong chamaram a atenção do mundo. Os participantes foram discricionariamente taxados bandidos” e “radicais por Beijing, como maneira de apaziguar o alarde na China. Imagens de rufiões invadindo as ruas e alegações sem provas de que os movimentos são apoiados pela CIA e grupos estrangeiros estão sendo disseminados pela mídia chinesa, embora desacreditados pelos observadores de fora

Especialistas na área de fakenews e desinformação comparam a abordagem chinesa com a abordagem russa em trabalhar informações jornalísticas, e concluem que são diferentes em estilo e técnica, em parte pelas perspectivas e objetivos divergentes dos países. Enquanto a China “é mais sobre autodefesa, a Rússia é mais sobre ativamente sair a campo, mirando em eventos estrangeiros”, diz o professor Haifeng Huang, do campus Merced da Universidade da Califórnia. Nesse sentido, para ele, na guerra da desinformação a China “se comporta melhor” aos olhos do mundo.

Russia Operação INFEKTION de desinformação

A Rússia conta com uma agência de propaganda chamada Agência de Pesquisa da Internet (Internet Research Agency), sobre a qual há acusações de ser responsável por travar uma guerra de memes* para dividir os Estados Unidos. Isso demonstra um alto nível de conhecimento de causa e, pode-se concluir, se as acusações forem corretas, que os russos se preparam com “meses e meses de antecedência” para criar o paradigma perfeito para espalhar as notícias que querem que o mundo saiba, e, de pronto, a própria influência.

Acredita-se que o Kremlin atingiu um alto nível de sofisticação em trabalhar conteúdo pelas suas origens na longa experiência soviética de espionagem e na vantagem sobre a China, que é possuir mais laços diplomáticos com o Ocidente antes de 1970. Professor Huang ainda diz que as autoridades chinesas “não têm um entendimento sofisticado de discursos comuns, perspectivas e opinião pública fora da China e não sabe como se envolver efetivamente com as sociedades ocidentais”. 

Pelo que tem sido disseminado e apontado por analistas, as informações e (des)informações da Federação Russa são mais críveis que o conteúdo forçado desenvolvido pela China. O Kremlin tem mais habilidade em se infiltrar onde lhe aprouver. Ressalte-se que os escopos são diferentes e não parece que isso mudará tão cedo. Enquanto Beijing olha para dentro, Moscou concentra-se para fora, especialmente agora com a nova Lei da Internet Soberana, que lhe dá a segurança interna de que necessita.

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Nota:

Meme: imagem, conceito ou frase que se espalha rapidamente no meio virtual, com o objetivo de causar impacto, normalmente de maneira humorada.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 “Repórteres com Fake News 1894” (Fonte – Frederick Burr Opper): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:The_fin_de_si%C3%A8cle_newspaper_proprietor_(cropped).jpg

Imagem 2 “Russia Operação INFEKTION de desinformação” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/3/38/Deception%2C_Disinformation%2C_and_Strategic_Communications.pdf

ÁFRICANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Primeira Cúpula Rússia-África sinaliza retorno de influência ao continente africano

Após a Semana Russa da Energia, em Moscou, a cidade-balneário de Sochi sediou a primeira Cúpula Rússia-África, nos dias 23 e 24 de Outubro (2019). O evento contou com a presença de 43 Chefes de Estado africanos, e foi co-presidido pelo presidente russo Vladimir Putin e pelo Presidente egípcio e da União Africana, Abdel Fattah el-Sisi.

A cimeira ocorreu concomitantemente ao Fórum Econômico Rússia-África, e ambos discutiram pontos críticos relacionados ao papel da Federação Russa na promoção da África e o viés econômico dos Estados africanos no sistema financeiro internacional, bem como desafios de securitização. Neste paradigma, o conhecimento em segurança e influência na exportação de armas privilegiam Moscou nos negócios com o continente africano.

De acordo com o Financial Times, o Kremlin diz que negócios comerciais no valor de 12,5 bilhões de dólares* em investimento foram tratados na cúpula, onde áreas como energia, agropecuária, mineração e armamentos foram abordadas.  O foco, contudo, foi expandir o comércio de armas já existente, mantendo, assim, a hegemonia russa no suprimento de armamentos para o território africano.

O evento pioneiro está sendo tratado como uma empreitada da Rússia para exercer influências na África, enquanto potências como os Estados Unidos miram em outra direção. Durante a cúpula, oficiais russos arguiram que firmar acordos com seu país garante mais independência aos africanos para negociarem com potências como França, Reino Unido e mesmo China.

A própria Declaração da Primeira Cúpula Rússia-África envasa o comprometimento da Rússia e dos Estados Africanos em “trabalhar juntos para contra-atacar o despotismo político e chantagem financeira no comércio internacional e cooperação econômica”, dispositivo que coaduna a nova instância russa em sua relação com a África. O jornalista Joe Penney, em contribuição ao site Quartz Africa, considera que as palavras de Putin em seu discurso de abertura “posicionaram a nova incursão (da Rússia) no continente na tradição soviética de luta contra o colonialismo”.  

Chefes de delegações posam para foto na Primeira Cúpula Rússia-África

Embora a Federação Russa esteja muito atrás da China no que tange a investimentos e comércio com a África, as ofertas do país para o continente (usinas nucleares, jatos-caça, helicópteros e sistemas de defesa antimísseis) e o conceito de negócios “sem comprometimentos”, tornam a aliança Rússia-África atrativa. O Kremlin desvelou planos de dobrar os investimentos atuais no continente nos próximos anos. O presidente Putin demonstrou otimismo e afirmou que a cúpula “abriu uma nova página na história das relações da Rússia com os países africanos”, e celebrou o sucesso dos esforços conjuntos para “desenvolver uma cooperação integral mutuamente benéfica, bem-estar, futuro pacífico e prosperidade” dos países e povos envolvidos.  

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Nota:

* 12,5 bilhões de dólares = aproximadamente, a R$49.838.036.798,96 – na cotação do dia 28/10/2019.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Vladimir Putin na Primeira Cúpula RússiaÁfrica” (Fonte): http://en.kremlin.ru/events/president/news/61893/photos/61680

Imagem 2 Chefes de delegações posam para foto na Primeira Cúpula RússiaÁfrica” (Fonte): http://en.kremlin.ru/events/president/news/61893/photos/61668

ECONOMIA INTERNACIONALEURÁSIANOTAS ANALÍTICAS

Semana Russa de Energia traz prospectos positivos para o país

A Semana Russa de Energia (Russian Energy Week) aconteceu entre os dias 5 e 9 de Outubro de 2019, em Moscou, e contou com número recorde de participantes. De acordo com Caspian News, o evento reuniu mais de 10.000 representantes de 200 companhias e 80 países, e uma série de acordos foram firmados.

O fórum internacional foi organizado pelo Ministério da Energia da Federação Russa e a Fundação Roscongress, com apoio do Governo de Moscou. O carro-chefe entre os mais de 70 eventos apresentados foi o painel “Parcerias de Energia para o Crescimento Sustentável”, presidido pelo presidente Vladimir Putin. Em seu discurso, no dia de abertura do fórum, Putin destacou o importante papel da Rússia nas cadeias de distribuição de energia no mercado global e salientou a preocupação compartilhada dos participantes em “cooperar e construir confiança” e “aplicar todos os meios possíveis para equilibrar as necessidades do mercado”, com interesses coletivos, como a segurança energética e o meio ambiente.

Principais fornecedores de gás natural para a Europa entre 2010-2017

A Rússia é um dos maiores produtores globais de energia (em especial, gás natural), e a presença do presidente Putin enfatiza seu compromisso de investimento no setor energético como principal fonte de rendimento do país. Após a crise na Ucrânia em 2014 e os recorrentes impasses com Bruxelas, a Federação Russa bifurcou o foco energético para o mercado asiático. De acordo com o presidente do conselho da Gazprom, Viktor Zubcov, o mercado de gás da China poderá ser, logo, equiparável ao da Europa.  

Dois novos gasodutos – Nord Stream 2 e TurkStream – estão a ser lançados para o mercado europeu, com uma projeção de entrega de 86,5 bilhões de metros cúbicos adicionais anualmente. Ainda, recentes sanções de Washington contra a Venezuela e o Irão redirecionaram os clientes desses países ao petróleo russo, e as consequências da guerra comercial entre Estados Unidos e China contribuem para a aproximação de companhias de energia chinesas e a Rússia.

Putin na Reunião Plenária da Semana Russa de Energia

Todos estes fatores e a crescente demanda do mundo desenvolvido por energias renováveis reforçam o importante papel da Rússia nesse setor. Durante o evento, o presidente Putin disse que continuará a abordar o comércio de energia com a Europa de maneira profissional, contudo, enfatizou que o país levará seus negócios para outros mercados caso a Europa siga “mantendo a energia refém de diferenças políticas”.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Reunião Plenária da Semana Russa de Energia” (Fonte): http://en.kremlin.ru/events/president/news/61704/photos/61160

Imagem 2 Principais fornecedores de gás natural para a Europa entre 20102017” (Fonte U.S. Energy Information Administration Europe natural gas supply composition / 20102017, Public Domain): https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=73862747

Imagem 3 Putin na Reunião Plenária da Semana Russa de Energia” (Fonte): http://en.kremlin.ru/events/president/news/61704/photos/61158