ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

Lockdown russo contra a COVID-19

Considerada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como o segundo país mais afetado em termos de infecções* por COVID-19 e detentora da segunda taxa de novas infecções mais rápidas do mundo, atrás somente dos Estados Unidos, a Federação Russa, através de seus órgãos de saúde e vigilância sanitária, se valeu de tentativas de minimizar os impactos da pandemia que se alastrou em seu território.

Processos severos de isolamento social, iniciados ainda em março (2020), com o fechamento precoce das fronteiras e a quarentena obrigatória de todos os recém-chegados, aliado ao bloqueio instituído em várias regiões do imenso país, não foram suficientes para barrar a curva crescente e rápida de infecções diárias que chegou a atingir 11 mil novos casos por dia. Ressalte-se que o bloqueio se deu principalmente na capital Moscou, onde a maioria dos seus 13 milhões de habitantes foram direcionados a ficar em suas casas.

Ocorrência de casos diários da COVID-19

Processos contrários à simpatia da população moscovita reiteraram o uso de métodos de implantação de permissão oficial da Prefeitura, através de um passe para liberar as pessoas para poderem dirigir ou utilizar transporte público, tendo como objetivo rastrear e restringir o movimento da população. Milhões de pessoas enviaram seu número de identificação, motivo de viagem, número de placa do carro, ou número de seu cartão de viagem, para receber esses passes com um código de 16 caracteres para apresentar à polícia, quando solicitado.

Verificação de passe individual pela polícia em Moscou

Outro dispositivo utilizado para monitorar a movimentação popular em Moscou foi o vasto sistema de câmeras de vigilância completa, com tecnologia de reconhecimento facial, testado durante comícios anti-Kremlin no ano de 2019 para rastrear manifestantes.  As autoridades da cidade também usaram dados de localização de telefones celulares de provedores de telefonia móvel para monitorar aqueles que foram “ordenados a se autocolocar” em quarentena por duas semanas, depois de sua chegada do exterior.

Mesmo com o direcionamento por parte do presidente Vladimir Putin em realizar um relaxamento do lockdown russo a partir do último dia 11 de maio, fontes do Governo disseram que os níveis de movimentação de pessoas em viagens tanto internas como externas não voltarão ao normal (pré-pandemia) antes do início do ano de 2021. A Agência Federal de Turismo da Rússia (Rostourism) alertou que as medidas levariam a “perdas colossais para a economia” de pelo menos 300 bilhões de rublos (cerca de R$ 23,8 bilhões**) por trimestre. Para compensar essas perdas, a Rússia deve introduzir vistos de turismo de entrada múltipla válidos por até cinco anos, de acordo com as recomendações da Rostourism. As regras atuais só permitem vistos de entrada por até 30 dias para turistas.

O Rostourism também busca reduzir o tempo de processamento de vistos para três dias úteis. Os atuais portadores de vistos de turista que não puderam viajar para a Rússia devido a restrições relacionadas ao coronavírus devem ser capazes de solicitar novos vistos gratuitamente, de acordo com as recomendações relatadas pela agência. Além disso, a agência quer estender os vistos eletrônicos, que entrarão em vigor em 1º de janeiro de 2021, de 16 dias para 90 a 120 dias, e torná-los de entrada única para entrada múltipla, ou seja, o turista poderá visitar o país mais de uma vez dentro do período proposto.

Bloqueio policial em Moscou

Outro ponto nevrálgico dentro do processo de lockdown, que afetará visivelmente a saúde econômica da Rússia, é que o número de pequenas empresas que tiveram que cessar suas atividades, por conta do afastamento social, e que solicitaram empréstimos aos Bancos ou órgão financeiros para pagar salários aos seus trabalhadores, superou as expectativas do governo e muitas delas já estão dispensando grande parte de sua força de trabalho.

O Ministro do Trabalho, Anton Kotyakov, declarou que 735.000 russos haviam aderido ao registro de desemprego nos últimos dois meses, elevando o total nacional para 1,2 milhão de desempregados. No entanto, isso não conta a história completa, pois muitos russos ganham a vida na economia informal, o que equivale a mais de 30% do PIB, de acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), e seu status não está registrado nas estatísticas oficiais. Kotyakov já avisou anteriormente que a recessão econômica causada pela COVID-19 poderia deixar entre cinco e seis milhões de russos desempregados, ou sete a oito por cento da força de trabalho. Tais números foram vistos pela última vez há uma década, após a Grande Crise Financeira de 2008.

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Notas:

* Casos confirmados em torno de 281.752 pessoas, conforme relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS) em 17/05/20 >> Fonte:  https://covid19.who.int/region/euro/country/ru

** Cotação rublo russo em 15/05/20 >> 1RUB = R$ 0,0793.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Desinfecção de bancos de um parque em Moscou” (Fonte): https://southfront.org/wp-content/uploads/2020/03/1-123.jpg

Imagem 2 Ocorrência de casos diários da COVID19” (Fonte): https://coronavirus.jhu.edu/data/animated-world-map

Imagem 3 Verificação de passe individual pela polícia em Moscou” (Fonte): https://www.interfax.ru/photo/4841/48132

Imagem 4 Bloqueio policial em Moscou” (Fonte): https://www.interfax.ru/photo/4841/48132

ANÁLISES DE CONJUNTURACooperação Internacional

BRICS e a recuperação econômica pós-pandemia

Segundo especialistas, atualmente o mundo enfrenta um déficit de governança global onde é apresentado um cenário em que os EUA e muitos países da União Europeia (UE) querem manter certo nível de rivalidade com a China e a Rússia, reproduzindo, assim, certa semelhança de comportamento estruturado na época da Guerra Fria.

Este tipo de ambiente é contrário ao que deveria estar se realizando no intuito de elaborar trabalhos em direção a uma ordem internacional comum, e enfrentar conjuntamente desafios comuns, como o que se está sendo configurado com o evento da COVID-19. Relatórios de instituições internacionais descrevem como as atividades das principais instituições de governança global, como o Conselho de Segurança da ONU ou o G20, foram quase completamente obstruídas. Além disso, no contexto do confronto dos EUA com a China e a Rússia, as sanções unilaterais e as guerras comerciais tornaram-se uma realidade duradoura das relações internacionais.

Chefes de Estado do BRICS

A governança global mais fraca e a rivalidade global intensificada tornaram a coordenação de políticas externas e econômicas uma necessidade para países que já se apresentam como alvos de políticas agressivas dos EUA, ou podem no futuro se tornar. Isso é principalmente verdade para a Rússia e a China, mas poderia potencialmente se aplicar à Índia, Brasil e África do Sul.

A COVID-19 se apresentou não só como um desafio mundial contra os preceitos de segurança internacional, principalmente na área da saúde, mas, também, se apresentou como um palco para a rivalidade política que reforçou algumas disputas internacionais e conflitos de ordem econômica, onde, nesse cenário sistemicamente desbalanceado, o BRICS* desponta, segundo analistas, como uma importante instituição de governança global com uma visão comum para intensificar a cooperação. Atualmente, em relação ao mundo, o grupo representa cerca de 42% da população, 23% do PIB, 30% do território e 18% do comércio global.

A nova crise global tornou ainda mais importante a expansão da cooperação econômica entre os países do BRICS. É imperativo acelerar o desenvolvimento de ferramentas econômico-financeiras inovadoras para reduzir a eficácia de eventos de ordem negativa, tais como sanções, crises econômicas ou pandemias.

Logotipo do novo Banco de Desenvolvimento do BRICS

Um primeiro passo foi dado para a manutenção do equilíbrio do grupo com a alocação de 15 bilhões de dólares (cerca de R$ 81,57 bilhões**) pelo novo Banco de Desenvolvimento do BRICS (criado em 2014 em alternativa ao Fundo Monetário Internacional e ao Banco Mundial), no intuito de criar um instrumento de crédito especial para projetos de recuperação econômica pós-pandemia.

Sob um aspecto analítico, o surto de coronavírus teve um impacto fundamental na importância da cooperação dos países do BRICS devido à sua natureza global, tendo como pressuposto a não possibilidade de enfrentar esses desafios como um grupo de apenas cinco membros. Para analistas que estudam o grupo, parcerias ampliadas devem estar entre as prioridades do BRICS, fazendo parte do esforço para os anos futuros com uma maior cooperação como parte do formato de um BRICS+, devendo manter um diálogo com os países mais comprometidos com o objetivo de formar uma ordem mundial policêntrica, buscar uma política econômica independente e ajudar a resolver os problemas globais e regionais.

Como líder rotativo do grupo a partir desse ano, o Presidente russo, Vladimir Putin, terá em mãos um grande desafio em convencer seus parceiros do BRICS a superar a falta de visão comum, especialmente no domínio político, e liderar o grupo para preencher o vazio de governança e combater crises econômicas.

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Notas:

* BRICS é um termo utilizado para designar o grupo de países de economias emergentes formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. “BRICS” é um acrônimo, ou seja, a junção das iniciais de palavras que formam o termo. Seu criador é o economista britânico Jim O’Neill, do grupo financeiro Goldman Sachs, que, em 2001, tentava encontrar uma forma de traduzir o crescimento econômico que seria protagonizado naquela década por Brasil, Rússia, Índia e China. Por conseguinte, empregou a expressão “BRIC”.

Naquele momento, o crescimento brasileiro ainda suscitava dúvidas, bem como a Rússia, que estava estagnada. Já a China apresentava taxas de crescimento elevadíssimas entre os demais e se destacava no cenário econômico mundial.

O estudo realizado por Jim O’Neil foi recebido com imensa satisfação nos países que protagonizam o BRIC. Assim, diante das perspectivas de crescimento e das notas das agências internacionais, os governos do BRIC impulsionaram oficialmente a possibilidade de constituição de um bloco entre esses países emergentes.

O BRIC se constituiu em bloco em 2009 e, desde então, vários encontros periódicos entre esses países foram realizados. Em 2011, mais um Estado foi agregado: a África do Sul. Assim, o BRIC virou BRICS. Contudo, a inclusão da África do Sul gerou críticas da comunidade econômica mundial, pois ela não estaria no mesmo nível de crescimento que os demais membros.

** Cotação do dólar em 30/04/20 >> 1US$ = R$ 5,438.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Bandeiras dos países membros do BRICS” (Fonte): https://brics.ibge.gov.br/

Imagem 2 Chefes de Estado do BRICS” (Fonte): http://brics2019.itamaraty.gov.br/espaco-multimidia/galeria

Imagem 3 Logotipo do novo Banco de Desenvolvimento do BRICS” (Fonte): https://www.ndb.int/

ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

O prolongamento do poder político de Putin

Estigmatizado, segundo biógrafos, como detentor de um exacerbado conservadorismo contra a degeneração moral do Ocidente, estruturando a defesa de um “caminho russo” em face das supostas manobras hostis do exterior e defendendo a afirmação de uma potência eurasiana como contrapeso à esfera atlântica, aceita-se, no entanto, que Vladimir Vladimirovitch Putin, atual Presidente da Rússia, desenhou por mais de duas décadas uma colcha de retalhos ideológica, apresentando, de um lado, um toque de pragmatismo político onde a objetividade, a praticidade e a sustentabilidade eram, na sua visão, a essência da bandeira russa, ao mesmo tempo em que, do outro lado, defendia, com a mão pesada do Estado, ações ideológicas antiocidentais, com o objetivo de estabilizar um país seriamente afetado pela gigantesca crise econômica e social que a abalaram em tempos recentes, tentando erradicar as feridas de um passado tenebroso, paralelamente à tomada de ações que garantam a defesa da soberania do país.

Em 16 de fevereiro (2020), após a assinatura de uma vasta reforma constitucional, a Federação Russa se prepara para novos desígnios de governança que estão se alinhando no cenário político do país. Putin, que desde 1999 vem exercendo na maior parte do período o comando absoluto como Chefe de Estado, poderá, através de uma Emenda Constitucional acrescentada à reforma proposta, estender seu papel como líder da nação eslava por mais doze anos (até 2036), após o término do seu mandato constitucional, que se encerrará em 2024.

Presidente russo Vladimir Putin

A aprovação da Reforma pelo Tribunal constitucional um mês após essa assinatura veio reiterar o que já havia sido sinalizado numa entrevista coletiva no final de 2019, quando Putin afirmava que a Constituição “é uma ferramenta viva, que deve corresponder ao nível de desenvolvimento da sociedade” e que “tudo, em princípio, pode ser alterado de uma maneira ou de outra”.

Para os críticos dessa “manobra” política, um novo Estado totalitário está se desenhando, antes mesmo que o mandato de Putin termine em 2024, possibilitando ao Kremlin reconsolidar o poder do regime sem que a sociedade russa ou observadores locais e estrangeiros tenham tempo para reagir. O cenário do primeiro período do governo de Putin foi que a Rússia ainda era um país europeu baseado em regras no estilo da democracia liberal ocidental, e apenas estava se tornando uma exceção devido a circunstâncias históricas difíceis, pois havia pelo menos uma pretensão de observar normas constitucionais no modelo político do Ocidente, como os limites de mandato.

Para esses críticos, os principais perdedores deste jogo político serão os “liberais do sistema” que ainda esperavam uma mudança política incremental de cima para baixo na Rússia, começando com um sistema político mais competitivo em 2024. Agora, muitos desses “liberais do sistema” podem estar inclinados a acreditar que têm mais em comum com a oposição do que com o Kremlin.

Tribunal Constitucional da Federação Russa

Considerada como uma revolução legal, as reformas propostas também sugerem Emendas Constitucionais para ampliar as garantias sociais, como a introdução da indexação anual das pensões entre outros benefícios socioeconômicos. A mensagem para o eleitor russo médio parece ser que uma ordem sociopolítica mais paternalista está a caminho, principalmente em questões ideológicas que trouxeram Deus, as crianças e a soberania à baila das discussões, que, segundo especialistas políticos, são uma tentativa de transformar o Putinismo* em uma instituição estatal.

As declarações constitucionais vêm na esteira de acontecimentos globais, tais como retirada da Rússia de um acordo com a OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) para limitar a produção petrolífera, desencadeando uma queda acentuada nos preços da commodity e, crucialmente para a Rússia, na taxa de câmbio do rublo (moeda local), além do enfrentamento nacional contra a pandemia do COVID-19. Esses dois eventos poderiam abalar o status quo do atual Governo, mas, segundo apoiadores de Putin, serão parte de um episódio que fortalecerá o convencimento de que ele deve permanecer no comando para orientar a Rússia ainda mais através da turbulência global.

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Nota:

* Segundo estudos políticos, é a ideologia, as prioridades e políticas do regime de governo praticado pelo presidente Vladimir Putin. O termo é utilizado na imprensa ocidental muitas vezes com uma conotação negativa para descrever o sistema político da Rússia sob Vladimir Putin como Presidente (2000-2008) e (2012-atual), e como Primeiro-Ministro (2008-2012), em que grande parte da política e poderes financeiros são controlados por grupos de pessoas pertencentes ao círculo de confiança de Putin.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Bandeira da Federação Russa” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Putinismo#/media/Ficheiro:Moscow_Russia_Flag_and_Hammer_and_Sickle.jpg

Imagem 2 Presidente russo Vladimir Putin” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Putinismo#/media/Ficheiro:Vladimir_Putin_-_2006.jpg

Imagem 3 Tribunal Constitucional da Federação Russa” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Constitutional_Court_of_Russia#/media/File:Zdanie_konstitucionnogo_suda.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

A escalada de tensões entre Rússia e Turquia na guerra civil da Síria

No último dia 5 de março (2020), em meio a uma desaceleração de acusações diplomáticas, a Rússia e a Turquia proclamaram um novo acordo de cessar-fogo para encerrar semanas de combate em Idlib, província da Síria localizada na porção noroeste do país e considerada o último enclave controlado pelos grupos rebeldes que lutam contra o Governo de Bashar al-Assad. Este “apaziguamento” entre o Presidente russo, Vladimir Putin, e o seu homólogo turco, Recep Tayyip Erdogan, colocou a saga sobre a questão das ações militares na região perpetrada pelos dois países, momentaneamente em modo de espera.

Para se entender esse desbalanceamento é preciso voltar alguns dias no tempo, quando as relações russo-turcas testemunharam um teste de estresse e esforços de diplomacia pessoal dos dois presidentes num nível sem precedentes.

Presidente russo Vladimir Putin (esq) e presidente turco Recep Tayyip Erdogan (dir)

No dia 27 de fevereiro (2020), um batalhão de infantaria mecanizado turco, composto por cerca de 400 soldados, tornou-se alvo de um ataque aéreo em uma estrada entre al-Bara e Balyun, cerca de 5 quilômetros ao norte de Kafr Nabl, no sul de Idlib. De acordo com fontes, dois caças Sukhoi Su-34 russos e dois caças Su-22 sírios lançaram bombardeios intensivos contra alvos do Exército Nacional Sírio*, apoiado pela Turquia no sul de Idlib.

Os mesmos jatos atingiram o comboio turco em ação coordenada, forçando-o a parar e os soldados a se abrigarem em vários edifícios à beira da estrada. O que se seguiu foi provavelmente o lançamento de bombas KAB-1500L** pelos jatos russos. Dois dos edifícios desabaram no ataque, deixando pelo menos 33 soldados turcos mortos sob os escombros, o que ocasionou a pior perda sofrida num único ataque pelos militares turcos desde 1993, quando tropas turcas sofreram severas baixas devido a confrontos com guerrilheiros separatistas curdos. Em retaliação, as autoridades turcas reagiram de forma imediata, lançando manobras ofensivas, por unidades de apoio terrestre e aéreo turcos, a todos os alvos conhecidos pertencentes ao Governo sírio.

Localização de Idlib no mapa da Síria

Um dia após a ação militar, Moscou divulgou uma nota informando que não haveria indícios de ataques realizados por aviões russos na área, e que a Rússia fez o seu melhor para garantir que o Exército sírio cesse o fogo para permitir a evacuação das tropas. No entanto, na mesma nota divulgada, o Kremlin acusa que os soldados turcos não deveriam estar na área onde as operações de contraterrorismo estavam em andamento, e Ancara não havia repassado informações sobre sua presença com antecedência.
Apesar da negação do envolvimento russo e de um telefonema subsequente entre os presidentes Erdogan e Putin para arrefecimento dos ânimos, especialistas estratégicos divulgam que a escalada parece ser um movimento russo deliberado e bem calculado e a atitude de Moscou dificilmente poderia ser dada como um sinal de que está disposta a recuar de seus objetivos, tanto políticos quanto militares na região.

A Turquia, por sua vez, se vê embrenhada em uma guerra com forças sírias apoiadas pela Rússia, onde Ancara apela aos aliados (EUA e Europa) por um apoio em um conflito no qual corre o risco de minar os laços amigáveis que construiu com Moscou. O pedido é uma mudança abrupta de rumo para Erdogan depois de anos de desagravo aos parceiros americanos e europeus, e sublinha o quanto está em jogo para a Turquia enquanto mergulha no conflito sírio do lado oposto à Rússia. Embora a Turquia insista que evitará qualquer confronto com as forças russas, a pressão sobre Erdogan para responder está aumentando, à medida que o número de vítimas turcas aumenta.

Outro ponto negativo contra a Turquia é o impacto de um êxodo em massa ao norte da Síria em direção às suas fronteiras de um montante entre 1 a 2 milhões de refugiados de Idlib. Embora a Turquia planeje abrigar os que fogem da região, a situação ainda aumentaria o seu fardo que já conta com outros 3,6 milhões de refugiados sírios, operação esta orquestrada juntamente com a União Europeia.

Bombardeio na Síria

De acordo com analistas, o acerto de cessar-fogo está fadado ao fracasso, tendo como base outros acordos malsucedidos (Sochi 2018), os quais não levaram em consideração a abordagem de uma crise humanitária que envolve um deslocamento massivo de refugiados e também a consideração da criação de uma zona de exclusão aérea para impedir que jatos militares bombardeassem hospitais e escolas.

Os recentes combates na Síria vêm se somar a uma numerosa lista de fatores negativos que desencadearam o que a Organização das Nações Unidas (ONU) diz ser a pior crise humanitária em uma guerra que afastou milhões de suas casas e matou centenas de milhares.

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Notas:

* O Exército Nacional Sírio, ou mais conhecido como Exército Livre da Síria, é o principal grupo armado de oposição ao governo de Bashar al-Assad. Apesar das informações do Exército Livre da Síria afirmar, em 2013, que o número de homens que formavam o grupo militar chegava aos 140 mil guerrilheiros treinados e prontos para conflitos bélicos, o número verdadeiro de combatentes do contingente é incerto. De acordo com alguns ativistas, o ELS vem perdendo membros gradativamente. Em sua maioria, os soldados descontentes desertam para a Jabhat al-Nusra, força militar síria descrita como “o braço mais agressivo e de maior êxito da força rebelde”. Este grupo é considerado mais violento do que o Exército Livre da Síria por apresentar uma ideologia mais próxima dos fundamentalistas islâmicos.

** KAB (Korrektiruyeskaya Aviatsionnaya Bomba), ou bomba aérea com correção de trajetória, são bombas guiadas russas usadas como armas de “segunda onda de ataque”. A primeira onda de ataque é feita em conjunto com aeronaves de supressão de defesa e apenas mísseis são usados. As bombas guiadas têm a vantagem de poderem ser lançadas a maiores altitudes, após as defesas serem suprimidas. A segunda onda é feita mais dentro do território contra alvos vitais, como centros de comando, pontes etc..

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Manifestante segurando bandeira da Síria” (Fonte): https://www.flickr.com/photos/thorstenstrasas/44408833692/in/photolist-2aEfT5q-gFDHXK-dPgxsT-2hBAuMa-SKF4kq-dZooQZ-TBaw58-zQBcfz-2aZZTMX-2guYdUL-6n7RFy-TLRHPr-TYwanu-2hXBZN5-2gJdNAx-e1yrAn-2iuEUxu-2iuEUCp-2iugnJj-2iugnyu-e1yrjt-dZoowe-2geFiBg-2hB97uw-q4Ncn9-o8g2KT-dZooCH-jckRav-ALSxfd-SKF4Wf-8KpanP-gLNxfx-gNgbxG-2h5MsZX-fAHAmY-4Dd2zf-2h5NcBB-NJ5jAk-fQitHd-22ert7Y-2gZeJTK-2gRg9Y4-gGUSXy-zTmkAf-zTmra1-gq3muV-TyBiK4-JYtRnh-eQEYUP-fQhqdo

Imagem 2 Presidente russo Vladimir Putin (esq) e presidente turco Recep Tayyip Erdogan (dir)” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/w/index.php?search=erdogan+and+putin&title=Special%3ASearch&go=Go&ns0=1&ns6=1&ns12=1&ns14=1&ns100=1&ns106=1#/media/File:Recep_Tayyip_Erdoğan_and_Vladimir_Putin_(2017-09-28)_(03).jpg

Imagem 3 Localização de Idlib no mapa da Síria” (Fonte): https://www.flickr.com/photos/[email protected]/17262895001/

Imagem 4 Bombardeio na Síria” (Fonte): https://gedes-unesp.org/bombardeios-na-siria-e-a-implosao-da-governanca-internacional/

ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

Rússia torna-se o maior comprador de ouro do mundo em 2019

À medida que as nações buscam a diversificação de seus ativos e menos dependência do dólar, o desejo de comprar ouro foi impulsionado, também nos últimos anos, pela incerteza econômica causada por tensões comerciais, crescimento econômico mundial lento e um ambiente de baixa taxa de juros.

O motivo para essa corrida entre as nações do mundo pelo aumento de suas reservas de ouro em seus Bancos Centrais é baseado principalmente pelas características específicas que o nobre metal apresenta. O ouro é um ativo altamente líquido, mas escasso. É comprado como um bem de luxo, tanto quanto um investimento, e, como tal, pode desempenhar quatro papéis fundamentais em uma carteira:

 • Uma fonte de retornos de longo prazo;

 • Um diversificador que pode mitigar perdas em tempos de estresse de mercado;

 • Um ativo líquido sem risco de crédito, que superou moedas fiduciárias;

 • Um meio de melhorar o portfólio global da performance econômica de um país.

Logotipo do World Gold Council

Desde 2001, a demanda de investimentos por ouro mundial cresceu, em média, 15% ao ano, de acordo com dados do World Gold Council (WGC). Isso tem sido impulsionado, em parte, pelo advento de novas formas de acesso ao mercado, como fundos negociados em bolsa (ETFs – Exchanged Trade Funds*) apoiados por ouro físico, mas, também, pela expansão da classe média na Ásia e um foco renovado na gestão efetiva de riscos após os ETFs de 2008-2009 (crise financeira nos EUA e na Europa).

Histórico das reservas de ouro da Rússia – em toneladas

Hoje, o ouro é mais relevante do que nunca para investidores institucionais atraídos pelo papel do metal como diversificador, devido à sua baixa correlação com a maioria dos ativos tradicionais (principalmente moedas fiduciárias que não apresentam lastro), e como um hedge contra o risco sistêmico e fortes recuos do mercado de ações. Como ativo estratégico, historicamente melhorou o retorno ajustado ao risco das carteiras, proporcionando retornos ao mesmo tempo em que reduz perdas e fornece liquidez para atender passivos em tempos de estresse no mercado.

Ranking dos países produtores de ouro

Posto isso, ao longo da última década, o aumento das incertezas econômica e geopolítica têm sido as forças motrizes que impulsionaram a compra de ouro pelos principais Bancos Centrais do planeta, particularmente a dos mercados emergentes. A década foi cercada por políticas monetárias não convencionais (como taxas de juros baixas ou negativas), a fim de restaurar a estabilidade econômica e o crescimento, bem como o aumento do nacionalismo/populismo, guerras comerciais e riscos de conflitos armados. Em resposta, os Bancos Centrais aumentaram sua alocação para o ouro, como foi o caso da Federação Russa que, em 2019, comprou 159 toneladas, elevando as reservas do metal a 2.271,2 toneladas. Graças a esse volume, o país eslavo se tornou o maior comprador de ouro monetário do ano, acumulando 20% das transações globais, além da terceira posição mundial como produtor.  

Ranking dos países com maiores reservas de ouro

A Rússia superou a China ainda em 2018, e a diferença entre os dois países só cresce. Pequim adquiriu cerca de 100 toneladas de ouro em 2019, atingindo 1.948 toneladas. O ranking global de reservas de ouro é liderado pelos EUA (8.133,5 toneladas), Alemanha (3.366,5), Itália (2.451,8) e França (2.436,0); em quinto lugar vem a Rússia.

Como as reservas dos países líderes permanecem inalteradas há anos, não se pode descartar que a Federação Russa venha a subir novas posições a partir de 2020.

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Nota:

* Exchange-Traded Fund (ETF) é um fundo de investimento negociado na Bolsa de Valores como se fosse uma ação. Um ETF detém ativos como ações, commodities ou títulos e, geralmente, opera com um mecanismo de arbitragem projetado para mantê-lo negociando próximo do seu valor patrimonial líquido, embora ocasionalmente possam ocorrer desvios. A maioria dos ETFs acompanham um índice, como um índice de ações ou índice de títulos, como, por exemplo, o Ibovespa Fundo de Índice (BOVA11). Neste caso, se o Ibovespa subir 10% em um mês, o ETF do Ibovespa vai ter um desempenho muito parecido, já descontando a taxa de administração. Caso o índice se desvalorize, o mesmo vai acontecer com a cota do ETF. Os ETFs podem ser atraentes como investimentos por causa de seus baixos custos, eficiência tributária e recursos semelhantes a ações.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Barras de ouro” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:400-oz-Gold-Bars-AB-01.jpg

Imagem 2 Logotipo do World Gold Council” (Fonte): https://www.gold.org/

Imagem 3 Histórico das reservas de ouro da Rússia em toneladas” (Fonte): https://tradingeconomics.com/russia/gold-reserves

Imagem 4 Ranking dos países produtores de ouro” (Fonte): https://www.gold.org/goldhub/data/historical-mine-production

Imagem 5 Ranking dos países com maiores reservas de ouro” (Fonte): https://www.gold.org/goldhub/research/gold-demand-trends/gold-demand-trends-full-year-2019

ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

O futuro das relações entre Rússia e OPEP

Considerada um marco sem precedentes na história da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), a Declaração de Cooperação entre as nações do grupo, que tem por objetivo o esforço conjunto para acelerar a estabilização do mercado global de petróleo por meio de ajustes voluntários de produção, adentrou o ano de 2020 com certas preocupações que podem determinar o futuro do referido pacto.

Bandeira da OPEP

Desde sua criação, em 10 de dezembro de 2016, a Declaração passou por uma série de reuniões ministeriais entre as nações da OPEP+ (14 países membros liderados pela Arábia Saudita, em conjunto com mais 10 nações não-membros, lideradas pela Federação Russa). Na última reunião realizada em 6 de dezembro de 2019, o grupo decidiu por uma redução adicional de produção voluntária de 500 mil bpd (barris por dia) sobre os níveis acordados na 175ª Reunião da Conferência da OPEP e na 5ª Reunião Ministerial da OPEP e não-OPEP, levando a um ajuste total de 1,7 milhão de bpd (1,7% da oferta global), considerado um dos mais profundos cortes de produção desta década.

Preço do barril de petróleo Brent

Esse último acordo visa a continuidade da estabilidade sustentável dos preços do barril, prevenindo o mercado de petróleo de um excesso de oferta e tentando contrabalançar a crescente produção proveniente dos campos de “Shale” (petróleo não convencional) dos EUA, que se tornou o maior produtor mundial da commodity, além de avanços em outros países que não fazem parte da OPEP, como Brasil e Noruega.

Segundo especialistas da área energética, o preço do barril Brent deverá se estabilizar entre os 60 e 65 dólares (entre R$251 e R$272*) durante o ano de 2020, mesmo tendo sofrido uma elevação de seu preço aos 71 dólares (R$297*) devido a escalada das tensões no Oriente Médio decorrentes de embates políticos entre EUA e Irã, e anotaram no dia 6 de janeiro novas máximas de oito meses com os receios de que a oferta da commodity na região fosse prejudicada. Passados os temores, os preços dos contratos Brent recuaram quase 8%, mais do que devolvendo os ganhos e acumulando agora perdas de cerca de 2,5% no ano.

A Rússia, maior produtora petrolífera entre os dez principais membros da aliança não pertencentes ao cartel, afirmou que realizará cortes na ordem de 70 mil bpd para contribuir com os objetivos da OPEP+ no primeiro trimestre de 2020, sob o argumento de evitar uma turbulência no mercado petrolífero durante o ano, mas, ao mesmo tempo, cogitou uma possível saída do grupo futuramente. Segundo declaração do Ministro de Energia da Rússia, Alexander Novak, os cortes de produção de petróleo não podem ser eternos e a Federação Russa deveria ir saindo aos poucos do pacto a fim de preservar participação de mercado e implementar projetos.

Para analistas internacionais, a questão é problemática, pois deixa claro o embate entre defender o preço do petróleo no mercado mundial ou garantir a participação nesse mesmo mercado. A OPEP+, no intuito de sustentar os preços, está beneficiando os produtores de petróleo norte-americanos que ganham vantagens ao poder continuar a extrair petróleo sem nenhuma restrição.

A possível saída da Rússia do acordo de cooperação poderia provocar uma redução no preço do barril Brent em aproximadamente 5 dólares (R$20,9*), segundo especulações de mercado, pois forçará a Arábia Saudita a aprofundar mais a sua redução de produção petrolífera, mas não se sabe se terá essa capacidade ou até mesmo disposição para tal processo. A OPEP+ se reunirá novamente em Viena nos dias 4 e 5 de março (2020), quando Moscou terá a oportunidade de tomar sua decisão.

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Nota:

* Cotação de 25/01/20 >> US$ 1 = R$ 4,186.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Sede da OPEP em Viena, Áustria” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Organização_dos_Países_Exportadores_de_Petróleo#/media/Ficheiro:Opec_Gebäude_Wien_Helferstorferstraße_17.jpg

Imagem 2 Bandeira da OPEP” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Organização_dos_Países_Exportadores_de_Petróleo#/media/Ficheiro:Flag_of_OPEC.svg

Imagem 3 Preço do barril de petróleo Brent” (Fonte): https://br.investing.com/commodities/brent-oil-streaming-chart