ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

A escalada de tensões entre Rússia e Turquia na guerra civil da Síria

No último dia 5 de março (2020), em meio a uma desaceleração de acusações diplomáticas, a Rússia e a Turquia proclamaram um novo acordo de cessar-fogo para encerrar semanas de combate em Idlib, província da Síria localizada na porção noroeste do país e considerada o último enclave controlado pelos grupos rebeldes que lutam contra o Governo de Bashar al-Assad. Este “apaziguamento” entre o Presidente russo, Vladimir Putin, e o seu homólogo turco, Recep Tayyip Erdogan, colocou a saga sobre a questão das ações militares na região perpetrada pelos dois países, momentaneamente em modo de espera.

Para se entender esse desbalanceamento é preciso voltar alguns dias no tempo, quando as relações russo-turcas testemunharam um teste de estresse e esforços de diplomacia pessoal dos dois presidentes num nível sem precedentes.

Presidente russo Vladimir Putin (esq) e presidente turco Recep Tayyip Erdogan (dir)

No dia 27 de fevereiro (2020), um batalhão de infantaria mecanizado turco, composto por cerca de 400 soldados, tornou-se alvo de um ataque aéreo em uma estrada entre al-Bara e Balyun, cerca de 5 quilômetros ao norte de Kafr Nabl, no sul de Idlib. De acordo com fontes, dois caças Sukhoi Su-34 russos e dois caças Su-22 sírios lançaram bombardeios intensivos contra alvos do Exército Nacional Sírio*, apoiado pela Turquia no sul de Idlib.

Os mesmos jatos atingiram o comboio turco em ação coordenada, forçando-o a parar e os soldados a se abrigarem em vários edifícios à beira da estrada. O que se seguiu foi provavelmente o lançamento de bombas KAB-1500L** pelos jatos russos. Dois dos edifícios desabaram no ataque, deixando pelo menos 33 soldados turcos mortos sob os escombros, o que ocasionou a pior perda sofrida num único ataque pelos militares turcos desde 1993, quando tropas turcas sofreram severas baixas devido a confrontos com guerrilheiros separatistas curdos. Em retaliação, as autoridades turcas reagiram de forma imediata, lançando manobras ofensivas, por unidades de apoio terrestre e aéreo turcos, a todos os alvos conhecidos pertencentes ao Governo sírio.

Localização de Idlib no mapa da Síria

Um dia após a ação militar, Moscou divulgou uma nota informando que não haveria indícios de ataques realizados por aviões russos na área, e que a Rússia fez o seu melhor para garantir que o Exército sírio cesse o fogo para permitir a evacuação das tropas. No entanto, na mesma nota divulgada, o Kremlin acusa que os soldados turcos não deveriam estar na área onde as operações de contraterrorismo estavam em andamento, e Ancara não havia repassado informações sobre sua presença com antecedência.
Apesar da negação do envolvimento russo e de um telefonema subsequente entre os presidentes Erdogan e Putin para arrefecimento dos ânimos, especialistas estratégicos divulgam que a escalada parece ser um movimento russo deliberado e bem calculado e a atitude de Moscou dificilmente poderia ser dada como um sinal de que está disposta a recuar de seus objetivos, tanto políticos quanto militares na região.

A Turquia, por sua vez, se vê embrenhada em uma guerra com forças sírias apoiadas pela Rússia, onde Ancara apela aos aliados (EUA e Europa) por um apoio em um conflito no qual corre o risco de minar os laços amigáveis que construiu com Moscou. O pedido é uma mudança abrupta de rumo para Erdogan depois de anos de desagravo aos parceiros americanos e europeus, e sublinha o quanto está em jogo para a Turquia enquanto mergulha no conflito sírio do lado oposto à Rússia. Embora a Turquia insista que evitará qualquer confronto com as forças russas, a pressão sobre Erdogan para responder está aumentando, à medida que o número de vítimas turcas aumenta.

Outro ponto negativo contra a Turquia é o impacto de um êxodo em massa ao norte da Síria em direção às suas fronteiras de um montante entre 1 a 2 milhões de refugiados de Idlib. Embora a Turquia planeje abrigar os que fogem da região, a situação ainda aumentaria o seu fardo que já conta com outros 3,6 milhões de refugiados sírios, operação esta orquestrada juntamente com a União Europeia.

Bombardeio na Síria

De acordo com analistas, o acerto de cessar-fogo está fadado ao fracasso, tendo como base outros acordos malsucedidos (Sochi 2018), os quais não levaram em consideração a abordagem de uma crise humanitária que envolve um deslocamento massivo de refugiados e também a consideração da criação de uma zona de exclusão aérea para impedir que jatos militares bombardeassem hospitais e escolas.

Os recentes combates na Síria vêm se somar a uma numerosa lista de fatores negativos que desencadearam o que a Organização das Nações Unidas (ONU) diz ser a pior crise humanitária em uma guerra que afastou milhões de suas casas e matou centenas de milhares.

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Notas:

* O Exército Nacional Sírio, ou mais conhecido como Exército Livre da Síria, é o principal grupo armado de oposição ao governo de Bashar al-Assad. Apesar das informações do Exército Livre da Síria afirmar, em 2013, que o número de homens que formavam o grupo militar chegava aos 140 mil guerrilheiros treinados e prontos para conflitos bélicos, o número verdadeiro de combatentes do contingente é incerto. De acordo com alguns ativistas, o ELS vem perdendo membros gradativamente. Em sua maioria, os soldados descontentes desertam para a Jabhat al-Nusra, força militar síria descrita como “o braço mais agressivo e de maior êxito da força rebelde”. Este grupo é considerado mais violento do que o Exército Livre da Síria por apresentar uma ideologia mais próxima dos fundamentalistas islâmicos.

** KAB (Korrektiruyeskaya Aviatsionnaya Bomba), ou bomba aérea com correção de trajetória, são bombas guiadas russas usadas como armas de “segunda onda de ataque”. A primeira onda de ataque é feita em conjunto com aeronaves de supressão de defesa e apenas mísseis são usados. As bombas guiadas têm a vantagem de poderem ser lançadas a maiores altitudes, após as defesas serem suprimidas. A segunda onda é feita mais dentro do território contra alvos vitais, como centros de comando, pontes etc..

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Manifestante segurando bandeira da Síria” (Fonte): https://www.flickr.com/photos/thorstenstrasas/44408833692/in/photolist-2aEfT5q-gFDHXK-dPgxsT-2hBAuMa-SKF4kq-dZooQZ-TBaw58-zQBcfz-2aZZTMX-2guYdUL-6n7RFy-TLRHPr-TYwanu-2hXBZN5-2gJdNAx-e1yrAn-2iuEUxu-2iuEUCp-2iugnJj-2iugnyu-e1yrjt-dZoowe-2geFiBg-2hB97uw-q4Ncn9-o8g2KT-dZooCH-jckRav-ALSxfd-SKF4Wf-8KpanP-gLNxfx-gNgbxG-2h5MsZX-fAHAmY-4Dd2zf-2h5NcBB-NJ5jAk-fQitHd-22ert7Y-2gZeJTK-2gRg9Y4-gGUSXy-zTmkAf-zTmra1-gq3muV-TyBiK4-JYtRnh-eQEYUP-fQhqdo

Imagem 2 Presidente russo Vladimir Putin (esq) e presidente turco Recep Tayyip Erdogan (dir)” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/w/index.php?search=erdogan+and+putin&title=Special%3ASearch&go=Go&ns0=1&ns6=1&ns12=1&ns14=1&ns100=1&ns106=1#/media/File:Recep_Tayyip_Erdoğan_and_Vladimir_Putin_(2017-09-28)_(03).jpg

Imagem 3 Localização de Idlib no mapa da Síria” (Fonte): https://www.flickr.com/photos/[email protected]/17262895001/

Imagem 4 Bombardeio na Síria” (Fonte): https://gedes-unesp.org/bombardeios-na-siria-e-a-implosao-da-governanca-internacional/

ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

Desaceleração da inflação faz Banco Central da Rússia rever taxa de juros

Pela primeira vez, desde junho de 2018, a taxa de inflação anual da Federação Russa caiu abaixo dos 3%. Segundo o Serviço Federal de Estatística Estadual (Rosstat), nos últimos 12 meses, os preços ao consumidor no país aumentaram apenas 2,4% (patamar atingido em janeiro de 2020) expondo uma dinâmica de notável valorização da moeda russa (Rublo) ao longo do último ano.

Segundo especialistas, o fortalecimento da unidade monetária russa em 2019 teve um importante papel na desaceleração da inflação, levando a uma redução no custo de bens importados para as empresas comerciais russas. Como resultado, o crescimento dos preços dos produtos estrangeiros para cidadãos comuns está desacelerando, embora atualmente exista uma certa pressão sobre o rublo exercida pelo temor do mercado em torno do evento mundial do coronavírus (Covid-19) e pelo baixo preço do barril de petróleo no mercado mundial.

Moeda de um rublo da Rússia

Sob aspectos analíticos, a inflação recorde baixa na Rússia é uma vantagem clara para a economia do país, devido ao fato de que um aumento de preços tão contido poderá fornecer um ambiente muito mais previsível para fazer negócios, e também permite que as famílias planejem melhor suas despesas. Vale ressaltar que entre os principais fatores na desaceleração da inflação, segundo especialistas econômicos, está o enfraquecimento da demanda dos consumidores na Rússia. Conforme estimativas da Rosstat, em 2019, o crescimento da renda real disponível da população acelerou de 0,1% para 0,8%, demonstrando que, nas condições atuais, os russos até agora preferem economizar dinheiro em vez de gastar, gerando, como resultado, a problematização do aumento dos preços de venda pelos varejistas.

Histórico da taxa de juros da Rússia

Em decorrência deste cenário, o Banco Central da Rússia cortou sua taxa de referência sobre juros em 25 bps (basis points*) para 6,00% durante sua reunião de fevereiro (2020) e sinalizou que mais cortes nas taxas poderão ser efetivados em suas próximas reuniões, dizendo que as expectativas de inflação permanecem estáveis no geral, enquanto os riscos de uma substancial ameaça à desaceleração econômica global persistem. Ainda assim, os formuladores de políticas observaram que a recente flexibilização da política monetária pode ter um efeito ascendente mais forte sobre a inflação do que se pensava anteriormente, enquanto o surto de coronavírus será um fator de incerteza adicional nos próximos trimestres. Note-se que, em 2019, o Banco Central russo reduziu sua taxa-chave cinco vezes e reduziu-a de 7,75% para 6,25% ao ano, tornando seu valor o menor desde março de 2014. Especialistas acreditam que as ações do Banco Central serão capazes de fortalecer a demanda dos consumidores na Rússia. Em condições de inflação baixa, o regulador pode reduzir ainda mais sua taxa-chave. No longo prazo, a política das autoridades monetárias deve levar a empréstimos mais baratos, um aumento na demanda interna e no investimento. Assim, o Banco Central da Rússia será capaz de estimular a atividade empresarial e o crescimento econômico.

Logotipo do Banco Central da Rússia

Segundo analistas, com essa política regulatória, o mercado financeiro russo espera uma redução mais ativa das taxas de hipotecas. De acordo com os últimos dados do Banco Central, em 2019, a taxa média de hipotecas na Rússia caiu para 9% ao ano. O valor tornou-se o menor em todo o tempo de observação desse índice e, de acordo com os resultados de 2020, a taxa média do financiamento imobiliário poderá cair para os patamares entre 7-8%. Para comparação, há apenas um ano esse número estava próximo de 10%.

Outro ponto observado por esses analistas é que, com a redução da taxa de juros, poderá ser afetado principalmente o mercado de títulos do governo russo. A redução da taxa do Banco Central ao longo do tempo reduz o rendimento dos títulos federais de empréstimos OFZ (do russo: Облигации Федерального Займа – Títulos Federais de Empréstimo), de modo que os investidores estão tentando pré-comprar títulos a um preço de pechincha. Ao mesmo tempo, a corrida do fluxo de dinheiro para os OFZs russos pode apoiar a moeda nacional, pois, do ponto de vista dos investimentos, os OFZs permanecem mais atraentes do que os títulos governamentais dos países desenvolvidos. Além disso, os juros dos ativos russos são apoiados por fatores macroeconômicos: redução da inflação e da dívida pública, altas reservas internacionais e orçamento excedente. Tudo isso apoia a demanda por títulos e moedas russos.

A próxima reunião do Conselho de Administração do Banco Central está marcada para 20 de março de 2020 e, de acordo com as expectativas do mercado, a alta gestão do Banco Central russo poderá novamente reduzir a taxa, chegando aos 5,5% ao ano.

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Nota:

* Os pontos-base (bps) referem-se a uma unidade comum de medida para taxas de juros e outros percentuais em finanças. Um ponto-base é igual a 1/100 de 1%, ou 0,01%, e é usado para denotar a variação percentual em um instrumento financeiro. A relação entre mudanças percentuais e pontos-base pode ser resumida da seguinte forma: variação de 1% = 100 pontos-base e 0,01% = 1 ponto base.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Banco Central da Federação Russa” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Central_Bank_of_Russia#/media/File:Moscow_RussiaCentralBank_M00.jpg

Imagem 2 Moeda de um rublo da Rússia” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Rublo#/media/Ficheiro:Rouble.jpg

Imagem 3 Histórico da taxa de juros da Rússia” (Fonte): https://tradingeconomics.com/russia/interest-rate

Imagem 4 Logotipo do Banco Central da Rússia” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Central_Bank_of_Russia#/media/File:CBRF_logo.svg

ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

O futuro das relações entre Rússia e OPEP

Considerada um marco sem precedentes na história da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), a Declaração de Cooperação entre as nações do grupo, que tem por objetivo o esforço conjunto para acelerar a estabilização do mercado global de petróleo por meio de ajustes voluntários de produção, adentrou o ano de 2020 com certas preocupações que podem determinar o futuro do referido pacto.

Bandeira da OPEP

Desde sua criação, em 10 de dezembro de 2016, a Declaração passou por uma série de reuniões ministeriais entre as nações da OPEP+ (14 países membros liderados pela Arábia Saudita, em conjunto com mais 10 nações não-membros, lideradas pela Federação Russa). Na última reunião realizada em 6 de dezembro de 2019, o grupo decidiu por uma redução adicional de produção voluntária de 500 mil bpd (barris por dia) sobre os níveis acordados na 175ª Reunião da Conferência da OPEP e na 5ª Reunião Ministerial da OPEP e não-OPEP, levando a um ajuste total de 1,7 milhão de bpd (1,7% da oferta global), considerado um dos mais profundos cortes de produção desta década.

Preço do barril de petróleo Brent

Esse último acordo visa a continuidade da estabilidade sustentável dos preços do barril, prevenindo o mercado de petróleo de um excesso de oferta e tentando contrabalançar a crescente produção proveniente dos campos de “Shale” (petróleo não convencional) dos EUA, que se tornou o maior produtor mundial da commodity, além de avanços em outros países que não fazem parte da OPEP, como Brasil e Noruega.

Segundo especialistas da área energética, o preço do barril Brent deverá se estabilizar entre os 60 e 65 dólares (entre R$251 e R$272*) durante o ano de 2020, mesmo tendo sofrido uma elevação de seu preço aos 71 dólares (R$297*) devido a escalada das tensões no Oriente Médio decorrentes de embates políticos entre EUA e Irã, e anotaram no dia 6 de janeiro novas máximas de oito meses com os receios de que a oferta da commodity na região fosse prejudicada. Passados os temores, os preços dos contratos Brent recuaram quase 8%, mais do que devolvendo os ganhos e acumulando agora perdas de cerca de 2,5% no ano.

A Rússia, maior produtora petrolífera entre os dez principais membros da aliança não pertencentes ao cartel, afirmou que realizará cortes na ordem de 70 mil bpd para contribuir com os objetivos da OPEP+ no primeiro trimestre de 2020, sob o argumento de evitar uma turbulência no mercado petrolífero durante o ano, mas, ao mesmo tempo, cogitou uma possível saída do grupo futuramente. Segundo declaração do Ministro de Energia da Rússia, Alexander Novak, os cortes de produção de petróleo não podem ser eternos e a Federação Russa deveria ir saindo aos poucos do pacto a fim de preservar participação de mercado e implementar projetos.

Para analistas internacionais, a questão é problemática, pois deixa claro o embate entre defender o preço do petróleo no mercado mundial ou garantir a participação nesse mesmo mercado. A OPEP+, no intuito de sustentar os preços, está beneficiando os produtores de petróleo norte-americanos que ganham vantagens ao poder continuar a extrair petróleo sem nenhuma restrição.

A possível saída da Rússia do acordo de cooperação poderia provocar uma redução no preço do barril Brent em aproximadamente 5 dólares (R$20,9*), segundo especulações de mercado, pois forçará a Arábia Saudita a aprofundar mais a sua redução de produção petrolífera, mas não se sabe se terá essa capacidade ou até mesmo disposição para tal processo. A OPEP+ se reunirá novamente em Viena nos dias 4 e 5 de março (2020), quando Moscou terá a oportunidade de tomar sua decisão.

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Nota:

* Cotação de 25/01/20 >> US$ 1 = R$ 4,186.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Sede da OPEP em Viena, Áustria” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Organização_dos_Países_Exportadores_de_Petróleo#/media/Ficheiro:Opec_Gebäude_Wien_Helferstorferstraße_17.jpg

Imagem 2 Bandeira da OPEP” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Organização_dos_Países_Exportadores_de_Petróleo#/media/Ficheiro:Flag_of_OPEC.svg

Imagem 3 Preço do barril de petróleo Brent” (Fonte): https://br.investing.com/commodities/brent-oil-streaming-chart

ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIAORIENTE MÉDIO

O papel da Rússia no conflito entre EUA e Irã

O ano de 2020 teve início com um desbalanceamento geopolítico e econômico de proporção global, devido a um bombardeio cirúrgico e fatal perpetrado no dia 3 de janeiro pelo Governo norte-americano, no aeroporto internacional de Bagdá, capital do Iraque.

Qassem Soleimani (esquerda) e Abu Mehdi al-Muhandis (direita)

O ataque causou a morte do major-general iraniano Qassem Soleimani, responsável pelo Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) e comandante da Força Quds, uma divisão responsável por operações militares extraterritoriais, e de seu braço direito, Abu Mehdi al-Muhandis, um dos principais líderes das Forças de Mobilização Popular, ou Hashd al-Shaabi, uma coalizão paramilitar pró-Teerã integrada ao Estado iraquiano.

Declarações provindas do Pentágono deixaram claro que o principal objetivo desse ataque foi “eliminar” uma liderança ideológica com pretensões terroristas, e que representava uma ameaça aos EUA e ao mundo civilizado.

As reações ao bombardeio foram quase imediatas. China, União Europeia, Grã-Bretanha, França e Alemanha pediram calma e prudência, ao mesmo tempo em que o Irã e seus movimentos satélites, como o Hezbollah* libanês, o Hamas** palestino e os Houthis iemenitas clamaram por vingança.

Forças militares iranianas

Segundo especialistas, o cenário geopolítico atual se dirige para uma possível escalada de conflito e violência que pode ter efeitos devastadores não só na região do Oriente Médio, como, também, reverberar por toda a comunidade internacional. Posto isso, governos e instituições internacionais estão se mobilizando para tentar evitar possíveis manifestações de âmbito militar entre as duas nações. O mundo não pode arcar com outra guerra no Golfo”, afirmou o secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas), António Guterres.

De certo, o questionamento da comunidade internacional é grande em determinar quais serão os próximos movimentos a serem executados pelos EUA e Irã, mas, outro grande e importante ponto de interrogação é qual será o comportamento da Rússia em meio a um possível confronto entre as duas nações, e porque especificamente a Rússia e não outra nação.

Historicamente, a Rússia lutou contra a Turquia, a Inglaterra e a França pelo acesso ao Mediterrâneo em tempos passados para proteger os cristãos do domínio otomano, e para garantir uma posição na Terra Santa. Durante a maior parte da era pós-Segunda Guerra Mundial, a União Soviética foi uma força importante no Oriente Médio. Moscou apoiou a Organização de Libertação da Palestina (OLP) em sua luta contra a denominada “entidade sionista”. Egito e Síria travaram guerras contra Israel com armas soviéticas, ajuda de conselheiros militares soviéticos e, ocasionalmente, até mesmo pilotos soviéticos foram utilizados no conflito, segundo fontes históricas. Engenheiros e muito dinheiro soviético ajudaram a construir obras de infraestrutura no Egito. Então, no final dos anos 1980, a União Soviética caiu em tempos difíceis e rapidamente se retirou da região, deixando o legado hegemônico local para seu inimigo ideológico à época, os EUA.

Atualmente, segundo especialistas, a Federação Russa vem agindo como um rolo compressor no Oriente Médio. O poder aéreo russo salvou o regime de Bashar al Assad de uma certa derrota não só contra grupos rebeldes, mas, também, contra o Estado Islâmico. A Turquia e Israel têm agora de aceitar a presença de tropas russas nas suas fronteiras. A Arábia Saudita deu ao Presidente russo, Vladimir Putin, o tratamento do tapete vermelho por ser um grande parceiro estratégico dentro da OPEP+ (Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados). Em todo o Oriente Médio, do norte da África ao Golfo Pérsico, a Rússia é onipresente, com seus visitantes de alto escalão, suas armas, seus soldados e seus acordos para construir usinas nucleares.

O ressurgimento da Rússia como um grande agente de poder no Oriente Médio está operando não só em contraste com a postura errática dos Estados Unidos na região, mas, porque, por um quarto de século após a Guerra Fria, a Rússia esteve localmente ausente e essa ausência, e não o seu regresso, é que seria a verdadeira anomalia geopolítica, deixando claro seu verdadeiro papel dentro da região e porque sua atuação em desbalanceamentos sistêmicos é tão importante não só para a localidade, mas, também, globalmente.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, com o presidente do Irã, Hassan Rouhani

No tocante ao Irã, apesar de a Rússia ter interesses similares à nação persa, devido ao fato de terem colaborado conjuntamente com o Governo sírio em sua recuperação depois da guerra interna, seus posicionamentos divergem sobre questões locais. Segundo fontes, “Moscou busca um equilíbrio entre as forças locais do Oriente Médio e tem um papel de mediador externo, enquanto o Irã busca, em muitos sentidos, a direção oposta disso, tentando ser o líder regional, enquanto Teerã acredita que esse é o único meio de garantir a segurança da República Islâmica”.

Apesar de Moscou ter proferido críticas ao governo Trump por assassinar Soleimani, até agora a Rússia permaneceu em silêncio em relação ao que irá fazer sobre o assunto, mas, de certo, qualquer ajuda por parte dela ao Irã, caso haja um conflito direto com os EUA, seria especificamente para proteger seus próprios interesses regionais, principalmente o de âmbito econômico, pois, segundo analistas, a relação entre os dois países seria apenas de parceiros táticos e não de aliados estratégicos, por conta de seus diferentes objetivos globais.

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Notas:

* O Hezbollah, que em árabe significa ‘Partido de Deus’, é uma força islâmica xiita com estrutura similar à do Exército e, ao mesmo tempo, um grupo político com sede no Líbano. Ele nasceu em 1982, durante a Guerra Civil Libanesa, a princípio como uma milícia, ou seja, constituída por cidadãos libaneses portadores de armas e de um suposto poder policial.

** Hamas é a sigla de Ḥarakat al-Muqāwamat al-Islāmiyyah (em português, Movimento de Resistência Islâmica). O grupo tem origem palestina e baseia-se nos princípios sunitas. A organização divide-se entre as brigadas Izz ad-Din al-Qassam (braço armado), um partido político e uma estrutura de cunho filantrópico. Com essa formação, o Hamas é considerado um dos movimentos islâmicos e fundamentalistas mais importantes da Palestina. A origem do Hamas remete ao ano de 1987, quando o grupo foi instituído a partir da Primeira Intifada, manifestação da população da Palestina contra a ocupação de Israel.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Homenagem póstuma a Qassem Soleimani” (Fonte): https://nationalinterest.org/blog/buzz/trump-cant-win-iraq-because-iran-winning-middle-easts-information-war-112326

Imagem 2 Qassem Soleimani (esquerda) e Abu Mehdi alMuhandis (direita)” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Qasem_Soleimani#/media/File:Abu_Mahdi_al-Muhandes_&_Qasem_Soleimani01.jpg

Imagem 3 Forças militares iranianas” (Fonte): https://nationalinterest.org/blog/buzz/what-does-america-have-fear-about-irans-large-army-112676

Imagem 4 O presidente da Rússia,Vladimir Putin, com o presidente do Irã,Hassan Rouhani” (Fonte)

ECONOMIA INTERNACIONALEURÁSIANOTAS ANALÍTICAS

Rússia e o mercado global de petróleo

No mês de novembro de 2019, o preço do barril de petróleo Brent* demonstrou uma acentuada volatilidade no mercado mundial, com picos que chegaram aos 5,64% na alta (US$ 64,05 p/ barril**) e 5,15% na baixa, fechando o período com o valor do barril em torno de US$ 60,75***. É evidente que um ativo financeiro como o petróleo seja submetido a oscilações de preço e, como é de conhecimento geral, nesse ativo existem fortes correlações com investimentos de âmbito internacional, levando a uma flutuação de preços de forma direta ou indireta.

Preço barril de petróleo Brent – Novembro 2019

Fatores como a produção, determinada pela OPEP**** (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), certamente são indicadores muito acompanhados pela maioria dos grandes investidores a nível mundial, e isso determinará se o preço do barril irá subir ou descer.

Arábia Saudita e Rússia, que são os maiores produtores de petróleo dentro e fora da OPEP, respectivamente, assumiram em dezembro de 2018 a responsabilidade pela estabilidade do mercado global de petróleo, elaborando acordos para a estruturação de mecanismos de regulação de preços, e que, juntamente com os demais países participantes do bloco, definiram os montantes que cada um deveria produzir para que o equilíbrio fosse respeitado.

O pacto de redução da produção previa o corte de 1,2 milhão de barris por dia (bpd) em relação aos níveis de outubro de 2018, dos quais 800 mil barris seriam de responsabilidade de membros do cartel (OPEP) e os 400 mil barris restantes seriam de responsabilidade de países aliados (10 principais países exportadores não pertencentes ao cartel, liderados pela Rússia). De acordo com o pacto global, a Federação Russa (terceiro maior produtor de petróleo do mundo e maior exportadora fora da OPEP) deveria controlar seus níveis de produção em torno dos 11,17 milhões de bpd, o que, atualmente, transcorre em torno dos 11,23 milhões bpd (produção de outubro de 2019), ultrapassando o acordo firmado em 60 mil bpd.

Sede da OPEP em Viena, Áustria

O presidente russo Vladimir Putin declarou que tem um “objetivo comum” com a OPEP em manter o mercado de petróleo equilibrado e previsível, mas, certamente, deverá rever seu excedente produtivo quando se reunir com o grupo e seus aliados, em 5 de dezembro, em Viena, capital da Áustria, onde o grupo terá que decidir se deve ou não aprofundar seus atuais cortes de produção para manter o mercado equilibrado diante do que se espera ser mais um ano lento de crescimento da demanda.

Apesar das restrições produtivas, a Rússia tem uma vantagem financeira sobre a Arábia Saudita, pois, pela primeira vez em oito anos, o estoque total de dinheiro, ouro e outros títulos do Banco da Rússia, está prestes a superar as reservas da Arábia Saudita, destacando a vantagem do Kremlin nas negociações entre grandes produtores de petróleo sobre o volume de corte da produção.

Enquanto a Arábia Saudita tem drenado suas reservas para cobrir gastos sociais em meio aos baixos preços do petróleo, a Rússia reforçou seu orçamento e está gerando superávits em meio a temores de novas sanções. Como a Rússia tem cada vez mais poder de decisão nas discussões com a Organização dos Países Exportadores de Petróleo, a vantagem financeira é o mais recente sinal da mudança da sorte entre grandes produtores.

A mudança do equilíbrio de poder no mundo do petróleo começa a ficar evidente em um novo indicador: as reservas de Bancos Centrais.

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Nota:

* O petróleo Brent foi batizado assim porque era extraído de uma base da Shell com o mesmo nome. Atualmente a palavra Brent designa todo o petróleo extraído no Mar do Norte e comercializado na Bolsa de Londres. A cotação Brent é referência para os mercados europeu e asiático.

** Aproximadamente, 271,28 reais, conforme a cotação de 29 de novembro de 2019.

*** Em torno de 257,3 reais, também de acordo com a cotação de 29 de novembro de 2019.

**** Criada em 14 de setembro de 1960, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) é uma organização intergovernamental, que tem como objetivo a centralização da elaboração das políticas sobre produção e venda do petróleo dos países integrantes (Angola, Argélia, Arábia Saudita, Catar, Emirados Árabes Unidos, Equador, Gabão, Indonésia, Iraque, Irã, Kuwait, Líbia, Nigéria e Venezuela).

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Plataforma de petróleo russa Berkut no campo de ArkutunDagi” (Fonte): https://www.rosneft.com/press/gallery/Russian_President_Vladimir_Putin_holds_t/

Imagem 2 Preço barril de petróleo Brent Novembro 2019” (Fonte): https://br.investing.com/commodities/brent-oil

Imagem 3 Sede da OPEP em Viena, Áustria” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Organização_dos_Países_Exportadores_de_Petróleo#/media/Ficheiro:Opec_Gebäude_Wien_Helferstorferstraße_17.jpg

FÓRUNS INTERNACIONAISNOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

O papel da Rússia no encontro do BRICS no Brasil

Com o final da 11ª Cúpula de Chefes de Estado do Brics*, realizada em Brasília, nos dias 13 e 14 de novembro (2019), a Presidência Rotativa do Bloco passa a ser de responsabilidade da Federação Russa, que, a partir de 2020, deverá implementar novas diretrizes de comum acordo com os demais países participantes, no intuito de revitalizar e expandir suas interações econômicas.

Logotipo do BRICS – 2019

Com o lema “Parceria para a estabilidade global, segurança comum e crescimento inovador”, a Rússia deverá lançar uma agenda para o próximo ano (2020), com programação estimada de 150 eventos em diferentes níveis de interesse, tendo a expectativa de ampliar a cooperação em política externa com os demais países do grupo.

Para o Presidente russo, Vladimir Putin, o Brics deveria ser mais prático em assumir ações no âmbito da ONU (Organização das Nações Unidas), em prol da resolução de questões globais cruciais, e na elaboração de padrões e normas internacionais de combate ao terrorismo e ao crime internacional. No que se refere à cooperação econômica, a Presidência russa vai propor a criação de um fundo de títulos para o Brics e novas iniciativas em matéria tributária, alfandegária e de agências antitruste.

Chefes de Estado do BRICS

O presidente Putin, em declaração realizada no Fórum Empresarial da Cúpula do Brics, deixou claro que a Rússia está disponível para a melhoria das relações multilaterais com seus parceiros econômicos, principalmente no âmbito do fornecimento de energia, onde observou que seu país é um fornecedor de suprimentos confiável aos mercados mundiais, e que contribui significativamente para a manutenção da segurança energética global.

Presidente Vladimir Putin na Cúpula do BRICS – 2019

Em compromisso direto com o Brasil, a Federação Russa está disposta a elaborar um projeto de desenvolvimento de uma plataforma de negócios com o objetivo de criar oportunidades de investimento tanto na Rússia como no Brasil. A parceria econômica envolveria órgãos especializados dos dois países, como o Fundo de Investimento Direto Russo (RDIF) e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), além da Câmara do Comércio e Indústria Luso-Russa, que abrange não só o país sul-americano, mas, também, as demais nações falantes do idioma português.

Um ponto destacado pelos representantes russos no encontro do Bloco foi o desequilíbrio da estrutura econômico-financeira global, que, segundo declarações, não estaria levando em conta o crescente peso econômico assumido pelos países em desenvolvimento, e os países do Bloco deveriam atuar, de forma consolidada, contra o protecionismo e novas barreiras no comércio internacional, advogando de modo coerente as bases de um sistema de comércio multilateral aberto, equilibrado e mutuamente benéfico.

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Nota:

* BRICS é um termo utilizado para designar o grupo de países de economias emergentes formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. “BRICS” é um acrônimo, ou seja, a junção das iniciais de palavras que formam o termo. Seu criador é o economista britânico Jim O’Neill, do grupo financeiro Goldman Sachs, que, em 2001, tentava encontrar uma forma de traduzir o crescimento econômico que seria protagonizado naquela década por Brasil, Rússia, Índia e China. Por conseguinte, empregou a expressão “BRIC”.

Naquele momento, o crescimento brasileiro ainda suscitava dúvidas, bem como a Rússia, que estava estagnada. Já a China apresentava taxas de crescimento elevadíssimas entre os demais e se destacava no cenário econômico mundial.

O estudo realizado por Jim O’Neil foi recebido com imensa satisfação nos Estados que protagonizavam o BRIC. Assim, diante das perspectivas de crescimento e das notas das agências internacionais, os governos do então BRIC impulsionaram oficialmente a possibilidade de constituição de um bloco entre esses países emergentes.

O BRIC se constituiu em bloco em 2009 e, desde então, vários encontros periódicos entre esses países foram realizados. Em 2011, mais um Estado foi agregado: a África do Sul. Deste modo, o BRIC virou BRICS. Contudo, a inclusão da África do Sul gerou críticas da comunidade econômica mundial, pois ela não estaria no mesmo nível de crescimento que os demais países.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Bandeiras dos países participantes do BRICS” (Fonte): http://brics2019.itamaraty.gov.br/

Imagem 2 Logotipo do BRICS 2019” (Fonte): http://www.itamaraty.gov.br/pt-BR/politica-externa/mecanismos-inter-regionais/3672-brics

Imagem 3 Chefes de Estado do BRICS” (Fonte): http://brics2019.itamaraty.gov.br/espaco-multimidia/galeria

Imagem 4 Presidente Vladimir Putin na Cúpula do BRICS 2019” (Fonte): https://news.ru/en/politics/putin-to-attend-the-brics-summit/