NOTAS ANALÍTICAS

Brasil recebe estudos sobre a vacina russa Sputnik V

Na corrida contra o tempo no combate a COVID-19, a Federação Russa se tornou o primeiro país do mundo a registrar uma vacina contra o coronavírus, que foi batizada de Sputnik V, alegadamente em alusão ao lançamento bem-sucedido do primeiro satélite espacial realizado pela União Soviética, em 1957, e que foi o gatilho para a intensificação da pesquisa espacial em todo o mundo.

Registrada em 11 de agosto (2020) pelo Ministério da Saúde da Rússia e, posteriormente, apresentada à comunidade global pelo presidente russo Vladimir Putin, a vacina foi alvo de desconfiança por vários países devido ao imunizante, pois, segundo especialistas, não obedecia aos padrões farmacêuticos internacionais, tendo o seu registro efetivado antes da conclusão da terceira e última etapa de testes, que é considerada pela comunidade científica como a mais importante para poder ser liberada massivamente.

Logotipo do RDIF

Paralelamente a isso, o Fundo de Investimento Direto da Rússia (RDIF, na sigla em inglês) vê um grande interesse pela vacina no mundo e planeja realizar a terceira fase de testes clínicos em vários países, incluindo Arábia Saudita, EAU, Brasil e Filipinas, bem como iniciar a produção em larga escala com parceria dos fundos soberanos desses países, inclusive na Índia e Coreia do Sul. Além disso, estão sendo estudadas as possibilidades de produção na Arábia Saudita, Turquia e Cuba.

Logotipo do Tecpar

O Brasil, por sua vez, já recebeu, através do Instituto Tecnológico do Paraná (Tecpar), todas as informações sobre o desenvolvimento da imunização, além das pesquisas clínicas já realizadas pelo Instituto Gamaleya*, da Rússia. O estudo, com mais de 600 páginas, será verificado pelo Comitê Técnico Interinstitucional de Cooperação para Pesquisa, Desenvolvimento, Testagem, Fabricação e Distribuição de Vacina contra Sars-CoV-2 (COVID-19), instituído pelo governador paranaense, Carlos Massa Ratinho Junior (PSD), e coordenado pela Casa Civil, que será responsável por desenvolver a pesquisa com a Sputnik V, mas, momentaneamente, não divulgará dados para a comunidade científica brasileira devido a um memorando de intenções de parceria entre a Tecpar e Gamaleya, onde foi acertado um termo de confidencialidade, a partir do qual todas as informações foram compartilhadas para que o Tecpar elabore seu protocolo de validação para a realização da fase 3 da pesquisa clínica no estado brasileiro.

De acordo com o diretor-presidente do Tecpar, Jorge Callado, o estudo tem indicativos bastante positivos com os quais se permitiu iniciar a elaboração do protocolo de validação para a fase 3 de estudos clínicos da vacina russa no país, onde o Governo do Paraná deverá submetê-lo à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) dentro dos próximos trinta dias, além de também submetê-lo à Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep).

Só depois da aprovação dos protocolos por parte da Anvisa é que poderão ser iniciados os processos de importação das doses provindas do Instituto Gamaleya e, paralelamente, começará a triagem dos voluntários para os testes. Segundo Callado, os testes serão realizados nos hospitais universitários da rede pública. Num primeiro momento serão selecionados voluntários dentro dos profissionais de saúde que estão atuando diretamente no enfrentamento da pandemia. Na sequência, será expandido para outras pessoas no grupo de risco, sendo que a amostragem inicial envolverá cerca de 10 mil voluntários.

Caso a efetividade da vacina na fase 3 seja comprovada, se buscará o registro do medicamento em território brasileiro e a distribuição possivelmente será realizada pelo Ministério da Saúde do Brasil. O estado do Paraná, como pioneiro nos testes, poderá estruturar um processo produtivo local, tanto com investimento federal como também com investimento por parte do Fundo de Investimento Direto da Rússia, além do compromisso da transferência de tecnologia.

Atualmente, segundo fontes de pesquisa, existem cerca de 165 vacinas diferentes que estão sendo desenvolvidas em todo o mundo contra a COVID-19. Os principais tipos incluem: as baseadas em vetores virais; as baseadas em vírus; as baseadas em ácidos nucleicos e proteínas. A princípio, mesmo com a confidencialidade dos dados da Sputnik V, o que se tem conhecimento é que a vacina russa se baseia em vetor de adenovírus, que essencialmente são portadores que podem “entregar” material genético de um outro vírus para uma célula.

Esquema de vacina de dois vetores de coronavírus

As vacinas de vetores de adenovírus funcionam da seguinte forma:

–  O material genético do adenovírus que causa a infecção é removido e o material com um código de proteína de outro vírus, neste caso de um coronavírus, é inserido;

– O elemento inserido ajuda o sistema imunológico a responder e produzir anticorpos que protegem contra infecções;

A plataforma tecnológica de vetores baseados em adenovírus torna mais fácil e rápido criar novas vacinas por meio da modificação do vetor transportador inicial com material genético de novos vírus emergentes. Os adenovírus humanos são considerados os mais fáceis de modificar, razão pela qual se tornaram muito populares como vetores.

———————————————————————————————–

Nota:

* O Centro Nacional de Pesquisa em Epidemiologia e Microbiologia, nomeado em homenagem ao acadêmico honorário N.F. Gamaleya, é uma instituição de pesquisa líder no mundo em seu campo. O centro foi fundado em 1891 como um laboratório privado. Em 1949 recebeu o nome de Nikolai Gamaleya, pioneiro da pesquisa russa em microbiologia. Nikolai Gamaleya estudou no laboratório do biólogo francês Louis Pasteur em Paris e abriu a segunda estação de vacinação contra a raiva do mundo, na Rússia, em 1886. No século 20, Gamaleya, tornando-se um dos líderes do centro, lutou contra epidemias de cólera, difteria e febre tifóide e foi um dos organizadores de campanhas de vacinação em massa na URSS.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Vacina Sputnik V” (Fonte):

https://sputnikvaccine.com/upload/iblock/8bd/8bd2349d736c14accd649abe0ec84ba8.jpg

Imagem 2Logotipo do RDIF” (Fonte):

https://rdif.ru/Eng_Index/

Imagem 3 Logotipo do Tecpar” (Fonte):

http://www.tecpar.br/

Imagem 4 Esquema de vacina de dois vetores de coronavírus” (Fonte):

https://sputnikvaccine.com/ajax/get-webp.php?path=/local/templates/sputnik/img/infographics/prt.png&crc=f2ef65439f4460ba1c846fbaede75dc0

NOTAS ANALÍTICASPOLÍTICAS PÚBLICASSAÚDE

Avifavir: o antiviral russo contra a Covid-19

Em 11 de março de 2020, quando a Organização Mundial de Saúde (OMS) decretou estado de pandemia global, o mundo seria inserido num cenário regido por protocolos de segurança internacional e, a partir daí, começaria uma corrida contra o tempo no intuito de elaborar medicamentos para tentar deter a propagação massiva da Covid-19.

A Federação Russa foi um dos países que rapidamente se empenharam na busca de tratamentos contra a doença, elaborando pesquisas e testes com diversas drogas da família dos antivirais, chegando a um denominador comum em matéria de eficácia – o Avifavir.

Diretor geral da RDIF – Kirill Dmitriev

O medicamento é uma versão modificada e potencializada do antiviral de origem japonesa Favipiravir*, inicialmente usado para tratar casos de pacientes contaminados por Influenza e que passou a ser testado contra patógenos do mesmo grupo genômico, como os da Dengue, Zika e Chicungunya. Ao final dos estudos, os cientistas japoneses obtiveram resultados bem-sucedidos na inibição da replicação desses vírus em células humanas infectadas, sendo algumas delas submetidas somente a ensaios feitos em laboratório.

Na Rússia, a eficácia de medicamentos com substância ativa Favipiravir foi comprovada em três ensaios clínicos independentes, que ocorreram nos principais centros médicos do país com a participação de 700 pacientes com diagnóstico confirmado de COVID-19. A droga bloqueia os mecanismos de reprodução do coronavírus, alivia os sintomas e reduz a duração da doença pela metade, em comparação com a terapia padrão (9 dias). Segundo o diretor do centro de pesquisa do Ministério da Saúde da Rússia, Vladimir Chulanov, os testes demonstraram que a medicação permite a eliminação do vírus das células sanguíneas dos pacientes duas vezes mais rápido do que dos pacientes do grupo de controle, que não receberam o Avifavir, tendo 65% dos pacientes obtido teste negativo para o novo coronavírus após o quarto dia de tratamento.

Posto isso, em 29 de maio, o medicamento Avifavir recebeu um certificado de registro do Ministério da Saúde da Rússia e tornou-se a primeira droga russa aprovada para tratamento de pacientes infectados pela COVID-19 e, no dia 3 de junho, o Ministério da Saúde incluiu o Avifavir na sétima edição das diretrizes de prevenção, diagnóstico e tratamento da nova infecção por coronavírus, sendo sua distribuição realizada em 50 regiões da Federação Russa, além de países como Bielorrússia e Cazaquistão.

O Fundo de Investimento Direto da Rússia (RDIF, na sigla em inglês) já esta delineando formas de aumentar a produção do medicamento em função da alta demanda interna e juntamente com o grupo farmacêutico russo, ChemRar, terá o direito exclusivo de produção do Avifavir no território, mas, segundo o diretor-geral do fundo, Kirill Dmitriev, o grupo não terá o monopólio mundial da produção da droga, tendo a possibilidade do antiviral ser produzido por outros países, tais como Índia.

Em 29 de julho ocorreu a cerimônia da assinatura do acordo de cooperação entre Rússia e Bolívia e, posteriormente, em 3 de agosto, a empresa Cromys, uma joint venture do grupo da RDIF e da ChemRar, assinou um acordo de exclusividade com a empresa farmacêutica boliviana Sigma Corp S.R.L. para vender o Avifavir nos territórios da Argentina, Bolívia, Honduras, Paraguai, El Salvador, Uruguai e Equador.

Apesar da existência de testes paralelos com outros tipos de medicamentos que comprovaram certa eficácia no tratamento do coronavírus, tais como o Remdesivir, a Hidroxicloroquina e a Azitromicina, o medicamento russo Avifavir é mais uma esperança na luta contra a COVID-19, que, segundo dados da OMS, já causou a infecção de mais de 19 milhões de pessoas e a morte de outras 700 mil ao redor do mundo.

———————————————————————————————–

Notas:

* Nome registrado na IUPAC (International Union of Pure and Applied Chemistry – em português: União Internacional de Química Pura e Aplicada) é 6-Fluoro-3-Hydroxypyrazine-2-Carboxamide e a fórmula molecular é C5H4FN3O2. Também conhecido como T-705, Avigan ou Favilavir, foi desenvolvido pela Toyama Chemical (grupo Fujifilm) do Japão nos anos de 1990 e estava sendo estudado desde fevereiro (2020) na China para o tratamento experimental da emergente Covid-19, à época.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Medicamento russo Avifavir” (Fonte):

https://rdif.ru/Portfolio/chemrar/

Imagem 2Manipulação de medicamento em laboratório” (Fonte):

https://rdif.ru/COVID-19/

Imagem 3 Diretor geral da RDIF Kirill Dmitriev” (Fonte):

https://media.rdif.ru/photogallery/138639/1024/DSC_8011.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

Sanções econômicas à Rússia são prorrogadas pela UE

Em meio à crise da pandemia da COVID-19, a União Europeia (UE) decidiu prorrogar no último dia 29 de junho (2020) as sanções econômicas impostas à Rússia por mais seis meses, o que irá durar até o dia 31 de janeiro de 2021. A principal alegação para tal processo está baseada na suposta falta de cooperação russa sobre os Acordos de Paz de Minsk*, o que levou o Conselho da UE, principal instância de tomada de decisão do Bloco, e que conta com a participação de 27 Estados-membros, a definir os rumos da nova imposição.

Essa decisão vem se somar ao longo e pesado histórico das medidas restritivas sobre a Federação Russa, as quais vêm se prolongando desde 2014, em que somente os EUA impuseram mais de 60 rodadas de sanções a indivíduos, empresas e agências governamentais russas que abrangem setores financeiros (Bancos), de tecnologia aeroespacial, energia, comércio de armas, entre outros.

Quando consideradas individualmente, a maioria dessas sanções têm objetivos claros, como as sanções relacionadas à Ucrânia, que visam impedir as declaradas novas agressões russas contra esse país e encorajar a Rússia a cumprir o Acordo de Cessar-Fogo de Minsk. Os Estados Unidos também sancionam indivíduos e empresas russas por não cumprirem as sanções da Coreia do Norte, por alegada intromissão nas eleições dos EUA e por supostamente hackearem entidades norte-americanas.

Logotipo do Conselho da União Europeia

Dentre as restrições apresentadas durante esse período, uma das mais impactantes foi a assinatura da Lei de Contenção de Adversários da América Através de Sanções (CAATSA – Countering America’s Adversaries Through Sanctions Act) pelo presidente norte-americano Donald Trump, em agosto de 2017.

Segundo analistas, esse ato gerou um agravamento da crise política entre os dois países a um nível não visto desde a Guerra Fria, pois daria início a um novo tipo de sanção, que estaria seletivamente dirigida contra nações que optarem por comprar armamento russo, um dos principais itens do comércio exterior do país, levando a considerações de se tratar de movimentos anti-hegemônicos provindos de um antigo inimigo da Rússia, em detrimento ao seu desenvolvimento político-econômico angariado no decorrer dos últimos anos, além de violarem os princípios do livre comércio, não criando a base para o desenvolvimento do mercado e da concorrência, contradizendo as regras da OMC (Organização Mundial do Comércio).

Mesmo com esse movimento massivo por parte da UE e, principalmente, dos EUA, que continuarão a depender das sanções como principal ferramenta para refrear impulsos político-econômicos da Rússia, uma grande interrogação se forma na questão da efetividade dessas ações. Ainda não está claro o que as muitas restrições impostas há mais de 6 anos fizeram para mudar o comportamento russo e que, na contramão do que era esperado, foi gerado um “efeito bumerangue”, primeiramente pela não intimidação por parte do país em resposta aos seus reclamantes, seguido pela assimilação de oportunidades adicionais para o desenvolvimento da indústria doméstica, a diversificação de produtos para exportação, além de causar um afluxo de capitais à Rússia provenientes de grandes fortunas que estavam em outros países e voltaram aos Bancos russos triplicando a taxa de crescimento dos ativos em suas carteiras de negócios, segundo dados da Sberbank Private Banking, filial do maior Banco russo especializado em atender clientes com grandes fortunas.

Posto isso, outro ponto a ser discutido nessa análise seria quais as consequências futuras de tais processos restritivos. Muitos apontaram que as sanções não são uma ferramenta sem custos e seu uso excessivo como uma estratégia maior traz riscos. Em primeiro lugar, há o risco de que as sanções contra oligarcas e empresas russas as tornem mais dependentes do Kremlin, consolidando-as em vez de diminuir o apoio a Putin.

Em segundo lugar, está afetando indiretamente empresas do Bloco europeu que comercializam com a Rússia e estão perdendo negócios na casa dos bilhões de euros. Em terceiro lugar, a dependência excessiva das sanções corre o risco de corroer sua eficácia, à medida que a Rússia e outros adversários desenvolvem soluções de trabalho, por exemplo, mecanismos alternativos de pagamento que contornam o sistema financeiro dos EUA, pelos quais a Rússia e a China já estão trabalhando para reduzir sua exposição à arquitetura financeira global dominada pelos norte-americanos.

A percepção de que as sanções fazem parte do “novo normal” para a política dos EUA em relação à Rússia provavelmente incentivará e acelerará esses esforços na Rússia e em outros lugares.

———————————————————————————————–

Nota:

Localização mapográfica de Donetsk e Lugansk na Ucrânia

* O Protocolo de Minsk (conhecido como Minsk-1) juntamente com o Memorando de Minsk de setembro de 2014 e o Pacote de Medidas para a Implementação dos Acordos de Minsk (Minsk-2) são acordos entre a Ucrânia e a Rússia para resolver o conflito no leste ucraniano. Em 5 de setembro de 2014, os representantes do Grupo de Contato Trilateral sobre a Ucrânia, sendo eles, Rússia, Ucrânia e a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), assinaram o Protocolo de Minsk sob os auspícios da OSCE na capital da Bielorrússia, Minsk. Representantes das chamadas Repúblicas Donetsk (DNR) e Lugansk (LNR), que declararam independência do Governo ucraniano a partir de movimentos pró-Rússia, em abril de 2014, também assinaram o Acordo. O Protocolo de Minsk foi um acerto para deter a guerra na região oriental ucraniana de Donbass.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Reunião do Conselho da União Europeia” (Fonte): https://jovem.cascais.pt/pt-pt/node/984

Imagem 2 Logotipo do Conselho da União Europeia” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Conselho_da_União_Europeia#/media/Ficheiro:Council_of_the_EU_and_European_Council.svg

Imagem 3 Localização mapográfica de Donetsk e Lugansk na Ucrânia” (Fonte): https://orientalreview.org/wp-content/uploads/2018/10/Donetsk-and-Luhansk.jpg

ANÁLISE - TecnologiaANÁLISES DE CONJUNTURA

Corrida espacial gera atritos entre EUA e Rússia

Passado meio século do evento da chegada do homem na superfície da Lua, uma nova corrida espacial está tomando forma depois do anúncio da administração geral da NASA (Agência Espacial Norte Americana), realizado em 13 de maio (2020), quando foi apresentado um plano de, primeiramente, levar seres humanos de volta ao satélite terrestre e, consequentemente, montar bases de exploração lunar. Batizado como Acordos de Ártemis*, o projeto tem como objetivo principal ser o primeiro esforço para organizar a exploração da Lua com fins comerciais, não só no campo da exploração de riquezas minerais, como também no aproveitamento do satélite como base avançada de lançamento de missões exploratórias de outros corpos celestes, tais como Marte.

Logotipo da NASA – Agência Espacial Norte-Americana

O documento tem como base o Tratado de Espaço Exterior (OST – Outer Space Treaty, na sigla em inglês), promulgado pela Organização das Nações Unidas em 1967 e considerado o marco legal da exploração espacial. Em seu artigo II, o Tratado diz que o espaço, incluindo a Lua e outros corpos celestiais, não está sujeito à apropriação nacional. O documento também afirma que o espaço sideral é uma “província de toda a humanidade” e, sendo assim, qualquer nação seria livre para explorá-lo e usá-lo de forma ordeira e pacífica.

Além de propor normas de comportamento, os Acordos de Ártemis também falam sobre a extração de recursos do solo lunar, um aspecto que não estava presente no Tratado do Espaço Exterior. A NASA reitera que a capacidade de extrair e utilizar recursos da Lua, Marte e asteroides será fundamental para se apoiar a exploração e desenvolvimento espacial seguro e sustentável, além da realização de operações que não gerem conflitos, com o fim de evitar interferências prejudiciais, propondo a criação de “zonas seguras de exploração”.

Astronauta em solo lunar

A ideia de zonas seguras está de acordo com uma ordem executiva da Casa Branca, de abril (2020), que afirma que os americanos devem ter direito a participar da exploração, recuperação e uso dos recursos do espaço exterior e, atrelado a ela, os EUA não veem o espaço exterior como um bem global comum, o que potencializa a defesa de que se faça o uso tanto público quanto privado dos recursos espaciais.

Logotipo da Roscosmos – Agência Espacial Russa

Posto isso, o caso de zonas seguras de exploração espacial já gerou polêmica principalmente por parte da Roscosmos (Agência Espacial Russa) e do Kremlin que se opõem aos processos da forma como foram apresentados, e reiteram a extrema necessidade de uma análise exaustiva do ponto de vista do Direito Internacional, para se evitar os chamados processos de invasão e domínio hegemônico do espaço sideral.

Segundo especialistas, o fato é que o Tratado de Espaço Exterior diz claramente que nenhum país pode se apropriar de territórios do espaço, mas não fala nada sobre o uso de recursos extraídos no espaço, dizendo que tanto os Estados Unidos como a Rússia criaram precedentes de que podem se apropriar de coisas da Lua e reivindicá-las para uso próprio, e que as zonas seguras são uma forma de reivindicar direito sobre propriedade. Outro ponto comentado é que é urgente a necessidade da criação de novos Tratados sobre a exploração espacial, pois, os existentes, há mais de cinquenta anos não estão contemplando as necessidades apresentadas nos dias atuais.

———————————————————————————————–

Notas:

* O projeto Artemis foi batizado com o nome da deusa grega que era a irmã gêmea do deus Apolo, que deu o nome para outro projeto espacial norte-americano coordenado pela NASA, entre 1961 e 1972. O projeto teve seu momento mais emblemático com o pouso da Apollo 11 no solo lunar, em 20 de julho de 1969.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Lançamento espaçonave SpaceX” (Fonte):

https://phys.org/news/2019-04-spacex-mega-rocket-boosters.html

Imagem 2 Logotipo da NASA Agência Espacial NorteAmericana” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/File:NASA_logo.svg

Imagem 3 Astronauta em solo lunar” (Fonte):

https://www.institutonetclaroembratel.org.br/educacao/para-ensinar/planos-de-aula/a-historia-da-ciencia-e-a-conquista-do-espaco-o-homem-na-lua/

Imagem 4 Logotipo da Roscosmos Agência Espacial Russa” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Roscosmos#/media/File:Roscosmos_logo_en.svg

ANÁLISES DE CONJUNTURACooperação Internacional

BRICS e a recuperação econômica pós-pandemia

Segundo especialistas, atualmente o mundo enfrenta um déficit de governança global onde é apresentado um cenário em que os EUA e muitos países da União Europeia (UE) querem manter certo nível de rivalidade com a China e a Rússia, reproduzindo, assim, certa semelhança de comportamento estruturado na época da Guerra Fria.

Este tipo de ambiente é contrário ao que deveria estar se realizando no intuito de elaborar trabalhos em direção a uma ordem internacional comum, e enfrentar conjuntamente desafios comuns, como o que se está sendo configurado com o evento da COVID-19. Relatórios de instituições internacionais descrevem como as atividades das principais instituições de governança global, como o Conselho de Segurança da ONU ou o G20, foram quase completamente obstruídas. Além disso, no contexto do confronto dos EUA com a China e a Rússia, as sanções unilaterais e as guerras comerciais tornaram-se uma realidade duradoura das relações internacionais.

Chefes de Estado do BRICS

A governança global mais fraca e a rivalidade global intensificada tornaram a coordenação de políticas externas e econômicas uma necessidade para países que já se apresentam como alvos de políticas agressivas dos EUA, ou podem no futuro se tornar. Isso é principalmente verdade para a Rússia e a China, mas poderia potencialmente se aplicar à Índia, Brasil e África do Sul.

A COVID-19 se apresentou não só como um desafio mundial contra os preceitos de segurança internacional, principalmente na área da saúde, mas, também, se apresentou como um palco para a rivalidade política que reforçou algumas disputas internacionais e conflitos de ordem econômica, onde, nesse cenário sistemicamente desbalanceado, o BRICS* desponta, segundo analistas, como uma importante instituição de governança global com uma visão comum para intensificar a cooperação. Atualmente, em relação ao mundo, o grupo representa cerca de 42% da população, 23% do PIB, 30% do território e 18% do comércio global.

A nova crise global tornou ainda mais importante a expansão da cooperação econômica entre os países do BRICS. É imperativo acelerar o desenvolvimento de ferramentas econômico-financeiras inovadoras para reduzir a eficácia de eventos de ordem negativa, tais como sanções, crises econômicas ou pandemias.

Logotipo do novo Banco de Desenvolvimento do BRICS

Um primeiro passo foi dado para a manutenção do equilíbrio do grupo com a alocação de 15 bilhões de dólares (cerca de R$ 81,57 bilhões**) pelo novo Banco de Desenvolvimento do BRICS (criado em 2014 em alternativa ao Fundo Monetário Internacional e ao Banco Mundial), no intuito de criar um instrumento de crédito especial para projetos de recuperação econômica pós-pandemia.

Sob um aspecto analítico, o surto de coronavírus teve um impacto fundamental na importância da cooperação dos países do BRICS devido à sua natureza global, tendo como pressuposto a não possibilidade de enfrentar esses desafios como um grupo de apenas cinco membros. Para analistas que estudam o grupo, parcerias ampliadas devem estar entre as prioridades do BRICS, fazendo parte do esforço para os anos futuros com uma maior cooperação como parte do formato de um BRICS+, devendo manter um diálogo com os países mais comprometidos com o objetivo de formar uma ordem mundial policêntrica, buscar uma política econômica independente e ajudar a resolver os problemas globais e regionais.

Como líder rotativo do grupo a partir desse ano, o Presidente russo, Vladimir Putin, terá em mãos um grande desafio em convencer seus parceiros do BRICS a superar a falta de visão comum, especialmente no domínio político, e liderar o grupo para preencher o vazio de governança e combater crises econômicas.

———————————————————————————————–

Notas:

* BRICS é um termo utilizado para designar o grupo de países de economias emergentes formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. “BRICS” é um acrônimo, ou seja, a junção das iniciais de palavras que formam o termo. Seu criador é o economista britânico Jim O’Neill, do grupo financeiro Goldman Sachs, que, em 2001, tentava encontrar uma forma de traduzir o crescimento econômico que seria protagonizado naquela década por Brasil, Rússia, Índia e China. Por conseguinte, empregou a expressão “BRIC”.

Naquele momento, o crescimento brasileiro ainda suscitava dúvidas, bem como a Rússia, que estava estagnada. Já a China apresentava taxas de crescimento elevadíssimas entre os demais e se destacava no cenário econômico mundial.

O estudo realizado por Jim O’Neil foi recebido com imensa satisfação nos países que protagonizam o BRIC. Assim, diante das perspectivas de crescimento e das notas das agências internacionais, os governos do BRIC impulsionaram oficialmente a possibilidade de constituição de um bloco entre esses países emergentes.

O BRIC se constituiu em bloco em 2009 e, desde então, vários encontros periódicos entre esses países foram realizados. Em 2011, mais um Estado foi agregado: a África do Sul. Assim, o BRIC virou BRICS. Contudo, a inclusão da África do Sul gerou críticas da comunidade econômica mundial, pois ela não estaria no mesmo nível de crescimento que os demais membros.

** Cotação do dólar em 30/04/20 >> 1US$ = R$ 5,438.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Bandeiras dos países membros do BRICS” (Fonte): https://brics.ibge.gov.br/

Imagem 2 Chefes de Estado do BRICS” (Fonte): http://brics2019.itamaraty.gov.br/espaco-multimidia/galeria

Imagem 3 Logotipo do novo Banco de Desenvolvimento do BRICS” (Fonte): https://www.ndb.int/

ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

A economia russa em tempos de COVID-19

Em 26 de março (2020), foi realizado um encontro virtual extraordinário pelo grupo das vinte maiores economias do mundo (G20) para coordenar uma resposta à pandemia do Coronavírus, uma vez que a crise sanitária ameaça a economia mundial de uma recessão prolongada. Conjuntamente, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) reitera medidas de contenção cada vez mais rigorosas, necessárias para retardar a propagação do Covid-19, mas adverte que ocorrerão cenários que, necessariamente, levarão a declínios significativos no PIB (Produto Interno Bruto) de curto prazo para muitas das principais economias, de acordo com suas novas projeções.

Secretário Geral da OCDE – José Ángel Gurría

O secretário-geral da OCDE, Angel Gurría, revelou as últimas estimativas da Organização mostrando que o bloqueio afetará diretamente setores que totalizam até um terço do PIB nas principais economias. Para cada mês de contenção haverá uma perda de 2 pontos percentuais no crescimento anual do PIB.

A Federação Russa será uma das nações que terão sua perspectiva de crescimento econômico para 2020 afetada pelo desbalanceamento econômico global. A OCDE, através de seu relatório intitulado “Coronavirus: The World Economy at Risk” (tradução – Coronavírus: A Economia Mundial em Risco), cortou drasticamente sua previsão para a economia russa em torno de 25%, onde espera agora que o crescimento anual do PIB da Rússia chegue a apenas 1,2% em 2020 — abaixo dos 1,6% previstos no final de 2019.

Índice russo RTS

O relatório vem depois de uma semana histórica nos mercados financeiros, que viram bilhões de dólares serem dizimados à medida que os mercados de ações caíam. Na Rússia, o índice RTS* caiu 21% nas últimas semanas, pressionado para baixo à medida que os preços do petróleo caíam para US$ 24,63 (cotação do barril Brent em 27/03/20 – cerca de R$ 125,78**), menor valor nos últimos 17 anos. Preços mais baixos do petróleo pressionam o orçamento estatal russo, que ainda depende das exportações do óleo para uma parcela significativa de sua renda.

Reunião com Primeiro Ministro Mikhail Mishustin

A redução de 0,4 ponto percentual na previsão para 2020 para a Rússia foi proporcionalmente melhor do que a economia mundial como um todo, já que os economistas reduziram sua previsão para o crescimento global este ano de 2,9% para 2,4%. Apesar das quedas consecutivas da sua performance econômica, a Rússia se mantém otimista devido acontecimentos mundiais que consequentemente ajudarão na retomada da estabilidade econômica. Na última semana, a Organização Mundial da Saúde (OMS) disse que havia sinais de alguma estabilização no surto da Europa, com os bloqueios europeus começando a dar frutos. Enquanto isso, as autoridades monetárias e fiscais globais continuaram intensificando as medidas de alívio econômico.

A expectativa para a retomada da valorização do rublo (moeda nacional) em relação ao dólar americano é bastante esperada pelo Governo russo, depois de vários dias de negociações após seu dramático colapso assim que o país saiu do acordo de aliança petrolífera da OPEP+, no início de março.

Na última sexta feira, 3 de abril (2020), mercados financeiros do mundo, principalmente o russo, foram alimentados com a esperança de um novo acordo entre Arábia Saudita, Rússia e possivelmente EUA, a ser realizado em reunião que decidirá sobre cortes na produção de petróleo e na restauração do equilíbrio no mercado. O mercado de petróleo continua sob pressão de uma demanda em queda devido a restrições no transporte de pessoas e bens, impostas pelos governos para impedir a propagação da pandemia de COVID-19. Ao mesmo tempo, há um excesso de oferta devido à guerra de preços entre Riad e Moscou.

Para analistas financeiros, no nível global de investimentos, a atenção permanece sobre se os mercados acionários mundiais atingiram seu pior momento, ou se o recente rali para recuperação econômica é sinal de um “salto de gato morto”, ou seja, uma mini recuperação antes de uma queda contínua. Oliver Brennan, da T.S. Lombard, em uma nota de pesquisa publicada na quarta-feira (01/04/20), destaca como a incerteza sobre a disseminação do vírus e potenciais infecções, particularmente nos EUA, não deve justificar o otimismo do mercado ainda.

———————————————————————————————–

Nota:

* O RTS Index (RTSI) é um índice sobre ações das 50 maiores empresas russas (à data de 17 de março de 2017) que são negociadas na Bolsa de Valores de Moscou (RTS Stock Exchange). A lista de ações que compõem o índice é revista trimestralmente pelo Comité de Informação do RTS. O índice foi criado com uma base 100, correspondente à capitalização das suas componentes no dia 1o de setembro de 1995. O mínimo histórico foi de 37,74 pontos no dia 5 de outubro de 1998 e o máximo histórico foi de 2.498,10 no dia 19 de maio de 2008.

** Cotação do dólar do mesmo dia – 1US$ = R$ 5,1066.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Tela digital COVID19” (Fonte): https://www.imf.org/en/Topics/imf-and-covid19/Policy-Responses-to-COVID-19

Imagem 2 Secretário Geral da OCDE José Ángel Gurría” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/JoséÁngel_Gurría#/media/File:Angel_Gurria-World_Economic_Forum_Annual_Meeting_2012(cropped).jpg

Imagem 3 Índice russo RTS” (Fonte): https://www.bloomberg.com/quote/RTSI$:IND

Imagem 4 Reunião com Primeiro Ministro Mikhail Mishustin” (Fonte): http://government.ru/en/news/39327/