ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

A economia russa em tempos de COVID-19

Em 26 de março (2020), foi realizado um encontro virtual extraordinário pelo grupo das vinte maiores economias do mundo (G20) para coordenar uma resposta à pandemia do Coronavírus, uma vez que a crise sanitária ameaça a economia mundial de uma recessão prolongada. Conjuntamente, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) reitera medidas de contenção cada vez mais rigorosas, necessárias para retardar a propagação do Covid-19, mas adverte que ocorrerão cenários que, necessariamente, levarão a declínios significativos no PIB (Produto Interno Bruto) de curto prazo para muitas das principais economias, de acordo com suas novas projeções.

Secretário Geral da OCDE – José Ángel Gurría

O secretário-geral da OCDE, Angel Gurría, revelou as últimas estimativas da Organização mostrando que o bloqueio afetará diretamente setores que totalizam até um terço do PIB nas principais economias. Para cada mês de contenção haverá uma perda de 2 pontos percentuais no crescimento anual do PIB.

A Federação Russa será uma das nações que terão sua perspectiva de crescimento econômico para 2020 afetada pelo desbalanceamento econômico global. A OCDE, através de seu relatório intitulado “Coronavirus: The World Economy at Risk” (tradução – Coronavírus: A Economia Mundial em Risco), cortou drasticamente sua previsão para a economia russa em torno de 25%, onde espera agora que o crescimento anual do PIB da Rússia chegue a apenas 1,2% em 2020 — abaixo dos 1,6% previstos no final de 2019.

Índice russo RTS

O relatório vem depois de uma semana histórica nos mercados financeiros, que viram bilhões de dólares serem dizimados à medida que os mercados de ações caíam. Na Rússia, o índice RTS* caiu 21% nas últimas semanas, pressionado para baixo à medida que os preços do petróleo caíam para US$ 24,63 (cotação do barril Brent em 27/03/20 – cerca de R$ 125,78**), menor valor nos últimos 17 anos. Preços mais baixos do petróleo pressionam o orçamento estatal russo, que ainda depende das exportações do óleo para uma parcela significativa de sua renda.

Reunião com Primeiro Ministro Mikhail Mishustin

A redução de 0,4 ponto percentual na previsão para 2020 para a Rússia foi proporcionalmente melhor do que a economia mundial como um todo, já que os economistas reduziram sua previsão para o crescimento global este ano de 2,9% para 2,4%. Apesar das quedas consecutivas da sua performance econômica, a Rússia se mantém otimista devido acontecimentos mundiais que consequentemente ajudarão na retomada da estabilidade econômica. Na última semana, a Organização Mundial da Saúde (OMS) disse que havia sinais de alguma estabilização no surto da Europa, com os bloqueios europeus começando a dar frutos. Enquanto isso, as autoridades monetárias e fiscais globais continuaram intensificando as medidas de alívio econômico.

A expectativa para a retomada da valorização do rublo (moeda nacional) em relação ao dólar americano é bastante esperada pelo Governo russo, depois de vários dias de negociações após seu dramático colapso assim que o país saiu do acordo de aliança petrolífera da OPEP+, no início de março.

Na última sexta feira, 3 de abril (2020), mercados financeiros do mundo, principalmente o russo, foram alimentados com a esperança de um novo acordo entre Arábia Saudita, Rússia e possivelmente EUA, a ser realizado em reunião que decidirá sobre cortes na produção de petróleo e na restauração do equilíbrio no mercado. O mercado de petróleo continua sob pressão de uma demanda em queda devido a restrições no transporte de pessoas e bens, impostas pelos governos para impedir a propagação da pandemia de COVID-19. Ao mesmo tempo, há um excesso de oferta devido à guerra de preços entre Riad e Moscou.

Para analistas financeiros, no nível global de investimentos, a atenção permanece sobre se os mercados acionários mundiais atingiram seu pior momento, ou se o recente rali para recuperação econômica é sinal de um “salto de gato morto”, ou seja, uma mini recuperação antes de uma queda contínua. Oliver Brennan, da T.S. Lombard, em uma nota de pesquisa publicada na quarta-feira (01/04/20), destaca como a incerteza sobre a disseminação do vírus e potenciais infecções, particularmente nos EUA, não deve justificar o otimismo do mercado ainda.

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Nota:

* O RTS Index (RTSI) é um índice sobre ações das 50 maiores empresas russas (à data de 17 de março de 2017) que são negociadas na Bolsa de Valores de Moscou (RTS Stock Exchange). A lista de ações que compõem o índice é revista trimestralmente pelo Comité de Informação do RTS. O índice foi criado com uma base 100, correspondente à capitalização das suas componentes no dia 1o de setembro de 1995. O mínimo histórico foi de 37,74 pontos no dia 5 de outubro de 1998 e o máximo histórico foi de 2.498,10 no dia 19 de maio de 2008.

** Cotação do dólar do mesmo dia – 1US$ = R$ 5,1066.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Tela digital COVID19” (Fonte): https://www.imf.org/en/Topics/imf-and-covid19/Policy-Responses-to-COVID-19

Imagem 2 Secretário Geral da OCDE José Ángel Gurría” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/JoséÁngel_Gurría#/media/File:Angel_Gurria-World_Economic_Forum_Annual_Meeting_2012(cropped).jpg

Imagem 3 Índice russo RTS” (Fonte): https://www.bloomberg.com/quote/RTSI$:IND

Imagem 4 Reunião com Primeiro Ministro Mikhail Mishustin” (Fonte): http://government.ru/en/news/39327/

ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

O prolongamento do poder político de Putin

Estigmatizado, segundo biógrafos, como detentor de um exacerbado conservadorismo contra a degeneração moral do Ocidente, estruturando a defesa de um “caminho russo” em face das supostas manobras hostis do exterior e defendendo a afirmação de uma potência eurasiana como contrapeso à esfera atlântica, aceita-se, no entanto, que Vladimir Vladimirovitch Putin, atual Presidente da Rússia, desenhou por mais de duas décadas uma colcha de retalhos ideológica, apresentando, de um lado, um toque de pragmatismo político onde a objetividade, a praticidade e a sustentabilidade eram, na sua visão, a essência da bandeira russa, ao mesmo tempo em que, do outro lado, defendia, com a mão pesada do Estado, ações ideológicas antiocidentais, com o objetivo de estabilizar um país seriamente afetado pela gigantesca crise econômica e social que a abalaram em tempos recentes, tentando erradicar as feridas de um passado tenebroso, paralelamente à tomada de ações que garantam a defesa da soberania do país.

Em 16 de fevereiro (2020), após a assinatura de uma vasta reforma constitucional, a Federação Russa se prepara para novos desígnios de governança que estão se alinhando no cenário político do país. Putin, que desde 1999 vem exercendo na maior parte do período o comando absoluto como Chefe de Estado, poderá, através de uma Emenda Constitucional acrescentada à reforma proposta, estender seu papel como líder da nação eslava por mais doze anos (até 2036), após o término do seu mandato constitucional, que se encerrará em 2024.

Presidente russo Vladimir Putin

A aprovação da Reforma pelo Tribunal constitucional um mês após essa assinatura veio reiterar o que já havia sido sinalizado numa entrevista coletiva no final de 2019, quando Putin afirmava que a Constituição “é uma ferramenta viva, que deve corresponder ao nível de desenvolvimento da sociedade” e que “tudo, em princípio, pode ser alterado de uma maneira ou de outra”.

Para os críticos dessa “manobra” política, um novo Estado totalitário está se desenhando, antes mesmo que o mandato de Putin termine em 2024, possibilitando ao Kremlin reconsolidar o poder do regime sem que a sociedade russa ou observadores locais e estrangeiros tenham tempo para reagir. O cenário do primeiro período do governo de Putin foi que a Rússia ainda era um país europeu baseado em regras no estilo da democracia liberal ocidental, e apenas estava se tornando uma exceção devido a circunstâncias históricas difíceis, pois havia pelo menos uma pretensão de observar normas constitucionais no modelo político do Ocidente, como os limites de mandato.

Para esses críticos, os principais perdedores deste jogo político serão os “liberais do sistema” que ainda esperavam uma mudança política incremental de cima para baixo na Rússia, começando com um sistema político mais competitivo em 2024. Agora, muitos desses “liberais do sistema” podem estar inclinados a acreditar que têm mais em comum com a oposição do que com o Kremlin.

Tribunal Constitucional da Federação Russa

Considerada como uma revolução legal, as reformas propostas também sugerem Emendas Constitucionais para ampliar as garantias sociais, como a introdução da indexação anual das pensões entre outros benefícios socioeconômicos. A mensagem para o eleitor russo médio parece ser que uma ordem sociopolítica mais paternalista está a caminho, principalmente em questões ideológicas que trouxeram Deus, as crianças e a soberania à baila das discussões, que, segundo especialistas políticos, são uma tentativa de transformar o Putinismo* em uma instituição estatal.

As declarações constitucionais vêm na esteira de acontecimentos globais, tais como retirada da Rússia de um acordo com a OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) para limitar a produção petrolífera, desencadeando uma queda acentuada nos preços da commodity e, crucialmente para a Rússia, na taxa de câmbio do rublo (moeda local), além do enfrentamento nacional contra a pandemia do COVID-19. Esses dois eventos poderiam abalar o status quo do atual Governo, mas, segundo apoiadores de Putin, serão parte de um episódio que fortalecerá o convencimento de que ele deve permanecer no comando para orientar a Rússia ainda mais através da turbulência global.

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Nota:

* Segundo estudos políticos, é a ideologia, as prioridades e políticas do regime de governo praticado pelo presidente Vladimir Putin. O termo é utilizado na imprensa ocidental muitas vezes com uma conotação negativa para descrever o sistema político da Rússia sob Vladimir Putin como Presidente (2000-2008) e (2012-atual), e como Primeiro-Ministro (2008-2012), em que grande parte da política e poderes financeiros são controlados por grupos de pessoas pertencentes ao círculo de confiança de Putin.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Bandeira da Federação Russa” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Putinismo#/media/Ficheiro:Moscow_Russia_Flag_and_Hammer_and_Sickle.jpg

Imagem 2 Presidente russo Vladimir Putin” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Putinismo#/media/Ficheiro:Vladimir_Putin_-_2006.jpg

Imagem 3 Tribunal Constitucional da Federação Russa” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Constitutional_Court_of_Russia#/media/File:Zdanie_konstitucionnogo_suda.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

Desaceleração da inflação faz Banco Central da Rússia rever taxa de juros

Pela primeira vez, desde junho de 2018, a taxa de inflação anual da Federação Russa caiu abaixo dos 3%. Segundo o Serviço Federal de Estatística Estadual (Rosstat), nos últimos 12 meses, os preços ao consumidor no país aumentaram apenas 2,4% (patamar atingido em janeiro de 2020) expondo uma dinâmica de notável valorização da moeda russa (Rublo) ao longo do último ano.

Segundo especialistas, o fortalecimento da unidade monetária russa em 2019 teve um importante papel na desaceleração da inflação, levando a uma redução no custo de bens importados para as empresas comerciais russas. Como resultado, o crescimento dos preços dos produtos estrangeiros para cidadãos comuns está desacelerando, embora atualmente exista uma certa pressão sobre o rublo exercida pelo temor do mercado em torno do evento mundial do coronavírus (Covid-19) e pelo baixo preço do barril de petróleo no mercado mundial.

Moeda de um rublo da Rússia

Sob aspectos analíticos, a inflação recorde baixa na Rússia é uma vantagem clara para a economia do país, devido ao fato de que um aumento de preços tão contido poderá fornecer um ambiente muito mais previsível para fazer negócios, e também permite que as famílias planejem melhor suas despesas. Vale ressaltar que entre os principais fatores na desaceleração da inflação, segundo especialistas econômicos, está o enfraquecimento da demanda dos consumidores na Rússia. Conforme estimativas da Rosstat, em 2019, o crescimento da renda real disponível da população acelerou de 0,1% para 0,8%, demonstrando que, nas condições atuais, os russos até agora preferem economizar dinheiro em vez de gastar, gerando, como resultado, a problematização do aumento dos preços de venda pelos varejistas.

Histórico da taxa de juros da Rússia

Em decorrência deste cenário, o Banco Central da Rússia cortou sua taxa de referência sobre juros em 25 bps (basis points*) para 6,00% durante sua reunião de fevereiro (2020) e sinalizou que mais cortes nas taxas poderão ser efetivados em suas próximas reuniões, dizendo que as expectativas de inflação permanecem estáveis no geral, enquanto os riscos de uma substancial ameaça à desaceleração econômica global persistem. Ainda assim, os formuladores de políticas observaram que a recente flexibilização da política monetária pode ter um efeito ascendente mais forte sobre a inflação do que se pensava anteriormente, enquanto o surto de coronavírus será um fator de incerteza adicional nos próximos trimestres. Note-se que, em 2019, o Banco Central russo reduziu sua taxa-chave cinco vezes e reduziu-a de 7,75% para 6,25% ao ano, tornando seu valor o menor desde março de 2014. Especialistas acreditam que as ações do Banco Central serão capazes de fortalecer a demanda dos consumidores na Rússia. Em condições de inflação baixa, o regulador pode reduzir ainda mais sua taxa-chave. No longo prazo, a política das autoridades monetárias deve levar a empréstimos mais baratos, um aumento na demanda interna e no investimento. Assim, o Banco Central da Rússia será capaz de estimular a atividade empresarial e o crescimento econômico.

Logotipo do Banco Central da Rússia

Segundo analistas, com essa política regulatória, o mercado financeiro russo espera uma redução mais ativa das taxas de hipotecas. De acordo com os últimos dados do Banco Central, em 2019, a taxa média de hipotecas na Rússia caiu para 9% ao ano. O valor tornou-se o menor em todo o tempo de observação desse índice e, de acordo com os resultados de 2020, a taxa média do financiamento imobiliário poderá cair para os patamares entre 7-8%. Para comparação, há apenas um ano esse número estava próximo de 10%.

Outro ponto observado por esses analistas é que, com a redução da taxa de juros, poderá ser afetado principalmente o mercado de títulos do governo russo. A redução da taxa do Banco Central ao longo do tempo reduz o rendimento dos títulos federais de empréstimos OFZ (do russo: Облигации Федерального Займа – Títulos Federais de Empréstimo), de modo que os investidores estão tentando pré-comprar títulos a um preço de pechincha. Ao mesmo tempo, a corrida do fluxo de dinheiro para os OFZs russos pode apoiar a moeda nacional, pois, do ponto de vista dos investimentos, os OFZs permanecem mais atraentes do que os títulos governamentais dos países desenvolvidos. Além disso, os juros dos ativos russos são apoiados por fatores macroeconômicos: redução da inflação e da dívida pública, altas reservas internacionais e orçamento excedente. Tudo isso apoia a demanda por títulos e moedas russos.

A próxima reunião do Conselho de Administração do Banco Central está marcada para 20 de março de 2020 e, de acordo com as expectativas do mercado, a alta gestão do Banco Central russo poderá novamente reduzir a taxa, chegando aos 5,5% ao ano.

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Nota:

* Os pontos-base (bps) referem-se a uma unidade comum de medida para taxas de juros e outros percentuais em finanças. Um ponto-base é igual a 1/100 de 1%, ou 0,01%, e é usado para denotar a variação percentual em um instrumento financeiro. A relação entre mudanças percentuais e pontos-base pode ser resumida da seguinte forma: variação de 1% = 100 pontos-base e 0,01% = 1 ponto base.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Banco Central da Federação Russa” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Central_Bank_of_Russia#/media/File:Moscow_RussiaCentralBank_M00.jpg

Imagem 2 Moeda de um rublo da Rússia” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Rublo#/media/Ficheiro:Rouble.jpg

Imagem 3 Histórico da taxa de juros da Rússia” (Fonte): https://tradingeconomics.com/russia/interest-rate

Imagem 4 Logotipo do Banco Central da Rússia” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Central_Bank_of_Russia#/media/File:CBRF_logo.svg

ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

Rússia torna-se o maior comprador de ouro do mundo em 2019

À medida que as nações buscam a diversificação de seus ativos e menos dependência do dólar, o desejo de comprar ouro foi impulsionado, também nos últimos anos, pela incerteza econômica causada por tensões comerciais, crescimento econômico mundial lento e um ambiente de baixa taxa de juros.

O motivo para essa corrida entre as nações do mundo pelo aumento de suas reservas de ouro em seus Bancos Centrais é baseado principalmente pelas características específicas que o nobre metal apresenta. O ouro é um ativo altamente líquido, mas escasso. É comprado como um bem de luxo, tanto quanto um investimento, e, como tal, pode desempenhar quatro papéis fundamentais em uma carteira:

 • Uma fonte de retornos de longo prazo;

 • Um diversificador que pode mitigar perdas em tempos de estresse de mercado;

 • Um ativo líquido sem risco de crédito, que superou moedas fiduciárias;

 • Um meio de melhorar o portfólio global da performance econômica de um país.

Logotipo do World Gold Council

Desde 2001, a demanda de investimentos por ouro mundial cresceu, em média, 15% ao ano, de acordo com dados do World Gold Council (WGC). Isso tem sido impulsionado, em parte, pelo advento de novas formas de acesso ao mercado, como fundos negociados em bolsa (ETFs – Exchanged Trade Funds*) apoiados por ouro físico, mas, também, pela expansão da classe média na Ásia e um foco renovado na gestão efetiva de riscos após os ETFs de 2008-2009 (crise financeira nos EUA e na Europa).

Histórico das reservas de ouro da Rússia – em toneladas

Hoje, o ouro é mais relevante do que nunca para investidores institucionais atraídos pelo papel do metal como diversificador, devido à sua baixa correlação com a maioria dos ativos tradicionais (principalmente moedas fiduciárias que não apresentam lastro), e como um hedge contra o risco sistêmico e fortes recuos do mercado de ações. Como ativo estratégico, historicamente melhorou o retorno ajustado ao risco das carteiras, proporcionando retornos ao mesmo tempo em que reduz perdas e fornece liquidez para atender passivos em tempos de estresse no mercado.

Ranking dos países produtores de ouro

Posto isso, ao longo da última década, o aumento das incertezas econômica e geopolítica têm sido as forças motrizes que impulsionaram a compra de ouro pelos principais Bancos Centrais do planeta, particularmente a dos mercados emergentes. A década foi cercada por políticas monetárias não convencionais (como taxas de juros baixas ou negativas), a fim de restaurar a estabilidade econômica e o crescimento, bem como o aumento do nacionalismo/populismo, guerras comerciais e riscos de conflitos armados. Em resposta, os Bancos Centrais aumentaram sua alocação para o ouro, como foi o caso da Federação Russa que, em 2019, comprou 159 toneladas, elevando as reservas do metal a 2.271,2 toneladas. Graças a esse volume, o país eslavo se tornou o maior comprador de ouro monetário do ano, acumulando 20% das transações globais, além da terceira posição mundial como produtor.  

Ranking dos países com maiores reservas de ouro

A Rússia superou a China ainda em 2018, e a diferença entre os dois países só cresce. Pequim adquiriu cerca de 100 toneladas de ouro em 2019, atingindo 1.948 toneladas. O ranking global de reservas de ouro é liderado pelos EUA (8.133,5 toneladas), Alemanha (3.366,5), Itália (2.451,8) e França (2.436,0); em quinto lugar vem a Rússia.

Como as reservas dos países líderes permanecem inalteradas há anos, não se pode descartar que a Federação Russa venha a subir novas posições a partir de 2020.

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Nota:

* Exchange-Traded Fund (ETF) é um fundo de investimento negociado na Bolsa de Valores como se fosse uma ação. Um ETF detém ativos como ações, commodities ou títulos e, geralmente, opera com um mecanismo de arbitragem projetado para mantê-lo negociando próximo do seu valor patrimonial líquido, embora ocasionalmente possam ocorrer desvios. A maioria dos ETFs acompanham um índice, como um índice de ações ou índice de títulos, como, por exemplo, o Ibovespa Fundo de Índice (BOVA11). Neste caso, se o Ibovespa subir 10% em um mês, o ETF do Ibovespa vai ter um desempenho muito parecido, já descontando a taxa de administração. Caso o índice se desvalorize, o mesmo vai acontecer com a cota do ETF. Os ETFs podem ser atraentes como investimentos por causa de seus baixos custos, eficiência tributária e recursos semelhantes a ações.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Barras de ouro” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:400-oz-Gold-Bars-AB-01.jpg

Imagem 2 Logotipo do World Gold Council” (Fonte): https://www.gold.org/

Imagem 3 Histórico das reservas de ouro da Rússia em toneladas” (Fonte): https://tradingeconomics.com/russia/gold-reserves

Imagem 4 Ranking dos países produtores de ouro” (Fonte): https://www.gold.org/goldhub/data/historical-mine-production

Imagem 5 Ranking dos países com maiores reservas de ouro” (Fonte): https://www.gold.org/goldhub/research/gold-demand-trends/gold-demand-trends-full-year-2019

ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIAORIENTE MÉDIO

O papel da Rússia no conflito entre EUA e Irã

O ano de 2020 teve início com um desbalanceamento geopolítico e econômico de proporção global, devido a um bombardeio cirúrgico e fatal perpetrado no dia 3 de janeiro pelo Governo norte-americano, no aeroporto internacional de Bagdá, capital do Iraque.

Qassem Soleimani (esquerda) e Abu Mehdi al-Muhandis (direita)

O ataque causou a morte do major-general iraniano Qassem Soleimani, responsável pelo Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) e comandante da Força Quds, uma divisão responsável por operações militares extraterritoriais, e de seu braço direito, Abu Mehdi al-Muhandis, um dos principais líderes das Forças de Mobilização Popular, ou Hashd al-Shaabi, uma coalizão paramilitar pró-Teerã integrada ao Estado iraquiano.

Declarações provindas do Pentágono deixaram claro que o principal objetivo desse ataque foi “eliminar” uma liderança ideológica com pretensões terroristas, e que representava uma ameaça aos EUA e ao mundo civilizado.

As reações ao bombardeio foram quase imediatas. China, União Europeia, Grã-Bretanha, França e Alemanha pediram calma e prudência, ao mesmo tempo em que o Irã e seus movimentos satélites, como o Hezbollah* libanês, o Hamas** palestino e os Houthis iemenitas clamaram por vingança.

Forças militares iranianas

Segundo especialistas, o cenário geopolítico atual se dirige para uma possível escalada de conflito e violência que pode ter efeitos devastadores não só na região do Oriente Médio, como, também, reverberar por toda a comunidade internacional. Posto isso, governos e instituições internacionais estão se mobilizando para tentar evitar possíveis manifestações de âmbito militar entre as duas nações. O mundo não pode arcar com outra guerra no Golfo”, afirmou o secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas), António Guterres.

De certo, o questionamento da comunidade internacional é grande em determinar quais serão os próximos movimentos a serem executados pelos EUA e Irã, mas, outro grande e importante ponto de interrogação é qual será o comportamento da Rússia em meio a um possível confronto entre as duas nações, e porque especificamente a Rússia e não outra nação.

Historicamente, a Rússia lutou contra a Turquia, a Inglaterra e a França pelo acesso ao Mediterrâneo em tempos passados para proteger os cristãos do domínio otomano, e para garantir uma posição na Terra Santa. Durante a maior parte da era pós-Segunda Guerra Mundial, a União Soviética foi uma força importante no Oriente Médio. Moscou apoiou a Organização de Libertação da Palestina (OLP) em sua luta contra a denominada “entidade sionista”. Egito e Síria travaram guerras contra Israel com armas soviéticas, ajuda de conselheiros militares soviéticos e, ocasionalmente, até mesmo pilotos soviéticos foram utilizados no conflito, segundo fontes históricas. Engenheiros e muito dinheiro soviético ajudaram a construir obras de infraestrutura no Egito. Então, no final dos anos 1980, a União Soviética caiu em tempos difíceis e rapidamente se retirou da região, deixando o legado hegemônico local para seu inimigo ideológico à época, os EUA.

Atualmente, segundo especialistas, a Federação Russa vem agindo como um rolo compressor no Oriente Médio. O poder aéreo russo salvou o regime de Bashar al Assad de uma certa derrota não só contra grupos rebeldes, mas, também, contra o Estado Islâmico. A Turquia e Israel têm agora de aceitar a presença de tropas russas nas suas fronteiras. A Arábia Saudita deu ao Presidente russo, Vladimir Putin, o tratamento do tapete vermelho por ser um grande parceiro estratégico dentro da OPEP+ (Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados). Em todo o Oriente Médio, do norte da África ao Golfo Pérsico, a Rússia é onipresente, com seus visitantes de alto escalão, suas armas, seus soldados e seus acordos para construir usinas nucleares.

O ressurgimento da Rússia como um grande agente de poder no Oriente Médio está operando não só em contraste com a postura errática dos Estados Unidos na região, mas, porque, por um quarto de século após a Guerra Fria, a Rússia esteve localmente ausente e essa ausência, e não o seu regresso, é que seria a verdadeira anomalia geopolítica, deixando claro seu verdadeiro papel dentro da região e porque sua atuação em desbalanceamentos sistêmicos é tão importante não só para a localidade, mas, também, globalmente.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, com o presidente do Irã, Hassan Rouhani

No tocante ao Irã, apesar de a Rússia ter interesses similares à nação persa, devido ao fato de terem colaborado conjuntamente com o Governo sírio em sua recuperação depois da guerra interna, seus posicionamentos divergem sobre questões locais. Segundo fontes, “Moscou busca um equilíbrio entre as forças locais do Oriente Médio e tem um papel de mediador externo, enquanto o Irã busca, em muitos sentidos, a direção oposta disso, tentando ser o líder regional, enquanto Teerã acredita que esse é o único meio de garantir a segurança da República Islâmica”.

Apesar de Moscou ter proferido críticas ao governo Trump por assassinar Soleimani, até agora a Rússia permaneceu em silêncio em relação ao que irá fazer sobre o assunto, mas, de certo, qualquer ajuda por parte dela ao Irã, caso haja um conflito direto com os EUA, seria especificamente para proteger seus próprios interesses regionais, principalmente o de âmbito econômico, pois, segundo analistas, a relação entre os dois países seria apenas de parceiros táticos e não de aliados estratégicos, por conta de seus diferentes objetivos globais.

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Notas:

* O Hezbollah, que em árabe significa ‘Partido de Deus’, é uma força islâmica xiita com estrutura similar à do Exército e, ao mesmo tempo, um grupo político com sede no Líbano. Ele nasceu em 1982, durante a Guerra Civil Libanesa, a princípio como uma milícia, ou seja, constituída por cidadãos libaneses portadores de armas e de um suposto poder policial.

** Hamas é a sigla de Ḥarakat al-Muqāwamat al-Islāmiyyah (em português, Movimento de Resistência Islâmica). O grupo tem origem palestina e baseia-se nos princípios sunitas. A organização divide-se entre as brigadas Izz ad-Din al-Qassam (braço armado), um partido político e uma estrutura de cunho filantrópico. Com essa formação, o Hamas é considerado um dos movimentos islâmicos e fundamentalistas mais importantes da Palestina. A origem do Hamas remete ao ano de 1987, quando o grupo foi instituído a partir da Primeira Intifada, manifestação da população da Palestina contra a ocupação de Israel.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Homenagem póstuma a Qassem Soleimani” (Fonte): https://nationalinterest.org/blog/buzz/trump-cant-win-iraq-because-iran-winning-middle-easts-information-war-112326

Imagem 2 Qassem Soleimani (esquerda) e Abu Mehdi alMuhandis (direita)” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Qasem_Soleimani#/media/File:Abu_Mahdi_al-Muhandes_&_Qasem_Soleimani01.jpg

Imagem 3 Forças militares iranianas” (Fonte): https://nationalinterest.org/blog/buzz/what-does-america-have-fear-about-irans-large-army-112676

Imagem 4 O presidente da Rússia,Vladimir Putin, com o presidente do Irã,Hassan Rouhani” (Fonte)

EURÁSIANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Poder da Sibéria: O mega-acordo energético entre Rússia e China

No último dia 2 de dezembro (2019), um dos mais ambiciosos projetos na área energética, que a Federação Russa vinha estruturando através de sua empresa estatal Gazprom, tomou corpo com a entrega do gasoduto “Poder da Sibéria”, o qual será uma via de fornecimento de gás para o maior consumidor de energia do planeta, a China.

Estrutura em zona costeira do gasoduto ‘Poder da Sibéria

O acordo de fornecimento energético através da rota oriental, que leva o nome do gasoduto, havia sido assinado em maio de 2014, após dez anos de negociações, por duas das maiores empresas mundiais do setor, a russa Gazprom e a China National Petroleum Corporation (CNPC), e prevê o fornecimento durante um prazo de 30 anos de um montante estimado em 38 bilhões de metros cúbicos anuais de gás. Segundo especialistas, tal negociação já foi batizada de “o acordo do século, onde a importância do evento não só será benéfica para as duas nações, como também para o mercado energético global.

O valor total do contrato foi, à época da assinatura, de US$ 400 bilhões (aproximadamente R$ 1,652 trilhão*), segundo o CEO (Chief Executive Office) da Gazprom, Aleksey Miller, deixando claro que o preço de fornecimento da commodity ainda seria um “segredo comercial”, com o valor de entrega para contrato vinculado aos preços do petróleo no mercado mundial. Supondo que o preço global do contrato inclui apenas o custo do fornecimento de gás russo, poderia se chegar numa conta básica, onde a China supostamente iria pagar cerca de US$ 0,35 por metro cúbico (aproximadamente R$ 1,445*).

Em termos de investimento em infraestrutura, o montante foi de US$ 77 bilhões (aproximadamente R$ 318 bilhões*), sendo o maior projeto de construção do mundo e o maior contrato da Gazprom até a data, com a Rússia fornecendo US$ 55 bilhões (aproximadamente R$ 227 bilhões*) e a China US$ 22 bilhões (aproximadamente R$ 91 bilhões*) para oleodutos em seus respectivos territórios.

Rotas do gasoduto ‘Poder da Sibéria’

Em seus mais de 3 mil quilômetros de extensão, o “Poder da Sibéria” atingiu níveis elevados de tecnologia em sistemas de transmissão de gás, com instalações totalmente fabricadas em território russo e que estão capacitadas a enfrentar qualquer tipo de terreno e temperatura. A rota do oleoduto passa por áreas pantanosas, montanhosas, sismicamente ativas, permafrost** e rochosas com condições ambientais extremas. As temperaturas do ar mais baixas absolutas ao longo dessa rota variam de 41 graus Celsius negativos (-41º C), na região de Amur, a 62 graus Celsius negativos (-62º C), na República de Sakha (Yakutia).

Instalação do gasoduto ‘Poder da Sibéria

Economicamente, o projeto ultrapassou certas expectativas, pois permitirá à China assegurar um abastecimento fixo no meio de uma escassez de produção interna e das exigências de ser a segunda economia do mundo. Também permitirá a Pequim ficar parcialmente independente do consumo de carvão e petróleo como principais fontes de energia e trocá-las pelo gás, que é menos poluente e deixa uma menor pegada de CO2 (gás carbônico).

Pelo lado da Rússia, foi demonstrada uma excelente administração político-econômica, devido à construção do gasoduto transcorrer em meio a um período de extremas incertezas por conta das imposições de sanções provindas dos EUA e da União Europeia, além de conseguir ser um parceiro comercial de peso ao lado da China, abrindo portas para conquistas muito maiores.

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Notas:

* Cotação do dólar em 08/12/19 >>  US$ 1,00 = R$ 4,13.

** O permafrost ou pergelissolo (em português) é o tipo de solo encontrado nas regiões do Ártico e da Sibéria. É constituído por terra, gelo e rochas permanentemente congelados (do inglês perma = permanente, e frost = congelado, ou seja: solo permanentemente congelado). Esta camada é recoberta por uma camada de gelo e neve que no inverno chega a atingir 300 metros de profundidade em alguns locais. Ao derreter-se no verão, reduz-se entre 0,5 a 2 metros, tornando a superfície do solo pantanosa, uma vez que as águas não são absorvidas pelo solo congelado.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Gasoduto Poder da Sibéria”(Fonte): https://www.gazprom.com/f/posts/22/706678/foto_press-sluzhba_gazprom_transgaz_tomsk_00025.jpg

Imagem 2 Estrutura em zona costeira do gasoduto Poder da Sibéria” (Fonte): https://www.gazprom.ru/f/posts/88/029215/16.jpg

Imagem 3 Rotas do gasoduto Poder da Sibéria” (Fonte): https://www.gazprom.ru/f/posts/14/880510/map_sila_sib_r2019-12-02.png

Imagem 4 Instalação do gasoduto Poder da Sibéria” (Fonte): https://www.gazprom.ru/f/posts/69/808097/sila-sibiri-4_1.jpg