ECONOMIA INTERNACIONALEURÁSIANOTAS ANALÍTICAS

Automobilismo: Renault Arkana terá berço russo

Com o intuito de alavancar um projeto automobilístico global, a fabricante francesa de veículos automotivos Renault apresentou, em 29 de agosto de 2018, no Salão Internacional do Automóvel, realizado em Moscou, Rússia, o seu mais novo conceito de veículo coupé-crossover, denominado Arkana*, que terá sua comercialização efetivada a partir de 2019.

Logotipo Renault Arkana

Como parte de seu plano estratégico denominado Drive the Future (do inglês Conduzir o Futuro), a marca francesa escolheu a Federação Russa como país que irá inaugurar a primeira linha de montagem desse veículo e será o “espelho” para as demais nações que forem escolhidas para tal processo produtivo.

O motivo da escolha da Rússia para ser o berço do Renault Arkana, segundo fontes internacionais, foi devido a participação da montadora dentro do mercado automobilístico do país, que desde 1998 se instalou como uma joint-venture denominada Avtoframos e que se baseou em uma antiga instalação da OAO Moskvitch**. A partir dessa época vem desenvolvendo naquela região novas tecnologias e processos estratégicos para alcançar o mercado automobilístico europeu com novos conceitos veiculares. Atualmente, a subsidiaria da Renault russa alcança quase um terço de todas as vendas de veículos dentro do território, que é o segundo maior mercado de vendas da marca, vindo logo depois da França.

O carro conceito russo, com suas linhas angulosas, fará competição com outras marcas, como os X6 e X4, da BMW, e os GLE e GLC Coupé, da Mercedes, mas com um diferencial de preço que poderá atrair muitos consumidores dispostos a pagar os 25 mil euros previstos para a versão básica (cerca de R$ 100 mil), e deverá ser comercializado também em mercados chineses e sul-coreanos. Sua produção em território brasileiro somente se dará em 2020.

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 Notas:

* Palavra derivada do Latin arcanum, que significa “segredo”.

** Marca de automóveis soviética produzida pela AZLK (do russo Avtomobilny Zavod imeni Leninskogo Komsomola) de 1946 a 1991 e, logo após a dissolução da União Soviética, foi rebatizada como OAO Moskvitch, para evitar questões legais, atuando de 1991 a 2001 como propriedade privada. Entrou em falência no ano de 2002 e teve sua estrutura dissolvida em 2006, sendo que as antigas fábricas foram recuperadas em 2008 pela Avtoframos, subsidiaria russa da Renault.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Renault Arkana Salão Internacional do Automóvel” (Fonte):

https://renaulautosalon.pena-app.ru/parser/images/in/1864371435621080433.jpg

Imagem 2 Logotipo Renault Arkana” (Fonte):

https://fr.media.renault.ch/__/128144.dc05d614.jpg

EURÁSIANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Vostok 2018: a maior manobra militar russa dos últimos 40 anos

Em seu famoso tratado sobre a guerra, Carl Von Clausewitz (1790–1831), militar prussiano especialista em estratégias de batalhas, exortava que a guerra é a continuação das relações políticas por outros meios, onde, num “duelo” em escala mais vasta, um determinado agente, valendo-se do uso da força, tem o objetivo de coagir o adversário a submeter-se à sua vontade.

Segundo Clausewitz, neste embate bélico, numa situação extrema e seguindo as condições da guerra absoluta, aquele que utiliza sem piedade desta força e não recua perante nenhum argumento ganhará vantagem sobre o adversário se este não agir da mesma forma, implicando, assim, num princípio de polaridade.

Soldados russos

No mundo atual, mesmo com leis e procedimentos internacionais que têm como objetivo o estabelecimento de relações harmoniosas entre as nações, especialistas das relações internacionais expõem que a estrutura mundial ainda é definida pelo seu princípio de primeira ordem – a anarquia* – e pela distribuição não equilibrada de recursos. Esse princípio de ordem anárquica da estrutura internacional é descentralizado, ou seja, não existe nenhum centro formal de autoridade e cada Estado soberano tem igualmente o direito a buscar o aumento do poder perante os outros dentro desse sistema, apesar da distribuição desigual dos recursos, bem como procurar meios de sobreviver. Neste processo surge o preceito da autoajuda, ou, em outras palavras, o preceito da sobrevivência perante possíveis intenções de outros Estados em aumentar seu poder relativo por meio de ofensivas militares ou intervencionismos político-econômicos, afetando a soberania, ou até mesmo a hegemonia** estatal de outrem. Assim, afirmam os especialistas que é criado um ciclo sistêmico onde o processo anárquico gera um comportamento de auto auxílio, o qual, por sua vez, gera a configuração de uma determinada balança de poder.

No mundo militar, este balanceamento de poder é demonstrado, entre outros meios, pela realização de exercícios militares (denominados “jogos de guerra”), onde as Forças Armadas de determinada nação avaliam e aprimoram a capacidade de resposta a situações adversas, apresentando ao mundo sua capacidade de defesa ou ataque a possíveis inimigos. Em alinhamento com esse preceito de demonstração de capacidades estratégico-militares, entre os dias 11 e 15 de setembro de 2018 a Federação Russa será palco de um desses jogos, juntamente com China e Mongólia.

O Vostok 2018, segundo o Ministro da Defesa da Rússia, Sergey Shoigu, será a maior manobra militar já realizada desde o período da Guerra Fria, com o envolvimento de 300 mil soldados, 36 mil veículos, entre carros de combate, blindados de transporte e de combate de infantaria e artilharia, além de 1.000 aeronaves que incluirão caças, helicópteros e aviões de carga e transporte de tropas. Serão adicionadas também neste exercício todas as unidades russas aerotransportadas e duas Frotas Navais. A China, por sua vez, enviará cerca de 3.200 militares, mais de 900 unidades de maquinaria de guerra, além de 30 aeronaves e helicópteros para se juntarem ao contingente russo.

Moscou, em maio de 2018, avisou a Aliança dos países da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) sobre as manobras planejadas e convidou adidos militares a observarem os treinamentos. Segundo declarações do porta-voz da organização, Dylan White, existe a preocupação de que a Rússia esteja se preparando para um conflito em larga escala, com a demonstração de um evento de tal envergadura, e, segundo suas palavras, “Isso cabe no modelo que estamos vendo há algum tempo: uma Rússia mais assertiva, aumentando significativamente seu orçamento de defesa e presença militar”.

Perguntado se o custo de realizar um exercício militar tão massivo era justificado no momento em que a Rússia enfrenta maiores exigências de gastos sociais, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, afirmou que tais jogos de guerra são essenciais. Declarou: “A capacidade do país de se defender na atual situação internacional, que muitas vezes é agressiva e hostil em relação ao nosso país, significa (o exercício) justificado”.

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Notas:

* Origem na palavra grega anarkhia, que significa “ausência de governo”. O conceito aqui decorre da interpretação hobbesiana em que se está numa condição lógica pré-social, quando não há regras definidoras de uma ordem, e cada qual adquire os bens de acordo com a sua capacidade e força de obtê-los e os mantém conforme sua capacidade de preservá-los. Exatamente por isso se considera que a realidade internacional é anárquica, já que não há um governo ou autoridade que se sobreponha aos atores, colocando-os no estado de natureza, logo em situação de anarquia.

** Significa preponderância de alguma coisa sobre outra. Pode ser entendido, como a supremacia de um povo sobre outros povos, ou seja, a superioridade que um país tem sobre os demais, tornando-se assim um Estado hegemônico.

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Referência bibliográfica:

CLAUSEWITZ, Carl von. Da guerra; tradução Maria Teresa Ramos; preparação do original Mauricio Balthazar Leal. – São Paulo: Martins Fontes; 1996.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 “Desembarque de tropas russas” (Fonte):                                                                                           

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/5/5c/Zapad-2009_military_exercises.jpg

Imagem 2 Soldados russos (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/0/01/3_brigada_specnaza.jpg/300px-3_brigada_specnaza.jpg

AMÉRICA LATINACOOPERAÇÃO INTERNACIONALEURÁSIANOTAS ANALÍTICAS

Vkhutemas: Arte e cultura russa em São Paulo

Fundada em 1920, em Moscou, capital da União Soviética à época, a Vkhutemas (acrônimo russo para Vysshiye Khudojestvenno-Tekhnicheskiye Masterskiye – Escola Superior de Arte e Técnica) foi uma escola artística e tecnológica estatal russa que sucedeu à uma série de escolas de arte, por Decreto do então Presidente do Conselho do Comissariado do Povo da União Soviética, Vladimir Ilyich Ulyanov, mais conhecido pelo pseudônimo Lenin.

Fachada do prédio da Vkhutemas

O objetivo da instituição era preparar artistas com a mais alta qualificação para a indústria da construção, além de formar construtores e gestores para atuar no ensino técnico-profissional, tendo grande importância influenciadora em outras instituições de ensino artístico como a famosa escola alemã Bauhaus, onde, em paralelo, formaram os primeiros artistas-designers especialistas em formas modernas.

Como instituição provinda da iniciativa do Estado, tinha como princípio unificar a tradição artesanal com a tecnologia contemporânea, com um curso elementar que incidia princípios estéticos, aulas de teoria da cor, design industrial e arquitetura e, com isso, estruturar uma modificação na maneira de pensar o fazer artístico, seguindo os ideais e conceitos de liberdade propostos pela revolução de outubro de 1917. Era considerada como um centro de experimentações, defendendo o uso da arte como instrumento educativo e de transformação social.

Em seu modelo de escola de artes e ofícios – que se distanciava dos processos distintos das chamadas “belas-artes” – a aprendizagem estava diretamente vinculada ao que consideravam ser a invenção de um mundo novo, de uma sociedade diferente. Suas novas práticas pedagógicas se equilibravam entre atitude estética e postura política e visavam democratizar o ensino, combater o analfabetismo e promover a emancipação feminina, formando, entre 1920 e 1921, mais de 30 mulheres arquitetas, como Lidia Komárova, que assinou o projeto do Komintern*, e influenciaria, anos mais tarde, artistas norte-americanos como Frank Lloyd Wright, o qual tinha em suas obras expostas em 1959, no Museu Guggenheim, em Nova York, o inconfundível legado da artista russa.

Slogan da Vkhutemas

A escola Vkhutemas funcionou até 1930, quando o regime stalinista*** começou a deixar de lado o espírito revolucionário e ganhar um caráter mais autoritário, colocando um ponto final em iniciativas autônomas no meio artístico. Após seu fechamento abrupto, a maior parte dos registros históricos e ações desenvolvidas pela instituição foram destruídos ou se perderam.

Agora, São Paulo tem a possibilidade de sediar, até o dia 30 de setembro de 2018, uma mostra histórica** com recriações dos maiores artistas experimentais da vanguarda soviética provenientes da Vkhutemas, como Maliévich, Ródtchenko, Tátlin, El Lissítzki, Lidia Komárova, Liubov Popova e Várvara Stepánova. São 75 os mestres reunidos nesta exposição, entre designers e arquitetos ligados a correntes artísticas que firmaram a abstração e o construtivismo no mundo ocidental.

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Notas:

* A Internacional Comunista ou Komintern, ou também conhecida como Terceira Internacional (1919-1943), foi uma organização internacional fundada por Vladimir Lenin em março de 1919, para reunir os partidos comunistas de diferentes países. Tinha como propósito, conforme seus primeiros estatutos, lutar pela superação do capitalismo, o estabelecimento da ditadura do proletariado e da República Internacional dos Sovietes, a completa abolição das classes e a realização do socialismo, como uma transição para a sociedade comunista, com a completa abolição do Estado e para isso se utilizando de todos os meios disponíveis, inclusive armados, para derrubar a burguesia internacional.

** Exposição “Vkhutemas: O futuro em construção (1918 – 2018)”.

*** Stalinismo foi um regime totalitário de governo liderado por Josef Stálin, líder da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), entre 1924 e 1953.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Logotipo Exposição ‘Vkhutemas: O futuro em construção (1918 – 2018)” (Fonte):

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Imagem 2 Fachada do prédio da Vkhutemas” (Fonte):

https://thecharnelhouse.org/wp-content/uploads/2015/09/building-of-the-1st-sgkhm-vkhutemas-vkhutein-asi-mai-in-rozhdestvenka-street-former-building-of-the-stroganov-school-new-workshops-reproduction-from-the-vkhutemas-newspaper-1920.jpg

Imagem 3 Slogan da Vkhutemas” (Fonte):

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ECONOMIA INTERNACIONALEURÁSIANOTAS ANALÍTICAS

Novas sanções econômicas contra a Federação Russa

…vamos tratá-las como uma declaração de guerra econômica…”, foram as palavras proferidas pelo primeiro-ministro russo Dimitri Medvedev, em 10 de agosto de 2018, em detrimento da declaração realizada dois dias antes sobre a imposição de novas sanções econômicas por parte do Governo dos Estados Unidos contra a Federação Russa.

O novo embate político-econômico se deu por alegações, já apresentadas anteriormente por Washington, no que se refere ao caso Skripal, em que o ex-coronel do serviço de Inteligência do Exército russo, Serguei Skripal, e sua filha Yulia foram  vítimas, em 4 de março de 2018, na cidade de Salisbury, sul da Inglaterra, de um envenenamento por agente químico neurotóxico conhecido pelo nome de Novichok*, quando considerou-se o governo russo como principal suspeito por esse suposto atentado, que teria sido feito em retaliação aos atos de traição do ex-espião.

Aeronave da companhia aérea Aeroflot

O Kremlin repudiou veementemente as acusações de prática de terrorismo e uso de armas químicas realizadas pelos reclamantes sem o mínimo de provas auferidas e, mesmo assim, se tornou alvo de ação diplomática conjunta pela qual EUA e Inglaterra, juntamente com mais 18 países da União Europeia, além de Ucrânia, Canadá, Noruega e Austrália, decretaram a expulsão de 145 diplomatas russos de suas respectivas embaixadas. A réplica russa veio da mesma forma e intensidade em resposta aos seus agressores.

Segundo fontes internacionais, as sanções agora decretadas serão instauradas em duas fases com início em 22 de agosto de 2018, quando, num primeiro momento, haverá um processo limitador de exportações e financiamentos bancários para o país. De acordo com especialistas, esse processo poderá apresentar um impacto limitado, porque se sobrepõe em grande parte a outras restrições já em vigor, como a venda de armas para a Rússia.

Espera-se que o maior impacto das sanções iniciais venha da proibição de conceder licenças para exportar produtos sensíveis de segurança nacional para a Federação Russa, que, no passado, incluíam itens como dispositivos eletrônicos e componentes, além de equipamentos de teste e calibração de aviônicos.

Caso a Rússia não conceda garantias confiáveis de que não usará armas químicas no futuro, concordando com “inspeções in loco” pelas Nações Unidas, juntamente com a OPAQ (Organização para Proibição de Armas Químicas), após um prazo de 90 dias da data dessa sanção, haverá uma segunda rodada de sanções, considerada a mais “dolorosa”, pois poderia incluir o rebaixamento das relações diplomáticas, suspendendo a capacidade da companhia aérea estatal russa Aeroflot de voar para os Estados Unidos, bem como o corte de quase todas as exportações e importações.Em complemento a sua declaração, Medvedev deixou claro que se Washington aplicar restrições contra os bancos russos, Moscou tomará medidas econômicas e políticas, ou até mesmo outros tipos de medidas de retaliação contra os Estados Unidos.

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Nota:

* O nome novichok significa “novato” em russo e se aplica a um grupo de substâncias neurotóxicas desenvolvidas pela União Soviética nas décadas de 1970 e 1980. Elas eram conhecidas como uma arma química de quarta geração e foram desenvolvidas sob um programa soviético chamado Foliant. A existência do novichok foi revelada pelo químico Vil Mirzayanov nos anos 1990, por meio da imprensa russa. Mais tarde ele fugiu para os Estados Unidos, onde publicou a fórmula química no seu livro State Secrets (Segredos de Estado, em tradução livre). Em 1999, representantes dos EUA viajaram ao Uzbequistão para ajudar a desmontar e descontaminar um dos maiores centros de produção de armas químicas da União Soviética.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Bandeiras da Rússia e da União Europeia” (Fonte):

https://sputnik.kg/images/102564/30/1025643034.jpg

Imagem 2 PrimeiroMinistro Dimitri Medvedev” (Fonte):

https://simg.sputnik.ru/?key=29f6208de3ede7531b1ab66866bd8515578e0ca5

Imagem 3 Aeronave da companhia aérea Aeroflot” (Fonte):

http://img.20mn.fr/QpNrUmEqQLeImVmuUemfDA/480x360_un_avion_de_la_compagnie_aeroflot_a_la_havane_le_11_juillet_2013.jpg

                                                                                              

ECONOMIA INTERNACIONALEUROPANOTAS ANALÍTICAS

Rússia lança estratégia monetária como arma de defesa

A política monetária de uma determinada nação é gerida pelo seu Banco Central e tem por princípio gerar controles sobre a quantidade de dinheiro em circulação, a administração de taxas de juros e do crédito, além de buscar meios para garantir a liquidez* dos ativos pertencentes a esse país, envolvendo títulos públicos ou privados, reservas internacionais, moeda estrangeira, empréstimos ao sistema bancário mundial e inúmeros outros tipos de ativos. Todo esse processo tem como principal objetivo a busca do equilíbrio econômico nacional frente aos numerosos entraves que podem afetar tanto a economia interna quanto a posição geopolítica desse agente no cenário global atual.

Dólar americano

Com o intuito de garantir sua soberania político-econômica, devido a vários processos de sanções executadas pelos EUA e seus aliados desde 2014, a Federação Russa, através do seu Banco Central, iniciou em abril de 2018 um enorme processo de venda de seus ativos na forma de títulos do Tesouro norte-americano que, segundo analistas econômicos internacionais, apresentaram uma redução de 96 bilhões para 15 bilhões de dólares (uma diminuição em torno de 84% de suas reservas internacionais nessa categoria), colocando a Rússia, em poucas semanas, no 22º lugar dos países credores dos Estados Unidos ante a 18ª posição que possuía.

Alguns especialistas acreditam que a Rússia vendeu seus títulos, mesmo sendo considerados pelo mercado financeiro internacional como os mais seguros do mundo, por conta de sua liquidez garantida, devido ao receio de que esses ativos possam ser congelados no caso de novas sanções anti-russas. Entretanto, essas medidas são pouco prováveis, porque afetariam a credibilidade dos investidores em todo o mundo no sistema financeiro dos EUA.

Ao mesmo tempo que a Rússia tenta diminuir sua dependência da moeda americana, ela também iniciou um processo de aumento substancial em suas reservas de ouro e que, segundo a presidente do Banco da Rússia, Elvira Nabiullinav, fazem parte de um processo de diversificação das divisas russas, que levaram em consideração todos os riscos financeiros, econômicos e geopolíticos.

Putin segurando barra de ouro

Desde o ano 2000, as reservas russas de ouro aumentaram 500% e, no primeiro semestre de 2018, a Federação Russa acrescentou mais 106 toneladas desse metal ao seu portfólio, transformando o país no maior comprador mundial e terceiro maior produtor com uma posse de quase 2 mil toneladas**, cerca de 18% das reservas mundiais, segundo o Conselho Mundial do Ouro (WGC – World Gold Council), ficando em 5º lugar, atrás de Estados Unidos, Alemanha, Itália e França e à frente da China, que ocupa hoje o 6º lugar.

Questionado sobre as ações do Banco Central Russo, o presidente Vladimir Putin deixou claro em declaração no dia 27 de julho, na 10ª Cúpula dos BRICS***, realizada em Johannesburgo, África do Sul, que o uso de sistemas de pagamento por Washington para fins políticos mina o dólar americano como moeda global e que, colocando limitações, incluindo aquelas sobre transações baseados nesse câmbio, enfatizam um grande erro estratégico. Ademais, ao fazer isso, os EUA diminuem a confiança no dólar como moeda de reserva.

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Notas:

* É definida como a facilidade com que determinado ativo pode ser trocado pela moeda local de um país em um curto espaço de tempo, com custos de transação reduzidos e perda do valor pouco significativa.

** Historicamente, as posses de ouro na região da Rússia atingiram o máximo registrado em torno de 2.800 toneladas em 1941, sob o regime de Joseph Stalin, na extinta União Soviética.

*** Em economia, BRICS é um acrônimo que se refere aos países membros fundadores (o grupo BRIC: Brasil, Rússia, Índia e China), que juntos formam um grupo político de cooperação. Em 14 de abril de 2011, o “S” foi oficialmente adicionado à sigla BRIC para formar o BRICS, após a admissão da África do Sul (em inglês: South África) ao grupo. Os membros fundadores e a África do Sul estão todos em um estágio similar de mercado emergente, devido ao seu desenvolvimento econômico. É geralmente traduzido como “os BRICS” ou “países BRICS”. Não são considerados como bloco econômico.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Barras de ouro russo” (Fonte):

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Imagem 2Dólar americano” (Fonte):

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Imagem 3Putin segurando barra de ouro” (Fonte):

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ÁFRICAEUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

A volta da Rússia ao continente africano

Logo após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o mundo seria testemunha de um embate político-ideológico entre a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e os Estados Unidos da América (EUA), que seria denominado historicamente como Guerra Fria*, o qual afetou de maneira incisiva os desígnios de grande parte das nações que se colocaram ao longo do percurso do rolo compressor dessa bipolaridade.

Continente africano

Segundo historiadores, um dos palcos mundiais onde o predomínio das duas superpotências teve grande repercussão foi o continente africano, devido aos inúmeros conflitos causados por uma combinação de componentes ideológicos, econômicos e étnicos, e que tinham como principal meta a quebra de laços “colonialistas” e “imperialistas”, sendo que, a partir da necessidade de suporte econômico e militar para assegurar esse processo de mudança, diversos países africanos absorveram influências soviéticas entre as décadas de 1950 e 1980.

Apesar de a Rússia já ter se inserido na região de forma político-militar em outras ocasiões, como foi a participação da Rússia Imperial no caso da Guerra Anglo-Boer** (1899-1902), a partir da Guerra Fria, a União Soviética, logo, também a Rússia, como a principal República da URSS, começou a visualizar o continente africano como um espaço territorial propício para se instalar, não só por meio de um processo de assistência à luta libertária de vários países africanos, mas, também, para o estabelecimento de relações diplomáticas e econômicas que pudessem romper seu isolamento marítimo que era imposto pelas nações ocidentais, valendo-se de localidades que serviriam como bases militares para possibilitar a projeção do seu poder bélico e, a partir de sua presença nesses territórios, poder vislumbrar uma possível perda ou redução da influência ocidental na região.

Sergey Lavrov visita presidente da Namíbia, Hage Geingo

Com o passar do tempo, de acordo com o politólogo e internacionalista Zbigniew Brzezinski***, a inserção político-econômica soviética se mostrou inadequada para influenciar decisivamente o desenvolvimento econômico interno no continente africano. A má administração local, a corrupção e os deslocamentos pela ruptura repentina de relações econômicas com os antigos poderes coloniais produziram fracassos econômicos de ampla escala na maioria desses países, levando a União Soviética a entrar num processo de seletividade geopolítica, culminando com um afastamento de seus antigos aliados africanos no governo de Mikhail Gorbatchov, o último líder da URSS, entre 1985 e 1991.

Após mais de um quarto de século desde a queda da União Soviética e o abrandamento das relações com o continente africano, o atual Presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, diante de mudanças no equilíbrio global de forças e da solidificação dos processos democráticos em vários países africanos, vem pautando uma reaproximação diplomática no intuito de expandir as relações político-econômicas com vários de seus antigos aliados. Com isso, em março de 2018, o Ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov, iniciou uma verdadeira maratona de visitas à Angola, Zimbábue, Namíbia, Moçambique, Etiópia e Ruanda no intuito de estreitar laços em áreas como educação, energia (petróleo, gás e energia nuclear) e cooperação militar, além de formar parcerias na exploração de recursos minerais como o manganês, o cromo e o urânio, que são abundantes neste continente e necessários à economia russa. Nessa reaproximação dos dois blocos globais, existem críticos que dizem que os Estados africanos devem estar atentos às oportunidades e armadilhas desta situação e precisam ver o interesse da Rússia dentro de um contexto estratégico mais amplo. Em meio a uma nova “luta pela África”, os formuladores de políticas africanas devem explorar uma atenção renovada de maneira vantajosa, em vez de se tornarem vítimas do “xadrez geopolítico”, como foi anteriormente o caso. Nesse sentido, acredita-se que a intermediação de acordos favoráveis será fundamental para determinar o sucesso do próximo capítulo nas relações russo-africanas.

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Notas:

* Designação atribuída ao período histórico de disputas estratégicas e conflitos entre os Estados Unidos e a União Soviética, compreendendo o período entre o final da Segunda Guerra Mundial (1945) e a extinção da União Soviética (1991), constituindo-se num conflito de ordem política, militar, tecnológica, econômica, social e ideológica entre as duas nações e suas zonas de influência. É chamada “fria” porque não houve uma guerra direta entre as duas superpotências, dada a inviabilidade da vitória em uma batalha nuclear.

** A Segunda Guerra Boer (ou dos bôeres), travada entre 11 de outubro de 1899 e 31 de maio de 1902, foi um conflito militar entre o Império Britânico e as duas nações Bôer, a República Sul-Africana (ou República de Transvaal) e o Estado Livre de Orange, sobre o domínio da África do Sul. Ficou conhecida também simplesmente como Guerra Boer ou Guerra Anglo-Boer. Na época, ainda como Império Czarista (1721-1917), a Rússia enviou tropas e armas para auxiliarem os Boers em sua luta contra o Império Britânico. O termo Boer se refere aos descendentes dos colonos calvinistas provenientes dos Países Baixos (Holanda), e também da Alemanha e Dinamarca, além de huguenotes franceses (protestantes franceses), que colonizaram a África do Sul e rivalizaram com os britânicos.

*** Zbigniew Kazimierz Brzezinski (1928-2017) foi um cientista político, geopolítico e estadista estadunidense, de origem polonesa. Brzezinski serviu como Conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos durante a presidência de Jimmy Carter, entre 1977 e 1981

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Bibliografia Consultada:

ARAUJO, Kelly Cristina Oliveira. Um breve balanço da influência russo-soviética na África Austral (1919 a 1975). 2015.

Disponível em: http://www.snh2015.anpuh.org/resources/anais/39/1427579787_ARQUIVO_Umbalancodainfluenciarusso_africa_Kelly_Araujo.pdf (Acesso em: 22 de junho de 2018).

FRANCISCON, Moisés Wagner. Ascensão e queda do império soviético na África: 1950-1991. 2012.

Disponível em: http://revista.unicuritiba.edu.br/index.php/RIMA/article/view/497 (Acesso em: 21 de junho de 2018).

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Mapa da África” (Fonte):

https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcRcGSjBKFBTh1hXBqKZLKv81ZfnIZzx8qoOvFo2NabBBqQsoHOj

Imagem 2 Continente africano” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/8/86/Africa_%28orthographic_projection%29.svg/250px-Africa_%28orthographic_projection%29.svg.png

Imagem 3 Sergey Lavrov visita presidente da Namíbia, Hage Geingo” (Fonte):

https://im8.kommersant.ru/Issues.photo/DAILY/2018/040/KMO_085447_09048_1_t218_222656.jpg