ÁSIANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Crescem as especulações sobre mudanças na liderança em Pyongyang

Nesta semana, a República Popular Democrática da Coreia (RPDC) comemorou o 108ª aniversário do nascimento do seu fundador, Kim Il Sung, o avô do atual líder supremo do país, Kim Jong-Un. Porém, a ausência do atual comandante desenrolou uma série de dúvidas, especulações e possíveis novas projeções sobre o futuro norte-coreano.

O impacto da ausência do jovem Kim em um dos principais eventos nacionais da Coreia do Norte resultou em indagações sobre o seu estado de saúde. Certos canais da imprensa internacional, sem fontes confiáveis, informam que ele estaria internado, outros, que passou por uma cirurgia e alguns noticiam que ele estaria em estado grave de saúde.

No noticiário norte-coreano não se fala sobre sua situação, porém, ainda há notas oficiais publicadas sobre as atividades dos líderes do partido e diversas ações do governo, como foi publicado na última sexta-feira (24), em que Kim respondeu com uma nota de agradecimento ao Presidente da Síria, Bashar Al-Assad, à sua felicitação pelas festividades em Pyongyang. Notas de atividades do líder supremo e de outras personalidades do governo norte-coreano são publicadas normalmente, como se sua ausência no evento nacional fosse normal.

Especialistas em política na península coreana veem sua ausência, somada às especulações sobre a sua saúde, como um sinal de alerta para possíveis mudanças de poder em Pyongyang. Embora não se saiba sobre a real situação física, jamais na história do país uma liderança norte-coreano se ausentou no aniversário de Kim Il Sung. Em caso de saída do poder por problemas de saúde, ou até por consequência de um possível óbito, discute-se sobre quem poderia assumir o cargo, pois ainda não há um documento oficial de Kim Jong-un anunciando quem seria o seu sucessor.

Informações da Coreia do Norte, de seus líderes militares e da família de Kim são escassas e muitas duvidosas, como a da possível existência de três filhos do atual líder. Agências de inteligência, como a NIS (Agência de Inteligência de Seul – Coreia do Sul), noticiam algumas atividades da principal família norte-coreana, como ocorreu em 2017, quando anunciou o possível nascimento do terceiro filho de Kim Jong-un com sua esposa Ri Sol-ju, mas poucas informações são confirmadas e dadas como oficiais.

Kim Jong-un acompanhado de Kim Yo-jong e Jo Yong-won / Reprodução da Central de Televisão da Coreia do Norte em 16 de outubro de 2019, repostado por Yonhap News

Sem um sucessor oficial, sua irmã Kim Yo Jong é o nome mais forte e indicado para assumir o país comunista e, dizem especialistas, que membros do governo chinês, principal aliado de Pyongyang, apoiariam e financiariam sua ascensão ao poder. A atual Primeira Vice-Diretora do Comitê Central do Partido dos Trabalhadores da Coreia, é reconhecida internamente e no exterior por ter assumido diversas responsabilidades altamente relevantes no país, e por ser a primeira pessoa da família do fundador da RPDC a visitar a Coreia do Sul, entregando, pessoalmente, uma mensagem de seu irmão ao presidente sul-coreano Moon Jae In, além de tê-lo representado nas Olimpíadas de Inverno em 2018.

Kim Yo-Jong – Primeira
vice-diretora do Departamento de
Propaganda e Agitação

Sua personalidade forte, e com visual diferente do que é um padrão oficial no seu país, é vista de forma positiva por alguns especialistas, que a percebem como uma possível fonte de modernidade e nova condução na política norte-coreana, além de que poderia ser um marco histórico, tornando-se a primeira mulher a assumir o cargo de Líder Supremo da Coreia do Norte.

Resta aos observadores internacionais aguardarem informações verídicas, confiáveis e oficiais sobre o estado de saúde de Kim Jong-un e sobre seus possíveis herdeiros para poderem avaliar uma possível liderança de Kim Yo-Jong, ou se o país entraria numa guerra entre líderes militares e membros da família do fundador da RPDC pelo poder.

———————————————————————————————–

Nota:

* KCNA – Korean News Agency – Portal de notícias oficial da Coreia do Norte.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1Kim Jongun / Divulgação Pública KCNA*” (Fonte): http://www.kcna.kp/kcna.user.special.getArticlePage.kcmsf

Imagem 2Kim Jongun acompanhado de Kim Yojong e Jo Yongwon / Reprodução da Central de Televisão da Coreia do Norte em 16 de outubro de 2019, repostado por Yonhap News” (Fonte): https://en.yna.co.kr/view/PYH20191016233200315?section=search

Imagem 3Kim Yojong” (FonteWikipedia.org): https://pt.wikipedia.org/wiki/Kim_Yo-Jong

ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

Questionamentos sobre a acusação de responsabilidade da China pela pandemia Covid-19

A população mundial está passando por uma fase jamais imaginável, uma quarentena em nível global, por temer um vírus que em poucos meses já se manifestou em todos os continentes. Fábricas tiveram atividades modificadas, eventos sociais, comerciais e esportivos cancelados, o estilo de vida, rotinas de autoridades e cidadãos foram alterados, muitos ficaram completamente parados e a crise hoje instaurada que afeta a saúde pública, bem-estar e economia global fica carente de um culpado, e a China, onde ocorreu o surto inicial, se torna o grande candidato para receber essa responsabilidade.

No noticiário internacional é comum ver personalidades apontando os chineses pela proliferação do vírus. O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, entre outras autoridades, assim como diversas figuras públicas em altos cargos do governo brasileiro, fazem comentários culpando o governo chinês e o povo chinês pelo Covid-19. Alguns concordam e outros discordam dessas acusações, assim como o diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas e Conselheiro Científico da Casa Branca, Anthony Fauci, porém tais afirmações fizeram crescer o sentimento anti-China, e em algumas regiões o sentimento anti-asiático, trazendo problemas em curto, médio e a longo prazos.

Embora o mundo esteja globalizado e grande parte da população mundial esteja conectada aos meios de comunicação, os seres humanos ainda carecem de informações objetivas e verídicas e de outros meios para criar elos, obter respostas e entender sobre as diversidades culturais, econômicas e os riscos existentes ainda não explorados que envolvam a saúde global. A história prova que apenas em poucos casos ou em casos com extremo grau de periculosidade houve a cooperação.

No ano de 1333, a Europa e Ásia sofreu com a Peste Negra; em 1817 tivemos a Cólera; a Tuberculose manifestou-se com grau de emergência em 1850; a Varíola em 1896; a Gripe Espanhola em 1918; a Febre Amarela e o Sarampo na década de 1960; a Malária e a AIDS mostraram-se de forma emergencial nos anos 1980. Essas foram consideradas grandes epidemias ao longo da história  que mataram vários milhões de pessoas em suas respectivas épocas, e boa parte delas estavam ligadas ao estilo de vida humano, sua higiene e alguma espécie de animal envolvida na sua origem ou propagação.

Desde e década de 1960 o coronavírus esteve presente nos livros de medicina: HcoV-229E (1960), SARS-CoV (2002), HcoV-OC43 (2004), HcoV-NL63 (2004), HcoV-HKU1 (2005), MERS-CoV (2012) e o causador da COVID-19, SARS-CoV-2 (2019). Todos eles afetaram os seres humanos, diferenciando de algum animal, Alpaca, Morcego, Cobras e carne bovina, como ponte para o contágio humano, que são fontes de alimento para certas populações no mundo.

No livro: Spillover: Animal Infections and the Next Human Pandemic (2012-2013), o autor David Quammen viajou o mundo entrevistando dezenas de cientistas sobre zoonoses que viraram doenças humanas e, não apenas ele, mas muitos chegam à conclusão de que a intervenção humana nos habitats mais antigos de certas espécies resulta no surgimento de algum tipo de doença causada por vírus e bactérias, entre outros agentes causadores.

Os morcegos são tidos como os principais reservatórios para vírus potencialmente prejudiciais aos humanos, e a interação de humanos e animais propicia o salto desses agentes, indo dos animais para as pessoas, facilitando, assim, a gama de novos hospedeiros para ele. Segundo o virologista Paulo Brandão, expert em coronavírus entrevistado pela coluna de saúde da Editora Abril, estuda-se a hipótese de o vírus ir adentrando em contato com os humanos e criando estratégias para fazer o salto; e também outra hipótese baseada no salto através de um morcego que já estava contaminado com diversos tipos de coronavírus.

Teste NAT realizada por especialistas em Shanghai

Foi comprovado por estudos de cientistas estadunidenses, ingleses e australianos que o SARS-CoV-2 foi originado naturalmente por seleção natural e não foi criado em laboratório, porém, mesmo com todos os registros históricos existentes e estudos sobre a origem, ainda há especulações de que os chineses manipularam o COVID-19 objetivando vantagens econômicas.

A partir do momento em que se tem informações concretas sobre vírus e bactérias prejudiciais à espécie humana, teorias da conspiração, especulações e acusações sobre culpados por doenças como o novo coronavírus confirmam apenas a interpretação de que o mundo ainda não está preparado para cooperação por um bem comum e agentes e líderes mundiais continuam como em séculos anteriores, agindo de forma pragmática, voltados para seus próprios interesses e passando a responsabilidade de males comuns ao próximo.

Analistas têm apontado que com tantos registros sobre a família do coronavírus, pouco tem sido informado sobre estudos conjuntos para prevenção e medidas de urgência no caso de ele se tornar um risco universal. Alguns especialistas culpam governos por investirem em tecnologias bélicas se preparando para uma possível guerra futura e pouco investido na cooperação para melhoria da vida humana e da economia como um todo.

Nesse sentido, acompanhando tais observações, o Covid-19 tem sido visto como um indicativo de que o mundo está despreparado para epidemias globais, mesmo após milhões de pessoas terem morrido em épocas mais remotas, que eram carentes de tecnologia como temos na atualidade.

O vírus surgiu no sul da China, região com concentração enorme de pessoas por metro quadrado e onde muitas se espalham pelo sul e sudeste asiático e, mesmo após ver as medidas de quarentena e construção de centros para tratamento da epidemia em velocidades espantosas, os líderes mundiais demoraram para tomar atitudes e criar plano de ação para o combate da pandemia. Hoje, há uma Europa com números superiores aos dos chineses em novos casos e, conforme tem sido apontado pela mídia e por observadores internacionais, países do continente americano não deram devida atenção ao risco, criando planos emergenciais de forma tardia.

O noticiário mais recente está baseado em discussões de importantes autoridades, como o prefeito de Nova York, Bill de Blasio, e o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com acusações mútuas sobre problema no país e com discordância sobre o vírus fora dos EUA. O discurso do líder estadunidense e dos líderes brasileiros convergem em relação a acusações contra Beijing, trazendo o risco apontado por economistas e analistas políticos de que tais argumentos podem pôr em xeque as relações comerciais e diplomáticas entre as nações e as grandes potências econômicas mundiais, gerando tensões que podem abalar o mundo e não apenas os envolvidos.

Em contrapartida, há notícias, de certa forma positiva na Ásia, de médicos, cientistas e autoridades focadas em combater o problema. O governo chinês elogiou oficialmente médicos japoneses pelo desenvolvimento de medicamento contra gripe, o Faviparavir, que, na prática, acelerou na recuperação de pacientes com o Covid-19, e pode-se ver claramente uma mobilização social de apoio entre os povos asiáticos no combate ao forte surto de preconceito contra orientais pelo mundo.

Empresas chinesas retomam, aos poucos, suas atividades

Com a atual pandemia, observam-se pequenos traços de mobilização para cooperação em combate ao vírus, além de medidas de quarentena e cuidados internos de cada país. Nesse sentido, de forma positiva, ressalta-se que Britânicos e chineses vão apoiar a Organização Mundial da Saúde (OMS) no combate ao Covid-19, bem como líderes da França e da China estão estudando a cooperação multilateral para controle dessa pandemia e prevenção contra possíveis ameaças futuras à saúde global.

Acompanhando as notícias asiáticas, é vista forte mobilização de equipes da China no sul e sudeste asiático, principalmente em regiões mais carentes, como o Camboja, e uma maior comunicação entre profissionais da saúde entre coreanos, chineses e japoneses por um bem comum. Além da atuação forte com seus vizinhos, doações de suprimentos médicos chineses chegam à América Latina para auxiliar os agentes locais no combate a epidemia no continente.

Especialistas têm aconselhado que é necessário avaliar as ações e postura do país onde ocorreu o surto inicial do Covid-19, antes de se especular sobre manipulação de informações gerando teorias da conspiração. De fato, a velocidade de construção de estruturas para combater a pandemia dentro da China foi significativa e é pouco provável que outra nação as criasse na mesma velocidade. Da mesma forma, afirmam esses observadores que foi satisfatória a atenção dada aos países vizinhos, após finalizar as medidas de combate interno do vírus.

Aponta-se que tanto para os principais parceiros quanto para pequenos países regionais, foi tomada uma posição e executada uma ação para ajudar no combate ao coronavírus, não deixando os chineses alertas apenas para o seu território, mas indo além de suas fronteiras. Alguns poderão entender tais medidas como forma de proteger as fontes de seus recursos econômicos, ou uma forma de assumir a responsabilidade pelo surto inicial da doença, mas, conforme tem sido apontado, a história prova que não há como culpar apenas uma nação por um risco que envolve toda a humanidade.

Perante o atual cenário econômico global, e com todo o avanço tecnológico, os intérpretes da história que vem se manifestando na mídia pelo mundo começam a convergir para a conclusão de que os líderes globais ainda não aprenderam o significado da palavra Cooperação Internacional, bem como a utilizar os recursos existentes para o bem-estar global. Em uma era onde a população pensa em obter conforto e sobreviver de forma saudável e sustentável, a economia ainda divide sua importância com a diplomacia pragmática, fixada em possíveis conflitos bélicos entre nações e não contra riscos reais contra o mundo, e o Covid-19 expôs, além do preconceito entre as pessoas e culturas, o quão é difícil cooperar mesmo em meio a crises.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Equipe de Médicos Chineses em Hunam” (Fonte): http://portuguese.xinhuanet.com/2020-03/23/c_138906062_2.htm

Imagem 2 Teste NAT realizada por especialistas em Shanghai” (Fonte): http://portuguese.xinhuanet.com/2020-03/24/c_138910095_4.htm

Imagem 3 Empresas chinesas retomam, aos poucos, suas atividades” (Fonte): http://portuguese.xinhuanet.com/2020-03/21/c_138901588_2.htm

CNP In Loco

Necessidades do Brasil em tecnologia, visíveis no Greenk Teck Show e no Brasil Game Show

No mundo das relações internacionais, a tecnologia, na maioria dos casos, é tratada e discutida principalmente em temas militares, da comunicação geral e da medicina, porém, isso vem mudando ao longo dos anos. A tecnologia está ganhando cada vez mais novas aplicações e conceitos e, hoje, o foco é no consumidor doméstico, porém, no Brasil, este mercado ainda é instável.

CNP In Loco

CPBR 12: Smart Cities em destaque

Campus Party 2019

Cobertura Primeiro dia da Campus Party

A Cidade de São Paulo está recebendo a Campus Party Brasil em sua 12ª edição no Expo Center Norte, Zona Norte da capital paulista, entre os dias 12 e 17 de fevereiro (2019). Este é um dos principais eventos de tecnologia no país e no mundo, estando focado na inclusão digital, e-sports e na participação público e privada para melhorar no desenvolvimento da tecnologia no Brasil.

MEIO AMBIENTENOTAS ANALÍTICASPOLÍTICAS PÚBLICAS

A Tragédia de Brumadinho: desconsideração sobre as experiências internacionais e impunidade

Após três anos da tragédia ocorrida com a barragem da Samarco em Mariana, considerada a maior do país, o Brasil voltou a viver outra calamidade de grandes proporções, novamente no estado de Minas Gerais, agora na cidade de Brumadinho. Assim como em 2015, no caso ocorrido em Mariana, o bloqueio de valores, indenizações, multas ambientais, entre outras punições cabíveis, serão atribuídas a quem é considerado o principal responsável, a empresa Vale, e aos demais envolvidos que deverão ser acionados judicialmente.

A busca por todos os responsáveis pela tragédia é o grande tema na imprensa nacional e internacional, e isso não se deve apenas ao desastre ocorrido, mas também aos demais aspectos que podem estar enredados e acredita-se que foram tratados nos bastidores.

Os acidentes com barragens e outras obras do gênero não é novidade no Brasil e no Mundo, porém, em solo brasileiro, as regras, leis e padrões demoraram para ser implantados e existem barragens com sistema de construção antiga e manutenção precária. Os fatos históricos e experiências vividas por outros países poucas vezes são analisados adequadamente e implantados no país, por isso acidentes do gênero chamam a atenção da imprensa mundial, principalmente quando são catástrofes ocorridas graças a estruturas ultrapassadas.

Na década de 1970, após sofrer com casos parecidos, os Estados Unidos e países europeus começaram a atuar mais com a prevenção de acidentes. A experiência internacional mostra que o monitoramento, correção e a manutenção preventiva de estruturas danificadas são mais eficazes e eficientes, tendo poucos casos similares aos brasileiros registrados, ressaltando-se que os acidentes no Brasil estão entre os maiores já ocorridos mundialmente e o caso de Mariana está no topo.

Região de Brumadinho – Foto 3” (Fonte – Ricardo Stuckert/Fotos Públicas)

Segundo dados da Wise Uranium Project utilizados para ilustração de reportagem do Jornal O Globo, os grandes casos mais recentes registrados foram na Mina de Mount Polley, no Canadá, em 2014, e na Mina de Omai, na Guiana, em 1995.

Além de grandes acidentes e desastres, no Brasil sempre há registro da ocorrência de casos pequenos. Segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), a média é de três acidentes por ano em todo o território brasileiro. A Agência iniciou a elaboração de relatórios sobre tais eventualidades em 2011, quando tinha registrado 24 casos e assumiu que poderia haver outros, porém não ocorreram mais registros deste tipo de incidente para o Governo Federal. Do ano de 2011 até o ano de 2017, a média de acidentes com barragem sempre foi de 4 por ano, e de incidentes – ocorrências menores que podem levar a um acidente – subiram de 4 para 11 por ano.

Antes da ANA, era mais complicado elaborar planejamento sobre fiscalização destas estruturas com base em dados oficiais. Em 2008 ainda se estudava a criação de uma política nacional para segurança de barragens, quando, o até então aluno da Escola de Engenharia da UFMG, Anderson Pires Duarte defendeu Dissertação para concluir a sua pós-graduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos, nomeada: CLASSIFICAÇÃO DAS BARRAGENS DE CONTENÇÃO DE REJEITOS DE MINERAÇÃO E DE RESÍDUOS INDUSTRIAIS NO ESTADO DE MINAS GERAIS EM RELAÇÃO AO POTENCIAL DE RISCO.

A Fundação Estadual do Meio Ambiente (FEAM), através da Deliberação Normativa (DN) 62 (COPAM, 2002), alterada pela DN 87 (COPAM, 2005) e pela DN 113  (COPAM,  2007), realizava o cadastro e classificava as barragens conforme seu potencial de dano ambiental em 2008. Desde então, trabalhos similares continuaram sendo realizados, mas, devido aos dois grandes acidentes de grandes proporções em Mariana e Brumadinho, os especialistas apontam que, de fato, pouco foi feito e pouco se aprendeu com as experiências internacionais.

Os fatores que levaram as empresas mineradoras a aproveitarem ou aprenderem de forma mínima com empresas estrangeiras podem conduzir a uma profunda discussão se houve a exploração das falhas do poder público em nível municipal, estadual e federal, por parte dessas corporações. No entanto, em meio a tantas possibilidades, especulações e possíveis irregularidades, identifica-se que o choque entre os interesses de defensores setoriais, especialmente quando eles se sobrepõem, prejudicou e prejudica diretamente outras áreas da economia.

Os noticiários brasileiros discorrem sobre a fiscalização e legalização deste tipo de operação no país. No caso de Minas Gerais, o foco foi para os representantes da sociedade que estão presentes nas câmaras municipais, estadual e federal (vereadores e deputados estaduais e federais), os quais têm grande participação na denominada “Bancada Mineradora”, sendo atores que, conforme é divulgado na mídia, tentam auxiliar e em alguns casos facilitar as atividades das grandes empresas do ramo no país.

Brumadinho MG 28 01 2019-Tragedia na cidade de Brumadinho em Minas Gerais bombeiros trabalham na localização de vitimas.Foto Ricardo Stuckert

Não é recente a grande disputa entre bancadas que defendem certos setores da economia contra os que defendem o meio ambiente e um sistema de produção mais sustentável e menos agressivo, bem como a fauna e biodiversidade da natureza no país. Analisando os casos em Mariana e Brumadinho, especialistas apontam que a bancada mineradora obteve vitórias junto ao governo mineiro, conquistando facilidades de operação e ampliação de suas instalações e, com isso, conseguiu destruir quase que por completo outras atividades econômicas ligadas ao turismo, agricultura, piscicultura, hortifrútis e agropecuários.

No evento mais recente da Barragem do Café, o governo mineiro está calculando os prejuízos causados pelo acidente da mineradora Vale, e informa que a região metropolitana de Belo Horizonte já sofre com o abastecimento de alimentos. E já se considera que a poluição de lençóis freáticos e rios na região vai aumentar ainda mais o prejuízo dos produtores mineiros no entorno da zona afetada pelo rompimento da barragem.

O conflito de interesses não apenas afetou a economia, mas também o cotidiano e na vida do povo do estado de Minas Gerais. Com a poluição do rio Paraopeba, os indígenas da aldeia Naô Xohã terão que mudar a sua economia de subsistência, pois não tem outro recurso hídrico para suas plantações e, assim como demais moradores da região e não indígenas, estarão impedidos de prover da pescaria.

A falta de fiscalização de barragens e de outras inúmeras estruturas extratora de matérias-primas e produtivas pelo país concede lucro aos empreendedores e grandes corporações, mas, no caso de falhas, o prejuízo também é maximizado. A Vale, por exemplo, além das indenizações que terá de pagar, está sofrendo com as oscilações de suas ações na bolsa de Valores de São Paulo (BOVESPA), tanto que elas estão sendo vendidas a valores bem inferiores aos de dias antes da catástrofe em Brumadinho.

Tendo o histórico do acidente em Mariana, observadores concluem que a falha do Estado em punir e fiscalizar as empresas Samarco e Vale, além de terem sido identificado que inúmeras multas não foram pagas até o momento, gerou a sensação de impunidade para so diretores dessas corporações, logo, posturas displicentes, tanto que, três anos depois da maior tragédia ambiental no país algo de igual teor ocorreu. No entanto, acredita-se que a sociedade cobrará do novo governo, liderado pelo presidente Jair Bolsonaro, a que, de fato, não deixe impunes os responsáveis pelo acidente recente que, no momento, já gerou mais de uma centena de vítimas. Por isso, o cenário que se avizinha é de que as indenizações, multas entre outras punições que ainda serão avaliadas e aplicadas contra a empresa, certamente desestimularão os investidores residentes e estrangeiros, principalmente devido à queda na confiança em relação à empresa.

Por essa razão, aponta-se também que o ano de 2019 poderá ser aquele em que os atores que representam os setores econômicos do Brasil devam repensar suas estratégias, posturas e formas de agir, alterando a linha de pensamento dos produtores e da indústria, algo que lhes levará a focar as grandes corporações internacionais estruturando seus planejamentos estratégicos de médio e longo prazo, com o intuito de preservar os recursos que lhes gerarão riquezas nos próximos anos, ou seja, tento em mente o conceito de sustentabilidade, o que poderá ser uma mudança forçada, mas concreta de comportamento.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Região de Brumadinho – Foto 1” (Fonte Ricardo Stuckert/Fotos Públicas): https://fotospublicas.com/tragedia-na-cidade-de-brumadinho-em-minas-gerais-bombeiros-trabalham-na-localizacao-de-vitimas-2/

Imagem 2 Infográfico Publicado no Jornal O Globo” (Fonte Ricardo Stuckert/Fotos Publicas): https://oglobo.globo.com/brasil/infografico-os-maiores-acidentes-com-barragens-no-mundo-23404340

Imagem 3 Região de Brumadinho – Foto 3” (Fonte Ricardo Stuckert/Fotos Públicas): https://fotospublicas.com/tragedia-na-cidade-de-brumadinho-em-minas-gerais-bombeiros-trabalham-na-localizacao-de-vitimas-2/