DEFESANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICAS PÚBLICASSegurança Internacional

China testa com sucesso míssil ar-terra para helicópteros militares

A China desenvolveu e testou com sucesso um sofisticado míssil ar-terra para helicópteros militares. A nova arma foi testada em um local deserto na Região Autônoma da Mongólia Interior, no final de junho de 2020, quando foi disparada por um helicóptero e atingiu seu alvo, informa o jornal South China Morning Post.

O míssil, cujo nome e especificações não foram revelados, é uma arma excepcional, o que significa que pode ser lançado a uma distância suficiente para permitir que o destacamento ofensivo evite o fogo defensivo. Com seus múltiplos sistemas teleguiados, longo alcance e capacidade de evitar travamentos, o míssil é o primeiro de seu tipo a ser utilizado pelas Forças Armadas da China.

Os helicópteros militares produzidos na China são baseados no helicóptero francês Dauphin

Uma vez totalmente funcional, o novo armamento poderá substituir os mísseis antitanque AKD-9 e AKD-10 e os mísseis antinavio YJ-9. Ao contrário de seus antecessores, o novo artefato não se limita ao uso com apenas um tipo de helicóptero, tornando-o semelhante à série AGM-114 Hellfire, dos Estados Unidos.

Song Zhongping, analista militar de Hong Kong, comentou: “Ter um único míssil capaz de atacar alvos fixos no solo, bem como veículos blindados e até navios, tornaria muito mais fácil e rápido preparar e manter os helicópteros, em vez de ter que considerar várias opções de armas”. Song também observou: “As Forças Armadas da China já possuem o míssil ar-ar TY-90 produzido domesticamente para uso em combates entre helicópteros. Uma combinação da nova arma e o TY-90, que foi o primeiro do gênero no mundo, além de foguetes, aumentaria o poder de ataque das unidades aéreas da Força Terrestre do Exército de Libertação Popular”.A Força possui vários helicópteros de ataque, incluindo o Z-10 e o Z-20, produzidos na China, e o Z-19, que foi modificado a partir do Z-9, que, por sua vez, foi baseado no Dauphin francês.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 O novo míssil chinês é similar ao americano AGM114 Hellfire” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/w/index.php?sort=relevance&search=AGM-114+Hellfire&title=Special:Search&profile=advanced&fulltext=1&advancedSearch-current=%7B%7D&ns0=1&ns6=1&ns12=1&ns14=1&ns100=1&ns106=1

Imagem 2 Os helicópteros militares produzidos na China são baseados no helicóptero francês Dauphin”(Fonte):

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DEFESANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONALPOLÍTICAS PÚBLICAS

Índia procura fortalecer defesas aéreas para se equiparar à China, em meio a tensões na fronteira

As tensões crescentes entre a China e a Índia em torno da disputa de fronteira na região do Himalaia levaram Nova Délhi a fortalecer suas defesas aéreas para se equiparar a Pequim, informa o jornal South China Morning Post.

O Ministro da Defesa da Índia, Rajnath Singh, instou a Rússia, o maior fornecedor de armas do país, a acelerar a entrega do seu poderoso sistema de mísseis de defesa aérea S-400 Triumph. Tanto a China quanto a Índia possuem o sistema S-300, uma versão anterior do S-400. A China já possui o sistema de defesa aérea S-400, que adquiriu no final de 2018.

Moscou afirma que o S-400 é um sofisticado sistema de defesa aérea que pode detectar e abater alvos, incluindo mísseis balísticos, jatos inimigos e veículos aéreos não-tripulados (“drones”) a até 600 quilômetros de distância, em altitudes entre 10 metros e 27 quilômetros.

A escaramuça de fronteira entre a China e a Índia eclodiu pela última vez em 2017, quando as tropas indianas e chinesas estiveram em um impasse que durou dois meses, em torno da construção de estradas chinesas em Doklam, uma área de fronteira reivindicada pela China e pelo Butão, que é um aliado indiano. Mas, o confronto da semana passada no Vale Galwan foi o pior em décadas, resultando na morte de 20 soldados indianos e 43 soldados chineses, embora esse número não tenha sido confirmado por Pequim. O Vale Galwan é uma zona de litígio que se encontra entre a região de Ladakh, governada pela Índia, e a região de Aksai Chin, administrada pela China.

A China vem expandindo seu arsenal na fronteira desde o impasse de Doklam. Isso inclui seus caças furtivos J-20, helicópteros Z-20, caças modificados J-10C e J-11B, “drones” multifuncionais Wing Loong II, tanques leves Tipo 99A e Tipo 15, que podem lidar com grandes altitudes, e seus mísseis Dongfeng.

Sistema S-400 Triumph, durante parada militar em Moscou, na Rússia

Segundo Song Zhongping, especialista em assuntos militares de Hong Kong, se a Índia também adquirir o sistema S-400, pode se tornar uma ameaça para o Exército chinês. “O sistema S-400 tem um alcance operacional mais longo e uma taxa de acerto mais precisa, e os jatos russos Su-30 da Índia e os helicópteros American Apache, que são projetados para batalhas nas montanhas e em grandes altitudes, não devem ser subestimados”, afirma Song. E observa: “Na verdade, as forças armadas indianas têm muita experiência em combates nas montanhas devido aos confrontos contra as tropas do Paquistão ao longo dos anos, enquanto o Exército chinês não participa de uma batalha dessa natureza há décadas”.

Além disso, mais da metade dos sistemas de armas da Índia são importados. De acordo com o Instituto Internacional de Pesquisas para a Paz de Estocolmo, a Índia foi responsável por 9,2% das importações globais de armas entre 2015 e 2019, atrás apenas da Arábia Saudita, o maior importador do mundo, que contabiliza em torno de 12%. A China é o quinto maior importador mundial, responsável por 4,3% das importações. Esse número é explicado pelo fato de os chineses serem capazes de produzir quase todos os seus sistemas de armas para combates em grande altitude.

Contudo, não é fácil comparar a força militar entre dois países baseando-se apenas em quantidade de armamentos, conforme indica Collin Koh, pesquisador da Universidade Tecnológica de Nanyang, em Cingapura. Koh assinala: “Essa comparação também deve considerar o fator humano, a doutrina e a capacidade de diferentes serviços e destacamentos armados de operar de maneira integrada”. E completa: “Com base nisso, eu acho seguro dizer que os militares da Índia e da China têm forças para defender, e fraquezas que precisam superar, quando se trata de travar uma guerra ao longo da fronteira do Himalaia”.

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Imagem 1 Mapa da fronteira em litígio entre a Índia e a China” (Fonte):

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Imagem 2 Sistema S400 Triumph, durante parada militar em Moscou, na Rússia (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:S-400_Triumf_SAM.png

ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

China abandona meta de crescimento econômico para 2020, devido à pandemia

A China não estabelecerá uma meta de crescimento para 2020, constituindo um acontecimento inédito. O primeiro-ministro Li Keqiang confirmou o fato no Congresso Nacional do Povo, em Pequim, na sexta-feira (22 de maio de 2020). A medida já era esperada por alguns observadores, com a economia se contraindo 6,8% no primeiro trimestre de 2020, sob enorme pressão da pandemia de coronavírus, informa o jornal South China Morning Post.

O relatório de trabalho do Congresso enfatizou: “Não estabelecemos a meta específica do produto interno bruto principalmente devido à pandemia global e às grandes incertezas na economia e no comércio”, acrescentando que a China estava enfrentando uma época “imprevisível”. O governo chinês, no entanto, estabeleceu uma meta de criar 9 milhões de novos empregos urbanos, em comparação com 11 milhões em 2019, e uma taxa de desemprego urbana avaliada em torno de 6%, em comparação com 5,5% em 2019. No ano passado (2019), a China gerou 13,52 milhões de novos empregos urbanos.

Pequim estabeleceu uma cota de títulos especiais de 3,75 trilhões de yuanes (aproximadamente 2,9 trilhões de reais, de acordo com a cotação do dia 22 de maio de 2020). Emitirá 1 trilhão de yuanes (aproximadamente 775,5 bilhões de reais) em títulos especiais do Tesouro, visando um déficit fiscal de 3,6%.

Rua deserta em Wuhan, durante a quarentena por causa da pandemia de coronavírus, em janeiro de 2020

O relatório de trabalho também frisou: Devemos deixar claro que os esforços para estabilizar o emprego, garantir os padrões de vida, eliminar a pobreza e prevenir e neutralizar os riscos devem ser sustentados pelo crescimento econômico; portanto, garantir um desempenho econômico estável é de importância crucial”.E continuou: “Precisamos perseguir a reforma e a abertura como um meio de estabilizar o emprego, garantir o bem-estar das pessoas, estimular o consumo, energizar o mercado e alcançar um crescimento estável. Precisamos abrir um novo caminho que nos permita responder efetivamente a choques e sustentar um ciclo de crescimento positivo”.

O vírus inicialmente interrompeu grandes setores da economia chinesa, prejudicando as cadeias de suprimentos e as exportações do país. Mas, agora fechou vários dos principais mercados da China, o que significa que a economia está enfrentando uma segunda onda de choque no desaparecimento da demanda por seus produtos no exterior. O Fundo Monetário Internacional (FMI) previu um crescimento de 1,2% da economia chinesa para 2020, após a paralisia causada pelo coronavírus. Isso seria um mínimo anual histórico, porém ainda é maior do que algumas previsões do setor privado.

Enquanto isso, a inflação ao consumidor disparou durante o segundo semestre de 2019 e no início de 2020, principalmente devido à escassez de carne de porco decorrente de um surto de peste suína africana, que causou a morte de mais de 100 milhões de porcos. O Índice de Preços ao Consumidor (IPC) chinês, que é o preço ponderado de uma cesta de mercadorias, subiu 5,2% em fevereiro de 2020, uma alta de oito anos. A taxa de inflação caiu, desde então, para 3,3% em abril de 2020, com os consumidores reduzindo os gastos após a pandemia de coronavírus, enfraquecendo as pressões sobre os preços.

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Imagem 1 PrimeiroMinistro da China, Li Keqiang, em Pequim” (Fonte):

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Imagem 2 Rua deserta em Wuhan, durante a quarentena por causa da pandemia de coronavírus, em janeiro de 2020” (Fonte):

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ÁSIANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Multidões deixam Wuhan, com o fim da quarentena

Trens, ônibus e aviões começaram a transportar dezenas de milhares de passageiros de Wuhan à medida que o epicentro inicial da pandemia de coronavírus sai da quarentena de 11 semanas. A partir de quarta-feira (8 de abril de 2020), os 11 milhões de habitantes de Wuhan podem viajar para dentro e fora da cidade, desde que tenham um código QR para mostrar que estão em boa saúde e não entraram em contato com pessoas confirmadas com Covid-19, a doença causada pelo coronavírus, informa o jornal South China Morning Post.

Rodovias, pontes, balsas e túneis também estão abertos novamente e todos os obstáculos foram removidos. Na manhã de quarta-feira (8 de abril de 2020), os engarrafamentos retornaram ao cruzamento perto da Estação Ferroviária de Wuhan, em congestionamentos inéditos desde o final de janeiro.

Testemunhas disseram que parecia haver mais pessoas na estação do que o êxodo, pouco antes do bloqueio de 23 de janeiro de 2020, que paralisou o transporte de entrada e saída da cidade. Na estação, os alto-falantes emitiram avisos lembrando os passageiros de usar máscaras e manter uma distância segura um do outro. Os passageiros precisam mostrar seu código QR e carteira de identidade e ter sua temperatura verificada antes de serem autorizados a passar pelos portões de embarque, enquanto dezenas de voluntários em jaquetas amarelas e vermelhas aguardavam para ajudar a manter a ordem.

A operadora estatal China Railway estimou que 55 mil passageiros deixariam a cidade na quarta-feira (8 de abril de 2020), dos quais 40% deveriam viajar para o Delta do Rio Pérola, na Província de Guangdong. Mais de 275 trens deixaram Wuhan para outros grandes centros de transporte, como Xangai, Shenzhen, Chengdu e Fuzhou. As pessoas que pretendem retornar a Pequim a partir de Wuhan enfrentam alguns dos maiores desafios: elas devem fazer um teste de ácido nucléico e ter negativo para o vírus antes de poderem entrar na capital.

Vista aérea do terminal da Estação Ferroviária de Wuhan

As autoridades criaram um canal designado para esses viajantes na estação. Mais de uma dúzia de funcionários em máscaras e roupas de proteção estavam em espera nas proximidades, caso passageiros com problemas de saúde ou outras emergências precisassem ser enviados de volta aos seus vários distritos da cidade. Li Tingrui, um estudante universitário de 19 anos em Wuhan e voluntário na estação, afirmou que os retornados a Pequim precisam se inscrever através de um aplicativo de smartphone para obter aprovação para retornar à capital. Depois disso, eles poderiam comprar ingressos, fazer o teste e mostrar seu código de saúde antes de sair de Wuhan.

Embora o bloqueio tenha sido suspenso, alguns moradores de Wuhan ainda se sentem inseguros e relutam em sair de casa. Zhang Jinyu, professora aposentada de 58 anos em um bairro próximo ao Mercado Atacadista de Frutos do Mar de Huanan, o mercado onde foram relatados alguns dos primeiros casos de Covid-19, disse que ainda estava preocupada com portadores assintomáticos e, por isso, não estava saindo, a menos que fosse necessário: “Eu só desejo que o surto possa passar em breve para que possamos nos mover livremente novamente”, relatou Zhang.

Contudo, os epidemiologistas chineses apontam que o fim da quarentena de Wuhan não é ainda o fim da batalha contra a pandemia na China, pois o vírus continua a se dispersar rapidamente na Europa e nos Estados Unidos, o que causa a importação de novos casos para o país. É improvável que a doença causada pelo patógeno, a COVID-19, seja erradicada até que surja uma vacina contra o vírus, o que pode levar 18 meses. Segundo os dados oficiais do governo chinês, há menos de 1.100 casos de COVID-19 no país. Até o dia 11 de abril de 2020, havia 1.760.652 casos de COVID-19 no mundo, que causou 108.451 mortes. Do total de casos, 396.058 pessoas se recuperaram da doença.

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Imagem 1 Funcionários monitoram a temperatura dos passageiros na Estação Ferroviária de Wuhan” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/Category:Wuhan_Railway_Station#/media/File:Staff_monitoring_passengers’_body_temperature_in_Wuhan_railway_station_during_the_Wuhan_coronavirus_outbreak.jpg

Imagem 2 Vista aérea do terminal da Estação Ferroviária de Wuhan” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/w/index.php?title=Special:Search&limit=20&offset=80&profile=default&search=Wuhan+train+station&advancedSearch-current={}&ns0=1&ns6=1&ns12=1&ns14=1&ns100=1&ns106=1#/media/File:20190823_G2625_Dalianbei-Wuhan_01.jpg

ANÁLISES DE CONJUNTURASaúde

As Implicações Geopolíticas do Surto de Coronavírus

O coronavírus é uma família de vírus que causam infecções respiratórias. O novo agente do coronavírus (nCoV-2019) foi descoberto em Wuhan, na China, em 31 de dezembro de 2019, pouco antes do feriado do Ano Novo Lunar, o período da maior migração anual de seres humanos na Terra. O pico da nova epidemia na China pode ocorrer neste mês (fevereiro de 2019) e acarretar graves consequências geopolíticas e geoeconômicas.

O surto de coronavírus coincidiu com uma desaceleração econômica, já que a China enfrenta o aumento da dívida, queda da demanda doméstica e as pesadas tarifas dos Estados Unidos. A taxa de crescimento do Produto Interno Bruto de 6,1% em 2019 aproximou-se do limite da meta de Pequim e caiu acentuadamente em relação aos 6,6% de 2018. Em 15 de janeiro de 2020, chineses e americanos assinaram um acordo comercial provisório, os primeiros passos para o fim da guerra comercial Estados Unidos-China. Mas a celebração durou pouco, pois poucos dias depois a gravidade do coronavírus começou a ficar clara.

A primeira consequência deriva do fato de Wuhan, capital da província de Hubei, localizar-se no centro do coração industrial chinês. Esta cidade encontra-se bem no meio do “Quadrilátero Industrial” do país, a área delimitada por Pequim/Tianjin, Chengdu/Chongqing, Macau/Hong Kong e Xangai. A província de Hubei abriga sete zonas econômicas cruciais: a Zona de Desenvolvimento de Alta Tecnologia do Lago Leste de Wuhan (o maior centro de produção de produtos óptico-eletrônicos da China); a Zona de Desenvolvimento Industrial de Alta Tecnologia de Xiangyang; a Zona de Desenvolvimento Industrial de Alta Tecnologia de Yichang; a Zona de Desenvolvimento Industrial de Alta Tecnologia de Xiaogan; a Zona de Desenvolvimento de Nova e Alta Tecnologia de Jingmen;  a Zona de Desenvolvimento de Alta Tecnologia de Xiantao; e o Parque Industrial de Alta Tecnologia de Suizhou. Wuhan também possui o maior porto fluvial da China e o maior aeroporto da China Central.

Enquanto na economia nacional chinesa houve uma desaceleração do crescimento em 2019, Wuhan teve um crescimento que atingiu o patamar de 7,8%. De acordo com o governo da Província de Hubei: “Estima-se que o valor agregado dos setores de alta tecnologia e economia digital represente 24,5% e 40% do PIB [Wuhan]”. As perspectivas de Wuhan pareciam brilhantes para 2020. O governo de Hubei também declarou: “Mais de 300 das 500 maiores empresas do mundo se estabeleceram em Wuhan. O número de empresas de alta tecnologia recém-instaladas atingiu um recorde, com um aumento líquido de cerca de 900 empresas”. O relatório de trabalho do governo, apresentado no 14º Congresso Popular Municipal de Wuhan, estimava que o PIB de Wuhan cresceria entre 7,5% e 7,8% em 2020, e haveria a geração de 220.000 novos empregos.

Se o surto se expandir, poderá interromper o tecido da economia global. Pequim já demonstrou que é capaz de mobilizar milhões de pessoas com o objetivo de conter o vírus e, simultaneamente, isolar milhões de seus cidadãos. A província de Hubei, com uma população de 58 milhões de pessoas, foi praticamente isolada de todo o país.

Segundo, o surto de coronavírus coloca em risco o crescimento do PIB chinês e, como consequência, a economia internacional como um todo. A Unidade de Inteligência da Revista The Economist (EIU, em inglês), de Londres, estima que o novo surto de coronavírus na China pode reduzir o crescimento real do PIB em 2020 entre 0,5 e 1 ponto percentual. As primeiras vítimas econômicas foram transportadoras aéreas e empresas de viagens; as indústrias de viagens e turismo serão duramente atingidas. A taxa de crescimento projetada pela EIU para a China foi de 5,9% e, se a epidemia atingir o status de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS, em inglês), que atingiu o mundo nos anos de 2002 e 2003, o PIB chinês poderá cair para 4,9%. O coronavírus já infectou mais pessoas do que o SARS, mas o último foi mais letal: o SARS, em 2003, matou 9,6% dos portadores do vírus, enquanto o surto atual tem uma taxa de mortalidade de 2% dos infectados. Note-se que em 2003 o PIB chinês era de 1,66 trilhão de dólares (aproximadamente 7,13 trilhões de reais, de acordo com a cotação de 14 de fevereiro de 2019) contra 14,3 trilhões de dólares em 2019 (aproximadamente 61,42 trilhões de reais ainda de acordo com a cotação de 14 de fevereiro de 2019). Em 2003, a economia chinesa era a sétima maior; agora é a segunda maior economia do mundo. O papel da China no mercado global é indispensável.

O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, encontra o Presidente da China, Xi Jinping (2017). O surto de coronavírus poderá enfraquecer a China na guerra comercial com os Estados Unidos

Terceiro, o coronavírus está se espalhando em meio à guerra comercial com Washington e à desaceleração geral da economia chinesa. Para enfrentar esse grande desafio, os chineses precisam mobilizar os recursos de toda a nação e seus 1,4 bilhão de habitantes. No entanto, esses recursos agora devem ser desviados para combater uma epidemia, que pode eventualmente forçar a sua economia a “hibernar” e até mesmo exigir uma retirada temporária da política mundial. Além disso, os Estados Unidos têm sido um dos grandes beneficiários do surto, apesar dos riscos que ele impõe à saúde pública. A desaceleração econômica chinesa continuará e, temporariamente, o equilíbrio de poder pode mudar em favor dos Estados Unidos. O Secretário de Comércio estadunidense, Wilbur Ross, chegou a afirmar: “Acho que isso ajudará a acelerar o retorno de empregos para a América do Norte”.

Atualmente, grupos de países soberanos lutam por políticas externas independentes, o que muitas vezes contradiz a visão dos Estados Unidos. Em particular, Irã, China, Rússia e agora a Turquia acreditam que, quando se unirem em um “grupo”, todos os membros serão capazes de resistir aos americanos e ao Ocidente em geral. Mas, se um país for expulso, especialmente do arranjo tripartite China-Rússia-Irã, o equilíbrio global de poder tenderá a favor do Ocidente. Assim, o recuo da China do cenário internacional seria um pesadelo para a Rússia e o Irã, especialmente.

Por fim, o resto do mundo está respondendo com uma onda crescente de segregação contra os chineses e, de fato, contra todos os povos do Leste da Ásia, porque muitas pessoas ao redor do mundo geralmente não fazem distinção entre as nações asiáticas. Na mídia, existem inúmeros relatos sobre a reação racista e o estigma contra a diáspora chinesa em países como os Estados Unidos, o Canadá e o Reino Unido. Em particular, cidadãos franceses de ascendência asiática se queixam de abusos no transporte público, na mídia e na internet. Isso inspirou o uso da hashtag “JeNeSuisPasUnVirus” (“Eu não sou um vírus”). Se o coronavírus não for interrompido em um futuro próximo, é alta a probabilidade de testemunharmos mais xenofobia e racismo em relação ao povo chinês, que, por sua vez, poderá inflamar o nacionalismo e o ressentimento na China.

Após a construção de diversas cadeias internacionais de valor em torno do gigante asiático durante quatro décadas, a desaceleração da segunda maior economia do mundo não deixará ninguém intocado. Mesmo que o coronavírus seja bloqueado com sucesso no resto do mundo, a economia global vai sofrer com a economia da China.

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Imagem 1 Mercado de frutos do mar em Wuhan que foi fechado após o surto de coronavírus” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/w/index.php?title=Special:Search&limit=20&offset=20&profile=default&search=wuhan+coronavirus&advancedSearch-current={}&ns0=1&ns6=1&ns12=1&ns14=1&ns100=1&ns106=1#/media/File:Mercado_de_mariscos_de_Wuhan_cerrado_tras_detectarse_ahi_por_primera_vez_el_Nuevo_Coronavirus_.jpg

Imagem 2O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, encontra o Presidente da China, Xi Jinping (2017).  O surto de coronavírus poderá enfraquecer a China na guerra comercial com os Estados Unidos”(Fonte): https://commons.wikimedia.org/w/index.php?sort=relevance&search=xi+jinping+trump&title=Special:Search&profile=advanced&fulltext=1&advancedSearch-current=%7B%7D&ns0=1&ns6=1&ns12=1&ns14=1&ns100=1&ns106=1#/media/File:President_Donald_J._Trump_and_President_Xi_Jinping_at_G20,_July_8,_2017.jpg;

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ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIAORIENTE MÉDIO

China enxerga oportunidades no Oriente Médio em crise entre Estados Unidos e Irã

A crise entre os Estados Unidos e o Irã desenvolve-se desde a decisão do Presidente americano, Donald Trump, de executar, no Iraque, um ataque por meio de um veículo aéreo não-tripulado (drone) que matou o general iraniano Qasem Soleimani, no dia 3 de janeiro de 2020. Soleimani era comandante da Força Quds, uma divisão do Exército iraniano responsável pela condução de ações militares extraterritoriais e operações clandestinas. Trump aprovou a operação de eliminação de Soleimani após receber dados dos órgãos de inteligência estadunidenses que indicavam múltiplas ameaças vindas do Irã a americanos no Oriente Médio. Como forma de retaliação, Teerã lançou dezenas de mísseis contra bases americanas no Iraque, no dia 7 de janeiro de 2020. 

Em mandarim, a palavra “crise” (wēijī) (危机), é composta pelo ideograma “wēi”, que significa “perigo”, e “”, que compõe a palavra “jīhuì” (机会), que significa “oportunidade”. Do mesmo modo, a China tem vislumbrado oportunidades na atual contenda entre os dois países, pois Pequim possui fortes laços com Teerã e realiza regularmente exercícios militares trilaterais com a nação persa e a Rússia. Após o ataque que matou Soleimani, o Ministro chinês de Negócios Estrangeiros, Wang Yi, condenouo ato de aventurismo militar dos Estados Unidos, que vai contra as normas básicas que governam as relações internacionais e que agravará as tensões e a turbulência na região”. Segundo o governo chinês, Teerã espera que “a China possa exercer um papel importante na prevenção da escalada das tensões regionais”. Assim, o eliminação do general iraniano possui o potencial de não apenas fornecer a Pequim um papel de mantenedor da estabilidade no Oriente Médio, mas também de aumentar a sua influência na região, onde muitos países consideram Washington como um ator crescentemente imprevisível.

O Vice-Presidente da República Popular da China, Wang Qishan, encontra o Presidente de Israel, Reuven Rivlin, em 2018

Desse modo, a política externa chinesa, que enfatiza, sobretudo, o desenvolvimento e o comércio, torna-se cada vez mais atraente para as nações da região, sejam elas democráticas ou não. Nos últimos anos, a China tomou o lugar dos Estados Unidos como o maior doador financeiro para os países em desenvolvimento e celebrou grandes acordos comerciais através da Ásia, do Oriente Médio e da África, como parte do megaprojeto internacional de infraestrutura do presidente Xi Jinping, a Iniciativa do Cinturão e Rota.

De acordo com os analistas Lindsey Ford e Max Hill, do Asia Society Policy Institute, de Nova York, “embora a expansão da presença da China no Oriente Médio ocorra por cálculos econômicos, ela oferece oportunidades estratégicas para PequimPara os autores, “a ênfase da China nos princípios de não-interferência, desenvolvimento econômico liderado pelo Estado e manutenção da estabilidade regional, ressoa entre muitos líderes não-democráticos do Oriente Médio, permitindo que a China promova o seu modelo alternativo de liderança de grande potência”.

Os chineses têm sido capazes de manter laços com aliados tradicionais na região, como o Irã e a Síria, enquanto incrementa suas relações com rivais desses países, como a Arábia Saudita, Israel e os Emirados Árabes Unidos. Jonathan Fulton, do Atlantic Council, de Washington, observa que “os interesses de Pequim se baseiam em um Oriente Médio estável e já considera há muito tempo que isso, eventualmente, requererá alguma forma de participação chinesa nas questões de segurança da região”. Fulton também afirma que “a China não é um país revisionista”, e indica que o Estado asiático “não quer remodelar o Oriente Médio e nem tomar para si a responsabilidade de manter a sua segurança, mas deseja uma região previsível e estável, o quanto for possível, na qual possa desenvolver atividades comerciais e investir”.O analista aponta que o eliminação de Soleimani por Washington, “no curto prazo, aumentará o custo dos Estados Unidos fazerem negócios na região e colocará muitas pessoas em risco, mas, no longo prazo, pode aumentar o poder e a influência da China no Oriente Médio, enquanto o país assume maiores responsabilidades na preservação de seus interesses regionais”.

Desde o fim da Guerra Fria, os Estados Unidos são a principal potência, não apenas no Oriente Médio, mas do mundo. À medida que a China desafia cada vez mais a hegemonia americana, o Oriente Médio vai emergir como uma das principais arenas dessa rivalidade e, ao decidir eliminar Soleimani, o governo americano pode ter facilitado para Pequim contestar o poder de Washington na região nos próximos anos.

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Imagem 1 O Presidente da República Popular da China, Xi Jinping, encontra o Presidente do Irã, Hassan Rouhani” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/w/index.php?sort=relevance&search=Xi+Jinping+rouhani&title=Special:Search&profile=advanced&fulltext=1&advancedSearch-current=%7B%7D&ns0=1&ns6=1&ns12=1&ns14=1&ns100=1&ns106=1#/media/File:Ali_Khamenei_receives_Xi_Jinping_in_his_house_(5).jpg

Imagem 2 O VicePresidente da República Popular da China, Wang Qishan, encontra o Presidente de Israel, Reuven Rivlin, em 2018” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/w/index.php?sort=relevance&search=File%3AChina+Israel&title=Special:Search&profile=advanced&fulltext=1&advancedSearch-current=%7B%7D&ns14=1#/media/File:Reuven_Rivlin_meeting_with_Wang_Qishan,October_2018(7375).jpg