NOTAS ANALÍTICASSociedade Internacional

Acadêmicos americanos pedem que Pequim liberte o canadense Michael Kovrig

Um grupo de 15 presidentes de think tanks e institutos de pesquisa dos Estados Unidos lançaram um comunicado conjunto na segunda-feira (11 de março) pedindo a soltura imediata do ex-diplomata canadense, Michael Kovrig, que está detido na China sob a acusação de roubo de segredos de Estado. Entre os que assinaram o comunicado estão John Allen, presidente da Brookings Institution; William Burns, presidente da Carnegie Endowment for International Peace; Josette Sheeran, presidente da Asia Society; e Orville Schell, um sinólogo veterano – informa o jornal South China Morning Post. Kovrig, conselheiro sênior da organização não-governamental International Crisis Group (ICG), e outro canadense, o consultor Michael Spavor, foram levados sob custódia pelas autoridades chinesas no início de dezembro do ano passado (2018).

Os canadenses foram presos logo após a detenção, no Canadá, de Sabrina Meng Wanzhou, diretora financeira da companhia de telecomunicações Huawei, a pedido de Washington, sob a acusação de ter mentido para Bancos americanos, de forma a fazê-los processar transações que violam as sanções dos Estados Unidos e da Organização das Nações Unidas (ONU) ao Irã. Ela enfrenta diversas acusações e cada uma das quais possui uma pena máxima de 30 anos de prisão. Atualmente, Wanzhou está em prisão domiciliar em Vancouver, esperando sua extradição para os Estados Unidos, após pagar uma fiança de 10,6 milhões de dólares em dezembro de 2018. A empresária chinesa se declara inocente das acusações.  

A diretora financeira da Huawei, Sabrina Meng Wanzhou, na Rússia, em 2014

O porta-voz do Ministério de Negócios Estrangeiros da China, Lu Kang, afirmou, no dia 2 de março, que os Estados Unidos e o Canadá estão “abusando de seu tratado de extradição bilateral para aplicar medidas coercitivas contra cidadãos chineses, em violação de seus direitos e interesses legítimos”, classificando o caso como um “severo incidente político”. Pequim também “protestou solenemente” às autoridades canadenses para que libertem Wanzhou e solicitou que os Estados Unidos retirem os pedidos de prisão e de extradição. O elevado interesse da China por Wanzhou deriva do fato de seu pai ser Ren Zhengfei, o fundador e presidente da Huawei, uma empresa crucial para a estratégia chinesa de aquisição de tecnologia avançada no exterior.

Sede da Huawei no Canadá

A Huawei, em 2018, ultrapassou a Apple para se tornar a segunda maior fabricante de smartphones do mundo, atrás apenas da Samsung. Suspeita-se que a companhia seja instrumento de espionagem do Partido Comunista Chinês, graças ao Artigo 7 da Lei de Inteligência Nacional da China que afirma: “Todas as organizações e cidadãos devem apoiar, auxiliar e colaborar com o trabalho de inteligência nacional e proteger os segredos do trabalho de inteligência nacional que lhes são confiados”. Tal artigo pode levar a essas considerações, mas não indica diretamente que esta exigência implique em que todos os cidadãos e empresas são agentes de espionagem, nem que façam tal atividade, acrescentando-se que considerações sobre colaboração dos cidadãos de um país aos interesses do Estado a que pertence estão implícitas nas exigências de segurança nacional dos demais Estados do Mundo. De acordo com o diretor do Federal Bureau of Investigation (FBI), Christopher Wray, os celulares da Huawei podem ser usados para “modificar maliciosamente ou roubar informações”. No início de 2018, o Pentágono baniu os aparelhos da companhia de todas as bases militares americanas ao redor do mundo.

Contudo, a Huawei também possui a liderança global na tecnologia 5G. Conforme vem sendo disseminado na mídia, Pequim trata a empresa como uma “campeã nacional” e continua a desenvolvê-la por meio de concessão de juros baixos e acesso privilegiado ao mercado doméstico chinês, que é altamente protegido. O governo da China tem apoiado a companhia na tarefa de instalar os cabos da tecnologia 5G para as redes telefônicas de diversos países do mundo.

Nesse sentido, interpreta-se que, para as autoridades norte-americanas, qualquer sistema de rede instalado pela Huawei, em tese, pode ser utilizado pelos serviços de inteligência da China para espionagem cibernética e obtenção de tecnologia por meios virtuais. A Huawei já conseguiu mais de 25 contratos comerciais de 5G, mas o temor é tão elevado que os Estados Unidos, a Austrália e a Nova Zelândia recusaram a participação da empresa na construção de redes de 5G em seus territórios. Dada a importância da Huawei para os chineses, parece pouco provável que os canadenses sejam libertados até que Washington ceda aos desejos da China, que está cada vez mais assertiva na corrida tecnológica internacional.   

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 O exdiplomata canadense Michael Kovrig” (Fonte): https://www.linkedin.com/in/kovrig/

Imagem 2 A diretora financeira da Huawei, Sabrina Meng Wanzhou, na Rússia, em 2014” (Fonte): https://es.wikipedia.org/wiki/Meng_Wanzhou#/media/File:Meng_Wanzhou_at_Russia_Calling!_Investment_Forum.jpg

Imagem 3 Sede da Huawei no Canadá” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/Category:Huawei_buildings#/media/File:HuaweiCanada10.jpg

ÁSIAECONOMIA INTERNACIONALEUROPANOTAS ANALÍTICAS

Itália adere à iniciativa chinesa, apesar da pressão de Washington e Bruxelas

Em 2013, Pequim lançou a Iniciativa do Cinturão e Rota (ICR), projeto internacional de construção de infraestruturas de transporte, telecomunicação e energia, cujo objetivo é utilizar o “cinturão” para ligar a China à Europa através da Ásia Central e da Rússia, e a “rota” para conectar a China ao continente europeu, por meio do Mar do Sul da China e do Oceano Índico. Até o momento, mais de 100 países e organizações internacionais assinaram acordos de cooperação com os chineses para desenvolver o projeto.

A Itália será um dos poucos Estados da União Europeia (UE) a conceder apoio formal à ICR, apesar da oposição dos Estados Unidos e da UE. O documento deverá ser assinado este mês (Março), durante a visita à Itália do Presidente chinês, Xi Jinping, no dia 22. A Casa Branca afirmou que a inclusão da Itália nos planos chineses não beneficiará o país economicamente e pode prejudicar significativamente a sua imagem internacional.

Conforme destacou o Jornal de Negócios,o Subsecretário do Ministério do Desenvolvimento Econômico da Itália, Michele Geraci, apontou que “as negociações ainda não terminaram, mas é possível que sejam concluídas a tempo para a visita de Xi. Também procurou justificar a decisão do governo italiano, explicando: “Queremos ter a certeza de que os produtos ‘Made in Italy’ podem ter mais sucesso em termos de volume de exportação para a China, que é o mercado que mais cresce no mundo”.

China em vermelho, os membros do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura em laranja. Os 6 corredores propostos

O desconforto de Washington e Bruxelas frente à adesão italiana à iniciativa chinesa decorre do fato de que enxergam a ICR como uma tentativa de construção de uma nova ordem internacional por uma grande potência cujo sistema político e de valores consideram como profundamente diferente do ocidental. Além disso, também consideram que os Bancos e instituições financeiras chinesas estão concedendo vultosos empréstimos para os projetos lançados no âmbito da Iniciativa, o que coloca as nações beneficiárias em risco de se encontrarem em uma “armadilha de dívidas” (“debt trap”, em inglês), fazendo com que elas entrem em uma espiral de dívidas e aumentem sua dependência em relação à China.

Um caso exemplar é o do porto de Hambantota, no Sri Lanka, construído por uma empresa estatal chinesa, que se revelou um gasto insuportável para o país, que teve de entregar o controle do porto e dos terrenos adjacentes à China, por um período de 99 anos. Pequim já é detentora da maior parte da dívida de diversas nações que se encontram ao longo da ICR, como são os casos do Quirguistão, Laos, Maldivas, Mongólia, Montenegro, Paquistão, Tadjiquistão e Djibouti. Assim como esses países, União Europeia e Estados Unidos consideram que, agora, a Itália também se coloca à mercê dos empréstimos chineses e Pequim fortalece a sua influência geopolítica no continente europeu.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 The palazzo Chigi at piazza Colonna in Rome. This is the official building of the Italian presidency of the Council of Ministers” / “O palazzo Chigi na praça Colonna em Roma. Este é o edifício oficial da presidência italiana do Conselho de Ministros” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/Category:Palazzo_Chigi_(Rome)#/media/File:Palais_Chigi.JPG

Imagem 2 China in Red, the members of the Asian Infrastructure Investment Bank in orange. The 6 proposed corridors” / “China em vermelho, os membros do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura em laranja. Os 6 corredores propostos” (Fonte):https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:One-belt-one-road.svg#/media/File:One-belt-one-road.svg